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REDENÇÃO [JK]

Fandom: BTS

Criado: 13/10/2026

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A Gravidade do Que Deixamos Para Trás

O vento cortante do final de tarde arrastava folhas secas pelo pátio central da universidade, mas Alisson Miller mal sentia a queda brusca de temperatura. Com as mãos enfiadas nos bolsos largos da jaqueta de couro surrada e a mochila pendurada em apenas um dos ombros largos, ela mantinha o olhar fixo na quadra externa de basquete. O metal frio do piercing no canto do lábio inferior tocava sua pele a cada vez que ela travava a mandíbula, um tique involuntário que denunciava sua inquietação.

Ao seu lado, encostado na mureta de concreto, Bryan observava o movimento com a habitual expressão plácida. Alto, com a musculatura evidente sob o casaco esportivo pelas horas dedicadas ao boxe, ele parecia imune ao burburinho dos estudantes ao redor.

— Você devia ter colocado uma blusa mais grossa — comentou Bryan, a voz grave cortando o barulho das conversas distantes. — Não quero ter que carregar você gripada pelo dormitório.

Alisson soltou uma risada curta, sem humor, soprando uma mecha ondulada de cabelo preto para longe da testa.

— Cuide da sua própria vida, Bryan. Quem precisa de babá aqui não sou eu.

— Ela tem razão, sabia? — interveio Emi, aproximando-se com dois copos térmicos de café. Seu estilo casual e prático combinava perfeitamente com o ritmo descomplicado com que levava os dias. Ela entregou um dos copos a Bryan, deslizando os dedos de forma natural e sem afetação pelo braço do rapaz. — O Alisson é feito de gelo e teimosia. Frio nenhum derruba essa aí.

— Obrigado pelo voto de confiança, Emi — murmurou Alisson, oferecendo à garota um meio sorriso genuíno.

Emi apenas deu de ombros, bebericando sua bebida enquanto se aninhava sutilmente contra o ombro de Bryan. Os dois mantinham aquela dinâmica há anos: sem cobranças públicas, sem pedidos formais ou discussões desnecessárias sobre rótulos. Era uma paz que Alisson, lá no fundo, invejava secretamente, ainda que sua própria vida amorosa parecesse ter tomado um rumo muito mais rígido e estruturado nos últimos meses.

O som de passos firmes contra o pavimento de pedras atraiu a atenção de Alisson. Ela ergueu os olhos escuros e profundos e encontrou a figura impecável de Kim Taehyung caminhando em sua direção.

Taehyung parecia ter saído diretamente de uma campanha de moda europeia. Trajava um sobretudo de lã preta de corte cirúrgico sobre uma camisa escura alinhada, o andar seguro e a simetria marcante de seus traços atraindo olhares por onde passava. Ele exalava uma compostura aristocrática, madura e inabalável — exatamente o porto seguro que ela havia buscado quando tudo ao seu redor parecia prestes a ruir.

— Você está aqui fora há muito tempo — disse Taehyung ao parar diante dela. A voz dele era um veludo grave, calma e envolvente, enquanto ele estendia uma das mãos enluvadas de couro fino para ajeitar a gola da jaqueta de Alisson, roçando os nós dos dedos no pescoço marcado de tatuagens dela. — Deveria ter me esperado dentro da biblioteca, como combinamos.

— O ar lá dentro estava pesado demais — respondeu Alisson, permitindo o toque, embora seus músculos involuntariamente se retesassem de leve. — Bryan e Emi acabaram de chegar do treino.

Taehyung desviou os olhos amendoados para o cunhado e para a garota ao lado dele. Ele inclinou a cabeça em um cumprimento polido, formal até demais para um ambiente universitário.

— Bryan. Emi. Boa tarde.

— E aí, Taehyung — respondeu Bryan, impassível. O irmão mais velho de Alisson nunca havia sido fã da polidez excessiva de Taehyung, mas tolerava o homem pelo bem da irmã. Taehyung a tratava com reverência e estabilidade, e isso bastava. Por enquanto.

— Nós íamos comer alguma coisa perto do centro acadêmico — sugeriu Emi, quebrando a frieza sutil que sempre parecia se instalar no ar quando Taehyung chegava. — Querem vir com a gente?

— Alisson tem compromisso comigo hoje — Taehyung respondeu por ela, mantendo um tom suave, porém com uma firmeza possessiva que não abria margem para debates. A mão dele desceu com autoridade natural até a cintura da namorada, pousando com firmeza sobre o couro escuro da jaqueta dela. — Fiz uma reserva para o jantar. Precisamos ir se não quisermos pegar o trânsito da avenida principal.

Alisson abriu a boca para protestar — odiava quando ele falava por ela —, mas antes que pudesse formular qualquer palavra, o som característico de um motor pesado ecoou pelo estacionamento lateral, chamando a atenção de todos no pátio.

Era uma motocicleta preta de alta cilindrada. O piloto desacelerou, parando rente à calçada arborizada. Desligou a ignição, desceu com movimentos ágeis e retirou o capacete, sacudindo os cabelos pretos levemente ondulados que caíram sobre a testa em desalinho premeditado.

O coração de Alisson falhou uma batida inteira. O ar sumiu de seus pulmões com tanta violência que ela sentiu as pontas dos dedos arderem.

Bryan se endireitou instantaneamente na mureta, a postura relaxada evaporando em uma fração de segundo.

— Não pode ser... — sussurrou o irmão.

Jeon Jungkook prendeu o capacete na lateral da moto e ergueu o rosto.

Ele continuava alto, o porte atlético e os ombros largos ainda mais desenvolvidos do que Alisson se lembrava, sem dúvida moldados pelos treinos exaustivos de basquete e pela vida longe de casa. Ele vestia uma jaqueta de couro escura sobre um moletom cinza largo, camisas pretas desgastadas e o mesmo ar cru, urbano e magnético. No canto do lábio inferior reluzia uma argola de metal, quase idêntica à que Alisson usava. E os olhos escuros... aqueles olhos profundos, levemente avermelhados de cansaço ou de pura intensidade, varreram a multidão até colidirem diretamente contra ela.

Cinco anos.

Cinco longos e tortuosos anos haviam se passado desde a noite do festival de encerramento do colegial. A noite em que Alisson havia jogado todo o seu orgulho aos pés daquele garoto, confessando um sentimento que ardia em seu peito desde a infância, quando ele não passava do melhor amigo inseparável de seu irmão. E a resposta dele diante de dezenas de olhares curiosos havia sido o silêncio cortante, seguido por uma discussão feroz, palavras cruéis cuspidas no calor do momento e a humilhação pública que ela jamais perdoara. Na manhã seguinte, Jungkook simplesmente havia feito as malas e partido para o México, deixando para trás nada além de cinzas e um coração em pedaços.

E agora, ali estava ele. Respirando o mesmo ar. Pisando no mesmo solo.

Jungkook deu os primeiros passos em direção ao grupo. Ele não parecia surpreso em vê-los; talvez soubesse exatamente onde encontrá-los. Bryan deu dois passos à frente, saindo de perto de Emi para interceptar o amigo de longa data.

— Você voltou — disse Bryan, a voz neutra, um escudo pragmático cobrindo a surpresa.

— Voltei — respondeu Jungkook. A voz dele era mais rouca, mais madura do que a memória que Alisson guardava em seus pesadelos. Ele parou a poucos metros de Bryan. — O processo de transferência da faculdade de Guadalajara finalmente saiu. Cheguei ontem à noite.

Bryan o encarou por longos segundos, medindo o homem à sua frente. Havia uma irmandade inquebrável construída entre os dois desde a infância, mas Alisson era seu sangue. E o sofrimento da irmã durante aquele primeiro ano de ausência de Jungkook havia deixado cicatrizes que Bryan não estava disposto a ver reabertas.

— Você devia ter avisado — Bryan pontuou, direto, sem rodeios.

— Eu queria ver você pessoalmente — respondeu Jungkook, mas seus olhos já não estavam em Bryan.

O olhar escuro de Jungkook deslizou lentamente, pousando sobre Alisson. O impacto foi quase físico. Por um breve instante, a máscara de frieza urbana do rapaz fraquejou, e uma dor crua e desesperada cintilou no fundo de suas pupilas. Ele viu as tatuagens subindo pelo pescoço dela, a mesma expressão feroz e altiva, o piercing prateado brilhando no lábio. Ela estava deslumbrante, letal e inalcançável.

E então ele notou o braço em volta da cintura dela.

O olhar de Jungkook subiu lentamente até encontrar o homem ao lado de Alisson. O ar ao redor pareceu rarear. A rivalidade antiga entre Jeon Jungkook e Kim Taehyung não precisava de palavras para ser revivida; ela existia no sangue, nas disputas territoriais de quando ainda eram adolescentes e dividiam as quadras e os círculos sociais da cidade.

O maxilar de Taehyung endureceu. A mão dele apertou sutilmente a cintura de Alisson, um gesto imperceptível para quem olhava de longe, mas carregado de uma possessividade fria e afiada para quem estava sob o seu toque.

— Ora, se não é o filho pródigo — disse Taehyung, quebrando o silêncio com uma polidez gélida que cortava como navalha. — O México não foi acolhedor o bastante para mantê-lo por lá, Jungkook?

Jungkook deu meio passo à frente, as mãos fechando-se em punhos dentro dos bolsos do moletom. Um brilho perigoso acendeu-se em seu semblante cansado.

— Decidi que tinha assuntos inacabados por aqui, Kim — retrucou Jungkook, a voz baixa, desafiadora. — E pelo visto, algumas coisas continuam tão artificiais quanto antes.

Taehyung soltou um riso discreto, sem qualquer traço de alegria.

— As coisas mudaram bastante enquanto você esteve fora. A maturidade costuma afastar as pessoas do passado e trazê-las para onde elas realmente pertencem. Não é verdade, querida?

O uso daquele apelido fez os dentes de Jungkook rangerem de forma audível. Ele ignorou Taehyung por completo e fixou seu olhar unicamente em Alisson.

— Alisson... — chamou ele, e o modo como seu nome escorregou pelos lábios dele fez a garota estremecer de raiva.

— Não dê mais um passo, Jeon — cuspiu ela, a voz carregada de um veneno que acumulava anos de rancor. Ela deu um passo à frente, desvencilhando-se do aperto de Taehyung apenas para encará-lo de igual para igual. — Não finja que temos algo a dizer um ao outro.

— Alisson, precisamos conversar. Só dez minutos — pediu Jungkook, e havia uma urgência quase febril em sua voz, uma rachadura evidente na casca dura que ele sempre ostentava. — Você sabe que as coisas não foram como você pensa. Naquela noite...

— Cale a boca! — interrompeu ela, o tom subindo o suficiente para atrair a atenção de estudantes próximos. Seus olhos escuros ardiam. — Você teve a chance de falar cinco anos atrás. Você preferiu me humilhar na frente de todo mundo e fugir como um covarde na manhã seguinte. Você não existe para mim. É apenas um fantasma inconveniente que devia ter continuado do outro lado da fronteira.

Cada palavra proferida por ela acertou Jungkook como um golpe no estômago. O piercing no lábio inferior dele tremeu imperceptivelmente. Ele queria gritar a verdade. Queria dizer que o pânico o havia consumido naquela noite, que Bryan o havia alertado sobre como ele destruiria tudo se ficassem juntos, que ele era um garoto quebrado sem nada a oferecer e que a amava tanto, mas tanto, que a ideia de arrastá-la para o caos de sua vida o aterrorizara até a loucura. Ele havia ido para o México para tentar esquecê-la, apenas para descobrir que a imagem dela estava gravada a fogo em cada pensamento seu.

Mas ele não podia dizer nada daquilo ali. Não com Taehyung sorrindo com desprezo ao fundo. Não com Bryan observando tudo com um olhar vigilante e protetor.

— Chega, Jungkook — interveio Bryan, dando um passo firme e colocando seu porte imponente entre o amigo e a irmã. A lealdade de Bryan a Jungkook era vasta, mas o limite sempre fora e sempre seria a estabilidade de Alisson. — Não hoje. Vá para o seu dormitório. Eu passo lá mais tarde para conversarmos. Mas deixe a Alisson em paz.

Jungkook olhou para Bryan, vendo a linha intransponível traçada nos olhos do melhor amigo. Ele respirou fundo, tentando conter o turbilhão que ameaçava explodir em seu peito.

Taehyung deu um passo à frente, reassumindo sua posição ao lado de Alisson. Com movimentos deliberadamente lentos e elegantes, ele passou o braço pelos ombros dela, trazendo-a de volta para perto de si. O recado estava dado: ela agora pertencia ao seu mundo, um mundo de estabilidade, classe e controle, longe do asfalto sujo e das jaquetas rasgadas que Jungkook representava.

— Vamos embora, Alisson — disse Taehyung, a voz suave, oferecendo o refúgio seguro de sua presença refinada. — O ar aqui fora está insuportável.

Alisson não respondeu. Ela lançou um último olhar para Jungkook — um olhar faiscante de desprezo impenetrável — e virou as costas sem hesitar, deixando-se conduzir por Taehyung em direção ao sedã executivo estacionado a poucos metros dali.

Emi tocou o braço de Bryan, murmurando algo baixo sobre encontrá-lo depois, e se afastou com passos rápidos para lhes dar privacidade.

Jungkook permaneceu imóvel no centro do pátio, vendo as lanternas traseiras do carro de Taehyung se acenderem e o veículo cortar o campus em direção à saída. O vento gelado soprou novamente, chicoteando os cabelos sobre seus olhos cansados.

— Você não devia ter vindo sem me preparar — disse Bryan, a voz fria, parando ao lado do rapaz. — Ela reconstruiu a vida dela, Jeon. O Taehyung é um arrogante prepotente, mas ele não parte o coração dela. Ele dá a segurança que você arrancou quando foi embora.

Jungkook virou o rosto lentamente para encarar o amigo de infância. Uma dor muda e desesperadora brilhava em suas íris escuras.

— Ele não a ama, Bryan — Jungkook murmurou, a voz falhando quase de forma imperceptível antes de recuperar a aspereza. — Ele a coleciona. E ela não o ama. Ela só está tentando me apagar da cabeça dela.

— Não importa o que ela está tentando fazer — retrucou Bryan, inflexible. — Se você tentar derrubar a parede que ela construiu, ela vai despedaçar você primeiro. E se isso acontecer, eu não vou intervir para salvar sua pele.

Bryan deu dois tapinhas secos no ombro do amigo — um gesto que carregava tanto a fraternidade do passado quanto a advertência brutal do presente — e deu meia-volta, caminhando de volta aos prédios universitários.

Sozinho no asfalto frio, Jeon Jungkook tocou o próprio lábio furado pelo piercing de metal, lembrando-se com precisão excruciante do dia em que Alisson havia feito o dela, desafiando o mundo ao lado dele.

Ele havia retornado. Mas a garota que ele sempre amou agora o odiava com todas as forças que possuía. E a batalha pelo que haviam perdido estava apenas começando.

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