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Sombras do amor

Fandom: Sombras e ossos

Criado: 13/10/2026

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O Eco do Abismo

O murmúrio nos corredores do refúgio de Nikolai Lantsov nunca cessava, mas Clara já havia se acostumado a ser o centro de olhares temerosos. Desde que fugira do Pequeno Palácio na companhia de Alina Starkov e dos outros rebeldes, ela sentia o peso de seu próprio nome pairar sobre os ombros como uma mortalha de chumbo.

Clara Kirigan.

Ela nunca quisera aquele fardo. Com um metro e sessenta e oito e seus oitenta e cinco quilos distribuídos em formas suaves, curvas fartas e uma postura acolhedora, Clara sempre fora o oposto do homem com quem se casara. Ela tinha o riso fácil, as mãos sempre prontas para confortar um serviçal trêmulo ou curar um soldado ferido, o coração desprovido de qualquer amargura. No Pequeno Palácio, todos a adoravam pelo carinho genuíno com que tratava a todos, Grisha ou otkazat'sya. No entanto, o afeto vinha acompanhado de um pavor indizível. Porque todos sabiam — viam nos olhos escuros como breu do General Kirigan — que ele era doentia e irrevogavelmente apaixonado por ela. Aleksander queimaria o mundo inteiro se alguém ousasse tocar num único fio de seus cabelos castanhos.

Por muito tempo, cega pela devoção feroz que ele lhe dedicava, Clara acreditara que ele era um homem incompreendido, alguém que apenas buscava proteger seu povo. Até Alina abrir seus olhos. Até a Conjuradora do Sol desmascarar a escuridão sem limites que habitava a alma de Aleksander: a criação da Dobra, a ganância milenar, os planos monstruosos. Despedaçada pela traição e pela revelação de que o homem que a embalava à noite era um monstro, Clara fugira.

Agora, abrigada provisoriamente sob as abóbadas douradas e elegantes do palácio de Nikolai, ela ouvia o que o mundo dizia do lado de fora.

— Ele está virando Ravka do avesso por causa da Conjuradora do Sol — dissera um dos guardas mais cedo, acreditando que Clara não ouvia atrás da tapeçaria. — Dizem que ele enlouqueceu. Mas é tudo pela Conjuradora. A esposa? Uma fachada. Aleksander Morozova nunca amou ninguém além de seu próprio poder. Aquela mulher rechonchuda foi apenas um capricho, esquecida assim que ela deu as costas.

Clara fechara os olhos ao ouvir aquilo, sentindo um misto amargo de alívio e terror. Se todos acreditavam nisso, talvez ela estivesse segura. Talvez ele tivesse desistido dela e focado apenas em sua obsessão pela luz de Alina.

Ela não poderia estar mais enganada.

O ataque aconteceu sem aviso prévio. Não houve toque de trombetas, nem o trote distante de cavalos. O primeiro sinal foi o sol sendo engolido por uma névoa densa e pegajosa que escorria pelo teto de vitrais. Depois veio o som: um rangido visceral, como se a própria realidade estivesse sendo rasgada ao meio.

— Eles estão aqui! — gritou a voz de Nikolai, ecoando do mezanino, seguida pelo retinir metálico de lâminas sendo desembainhadas.

— Alina, fique atrás de mim! — Mal gritou, puxando seu rifle.

Clara congelou no centro do grande salão de baile. As sombras não eram apenas trevas comuns; elas tinham dentes, garras e olhos esbranquiçados desprovidos de alma. Criaturas esculpidas em escuridão viva rastejavam pelas paredes e despencavam das colunas de mármore. Nichevo’ya. Monstros que não sentiam dor, criados a partir do merzost.

O caos explodiu em um instante. O ar foi preenchido por lâminas de vento dos Aeros, línguas de fogo dos Conjuradores do Fogo e os tiros ensurdecedores das armas de repetição de Nikolai. Alina ergueu as mãos, convocando arcos cegantes de luz solar pura que cortavam a escuridão, transformando algumas das feras em fumaça cinzenta. Mas eram muitas.

Clara tentou correr em direção a um dos corredores laterais, buscando ajudar uma jovem curandeira que havia tropeçado e caído perto das escadarias.

— Clara, saia daí! — gritou Alina, sua voz quebrando pelo esforço de conjurar a luz. — Ele não pode ver você!

Mas a confusão era avassaladora. Um rugido gutural rasgou o ar acima de Clara. Ela olhou para cima a tempo de ver uma das criaturas de sombra descer em um mergulho assassino. Clara ergueu os braços por puro instinto para se proteger. A garra etérea, mas incrivelmente afiada, cortou o ar e atingiu seu flanco e ombro com uma violência brutal.

A dor foi imediata, ardente como fogo gelado. O impacto de seu peso contra o chão de mármore arrancou o fôlego de seus pulmões, e o tecido de seu vestido rasgou-se, empapando-se rapidamente de sangue carmesim. Um gemido entrecortado escapou de seus lábios enquanto ela pressionava o ferimento, sentindo o sangue quente escorrer por entre os dedos.

Foi nesse exato segundo que as portas principais do salão foram arrancadas de suas dobradiças com um estrondo ensurdecedor.

A escuridão que invadiu o lugar congelou a respiração de todos os presentes. O ar ficou tão denso que parecia impossível respirar. E no centro daquela tempestade sombria, passos calmos e deliberados ecoaram contra as pedras.

O General Kirigan avançava. Seu kefta negro parecia absorver a pouca luz que restava no recinto. O rosto pálido e aristocrático era uma máscara de ódio frio e implacável. Ele viera ali com um único propósito inicial: encurralar Nikolai Lantsov e Alina Starkov, quebrar suas vontades e torturá-los até que revelassem para qual canto esquecido da terra haviam mandado Clara. Ele tinha certeza absoluta de que ela não estaria nas linhas de frente; imaginava que a haviam escondido em algum porto distante para mantê-la longe do conflito.

Aleksander abriu a boca para ordenar o massacre da guarda real, as mãos prontas para o Corte, mas seu olhar varreu o chão salpicado de destroços e parou.

Todo o ar de seus pulmões desapareceu.

A máscara de frieza se estilhaçou em um milésimo de segundo. Seus olhos se arregalaram em um terror tão puro, tão visceral e desconcertante, que nem parecia pertencer ao ser lendário que comandava a Dobra das Sombras.

— Clara... — o nome escapou de sua garganta como uma súplica rouca, quase inaudível.

Ele a viu caída. Viu a mancha vermelha e brilhante manchando a pele clara de sua cintura e ombro. Viu suas mãos trêmulas pressionando o corte, os lábios dela empalidecendo pela perda de sangue.

Um dos monstros de sombra, ainda cego pela sede de massacre e sem a clareza da mente de seu mestre, voltou a avançar na direção do corpo caído de Clara.

O grito que irrompeu de Aleksander não foi humano.

— NÃO!

Com um movimento violento do braço, ele rasgou a própria criação ao meio. Uma onda de sombras pura e sólida colidiu contra o nichevo’ya, desintegrando a criatura em partículas de pó antes mesmo que ela chegasse a meio metro de Clara. O impacto da magia dele foi tão violento que rachou o chão de mármore e fez tremer toda a estrutura do palácio de Nikolai.

Aleksander deu um passo desesperado à frente, as mãos estendidas, completamente alheio aos tiros que passavam perto de si, alheio a Alina que ainda erguia a luz, alheio a Nikolai e seus soldados. O universo inteiro havia sido reduzido àquela mulher ferida no chão.

— Clara... meu amor, olhe para mim — murmurou ele, a voz quebrando em um pânico histérico, algo que nenhum ser vivo jamais testemunhara no General. — Por favor, olhe para mim...

Clara ergueu os olhos nublados pela dor e encontrou o olhar dele. Havia medo em seus olhos castanhos, mas também uma profunda tristeza.

— Aleksander... — sussurrou ela fracamente.

Ele deu mais dois passos, os olhos brilhando com uma loucura desesperada, prestes a tomá-la em seus braços, mas a violência do ataque e da magia descontrolada havia cobrado seu preço na arquitetura ancestral do palácio.

Um estalo ensurdecedor ecoou acima de suas cabeças.

— A abóbada está cedendo! — gritou Nikolai, puxando Alina para trás enquanto empurrava Mal para o lado. — O teto vai desabar!

Colunas inteiras de sustentação começaram a se partir como gravetos secos. Toneladas de pedra, argamassa e ferro forjado começaram a cair bem entre Aleksander e o grupo onde Clara estava.

Mal rastejou rapidamente, ignorando os escombros, e segurou Clara pelos braços, puxando-a para trás junto com Alina, para longe da zona de impacto direta dos pilares que ruíam.

— Tire as mãos dela! — berrou Kirigan, a voz carregada de uma fúria infernal. — TIRE AS SUAS MÃOS IMUNDAS DA MINHA MULHER!

Ele correu para atravessar o espaço, para alcançá-la antes que a barreira de pedras os separasse, mas uma parede inteira desabou no centro do salão. A poeira espessa subiu em uma nuvem cinzenta, e blocos gigantescos de rocha despencaram, criando uma barreira intransponível que dividiu o salão em dois.

Restava apenas uma fresta, uma fenda estreita entre os escombros e uma coluna rachada, onde Aleksander ainda podia ver o outro lado.

Do lado dele, as sombras se agitavam como um oceano em tempestade, descontroladas, ameaçando engolir tudo ao redor. Do outro lado, Alina usava sua luz para manter a poeira afastada enquanto uma curandeira tentava desesperadamente conter o sangue que escorria do corpo de Clara, que gemia baixinho, acolhida nos braços da Conjuradora do Sol.

Aleksander encostou as duas mãos ensanguentadas contra os blocos caídos, seus olhos cravados através da fenda. Ele não olhou para o trono destruído de Nikolai. Não olhou para Alina com triunfo militar. Olhou apenas para a esposa ferida, e depois, ergueu os olhos para Alina e Nikolai com uma escuridão tão venenosa e insana que até o príncipe corsário deu um passo trêmulo para trás.

Não havia a fria cortesia militar de outrora. Não havia o homem sedutor que manipulava a corte. Havia apenas um deus das trevas que acabara de ver sua única fraqueza ser tocada.

— Ouçam com muita atenção — disse Aleksander. Sua voz não foi um grito desta vez, mas algo infinitamente pior: um sussurro baixo, cavernoso, que reverberou dentro dos ossos de cada um deles. — Se um único suspiro faltar no peito dela... se aquela ferida tirar dela a força dos seus passos... eu não vou matar vocês.

Ele cravou os dedos nas pedras com tanta força que o mármore trincou sob suas luvas.

— A morte seria a maior misericórdia que suas mentes patéticas poderiam sonhar. Se a respiração de Clara parar, eu juro pela terra e pelo céu que vou arrancar a luz de cada um dos seus olhos enquanto ainda estiverem vivos. Vou abrir o peito de cada pessoa nesta cidade e queimar suas almas gota a gota. Eu manterei seus pulmões respirando cinzas e agonia por séculos. Vocês implorarão pelo fim de joelhos, rastejando no sangue de tudo o que amam, e eu farei com que vejam o mundo inteiro queimar em um pesadelo eterno... antes de sequer permitir que seus corações parem de bater.

O silêncio do outro lado foi absoluto. Ninguém ousou respirar. Nem mesmo Nikolai encontrou sarcasmo em seus lábios; o terror nos olhos de Alina era puro e paralisante. Eles sabiam, com a certeza mais aterrorizante de suas vidas, que ele não estava blefando. Ele cumpriria cada palavra se Clara não sobrevivesse.

Aleksander voltou o olhar para a brecha, encontrando novamente os olhos semicerrados de Clara. A loucura assassina em suas feições desmoronou em uma súplica agonizante.

— Fique viva, Clara — implorou ele, a voz falhando em um sussurro dilacerado. — Por favor... por mim. Fique viva. Eu vou encontrá-la.

Com um último estrondo pavoroso, o restante da estrutura cedeu. As pedras rolaram com violência brutal, selando a fresta completamente. A barreira agora era sólida, uma parede impenetrável de pedra e escombros que cortou a visão e abafou qualquer outro som do outro lado.

No silêncio carregado de fumaça e poeira que se seguiu, Alina caiu de joelhos ao lado do corpo trêmulo de Clara. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar as ataduras.

— Pelo amor dos Santos... — sussurrou Alina com os lábios brancos, olhando para Nikolai e depois para a mulher que sangrava no chão. — Curem ela. Rápido! Não deixem ela morrer... por tudo o que é sagrado, mantenham essa mulher viva!

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