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Brigadas

Fandom: Vampiras

Criado: 13/10/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoCiúmesEstudo de PersonagemConserto
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Entre Orgulho e Veneno

O pátio central da universidade parecia dividido por uma fronteira invisível, mas perfeitamente delineada pelo gelo. De um lado, sob a sombra dos arcos góticos do prédio de Direito, Amber apoiava-se na mureta de pedra. A jaqueta de couro surrada e preta combinava com os coturnos pesados e o delineado afiado que acentuava seus olhos claros e penetrantes. Com sua postura imponente, alta e com os longos cabelos ondulados caindo rebeldes pelos ombros alvos, ela exalava a frieza de uma predadora em vigília.

Do outro lado, nos degraus banhados pelo sol do bloco de Artes e Moda, estava Karen. Sua pele negra brilhava sob a luz, impecável, criando um contraste deslumbrante com o blazer cropped de alfaiataria em tom lavanda e as calças de cintura alta. O corte chanel curtíssimo emoldurava seu rosto aristocrático, conferindo-lhe um ar paty sofisticado e intocável, de quem ditava as regras sem precisar erguer a voz. Karen folheava seu caderno de croquis com desdém milimétrico, fingindo absoluta indiferença.

Quem olhasse de fora não ousaria acreditar que, até duas semanas atrás, aquelas duas eram simplesmente inseparáveis. O casal mais imponente, deslumbrante e fervorosamente invejado de todo o campus. Onde Amber era a fúria tempestuosa e sombria, Karen era a elegância calculada e vibrante. Juntas, pareciam donas do mundo da noite e do dia.

Contudo, a inveja humana — e a não tão humana assim — sempre encontrava brechas para espalhar seu veneno.

Tudo começou com sussurros nos corredores. Disseram a Amber que Karen andara de risinhos e conversas íntimas com um dos jogadores do time de futebol da faculdade durante uma festa exclusiva da atlética. Disseram que o garoto a abraçara pela cintura e que Karen não havia se afastado imediatamente. A mente afiada e possessiva de Amber, alimentada por um instinto ancestral difícil de controlar, entrou em combustão instantânea. Em vez de perguntar, ela se fechou em silêncio e rancor.

A resposta veio com a mesma amargura. Dias depois, foi Karen quem ouviu as fofocas: Amber havia sido vista aos cochichos em um canto escuro de um pub com uma antiga colega de Direito, uma garota cínica que Karen detestava abertamente desde o primeiro semestre. Foi o suficiente. A vaidade e o orgulho de Karen se ergueram como muralhas intransponíveis.

Nenhuma das duas cedeu. Nenhuma deu o braço a torcer. O resultado era aquele limbo sufocante.

— Se você continuar encarando os degraus de Moda dessa forma, juro que a pedra vai rachar — comentou uma voz exasperada ao lado de Amber.

Amber desviou o olhar lentamente, fitando o cigarro apagado entre seus dedos pálidos antes de guardá-lo no bolso.

— Não estou encarando nada.

— Claro que não — ironizou seu amigo, dando um longo suspiro. — E eu sou o Papai Noel. Todo mundo no grupo está cansado desse velório, Amber. Ninguém aguenta mais sair e ter que escolher em qual lado da mesa vai sentar para não ofender a realeza do campus.

— Ela sabe muito bem onde errou — Amber rosnou, o tom baixo carregado de uma eletricidade perigosa. — Ficou dando asas para aquele idiota do time. Ela sabia o que ele queria.

— E você acreditou num zé-ninguém qualquer que espalhou essa história por inveja pura! — rebateu ele, mas Amber apenas cruzou os braços, a mandíbula travada, recusando-se a admitir que a dúvida estava devorando seu peito dia e noite.

Do outro lado da praça, a situação não era diferente. Sentado ao lado de Karen na escadaria, Theo, seu melhor amigo e confidente de longa data, massageava as têmporas em sinal de desespero iminente.

— Karen, por favor, você desenhou a mesma gola três vezes na folha errada — apontou Theo, inclinando-se para espiar o caderno. — Você está moída por dentro. O que custa mandar uma mensagem?

— Não mandaria nem que a eternidade dependesse disso — respondeu Karen, a voz melodiosa transbordando frieza ensaiada. — Ela foi vista rindo com aquela criatura insuportável. Amber sabe perfeitamente que não tolero traição de confiança. Se ela prefere a companhia de garotas vulgares, que fique com elas.

— Você sabe que aquilo provavelmente foi invenção daquela víbora para desestabilizar vocês duas! A faculdade inteira odeia ver o quanto vocês são perfeitas juntas.

— Não me importo — mentiu Karen, sentindo um aperto agudo no peito.

A verdade era que ela se importava tanto que chegava a doer fisicamente. Sentia falta do cheiro de couro, cedro e chuva que Amber carregava. Sentia falta das mãos frias segurando sua cintura no escuro, dos beijos famintos e do olhar feroz que Amber só dedicava a ela. As noites no apartamento haviam se tornado frias e silenciosas demais. Mas seu orgulho era gigantesco, lapidado como diamante.

Theo observou o rosto impecável da amiga e os nós dos dedos dela apertando a lapiseira até ficarem cinzentos. Ele soltou um estalo de língua impaciente.

— Quer saber? Cansei. Cansei dessa palhaçada teatral de vocês duas.

— O que você vai fazer, Theo? — Karen arqueou uma sobrancelha perfeitamente delineada.

— Vou pegar um café antes da aula de história da indumentária. Fique aí congelando o ambiente com o seu desdém.

Karen apenas bufou, voltando a rabiscar sem prestar atenção.

No entanto, o plano de Theo já estava em andamento. Ele não fora comprar café; caminhara a passos largos até o prédio de Direito, onde abordou o grupo de Amber e puxou a morena pelo braço antes que ela pudesse protestar.

— Preciso de você. Agora. Emergência no arquivo do laboratório de tecidos — disse Theo com uma urgência fingida, digna de um prêmio dramático. — As chaves reservas da sala de materiais sumiram e disseram que a sua turma de Direito Aplicado guardou as pastas lá. Se você não vier abrir, serei reprovado.

Amber franziu a testa, desconfiada, mas Theo era o amigo mais próximo de Karen; se ele estava desesperado, alguma coisa grave devia ter acontecido.

— Anda logo antes que eu mude de ideia — resmungou Amber, acompanhando-o a passos pesados.

Dez minutos depois, na ala mais isolada do departamento de Moda — um depósito antigo com luzes fracas, tecidos pesados pendurados e manequins de alfaiataria empoeirados —, Karen estava parada no centro do cômodo, olhando para o relógio de pulso banhado a ouro. Theo havia enviado uma mensagem dizendo que estava preso ali dentro precisando de ajuda urgente para carregar caixas de tecido.

O som da porta de carvalho pesado rangendo nas dobradiças fez Karen se virar com rapidez.

— Theo, se você me fez perder meu tempo com...

As palavras morreram em sua garganta.

Não era Theo. Era Amber.

A garota de sobretudo de couro parou no limiar, os olhos faiscando de surpresa imediata ao encontrar a figura esguia de Karen. Antes que qualquer uma das duas pudesse raciocinar, a porta de madeira foi puxada com violência do lado de fora. O clique estridente da fechadura ecoou pelo ambiente amplo, seguido pelo barulho inconfundível de uma chave girando duas vezes.

— Theo! — Karen deu um passo rápido em direção à saída, os saltos finos estalando contra o piso de madeira. Ela segurou a maçaneta de latão e puxou-a com força, mas o trinco permaneceu firme. — Abra isso agora mesmo!

Do outro lado, a voz abafada e decidida de Theo respondeu:

— Nem morta! Vocês duas são duas turronas insuportáveis que estão destruindo a paciência de todo mundo! Ficam se matando de saudade, olhando de longe feito dois fantasmas góticos, e não têm a decência de conversar! Só saem daí quando resolverem essa palhaçada!

— Abra esta porta ou eu vou derrubá-la inteira! — rosnou Amber, aproximando-se com passos predatórios, o tom perigoso fazendo o ar esfriar.

— Boa sorte tentando arrombar porta de carvalho maciço do século passado sem chamar a segurança do campus — gritou Theo de volta. — Tenham uma boa tarde, queridas. Resolvam-se!

Os passos dele desapareceram rapidamente pelo corredor de linóleo, deixando apenas o silêncio denso e pesado no depósito.

Karen soltou a maçaneta com um suspiro irritado e deu meia-volta, ajeitando a lapela do blazer impecável para recuperar a postura. Seus olhos castanhos e profundos pousaram em Amber com uma mistura palpável de fúria e ressentimento.

— Ótimo — Karen disse, a voz gélida. — Agora estou trancada com você.

— Acredite, patricinha, eu preferia estar em qualquer outro lugar do inferno — retrucou Amber, encostando-se na parede de tijolos aparentes e cruzando os braços, tentando disfarçar a súbita aceleração em seus sentidos. Estar tão perto de Karen depois de semanas de distância era quase uma tortura física. O perfume dela — baunilha amarga e âmbar — invadia o espaço sem pedir licença.

— Claro que preferia — Karen zombou, soltando uma risada seca e sem humor. — Deve estar morrendo de pressa para se encontrar com a sua amiguinha do primeiro ano. Aquela que você achava tão detestável, mas de repente virou sua companhia predileta em mesas de bar.

Amber cerrou os olhos, os lábios se repuxando em desgosto.

— Você está realmente me acusando disso? Ficou cega de vez?

— Não preciso de visão aguçada para saber o que todo mundo viu — rebateu Karen, dando um passo em direção a ela, a altivez natural transparecendo em cada gesto elegante. — Você passou a noite inteira colada naquela garota. Logo ela, Amber! Você sabe o que ela disse sobre mim no início das aulas! Você me desrespeitou na frente de todos!

— Eu não fiz nada com aquela sonsa! — Amber elevou a voz, descruzando os braços e encurtando a distância entre elas com uma presença intimidante. — Ela veio até a minha mesa trazer os papéis do diretório acadêmico. Eu mandei ela embora em menos de dez minutos! Alguém inventou essa história idiota porque adora alimentar essa sua paranóia de elite!

Karen ergueu o queixo, recusando-se a recuar um milímetro sequer diante da aproximação de Amber.

— Minha paranóia? Que conveniente! Você inventa desculpas sobre mim, mas não pensou duas vezes antes de dar ouvidos às fofocas da atlética!

— Ah, então nós finalmente vamos falar sobre o atleta de estimação? — Amber ironizou, os dentes cerrados, as feições retorcidas pelo ciúme acumulado que ela tentara sufocar por dias. — Ele tocou em você, Karen. Me disseram que você ficou rindo para ele como se eu não existisse! Você sabe o que eu sinto quando vejo alguém tentar colocar as mãos no que é meu?

— No que é seu? — Karen deu um passo à frente, quase colando o peito ao de Amber. O corte chanel balançou sutilmente enquanto ela encarava a outra nos olhos, a respiração ligeiramente ofegante de indignação. — Eu não sou propriedade sua para ser guardada em uma gaveta, Amber! E aquele moleque tropeçou em mim bêbado na festa. Eu o empurrei tão rápido na parede que ele quase quebrou o ombro! Se você tivesse a coragem de me procurar e perguntar em vez de agir como um animal ferido e amuado nos cantos, você saberia disso!

Amber paralisou. Suas pupilas dilataram levemente, processando as palavras cuspidas com tanta firmeza e indignação real.

— Você... empurrou ele?

— É óbvio que empurrei! — Karen praticamente gritou, os olhos brilhando com uma emoção represada que ameaçava transbordar. — Eu amo você, sua idiota arrogante! Por que raios eu daria atenção para um humano medíocre qualquer que mal sabe amarrar as próprias chuteiras?

O eco das palavras reverberou no depósito empoeirado, seguido por um silêncio absoluto.

A respiração de Karen estava entrecortada. A pose de paty inatingível desmoronou por uma fração de segundo, revelando a mágoa crua que vinha carregando sob as camadas de maquiagem perfeita e tecidos finos.

Amber a encarou, o coração dando um salto violento no peito. Toda a raiva, toda a desconfiança que vinha cozinhando em fogo lento evaporou, substituída por um choque repentino e uma vergonha que raras vezes experimentava.

— E você... realmente não tocou naquela garota? — Karen perguntou em um sussurro tenso, a voz vacilando ligeiramente pela primeira vez.

— Eu não suporto nem respirar o mesmo ar que ela, Karen — disse Amber com a voz rouca, os passos lentos diminuindo o último resquício de espaço que restava entre elas. — Quando ela sentou ao meu lado, a única coisa em que eu conseguia pensar era em como eu queria que fosse você. Como eu queria que você estivesse lá para segurar a minha mão debaixo da mesa.

Karen engoliu em seco. A firmeza em seus olhos começou a vacilar, dando lugar a uma vulnerabilidade que apenas Amber tinha o privilégio de contemplar.

— Eles inventaram tudo — Karen murmurou, a constatação caindo pesada como chumbo. — Os idiotas do terceiro ano... eles queriam exatamente isso. Ver a gente cair.

— Ninguém suporta ver o quanto somos boas juntas — Amber concordou, levantando a mão devagar, hesitando no ar antes de pousar os dedos frios na pele quente e macia da bochecha escura de Karen.

O toque fez Karen fechar os olhos por um segundo, soltando um suspiro trêmulo que parecia estar preso em seus pulmões há semanas. A palma de Amber era familiar, o encaixe perfeito. Karen inclinou o rosto contra a carícia, seu corpo traindo imediatamente toda a postura defensiva que sustentara até ali.

— Eu odeio você por ter duvidado de mim — sussurrou Karen, abrindo os olhos novamente, marejados, mas ferozes.

— Eu também me odeio por isso — Amber admitiu, o tom desprovido de qualquer sarcasmo. A postura de bad girl inabalável desabava diante da garota em seus braços. — Eu estava enlouquecendo, Karen. Cada segundo longe de você parecia uma eternidade podre. Eu sentia seu cheiro pelo campus inteiro e não podia tocar em você.

— Você foi uma tola orgulhosa.

— Você também foi.

Karen não pôde conter um meio sorriso involuntário, irônico e deslumbrante, que iluminou seu rosto.

— Sou uma patricinha impecável, querida. Meu orgulho faz parte do visual.

— Eu senti falta dessa sua arrogância insuportável — disse Amber, com a voz caindo para uma oitava mais baixa, densa e sedutora.

— Prove — desafiou Karen, erguendo o queixo.

Amber não hesitou. Com um movimento rápido e firme, deslizou a mão livre pela cintura fina de Karen, puxando-a contra seu corpo com a força reprimida de semanas de abstinência. A outra mão enroscou-se na nuca de Karen, os dedos mergulhando na textura suave do corte chanel enquanto seus lábios se chocavam com uma urgência quase selvagem.

O beijo começou faminto, colidindo dentes e respirações em um frenesi de desespero e alívio. Karen soltou um gemido baixo contra a boca de Amber, jogando os braços ao redor dos ombros largos da jaqueta de couro, cravando as unhas no tecido com a mesma intensidade predadora. Não havia gentileza; era a colisão de duas vontades titânicas que se reconheciam e se completavam no escuro.

A frieza de Amber contrastava com o calor vivo que emanava da pele de Karen. Cada toque acendia faíscas antigas, uma fome ancestral que ia muito além das meras convenções humanas. Amber pressionou Karen contra uma bancada de corte de tecidos, os materiais e réguas caindo no chão com estrondos abafados que nenhuma das duas se importou em registrar.

Quando finalmente se separaram para buscar fôlego, suas testas permaneceram unidas. As respirações misturavam-se no ar gélido da sala.

— Da próxima vez que alguém inventar qualquer idiotice no campus — Karen murmurou, passando a ponta dos dedos pelos lábios avermelhados de Amber —, eu arranco os olhos dessa pessoa antes de você ter tempo de ficar emburrada.

— Trato feito — respondeu Amber com um sorriso de canto, perigoso e genuíno, descendo beijos suaves pela mandíbula angulosa de Karen até a curva de seu pescoço. — E se algum idiota do futebol chegar perto de você outra vez, não respondo por mim.

— Deixe que tentem. Ninguém chega aos seus pés, minha bad girl.

Um bater forte de nós dos dedos na madeira da porta interrompeu o momento.

— Ei! Já se mataram ou podemos evitar um homicídio em primeiro grau? — gritou a voz de Theo do outro lado, seguida pelo barulho da chave destrancando o trinco.

A porta rangeu e se abriu lentamente. Theo colocou a cabeça para dentro, cauteloso, com uma expressão defensiva, mas parou no meio do caminho ao ver o cenário.

Karen estava sentada confortavelmente na bancada de trabalho, com o batom levemente borrado e as pernas longas cruzadas com elegância real. Ao lado dela, com uma mão possessiva pousada em sua coxa, Amber sorria de um jeito que faria qualquer um no campus tremer de medo — ou de inveja.

— Já terminaram o melodrama? — perguntou Theo, um sorriso convencido brotando em seus lábios.

— Por enquanto — respondeu Karen com soberania, ajeitando uma mecha imaginária do corte curto antes de descer da bancada com a graça de uma pantera. Ela estendeu a mão na direção de Amber, que a segurou imediatamente, entrelaçando seus dedos pálidos aos negros de forma firme e inseparável.

— Vamos — disse Amber, caminhando em direção à saída com seu passo firme, puxando Karen para junto de si. — Temos algumas pessoas no pátio para encarar.

— E um reinado para colocar em ordem — completou Karen com um brilho afiado nos olhos.

Quando as duas atravessaram o corredor de mãos dadas, prontas para recuperar o lugar que sempre lhes pertenceu, o campus finalmente entenderia que tentar destruir aquele fogo era o mesmo que brincar com a própria ruína.

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