
Entre Laços, Molho e Chiclete
A cobertura duplex de Emanuel cheirava a café fresco, perfume importado adocicado e, naquele exato domingo pela manhã, a um prenúncio nítido de desastre doméstico.
Com vinte e cinco anos e um império construído sob o zumbido ritmado das máquinas de tatuagem, Emanuel estava acostumado a lidar com crises de grande escala. Gerenciava estúdios em três continentes, coordenava dezenas de artistas e lidava com cifras astronômicas sem alterar o compasso da respiração. Seu corpo alto, de ombros largos e postura firme talhada por anos de foco, sustentava com facilidade o peso da liderança. Trajava uma camiseta preta básica de algodão pesado que desenhava seus braços quase inteiramente cobertos por tinta preta e cinza, calça escura e um relógio robusto no pulso. Seus olhos castanhos, no entanto, carregavam a sombra de um cansaço constante.
Afinal, administrar negócios internacionais era brincadeira de criança se comparado à logística de sair a tempo para o almoço na casa de seus pais, levando duas mulheres absolutamente opostas e duas bebês de um ano.
— Emanuel, se a sua mãe fizer aquele comentário sobre o comprimento do meu decote de novo, eu juro por Deus que tiro o vestido e fico só de calcinha na mesa de jantar — a voz arrastada e potente de Sara ecoou do corredor principal.
Sara surgiu no vão da sala de estar parecendo um furacão dourado. Aos vinte e cinco anos, formada em administração — embora seu foco atual fosse a boutique de roupas femininas de luxo que comandava com mão de ferro —, ela era o próprio espetáculo da exuberância. Loira, com o cabelo platinado escovado até a perfeição, dona de curvas esculpidas por próteses de silicone generosas e um rebolado nato, vestia um tubinho vermelho colado que destacava cada centímetro de sua presença vulgarmente magnética. Ela não entrava nos cômodos; ela os dominava.
Emanuel ergueu os olhos do celular, ajeitando a postura.
— Você não vai tirar a roupa na frente do meu pai, Sara. E você sabe perfeitamente que não precisa provocar antes mesmo de passarmos pela porta.
— Não é provocação, meu bem, é legítima defesa preventiva — respondeu ela, caminhando até ele sobre saltos vertiginosos e dando-lhe um beijo estalado nos lábios, sem a menor vergonha de borrar o batom nude caríssimo. — Onde está a minha bolsa? Eu deixei perto da bancada.
— Está onde você sempre larga: no sofá.
A dinâmica entre eles era crua, elétrica, sem rodeios. Sara era o fogo que desafiava Emanuel a todo instante, testando os limites daquele homem pragmático e reservado. Mas, ao contrário do que muitos julgavam de fora, não havia segredos podres entre os dois. Quando Emanuel percebera que seu afeto de infância por Eduarda havia transbordado e se tornado uma paixão profunda e inescapável, ele não se escondera nas sombras. Ele havia sentado com Sara e aberto o peito. E Sara, com sua mente afiada, desinibida e um amor genuíno pelo homem que escolhera para ser o pai de sua filha, dera de ombros. Ela não competia com fantasmas. Se para Emanuel ser inteiro e feliz ele precisava das duas sob o mesmo teto, que assim fosse. Eduarda não era uma rival traiçoeira; era uma menina doce que Sara havia aprendido a abrigar sob sua asa protetora, ainda que do seu jeito espalhafatoso.
Quase como uma resposta aos pensamentos dele, uma presença infinitamente mais suave preencheu o ambiente.
Eduarda vinha da cozinha com passos silenciosos, típicos de sua formação clássica como bailarina. Aos vinte anos, cursando História da Arte e ensinando passos de ballet para crianças durante a semana, ela parecia ter sido pintada em aquarela. Pequena, esguia, com traços delicados e uma expressão naturalmente tímida, Eduarda usava um vestido fluido em tom lavanda, solto o bastante para conferir leveza, mas desenhando com doçura seus seios médios e macios. Os longos cabelos castanho-escuros caíam em ondas naturais pelas costas.
Ao ver a tensão nos ombros de Emanuel, Eduarda se aproximou com a quietude de quem pisa em folhas secas, buscando o calor dele como quem busca um porto seguro.
— Manu... — chamou ela baixinho, estendendo a mão para tocar o antebraço tatuado dele. — Está quase na hora? Eu já deixei a bolsa de fraldas da Maya pronta perto da porta.
O toque de Eduarda operava milagres instantâneos na rigidez de Emanuel. Ele virou o rosto para ela e a expressão severa se desfez, dando lugar a um olhar terno, quase paternalmente protetor, ainda que repleto de um desejo sereno.
— Falta pouco, Duda — disse ele, passando um braço forte pela cintura delgada dela e puxando-a para junto de seu corpo. — Só estamos esperando a Sara terminar de se produzir e conferir se as meninas não dormiram de novo.
Eduarda encostou a bochecha no peito dele, aspirando o perfume amadeirado que tanto a acalmava. Ela era manhosa por natureza, carente do afeto que o homem que a acolhera lhe dava sem medir esforços. O pai biológico de sua filha havia sumido no instante em que o teste de gravidez dera positivo. Fora Emanuel — o amigo de infância que vira sua dor de perto — quem a resgatara. Ele não apenas abrira as portas daquela cobertura deslumbrante para ela e Maya, mas fizera questão absoluta de assumir a paternidade da menina. Para Maya, Emanuel era a única figura paterna existente; ele ensinara a garotinha a chamá-lo de papai, sustentava cada uma de suas necessidades e não admitia que ninguém fizesse qualquer distinção entre ela e sua filha de sangue, Ágata.
— Você está muito linda — sussurrou ele contra o topo da cabeça de Eduarda, depositando ali um beijo casto que a fez corar suavemente.
Sara, que revirava a bolsa sobre a ilha da cozinha, soltou um estalo com a língua, mas o sorriso no canto dos lábios bem delineados denunciava que achava a cena adorável.
— Se vocês começarem a melação agora, a gente só chega na dona Helena às quatro da tarde. E eu não pretendo ouvir sermão com fome. Onde estão as monstrinhas?
— A Ágata estava brincando com os blocos no tapete e a Maya estava... — Eduarda parou de falar, arregalando os grandes olhos castanhos. — Espera. Cadê a Maya?
Um silêncio súbito e aterrador tomou conta do apartamento de seiscentos metros quadrados. Pais experientes sabem que o silêncio de crianças de um ano nunca é um bom sinal; é o prenúncio inequívoco do caos.
Antes que Emanuel pudesse dar o primeiro passo em direção aos quartos, um grito agudo, indignado e estridente rasgou a sala.
— Emanuel! Pelo amor de tudo o que é mais sagrado no inferno!
Emanuel e Eduarda correram em direção ao corredor dos quartos. Lá estava Sara, estagnada em frente ao espelho de corpo inteiro, com uma expressão de puro horror paralisado no rosto perfeitamente maquiado. No chão, sentada sobre o tapete persa de valor inestimável, a pequena Ágata — uma miniatura loira de olhos espertos idênticos aos da mãe — batia palmas, rindo com dentes de leite à mostra e babando levemente.
Nas mãos pequenas de Ágata, havia uma embalagem metálica rasgada de chiclete de canela.
E na cabeça de Sara...
— Ela colou — disse Sara, a voz subindo três oitavas, as mãos tremendo no ar sem coragem de tocar as próprias madeixas. — Emanuel, tira essa criatura de perto de mim antes que eu coloque essa criança para adoção! Ela enfiou um chiclete mastigado no meu megahair!
Emanuel apertou a ponte do nariz, soltando uma expiração pesada enquanto seu lado prático tentava assumir o controle da situação.
— Como ela pegou isso, Sara? Quantas vezes eu já falei para você não deixar doce na bolsa com ela por perto?
— A bolsa estava no sofá, caralho! Como eu ia adivinhar que a sua filha desenvolveu habilidades de alpinista militar em vinte e quatro horas?! — disparou Sara, virando-se para o espelho, puxando desesperadamente a mecha grudada. Uma massa pegajosa e cor-de-rosa estava firmemente enraizada entre os fios loiros impecáveis. — Ai, meu Deus, vai estragar a fita de queratina! Emanuel, faz alguma coisa! Gelo, óleo, gasolina, joga fogo nessa merda, mas tira isso daqui!
— Fica quieta — ordenou Emanuel, a voz soando firme, autoritária, no tom que usava para comandar seus funcionários mais indisciplinados. Ele deu um passo à frente, segurando o queixo de Sara para fazê-la parar de se debater. — Se você puxar desse jeito, vai arrancar os fios pela raiz. Respira. Eu vou pegar um cubo de gelo e óleo vegetal. Duda, pega a Ágata, por favor.
Eduarda, assustada com a intensidade do entrevero, correu para pegar a pequena Ágata no colo, afastando-a do alcance da mãe enfurecida.
— Calma, Sara... vai sair — disse Eduarda com sua voz mansa, tentando colocar panos quentes no temperamento vulcânico da loira. — O Manu sempre consegue resolver essas coisas. Não vai estragar o seu cabelo, eu prometo.
— Se estragar, eu vou careca naquele almoço só para a mãe dele ter um infarto ao vivo — bufou Sara, embora já estivesse relaxando sob o toque firme das mãos de Emanuel, que a guiava até uma banqueta.
Emanuel caminhou em passos largos até a cozinha gourmet para buscar o gelo no refrigerador industrial. No entanto, no exato instante em que colocou os pés no piso de porcelanato polido da cozinha, ele estacou.
O controle que ele tanto tentava manter escorregou entre seus dedos tatuados.
— Duda... — a voz dele saiu grave, baixa, num misto de incredulidade e desespero contido.
Eduarda apareceu no arco da cozinha, ainda com Ágata equilibrada no quadril esguio. Ao olhar para o chão ao lado da ilha central, a jovem bailarina soltou um gritinho abafado e levou a mão livre à boca.
Lá estava a pequena Maya.
A menina, que havia descoberto a incrível habilidade de abrir os armários inferiores mais baixos da dispensa, havia encontrado um pote de vidro com molho de tomate artesanal que havia sido deixado para descongelar em uma travessa baixa. O recipiente estava virado. O chão de mármore branco parecia uma cena de filme de terror cômico.
Maya estava absolutamente besuntada da cabeça aos pés.
O molho vermelho e espesso cobria seu vestidinho de cambraia amarelo — um presente novinho em folha dos pais jovens de Eduarda —, pintava seus bracinhos gorduchos e se espalhava pelos seus cabelos finos e ondulados. Ela estava sentada na poça avermelhada, batendo as mãozinhas na mistura com um sorriso radiante de pura felicidade sensorial.
— Papai! — balbuciou Maya com alegria ao ver a figura alta de Emanuel, estendendo os dois bracinhos ensopados de extrato de tomate em direção a ele. — Papá!
Emanuel fechou os olhos por dois segundos inteiros. A lógica gritava que eles estavam quinze minutos atrasados para o almoço com a família mais tradicional e inflexível da cidade. Seu pai detestava atrasos. Sua mãe inspecionaria cada detalhe daquela dinâmica familiar atípica com lentes de aumento. O estresse acumulado da semana pulsou na têmpora do tatuador.
Mas, ao abrir os olhos e ver a expressão assustada e culpada no rosto pálido de Eduarda, qualquer resquício de irritação desapareceu.
— Ai, meu Deus, Manu, me perdoa... — murmurou Eduarda, os olhos marejando com facilidade devido à sua natureza sensível e insegura. Ela colocou Ágata no chão e deu um passo para trás, sentindo-se a pior mãe do mundo. — Eu me distraí por dois minutos... eu devia ter trancado o armário, a culpa foi minha, ela destruiu a roupa e agora a gente vai se atrasar e a sua mãe vai achar que eu sou desleixada...
— Ei, olha para mim — cortou Emanuel com doçura, dando passos rápidos até ela e ignorando completamente o chão sujo. Ele segurou o rosto delicado de Eduarda com as duas mãos, acariciando suas bochechas com os polegares. — Não fala bobagem. Ela é um bebê de um ano, Duda. Bebês fazem isso. A culpa não é de ninguém.
— Mas a sua mãe...
— A minha mãe que espere sentada se tiver com pressa — disse ele, a voz firme transmitindo a segurança de uma fortaleza. — Maya é minha filha. Se ela quiser se pintar de molho de tomate num domingo de manhã, o problema é meu e seu, de mais ninguém. Entendeu?
Eduarda fungou, assentindo timidamente, e encostou o rosto na palma calejada dele, encontrando ali o acolhimento de que tanto precisava.
Sara, que havia caminhado até a entrada da cozinha segurando a mecha com chiclete com a ponta dos dedos, olhou para a poça vermelha, para a bebê lambuzada e para a cara de espanto de Eduarda. Em vez de reclamar, soltou uma gargalhada alta, rouca e genuína, fazendo os seios fartos oscilarem sob o decote vermelho.
— Puta que pariu, a menina parece que acabou de sair de um massacre! — brincou Sara, sem filtro algum, encostando-se no batente da porta. — Olha lá, Emanuel, a sua filha puxou o seu gosto por arte corporal, só que em vez de agulha ela usou Pomarola!
Maya riu alto com o tom exagerado de Sara, batendo os pés descalços na poça e espirrando pequenas gotas vermelhas na barra da calça de Emanuel.
— Muito engraçado, Sara — rebateu Emanuel, embora um meio sorriso involuntário tenha quebrado a seriedade de seus lábios. — Leva a Ágata para o quarto e senta na cama. Eu já levo o gelo para tirar isso da sua cabeça.
— Trata de caprichar, garanhão. Se eu tiver que cortar meio centímetro desse cabelo, quem vai pagar uma aplicação novinha de fita adesiva russa é você.
— Eu pago — respondeu ele, pragmático. — Agora vai.
Sara deu uma piscadela para Eduarda, deu meia-volta com seus saltos estalando pelo piso e levou a filha mais velha consigo, murmurando insultos carinhosos para a pequena Ágata.
Emanuel voltou sua atenção para a mulher mais jovem e para a pequena bagunceira no chão. Abaixou-se, sem se importar com a calça limpa tocando o chão engordurado, e pegou Maya pelas axilas, erguendo a menina no ar. Maya soltou uma risadinha gostosa, tentando tocar o rosto do pai com os dedos vermelhos.
— Nem pense nisso, mocinha — avisou Emanuel, fingindo uma severidade que seus olhos afetuosos desmentiam por completo. — Para o banho. Agora.
— Eu dou banho nela — ofereceu Eduarda rapidamente, adiantando-se com os braços estendidos, o coração ainda agitado. — Você precisa ajudar a Sara com o chiclete, senão ela vai surtar de verdade.
— Vamos fazer o seguinte — determinou Emanuel, calculando o tempo com sua frieza habitual. — Você leva ela para a banheira da nossa suíte e tira o excesso. Eu vou com o gelo no quarto da Sara, resolvo aquela borracha em cinco minutos e venho te ajudar a enxaguar a Maya e trocar a roupa. Tudo bem para você?
Eduarda olhou para ele, sentindo uma onda imensa de gratidão e amor. Era sempre assim. Emanuel nunca a deixava desamparada, nunca permitia que suas inseguranças a engolissem. Ele equilibrava as tempestades de Sara e as fragilidades dela com uma firmeza admirável.
— Tudo bem, Manu — respondeu ela, esticando-se na ponta dos pés de bailarina para deixar um beijo carinhoso no queixo dele, sentindo a textura áspera da barba por fazer. — Obrigada por não brigar.
— Eu nunca brigaria com você por causa disso, minha linda — disse ele em voz baixa, dando um beijo terno na testa dela antes de passar a bebê engordurada para os braços acolhedores da mãe. — Vai lá. Eu já chego.
Dez minutos depois, o apartamento havia entrado em um compasso de calmaria pós-caos.
No quarto da suíte principal, o som da água corrente da banheira abafava o murmúrio distante da cidade lá fora. Eduarda, com a saia do vestido lavanda presa entre as pernas para não molhar, estava ajoelhada ao lado da banheira de porcelana. A água morna já estava manchada de um rosa suave enquanto ela passava a esponja macia com sabonete infantil de camomila pela pele alva de Maya. A menina chapinhava a água, rindo, enquanto Eduarda retirava com paciência infinita os resquícios grudentos de molho dos cachinhos castanhos da filha.
A porta do banheiro se abriu e Emanuel entrou. Ele havia tirado a camiseta, revelando o tronco largo e musculoso coberto de tatuagens detalhadas — dragões orientais, caveiras estilizadas e datas importantes gravadas na pele. Ele se ajoelhou bem atrás de Eduarda, colando o peito quente nas costas dela, envolvendo-a com seus braços compridos e apoiando o queixo em seu ombro delicado.
Eduarda suspirou de alívio, relaxando o corpo contra o dele, sentindo-se imediatamente protegida.
— Como foi com a Sara? — perguntou ela, virando ligeiramente o rosto para encarar o perfil imponente de Emanuel.
— O gelo endureceu o chiclete. Saiu tudo com um pouco de óleo de coco — explicou ele, desl
