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O Âmbar em seus olhos

Fandom: Vida Real

Criado: 12/10/2026

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Entre a Lente e a Tela: Onde o Sol se Esconde

O ar no estúdio de artes da Universidade Federal era denso, saturado com o cheiro de terebintina, tinta a óleo e o aroma doce de café que vinha da garrafa térmica de Brendha. Maju estava sentada em um banco alto no canto da sala, com sua câmera DSLR pendurada no pescoço e um MacBook Pro aberto sobre os joelhos. Ela deveria estar editando o material da campanha de marketing do diretório acadêmico, mas seus olhos, escondidos sob a franja escura e irregular, não conseguiam se desviar da figura vibrante a poucos metros de distância.

Brendha era um fenômeno da natureza. Naquela tarde, a luz do sol de outono atravessava as janelas altas do casarão antigo, fazendo com que os cachos acobreados dela parecessem fios de fogo vivo. Ela usava um vestido de linho amarelo, cujas alças finas revelavam apenas um vislumbre das pontas do sol tatuado em suas costas quando ela se inclinava para misturar as cores na paleta.

— Maju, você está me encarando de novo ou está apenas tentando decidir se o balanço de branco da sua alma está regulado? — Brendha perguntou, sem tirar os olhos da tela de pintura, um sorriso travesso brincando em seus lábios cor de malva.

Maju sentiu o rosto esquentar, a pele clara ganhando um tom rosado que ela detestava. Ela ajeitou o piercing no lábio com a ponta da língua, um tique nervoso que Brendha conhecia bem.

— Eu estou analisando a composição da luz no seu cabelo, Brendha. É puramente técnico — mentiu Maju, a voz saindo um pouco mais rouca do que o planejado.

Brendha finalmente largou o pincel e se virou. O movimento fez sua cascata de cachos balançar, e Maju jurou que podia ouvir o som de uma canção de Caetano Veloso começando a tocar em algum lugar de sua mente.

— Técnico, sei. Você é a pessoa mais intensa que eu conheço, Maria Julia. Tudo em você é sentimento, mesmo que você tente esconder atrás desse design minimalista e dessas fotos melancólicas. Vem aqui ver isso.

Maju hesitou. Ela amava seu espaço pessoal, sua bolha de silêncio onde apenas seus gatos e as letras de Jão faziam sentido. Mas Brendha era a única pessoa que tinha a chave para atravessar suas defesas. Ela se levantou, os fios acobreados nas pontas de seu cabelo escuro brilhando sob a luz fluorescente, e caminhou até a amiga.

A pintura era uma explosão de cores. Não era um retrato fiel, mas uma interpretação emocional de uma tarde que passaram juntas no Parque do Ibirapuera. Havia tons de laranja, dourado e um azul profundo que Maju reconheceu como a cor da camiseta que usava naquele dia.

— É lindo — sussurrou Maju, aproximando-se o suficiente para sentir o calor que Brendha parecia irradiar. — Você capturou o... o movimento.

— Eu capturei como eu me senti naquele dia — Brendha corrigiu, virando-se para encarar Maju. — Eu me senti viva. E você estava tão quieta, fotografando as formigas no chão, mas eu conseguia ver o turbilhão dentro de você. Por que você tem tanto medo de transbordar, Maju?

Maju desviou o olhar para os próprios pés, calçados com seus inseparáveis All Stars gastos.

— Porque quando a gente transborda, Brendha, a gente faz bagunça. E eu gosto de tudo organizado. Camadas, filtros, grids... é mais seguro.

— A vida não tem grid, meu bem — Brendha deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. O cheiro dela era uma mistura de tinta fresca e sândalo. — E a bagunça é a melhor parte. É onde a arte acontece.

— Nem todo mundo nasceu para ser uma pintura de MPB, Brendha — rebateu Maju, tentando recuperar o fôlego. — Algumas de nós são apenas fotos em preto e branco esperando a revelação.

Brendha soltou uma risada curta e melodiosa, estendendo a mão para afastar uma mecha da franja de Maju que cobria seus olhos castanhos. O toque dos dedos de Brendha na testa de Maju enviou um choque elétrico direto para a coluna da fotógrafa.

— Pois eu acho que você é um filme inteiro do Cinema Novo. Cheia de simbolismo e beleza escondida.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado. Maju sentia o coração martelar contra as costelas. Ela queria recuar para sua zona de conforto, mas a mão de Brendha agora descia pelo seu rosto, o polegar traçando a linha da mandíbula até parar perto do piercing no lábio.

— Brendha... — Maju começou, um aviso que soou mais como um convite.

— Shh... — Brendha murmurou, os olhos cor de mel fixos nos lábios de Maju. — Deixa a técnica de lado por um segundo.

Antes que Maju pudesse processar a proximidade, a porta do estúdio se abriu com um estrondo. Era Leo, um dos amigos de Brendha da faculdade de Belas Artes, carregando um rolo de lona e falando alto.

— Gente, vocês não acreditam! O professor Ricardo liberou a galeria principal para a nossa exposição conjunta! Brendha, as suas telas de sol vão ficar... opa. Atrapalhei algo?

Maju deu um salto para trás, voltando bruscamente para sua mesa e fingindo interesse súbito na tela do computador. Brendha, no entanto, nem sequer pareceu abalada. Ela apenas sorriu para Leo, embora houvesse um brilho de frustração em seus olhos.

— Só estávamos discutindo estética, Leo. O de sempre.

— Sei, estética — Leo piscou, percebendo o clima tenso. — Bom, Maju, a sua mãe ligou para o meu celular porque o seu estava desligado. Dona Lúcia disse que você esqueceu a chave de casa de novo e que ela vai sair para o jantar da igreja.

Maju suspirou, fechando o laptop.

— Droga. Eu perco a cabeça quando estou editando.

— Você pode ir lá para casa — Brendha sugeriu imediatamente, a voz suave novamente. — Minha mãe fez moqueca. E você sabe que a Dona Sônia adora quando você vai. Ela diz que você é a única das minhas amigas que realmente sabe ouvir.

— Eu não quero incomodar, Brendha.

— Você nunca incomoda. E além do mais, a gente precisa terminar aquela conversa sobre... composições.

Maju olhou para Brendha e viu o desafio em seus olhos. O medo de se entregar era real, uma âncora pesada em seu peito, mas a atração que sentia por Brendha era como uma correnteza, arrastando-a para longe da margem segura.

— Tudo bem. Eu vou. Mas só se você prometer não colocar samba de raiz no volume máximo enquanto eu tento ler.

— Promessa de artista — Brendha brincou, cruzando o coração com o dedo sujo de tinta laranja.


A casa de Brendha era exatamente como ela: quente, colorida e um pouco caótica. Plantas pendiam do teto, discos de vinil estavam espalhados pela sala e o cheiro de dendê perfumava o ar. Dona Sônia as recebeu com abraços apertados, tratando Maju como se fosse sua segunda filha.

Depois do jantar, as duas subiram para o quarto de Brendha. Era um sótão transformado em santuário, com uma cama baixa coberta por mantas de retalhos e uma janela que dava para os telhados da cidade.

Maju sentou-se no chão, encostada na parede, enquanto Brendha colocava um disco de Gal Costa para tocar baixinho. A iluminação era feita por fios de fada, criando uma atmosfera íntima e amarelada, muito parecida com as fotos noturnas que Maju gostava de tirar.

— Você está muito quieta — Brendha disse, sentando-se à frente dela, as pernas cruzadas.

— Estou pensando na exposição — mentiu Maju.

— Mentirosa. Você está pensando no que quase aconteceu no estúdio.

Maju sentiu o peso da sinceridade de Brendha. Não havia como fugir.

— Eu tenho medo, Brendha. A gente é amiga há três anos. Você é a pessoa que conhece todos os meus gatos pelo nome, que sabe qual música do Jão me faz chorar... Se eu estragar isso, eu perco meu mundo.

Brendha se inclinou para frente, pegando as mãos de Maju nas suas. As mãos de Brendha eram quentes e macias, contrastando com os dedos frios de Maju.

— E se a gente não estragar? E se a gente transformar isso em algo melhor? Maju, eu pinto você em quase todas as minhas telas, mesmo quando não é o seu rosto. É a sua luz, a sua sombra. Eu sou apaixonada por você desde o dia em que você me deu aquela bronca por usar o ISO errado na aula de fotografia.

Maju soltou uma risada trêmula.

— O ISO estava horrível, Brendha. Ia dar ruído em tudo.

— E você salvou a foto. Assim como você salva os meus dias — Brendha aproximou o rosto, as pontas de seus cachos roçando nos ombros de Maju. — Eu não quero mais ser só a amiga que te faz rir. Eu quero ser a pessoa que te faz transbordar.

Maju fechou os olhos, permitindo-se sentir. Ela sentiu a respiração de Brendha contra sua pele, o cheiro de tinta e sol. O medo ainda estava lá, mas o desejo era uma chama muito mais brilhante. Ela soltou as mãos de Brendha e, em vez disso, envolveu o pescoço da ruiva, puxando-a para perto.

O beijo começou lento, uma exploração cuidadosa de territórios conhecidos, mas não tocados. Os lábios de Brendha tinham gosto de café e do doce de cupuaçu que comeram na sobremesa. Era um beijo quente, profundo, que carregava a intensidade de três anos de sentimentos contidos.

Maju sentiu a mão de Brendha subir pelas suas costas, por baixo da camiseta bordô, a pele encontrando pele. Um suspiro escapou de seus lábios, e ela se entregou ao toque, deixando que a câmera mental parasse de focar nos detalhes e apenas vivesse o momento.

Brendha a empurrou gentilmente para trás, até que Maju estivesse deitada nas mantas de retalhos. O cabelo ruivo de Brendha caiu ao redor delas como uma cortina, criando um mundo onde só existiam as duas.

— Você é tão linda, Maria Julia — sussurrou Brendha entre beijos que desciam pelo pescoço de Maju. — Tão cheia de camadas. E eu quero conhecer cada uma delas.

Maju sentiu sua reserva derreter. Ali, sob o olhar dourado de Brendha, ela não precisava de filtros ou edições. Ela era apenas Maju, intensa, grudenta e perdidamente apaixonada pela mulher que parecia ter o sol tatuado na alma e nas costas.

— Não para — pediu Maju, a voz falhando. — Por favor, não para.

Brendha sorriu, um sorriso que poderia iluminar a cidade inteira, e voltou a beijá-la com uma urgência que dizia que aquela seria uma noite muito longa, e que a história delas estava apenas começando a ser escrita, não com pixels ou tintas, mas com a verdade crua e bela de quem finalmente decide transbordar.

As mãos de Maju exploraram a curva das costas de Brendha, sentindo o relevo da tatuagem do sol sob as pontas dos dedos. Era como tocar a própria fonte de calor. Brendha desceu os beijos para o colo de Maju, desabotoando a camiseta dela com uma lentidão torturante, os olhos nunca deixando os de Maju, garantindo que ela estivesse ali, presente, sem medo.

— Eu te amo — Brendha sussurrou contra a pele do peito de Maju, onde o coração batia frenético.

Maju sentiu uma lágrima solitária escapar, não de tristeza, mas de alívio. O peso da âncora havia sumido.

— Eu também te amo, Sol — respondeu Maju, usando o apelido que guardava apenas para seus pensamentos mais profundos.

Naquela noite, o estúdio de artes ficou vazio, as câmeras foram desligadas e os pincéis secaram. Porque a maior obra de arte estava acontecendo ali, entre quatro paredes, onde uma fotógrafa reservada e uma pintora solar finalmente descobriram que a melhor composição é aquela feita por dois corações que decidem, enfim, bater no mesmo ritmo.

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