
Atrás da Porta Trancada
O calor de Sorriso parecia derreter o asfalto antes mesmo das oito da manhã, e dentro da sala do oitavo ano da Escola Estadual Militar Tiradentes a situação não era muito diferente. Mesmo com os ventiladores de teto girando na velocidade máxima e fazendo um barulho metálico irritante, o ar permanecia abafado. Os alunos usavam a farda regulamentar completa: calça pesada, camisa cáqui engomada por pura obrigação materna e coturnos brilhando depois de muita graxa aplicada no domingo à noite.
No fundo da sala, longe dos olhos momentaneamente ausentes do monitor disciplinar, a anarquia corria solta.
Anthony estava sentado torto na carteira, com uma perna jogada por cima do apoio de braço, jogando uma bolinha de papel amassada para o alto com total desdém. Ele tinha treze anos recém-completados, o cabelo castanho-escuro levemente ondulado que vivia no limite do corte padrão do colégio e uma postura que gritava marra pura para compensar o fato de ser o mais baixo do grupo.
Sentado na carteira ao lado, ocupando quase o dobro do espaço físico, estava Lucas. Com o cabelo raspado na máquina dois, a mandíbula quadrada e os ombros largos que pareciam de um garoto de quinze anos, Lucas era pura força bruta e provocação barata.
— Caralho, Anthony, joga essa merda de papel de novo pra ver se eu não enfio essa porra na tua goela — rosnou Lucas, empurrando a carteira de Anthony com o pé. O impacto fez a madeira ranger alto no chão de cimento queimado.
Anthony deu uma risada curta e debochada, ajeitando a boina no bolso da calça antes de atirar o projétil bem no meio da testa de Lucas.
— Cala a boca, seu arrombado! Vai fazer o quê? Vai chorar pro sargento? — disparou Anthony, a língua afiada cuspindo as palavras com a velocidade de quem já nasceu na defensiva. — Fica aí se achando o machão só porque tem tamanho de armário, seu viadinho enrustido.
A palavra ecoou com aquele tom grotesco e exagerado que garotos de treze anos usavam para tentar provar para o mundo — e para si mesmos — que eram inquebráveis, normais e absolutamente imunes a qualquer sentimento que não fosse raiva ou escárnio. Anthony usava aquela palavra como um escudo farpado. Se atacasse primeiro, ninguém desconfiaria que seu estômago dava nós apertados toda vez que Lucas passava o braço suado pelo pescoço dele na saída do treino físico.
Lucas cerrou os olhos escuros, avançando sobre a carteira e puxando Anthony pela gola engomada da farda.
— Repete essa porra se você é homem, seu merda — disse Lucas, a voz engrossada numa tentativa falha de intimidar, embora a respiração dele estivesse descompassada e quente contra o rosto de Anthony. — Tu que fica me olhando torto o dia inteiro com essa cara de frango. Sai fora, odeio viadagem perto de mim.
— Então me solta, caralho! Tá me agarrando por quê? É fã ou quer um autógrafo? — rebateu Anthony, dando um tapa na mão pesada de Lucas, mas sentindo o pulso acelerar num ritmo doentio bem na base da garganta. O cheiro de desodorante barato misturado com suor e tecido novo de Lucas invadia seus sentidos, e Anthony queria se enfiar num buraco por saber que achava aquilo bom.
— Solto porque não quero pegar sua sarna — retrucou Lucas, largando o tecido com um empurrão que quase derrubou o menor da cadeira.
Lucas virou para o outro lado, cruzando os braços musculosos e encarando a lousa em branco com a cara amarrada. As veias do pescoço dele estavam saltadas. Por baixo da fachada agressiva e dos palavrões cuspidos a cada três frases, as palmas das mãos de Lucas estavam encharcadas de suor frio. Ele odiava aquela raiva falsa que tinha que encenar todo santo dia só para não deixar transparecer que reparar no jeito que a gola de Anthony ficava torta, ou em como os olhos dele brilhavam quando ficava puto, era a única coisa interessante naquela escola militar desgraçada.
A porta rangeu e o monitor, um cabo de feição cansada, colocou a cabeça para dentro da sala.
— Atenção, oitavo ano! Em forma no pátio para o embarque! O ônibus do passeio histórico chegou. Sem baderna nos corredores ou vão perder o ponto de conduta e passar a tarde marchando no sol!
Um murmúrio de descontentamento e alívio coletivo varreu a turma. O passeio até o centro de memória e museu regional de Sorriso era uma das poucas brechas na rotina militar da semana, e ninguém ali queria perder a chance de fingir interesse em ferramentas agrícolas antigas para não ter aula de matemática.
Anthony pegou sua mochila de um ombro só com um tranco, marchando em direção à porta com passadas rápidas, ignorando deliberadamente os passos pesados do coturno de Lucas logo atrás dele.
O ônibus escolar cheirava a estofado velho, poeira avermelhada do cerrado e óleo diesel queimado. A viagem pelas avenidas largas de Sorriso, ladeadas por armazéns gigantes de soja e concessionárias de tratores, era sempre uma barulheira só. No fundo do ônibus, longe da visão do cabo que ia sentado ao lado do motorista conferindo pranchetas, a guerra particular continuava.
Lucas havia se jogado no banco ao lado de Anthony antes mesmo que qualquer outro aluno pudesse pensar em sentar ali. Para manter as aparências, Lucas tinha feito questão de empurrar a mochila contra as costelas do menor.
— Vai pro canto, nanico. Tá ocupando o banco todo com essa bunda de grilo — disse Lucas, esticando as pernas longas e batendo os joelhos no encosto da frente.
— Por que você não vai sentar com a tua mãe, seu filho da puta? — Anthony chiou baixinho, encostando a testa no vidro quente da janela. — Tinha banco vazio lá na frente e você vem
