
𝐏𝐎𝐑 𝐓𝐑Á𝐒 𝐃𝐎 𝐒𝐈𝐋Ê𝐍𝐂𝐈𝐎
Fandom: Tarzan
Criado: 13/10/2026
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O Rugido do Silêncio
O zumbido constante nas orelhas de Kimberlly era a única coisa que competia com o som das chamas consumindo o que restara da fuselagem do pequeno monomotor. O cheiro de combustível e borracha queimada impregnava o ar quente da savana, tornando cada respiração um suplício. Ela tossiu, sentindo o gosto metálico de sangue na boca, e tentou se levantar.
Seus 1,60 m de altura pareciam minúsculos diante da vastidão dourada e implacável da África. O horizonte tremeluzia sob o sol de 2021, uma miragem de calor que prometia nada além de isolamento.
— Por favor... — sua voz saiu como um sussurro rachado. — Alguém?
Não houve resposta. Apenas o estalo da madeira seca e o grito distante de uma ave de rapina. Kimberlly olhou para os destroços. O piloto estava morto; ela sabia disso sem precisar verificar. O impacto fora direto no cockpit. Por algum milagre, ou talvez por puro azar, a parte traseira onde ela estava sentada se desprendeu antes da explosão final.
Ela caminhou trôpega, a mente nublada pelo choque. A lealdade que sempre a definira a fazia querer ficar ali, esperar por um resgate que talvez nunca viesse, mas o instinto de sobrevivência gritava mais alto. Ela precisava de água. Precisava de sombra.
Horas se passaram. O sol começou a declinar, pintando o céu com tons de sangue e violeta. Kimberlly sentia que suas pernas iriam ceder a qualquer momento quando avistou uma formação rochosa imponente, cercada por uma vegetação estranhamente densa, quase como uma pequena selva encravada no coração da savana seca.
Foi quando ela o viu.
Ele não apareceu caminhando; ele simplesmente estava lá, como se tivesse se materializado a partir das sombras das acácias.
Era um homem colossal. Mesmo de longe, Kimberlly pôde notar a envergadura de seus ombros e a musculatura definida que parecia esculpida em granito. Ele usava calças de carga gastas e uma camisa de linho aberta, revelando cicatrizes que contavam histórias de batalhas que ela sequer conseguia imaginar.
Assustada, ela tropeçou em uma raiz saliente e caiu de joelhos.
— Quem é você? — ela perguntou, a voz falhando.
O homem não respondeu de imediato. Ele se aproximou com a graça predadora de um leopardo, cada passo calculado e silencioso. Quando parou a poucos metros dela, a sombra dele a cobriu completamente. Ele tinha pelo menos 1,90 m, e seus olhos, de um azul gélido e penetrante, pareciam ler cada pensamento dela.
— Você não deveria estar aqui — disse ele. A voz era profunda, rouca, como se não fosse usada há muito tempo.
— O avião... caiu. Eu preciso de ajuda — Kimberlly tentou se levantar, mas a tontura a venceu.
Antes que ela atingisse o chão, mãos grandes e ásperas a seguraram pelos braços com uma força surpreendente.
— Você é barulhenta — rosnou ele, a impaciência evidente em seu tom. — E está atraindo atenção indesejada.
— Eu sinto muito — sussurrou ela, as lágrimas finalmente começando a descer. — Eu só quero ir para casa.
O homem soltou um suspiro pesado, um som que parecia mais um rosnado contido.
— Não há casa para onde voltar se você morrer antes do anoitecer. Venha.
Ele a pegou no colo como se ela não pesasse nada. Kimberlly, exausta e sem forças para protestar, encostou a cabeça no peito dele. O coração do homem batia em um ritmo lento e poderoso. Havia um cheiro nele — terra, chuva e algo selvagem que ela não conseguia identificar.
Eles entraram na densa vegetação. O abrigo dele não era uma caverna, mas uma estrutura complexa construída entre as árvores e as rochas, camuflada de forma tão perfeita que ela passaria por ali cem vezes sem notar.
Ele a colocou sobre uma esteira de fibras naturais e, sem dizer uma palavra, entregou-lhe uma cabaça com água fresca. Kimberlly bebeu avidamente.
— Meu nome é Kimberlly — disse ela, limpando a boca com as costas da mão. — E o seu?
O homem parou o que estava fazendo — ele afiava uma faca longa com uma pedra — e olhou para ela. O silêncio se prolongou por tanto tempo que ela achou que ele não responderia.
— Kenneth — disse ele, por fim.
— Kenneth... — ela repetiu, tentando buscar na memória aquele nome. — Você mora aqui sozinho?
— Perguntas demais, Kimberlly.
Ele se levantou e caminhou até a abertura da estrutura, observando a escuridão que agora dominava a savana.
— Durma. Amanhã eu te levo até a fronteira norte.
— Por que não me leva para a cidade? Ou para um posto de rádio?
Kenneth virou-se bruscamente, a pouca paciência que possuía claramente esgotada.
— Porque na cidade há pessoas. E pessoas são o motivo de eu estar aqui.
— Você está fugindo de algo? — perguntou ela, a doçura natural de sua voz suavizando a pergunta invasiva.
Kenneth estreitou os olhos.
— Durma — repetiu ele, em um tom que não admitia réplicas.
Kimberlly acordou com o som de algo que não pertencia à natureza. Não era o rugido de um leão ou o riso das hienas. Era o som rítmico e mecânico de pás de helicóptero cortando o ar.
Ela se sentou rapidamente, sentindo o corpo dolorido. Kenneth já estava de pé, imóvel como uma estátua, observando o céu através de uma fresta nas folhagens.
— São eles? — perguntou ela, aproximando-se dele.
— Eles quem? — Kenneth perguntou, sem desviar os olhos.
— O resgate.
Kenneth soltou uma risada seca, desprovida de humor.
— Aquilo não é um resgate, Kimberlly. É uma busca. E eles não estão procurando por você.
— Como você pode saber?
Ele se virou para ela, e pela primeira vez, Kimberlly viu um lampejo de algo que parecia vulnerabilidade, ou talvez apenas um cansaço milenar, em seus olhos destemidos.
— Porque eles me procuram há dez anos.
Kimberlly sentiu um calafrio. Aquele homem... Kenneth. O nome finalmente clicou em sua mente. Ela se lembrou das manchetes antigas, das teorias da conspiração que inundavam a internet anos atrás. Kenneth Clayton, o herdeiro de um império industrial que desaparecera após um suposto acidente em uma expedição na África. O homem que, segundo os tabloides, havia "voltado às raízes" de seus ancestrais de forma violenta e definitiva.
— Você é o filho dos Clayton — sussurrou ela, chocada. — O homem que morreu na selva.
— O homem que morreu na selva teria tido uma vida mais fácil — disse ele, voltando a organizar seus pertences básicos. — Pegue suas coisas. Temos que nos mover. Eles estão usando rastreadores térmicos.
— Mas o meu avião... — Kimberlly parou, uma realização terrível surgindo em sua mente. — O piloto mudou a rota antes de cair. Ele disse que havia um erro no GPS, mas... ele parecia nervoso.
Kenneth parou e olhou para ela com uma intensidade renovada.
— O que você estava fazendo naquela aeronave?
— Eu sou assistente de pesquisa da Fundação Greystoke. Eu estava levando documentos para o escritório em Nairóbi.
Kenneth soltou um palavrão em uma língua que ela não reconheceu. Ele se aproximou dela, invadindo seu espaço pessoal, a altura dele a obrigando a inclinar o pescoço para trás.
— A fundação? — ele rosnou. — Você não caiu por acidente, Kimberlly. Você foi a isca.
— Isca? Do que você está falando? Eu nem te conhecia!
— Mas eles conhecem você. E sabem que eu não deixaria uma "civil" morrer no meu território se eu pudesse evitar. Eles conhecem meu código, mesmo que eu tenha tentado esquecê-lo.
O som do helicóptero estava mais próximo agora. Kenneth pegou um arco longo e uma aljava de flechas que estavam escondidos sob um fundo falso no chão.
— Escute bem — disse ele, segurando-a pelos ombros. A força dele era intimidadora, mas Kimberlly não sentiu medo, apenas uma estranha urgência. — Se você quer viver para ver o sol de amanhã, você vai fazer exatamente o que eu disser. Sem perguntas. Sem hesitação. Entendeu?
Kimberlly olhou nos olhos daquele homem selvagem, o homem que o mundo chamava de lenda e a sociedade chamava de fantasma. Ela viu a determinação ali, mas também viu uma solidão profunda que a fez querer segurar a mão dele e dizer que tudo ficaria bem.
— Eu confio em você — disse ela, com a sinceridade que era sua marca registrada.
Kenneth pareceu pego de surpresa pela resposta. Ele piscou, a expressão endurecida vacilando por um segundo antes de voltar ao normal.
— Então corra.
Eles saíram do abrigo no momento em que a luz de busca do helicóptero varreu a área. Kenneth se movia pela mata com uma agilidade sobre-humana, saltando troncos e deslizando por encostas como se fizesse parte da própria terra. Kimberlly fazia o melhor que podia para acompanhá-lo, o coração batendo na garganta.
— Por aqui! — Kenneth a puxou para trás de uma rocha enorme enquanto uma rajada de tiros rasgava as folhas acima deles.
— Eles estão atirando! — gritou ela, aterrorizada.
— Eu disse que não era um resgate — Kenneth disse, sua voz agora fria e focada. Ele preparou uma flecha. — Eles não querem me levar vivo. E agora que você me viu, eles não querem você viva também.
— Por que você não volta? — ela perguntou, enquanto ele se posicionava para revidar. — Por que se esconder por tanto tempo?
Kenneth disparou a flecha. Um grito veio da mata à frente, seguido pelo som de um corpo caindo.
— Porque o que eu deixei para trás é muito mais perigoso do que qualquer coisa nesta savana — ele respondeu, olhando para ela por cima do ombro. — O nome Clayton não é um título, Kimberlly. É uma sentença de morte.
Uma explosão próxima fez a terra tremer. Kenneth cobriu o corpo dela com o seu, protegendo-a dos detritos. Por um momento, o mundo se resumiu ao peso dele sobre ela e ao calor de sua pele.
— Por que você está me ajudando? — ela sussurrou contra o peito dele. — Seria mais fácil me deixar para trás.
Kenneth se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela. A impaciência parecia ter evaporado, substituída por algo mais sombrio.
— Talvez — disse ele — eu esteja cansado de ser o único segredo desta floresta.
Ele a ajudou a se levantar.
— Temos que chegar ao rio. Se conseguirmos cruzar antes do amanhecer, eles perdem o nosso rastro térmico na água fria.
— E depois? — perguntou ela.
Kenneth olhou para o horizonte, onde as primeiras luzes do dia começavam a surgir, revelando a silhueta de montanhas distantes.
— Depois, Kimberlly, nós vamos descobrir quem pagou para aquele avião cair. E eu vou mostrar a eles por que as pessoas costumavam ter medo do escuro.
Ele estendeu a mão para ela. Kimberlly olhou para a palma calosa e grande, depois para o rosto do homem que era um mistério envolto em músculos e cicatrizes. Ela sabia que, ao aceitar aquela mão, sua vida comum estaria acabada para sempre. Mas, olhando para Kenneth, ela percebeu que talvez nunca tivesse sido realmente comum. Talvez ela estivesse apenas esperando por um motivo para ser corajosa.
Ela colocou a mão na dele.
— Então vamos — disse ela.
Kenneth deu um curto aceno de cabeça, um gesto de respeito que valia mais do que mil palavras, e juntos eles mergulharam na vegetação, desaparecendo antes que o helicóptero pudesse localizá-los novamente. O passado estava em seu encalço, mas na imensidão da África, o passado teria que aprender a caçar em um terreno que pertencia, por direito e por força, a Kenneth.
