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Fandom: Nenhum
Criado: 15/10/2026
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Pequenas Guerras e Outros Afetos
O barulho metálico da colherzinha de silicone batendo contra o prato de louça já estava se repetindo pela vigésima vez. A cozinha ampla e moderna, equipada com o que havia de mais caro e reluzente em eletrodomésticos importados, cheirava a purê de abóbora fresco e frango desfiado com legumes, mas o clima ao redor da ilha central parecia o de uma sala de operações militares prestes a colapsar.
Emanuel respirou fundo pelo nariz, puxando o ar devagar para tentar acalmar os nervos que teimavam em pulsar na têmpora. Ele vestia uma camiseta preta simples de algodão grosso, com as mangas curtas revelando os braços cobertos de tatuagens detalhadas — peças de arte que haviam construído seu renome e fortuna pelos quatro cantos do mundo —, mas nenhuma habilidade técnica ou perspicácia para fechar contratos internacionais parecia útil naquele exato minuto.
— Maya, abre a boca. Só um pouquinho, filha. Olha o aviãozinho — pediu ele com a voz grave, forçando uma modulação suave que não combinava muito com sua expressão rígida de concentração.
A menina, sentada em sua cadeirinha alta de madeira clara, simplesmente virou o rosto para o lado oposto, enfiando a bochecha gordinha contra o encosto acolchoado. Ela fechou os olhos escuros com força, exibindo duas covinhas fofas e um biquinho manhoso que deixava explícito o seu desinteresse absoluto pela comida. Não chorava de verdade, apenas soltava um murmúrio dengoso, esfregando as mãozinhas limpas nos olhos para indicar que queria colinho, não almoço.
Logo ao lado, em uma cadeirinha idêntica, o cenário era completamente diferente. Ágata, a filha que tivera com Sara, estava com a cara e as mãos lambuzadas até as sobrancelhas de purê laranja. A menina de um ano e duas semanas batia palmas entusiasmadas, mastigando o que cabia em sua boca com a fúria e o entusiasmo de quem adorava comer e fazer bagunça ao mesmo tempo.
Emanuel olhou para a tigela de Ágata, que já estava quase vazia, e depois para a tigela de Maya, que continuava intacta. A veia em sua testa saltou sutilmente.
— Eduarda, ela precisa comer — disse ele, voltando o olhar tenso para o outro lado da cozinha. — Se ela não almoçar agora, vai ficar com fome na hora da soneca, vai acordar irritada e a rotina inteira desanda até a noite. Ela precisa dos nutrientes.
Apoiada casualmente contra a bancada de mármore, Eduarda segurava uma xícara de chá morno entre as duas mãos, observando a cena com uma serenidade desarmante. Aos vinte anos, ela carregava uma graciosidade quase flutuante, própria dos anos dedicados à barra de ballet e ao ritmo compassado da dança. Vestia uma blusa de alcinhas cor de lavanda, com tecido fino que contornava de forma suave a curva macia de seus seios médios, e uma saia longa e esvoaçante que deixava seus pés descalços à mostra. Seus cabelos castanhos compridos caíam naturalmente sobre um dos ombros, e o rosto de traços delicados trazia um sorriso calmo, quase provocadoramente paciente.
— Emanuel, meu amor, relaxa — disse ela baixinho, a voz doce e aveludada quebrando a rigidez do ambiente. — Ela tomou bastante leite no meio da manhã. Não está com fome de verdade, só quer atenção.
— Não é questão de relaxar, Duda, é questão de ordem — rebateu ele, erguendo a colher novamente em direção aos lábios cerrados de Maya. — Ela tem um ano. Crianças precisam de previsibilidade. Se acostumar a fazer birra e pular refeição, depois vai dar trabalho na escola.
Eduarda soltou um riso baixo, cristalino, pousando a xícara na bancada e dando passos lentos até ele.
— Ela tem doze meses, Emanuel. Nem sabe o que é uma escola — pontuou ela com ternura, parando atrás da cadeira onde ele estava sentado.
Com a intimidade construída em anos de amizade de infância e consolidada agora naquele namoro compartilhado e assumido sob o mesmo teto, Eduarda pousou as mãos suaves nos ombros tensos de Emanuel. Suas pontas dos dedos finos começaram a massagear a musculatura rija do pescoço dele, sabendo exatamente onde ele acumulava o estresse das reuniões de negócios, dos novos estúdios que inauguraria em Madri e, claro, da paternidade em dose dupla.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, emitindo um suspiro pesado enquanto os ombros desciam um milímetro. A presença física de Eduarda sempre operava essa mágica sobre ele; ela era como um porto de água calma onde seu barco superaquecido podia atracar sem perigo de quebrar.
— Papá! — balbuciou Maya de repente, percebendo que a atenção do homem tinha se desviado dela.
A menina esticou os bracinhos pequenos na direção dele, abrindo e fechando os dedos com afeto manhoso, as bochechas coradas e o narizinho empinado.
O coração de Emanuel derreteu no mesmo instante. Toda a couraça de homem prático, bilionário e implacável simplesmente ruiu perante aquela palavra. Desde o momento em que soube que o canalha do ex de Eduarda havia fugido no minuto em que o teste de gravidez deu positivo, Emanuel tomara uma decisão silenciosa e irreversível. Ele assumira Maya legal e emocionalmente, bancara todo o pré-natal, segurara a mão de Eduarda na sala de parto ao lado dos pais jovens dela, e fazia questão absoluta de ouvir aquele "papá" todos os dias. Aquela garotinha era sua filha tanto quanto Ágata.
— É uma chantagista de marca maior, isso sim — resmungou ele, mas já soltando a colher dentro do pratinho e passando os braços fortes ao redor da cintura da pequena.
Ele soltou as travas da cadeirinha e puxou Maya para o colo. A menina imediatamente enterrou o rostinho no peito coberto de tecido escuro, aspirando o perfume amadeirado dele e emitindo um som satisfeito, vencendo a batalha sem precisar disparar um único tiro.
— Viu só? — sussurrou Eduarda rente ao ouvido dele, roçando os lábios docemente na pele áspera da bochecha por fazer de Emanuel. — Você se estressa à toa. Se ela não quer a papinha agora, a gente tenta uma fruta amassada mais tarde. Não precisa transformar o almoço num interrogatório.
— Você amolece demais essa menina, Duda — disse ele, ainda tentando sustentar uma fachada austera, embora estivesse afagando as costas da criança com a mão enorme com todo o cuidado do mundo. — Depois sobra para mim a parte de ensinar disciplina.
— Ah, claro, você é uma verdadeira fortaleza de disciplina — ecoou uma voz estridente, carregada de ironia e deboche, vinda da porta que ligava a copa ao corredor principal.
Sara entrou na cozinha como um furacão dourado. Aos vinte e cinco anos, ela não sabia existir em tons pastéis ou discrição. Os cabelos platinados estavam escovados com perfeição, caindo em ondas volumosas sobre um vestido tubinho verde-esmeralda extremamente justo e decotado, que evidenciava seus seios fartos de silicone e o quadril largo. Usava saltos finos que estalavam ritmicamente contra o porcelanato e trazia óculos escuros de grife empurrados para o topo da cabeça, exibindo uma maquiagem impecável com delineado gatinho e batom cor de boca cintilante.
Mesmo tendo acabado de chegar da supervisão de sua boutique de roupas no centro nobre da cidade, ela não aparentava o menor cansaço. Pelo contrário: parecia pronta para uma passarela ou para uma briga boa de bar.
— Mamã! — gritou Ágata da sua cadeirinha, batendo as duas palmas sujas de comida com entusiasmo renovado.
— Oi, meu amorzinho, rainha do desastre da mamãe! — Sara respondeu, indo direto até a filha sem a menor cerimônia, mas parando a poucos centímetros para não sujar o tecido caro do vestido. Ela pegou um guardanapo de papel úmido sobre a mesa e limpou com rapidez o queixo e a testa da menina. — Olha só essa menina, Emanuel! Já comeu o equivalente ao peso dela em abóbora, enquanto você fica aí de bico por causa da princesinha da Duda.
— Eu não estou de bico, Sara — rebateu Emanuel, revirando os olhos, mas incapaz de conter um leve erguer no canto dos lábios. A energia daquela mulher era inabalável. — Eu estava tentando garantir que a Maya comesse uma quantidade saudável de calorias. Coisa básica.
— Coisa de quem adora ter um troço por controle — disparou ela, dando a volta na bancada e deixando a bolsa pesada de marca sobre um dos bancos altos. — Você comanda quatro estúdios na Europa, tem negócios em três continentes, administra mais de cinquenta tatuadores e perde uma briga psicológica para uma criatura de oitenta centímetros que ainda usa fralda. Me poupe, Emanuel.
Eduarda soltou uma gargalhada genuína, cobrindo a boca com a mão fina em um gesto automático de timidez que a acompanhava desde menina. Emanuel olhou feio para ela, mas o brilho em seus olhos denunciava que estava desarmado.
— Nem você me respeita mais nessa casa — comentou o homem, fingindo mágoa.
— A gente te respeita muito, meu amor — disse Sara, aproximando-se com a postura segura que lhe era inata. Ela apoiou uma mão bem cuidada, de unhas longas pintadas de vermelho cereja, sobre o peito dele, sentindo o calor do corpo firme sob o tecido da camiseta. — Mas rir de você quando fica todo engravatado mentalmente é um dever cívico. Não é, Dudinha?
Eduarda sorriu com ternura, assentindo levemente com a cabeça.
— É sim. Ele fica muito fofo quando tenta bancar o general da comida.
Sara inclinou-se para a frente e depositou um beijo sonoro e provocativo nos lábios de Emanuel, sem se importar com a presença das meninas ou com a proximidade de Eduarda. Emanuel retribuiu o beijo com firmeza, segurando a cintura curvilínea de Sara com uma das mãos livres, puxando-a de leve para si antes de soltá-la. Ele a amava com uma intensidade crua e apaixonada; Sara era a faísca que não o deixava estagnar, a mulher decidida que o desafiava todos os dias e que nunca abaixava a cabeça.
Quando o relacionamento entre eles já estava sólido, o reencontro mais profundo com Eduarda — sua amiga de toda a vida, que passava pelo pior momento da gestação sozinha — havia despertado nele algo que ele tentara conter no início, mas que logo se revelara inevitável: um amor protetor, delicado e eterno. Emanuel não conseguira escolher entre a tempestade vibrante de Sara e o lago plácido de Eduarda. Ele precisava das duas para respirar por inteiro.
E quando contara a verdade para Sara, esperando o fim do mundo, recebera uma resposta tipicamente dela: um olhar avaliador, um trago de bebida e um pragmatismo desarmante. Sara conhecia Eduarda, sabia de sua doçura inofensiva e de sua lealdade. Para ela, não havia rivalidade onde havia espaço de sobra; se para Emanuel ser pleno ele precisava de ambas, então que assim fosse. Desde que ninguém pisasse no seu calo e ele continuasse sendo o homem devoto e provedor de sempre, a casa funcionaria em harmonia. E funcionava.
— Como foram as vendas na loja hoje? — perguntou Emanuel, mudando de assunto enquanto acomodava Maya, que já começava a bocejar preguiçosamente contra seu ombro.
— Um sucesso, querido. A nova coleção de vestidos de festa foi praticamente limpa pelas clientes fiéis. O caixa agradece — Sara respondeu, girando o anel de brilhantes que ele mesmo lhe dera. Ela olhou para Eduarda com cumplicidade. — Inclusive, Duda, separei aquele conjunto de seda bege que você ficou namorando no catálogo semana passada. Chegou na loja hoje de manhã. Tamanho pequeno, vai ficar um escândalo no seu corpo de bailarina.
Os olhos castanhos de Eduarda se iluminaram com o carinho do gesto.
— Ai, Sara, mentira! Não precisava, de verdade...
— Precisava sim. Você só usa essas roupas levinhas de menininha tímida que eu adoro, mas de vez em quando tem que mostrar a mulherão que você é — retrucou Sara com uma piscadela ousada. — Além do mais, se você usar para o Emanuel ver, tenho certeza de que ele não vai reclamar do investimento.
Emanuel pigarreou, limpando a garganta, enquanto um leve tom avermelhado subia pelas maçãs do rosto delicado de Eduarda, que baixou a cabeça com um sorriso manhoso e envergonhado.
— Deixem minhas noites em paz — pediu ele, embora a ideia claramente o agradasse. Ele voltou a atenção para a filha menor que ainda estava na cadeira. — Alguém vai tirar a Ágata daí antes que ela passe purê no teto?
— Eu tiro — disse Eduarda prontamente, dando um passo à frente com sua postura graciosa. — Ela já comeu tudo mesmo, uma verdadeira mocinha obediente. Não é como essa daqui que só quer mamãe e papai.
Eduarda desatou o cinto da cadeirinha de Ágata com gestos pacientes e amorosos. A garotinha, ao sentir os braços da morena ao seu redor, deu um gritinho de alegria e agarrou os fios castanhos de Eduarda com as mãos pegajosas.
— Ai, Águinha, o cabelo da tia não! — riu Eduarda, sem demonstrar a menor irritação com a sujeira iminente em sua blusa lilás. Ela ajeitou a menina contra o quadril de forma natural e pegou um pano úmido para terminar de limpar o rosto da enteada. — Vou dar um banho rápido nela e levar essas duas para o quarto. Acho que um ventinho fresco e um desenho calmo vão fazer a Maya aceitar um pedaço de mamão.
— Se precisar de ajuda, me chama — disse Emanuel, olhando para Eduarda com aquele olhar pesado de carinho e zelo que guardava exclusivamente para ela. — Você tem ensaio na escola de dança às quatro, não tem?
— Tenho, mas dá tempo de sobra. Minha mãe disse que passa aqui mais tarde para ver as meninas antes da aula — Eduarda respondeu com leveza, virando-se para o corredor com Ágata rindo no colo. — Já volto para buscar essa dengosa aí.
Assim que Eduarda sumiu pelo corredor em direção aos quartos do andar superior, o silêncio confortável da cobertura se instalou por alguns instantes. Maya estava quase adormecida, soltando respirações quentes e ritmadas contra o pescoço tatuado de Emanuel.
Sara deu mais um passo e se encostou lateralmente contra o corpo dele, pousando a cabeça no ombro que estava vago. O perfume importado dela, doce e marcante, misturou-se ao cheiro suave de bebê de Maya.
— Você é um bobo quando se trata delas, sabia? — murmurou Sara, a voz desprovida daquele tom provocativo de minutos atrás, revelando a mulher perspicaz que conhecia cada canto da alma dele. — Fica aí bancando o estressado, mas se essa menina espirrar você já quer construir um hospital infantil no quintal.
Emanuel soltou uma risada fraca, inclinando o rosto para beijar o topo dos cabelos loiros e cheirosos de Sara.
— Eu só quero que tudo funcione direito, amor. Que não falte nada. Nem para a Ágata, nem para a Maya, nem para vocês duas.
— E nunca falta, Emanuel. Você resolve o mundo inteiro lá fora para a gente ter essa paz aqui dentro — disse ela com segurança, passando a mão pelas costas dele em um afago firme. — Só precisa aprender a não travar a mandíbula toda vez que uma criança de um ano decide cuspir uma cenoura. Aceita que você não controla tudo.
— Eu tento. Mas é difícil abrir mão do controle quando se tem tanta coisa valiosa para proteger.
— Deixa a Duda cuidar da parte mansa da casa, e deixa que eu te puxo para a realidade quando você ficar chato demais — concluiu Sara, sorrindo e dando um tapinha de leve no braço dele antes de se afastar para pegar uma garrafa de água na geladeira. — O time funciona bem assim.
Emanuel olhou para a loira destemida que abria a porta de aço escovado com elegância exagerada, e depois para o corredor por onde Eduarda logo voltaria para resgatar a outra filha com aquele sorriso tranquilo e acolhedor. Sentiu a respiração de Maya contra sua pele, o peso morno e seguro de uma vida inteira que dependia de sua estabilidade.
A mesa podia estar um caos, as rotinas podiam sofrer atrasos e seus planos rígidos raramente sobreviviam intactos ao meio-dia. Mas, enquanto apertava Maya um pouco mais junto ao peito e observava Sara tomar um gole de água encostada na bancada, Emanuel soube, com a certeza lógica e irracional que só o amor proporcionava, que não trocaria aquele descontrole por nenhuma ordem perfeita no mundo.
