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Roleta dos amantes

Fandom: Blue Lock

Criado: 15/10/2026

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O Eco das Espinas

A biblioteca da Universidade de Munique era o único lugar onde Alexis Ness sentia que o ar não pesava. O cheiro de papel antigo e o silêncio absoluto eram seus únicos aliados. Com seus dezoito anos recém-completados na época, ele era a definição de invisibilidade. Um ômega cujos feromônios eram tão discretos quanto sua presença, escondido atrás de óculos de leitura e suéteres dois tamanhos maiores que seu corpo esguio de 1,70m.

Ele estava concentrado em um tratado de física quando a sombra o cobriu. Não era uma sombra qualquer; era vasta, densa e carregava um aroma que fez o instinto mais primitivo de Ness gritar: rosas e aço frio.

— Você está no meu lugar, Liebling.

A voz era um barítono aveludado, carregado de uma arrogância que só o dinheiro e a genética perfeita poderiam comprar. Ness ergueu os olhos roxos, encontrando a figura imponente de Michael Kaiser. Com dois metros de altura e cem quilos de puro músculo atlético, o alfa parecia uma divindade nórdica caída em um ambiente acadêmico mundano. O cabelo loiro com mechas azuis caía perfeitamente sobre a testa, e a tatuagem de espinhos em seu pescoço parecia pulsar conforme ele sorria.

— E-eu... sinto muito. Não sabia que as mesas eram marcadas — gaguejou Ness, sentindo o rosto esquentar.

Kaiser não se afastou. Em vez disso, ele se inclinou, apoiando as mãos grandes na mesa, cercando o espaço de Ness. O magnetismo era sufocante.

— Agora você sabe. Mas, já que você é tão dedicado... talvez possa me ajudar com algo muito mais interessante do que livros.

Naquele dia, Ness não sabia que era o alvo de uma aposta de mil euros entre Kaiser e seus amigos do time de futebol. Ele só sabia que, pela primeira vez, alguém como Kaiser o enxergava.


Cinco anos depois

O som do brinquedo de plástico batendo contra o chão de madeira era o único ruído no pequeno apartamento de Ness. Ele observava o filho, Erik, um menino de três anos que herdara o cabelo loiro do pai, mas possuía os mesmos olhos roxos e expressivos de Alexis.

Ness não era mais o garoto tímido da biblioteca. A gravidez solitária e os anos trabalhando em dois empregos para sustentar o filho enquanto terminava o mestrado haviam endurecido suas bordas. Ele era magro, quase frágil aos olhos de estranhos com seus 55kg, mas sua determinação era inquebrável.

A campainha tocou. O corpo de Ness ficou tenso instantaneamente. Ele sabia quem era. Ele sempre sabia.

Ao abrir a porta, o impacto visual foi o mesmo de anos atrás, mas agora acompanhado por uma onda de náusea e ressentimento. Kaiser estava ali, vestindo um sobretudo de lã italiana que custava mais do que o aluguel anual de Ness. Os olhos azuis do alfa percorreram o corpo do ômega com uma possessividade predatória que nunca havia diminuído.

— O que você quer, Michael? — Ness bloqueou a entrada, a voz fria.

— Vim ver meu filho, Alexis. E não tente me impedir. Meus advogados foram bem claros sobre o regime de visitas, não foram?

Kaiser deu um passo à frente, forçando a entrada. O cheiro dele — aquele maldito cheiro de alfa dominante — inundou o apartamento, fazendo o lado ômega de Ness travar uma batalha interna entre o desejo de se submeter e o ódio de ser controlado.

— Você não tem o direito de entrar assim — disse Ness, embora soubesse que era inútil. — Erik está brincando. Não o assuste.

— Ele não tem medo do próprio sangue — Kaiser retrucou, caminhando até a sala.

Ao ver o pequeno Erik, a expressão do alfa suavizou-se por um milésimo de segundo antes de voltar àquela máscara de superioridade. Ele se agachou, a tatuagem de espinhos subindo pelo pescoço conforme ele se movia, um lembrete constante da natureza perigosa do homem.

— Olá, pequeno Kaiser — murmurou Michael, estendendo a mão grande para o menino.

Ness observava da cozinha, as mãos tremendo enquanto apertava a borda do balcão. Ele se lembrava da noite em que descobriu a verdade. O riso de Kaiser no vestiário, vangloriando-se de como tinha sido fácil "domar o ômega esquisito". A dor de perceber que cada beijo, cada palavra sussurrada durante o cio, tinha sido parte de um jogo.

— Ele não é um Kaiser — Ness disse, a voz subindo de tom. — O nome dele é Ness. Somente Ness.

Kaiser levantou-se lentamente, sua altura preenchendo o teto baixo do apartamento. Ele caminhou até Alexis, encurralando-o contra a bancada da cozinha. A diferença de tamanho era ridícula; Ness mal chegava ao peito do alfa.

— Você continua teimoso, Liebling — Kaiser sussurrou, a mão subindo para segurar o queixo de Ness com uma força que beirava a dor. — O sangue que corre nas veias dele é meu. O cheiro que ele vai exalar quando crescer será o meu. E você... você ainda cheira a mim, mesmo depois de todos esses anos tentando se limpar.

— Me solta — Ness sibilou, tentando empurrar o peito sólido como rocha. — Você nos abandonou. Você riu de mim!

— Eu cometi um erro de cálculo — Kaiser admitiu, os olhos azuis brilhando com uma intensidade maníaca. — Eu achei que você era apenas uma distração. Mas nenhum outro ômega depois de você serviu. Ninguém mais tem esse sabor de submissão e inteligência. Eu não quero apenas o garoto, Alexis. Eu quero o que é meu por direito. E você foi marcado por mim, lembra-se?

Kaiser puxou a gola do suéter de Ness, revelando a cicatriz da mordida na base do pescoço. Uma marca de união que Ness tentara esconder com golas altas e maquiagem por anos.

— A aposta acabou há muito tempo, Michael — Ness disse, as lágrimas de raiva começando a arder. — Eu não sou um troféu que você pode vir reivindicar quando se sente entediado com a sua vida de luxo.

— Isso não é tédio — Kaiser rosnou, aproximando o rosto do pescoço de Ness, inalando profundamente. — É fome.

O alfa prensou o corpo contra o de Ness, sentindo a fragilidade do ômega sob suas mãos. A toxicidade daquela relação sempre fora alimentada por uma obsessão mútua que Ness tentava desesperadamente negar. Kaiser deslizou a mão por baixo da camisa de Ness, a pele áspera encontrando a cintura fina.

— Você está tão magro... — Kaiser murmurou, o tom mudando para algo perigosamente carinhoso. — Você não deveria ter que trabalhar tanto. Volte para Berlim comigo. Eu darei a Erik um império e a você... eu darei tudo o que você desejar.

— Eu desejo que você vá para o inferno — Ness cuspiu as palavras, embora seu corpo estivesse traindo sua vontade, os quadris reagindo involuntariamente à pressão do alfa.

Kaiser riu, um som sombrio e vitorioso. Ele inclinou a cabeça de Ness para trás, expondo a garganta do ômega.

— Você sempre foi um péssimo mentiroso, Alexis. Seu corpo está implorando para que eu te jogue nessa mesa e te lembre a quem você pertence.

— Eu não pertenço a ninguém! — Ness gritou, conseguindo se desvencilhar por um momento. — Saia da minha casa. Agora! Ou eu chamo a polícia e garanto que essa sua visita supervisionada seja a última.

Kaiser endireitou o sobretudo, a expressão voltando à frieza aristocrática. Ele olhou para o filho, que agora observava os pais com curiosidade, e depois voltou a olhar para Ness.

— Você pode lutar o quanto quiser, Alexis. Mas olhe para este lugar. Olhe para a sua vida. Você está exausto. E eu sou o único que pode te dar descanso.

— Eu prefiro o cansaço à sua gaiola de ouro — Ness respondeu, abrindo a porta da frente.

Kaiser caminhou até a saída, mas parou ao lado de Ness. Ele se inclinou e sussurrou no ouvido do ômega, o hálito quente causando arrepios de puro pavor e desejo.

— Eu voltarei amanhã. E depois. Até que você perceba que não existe mundo onde eu não esteja no centro da sua vida. Você é meu, Alexis. E eu não perco o que é meu.

Quando a porta se fechou, Ness deslizou até o chão, abraçando os próprios joelhos. Ele podia ouvir o coração batendo nos ouvidos. Ele odiava Michael Kaiser com cada fibra de seu ser, mas o terror real vinha da percepção de que, no fundo de sua alma ferida, uma parte dele ainda ansiava pelo toque do homem que o destruíra.

Ele olhou para Erik, que se aproximou e colocou uma mão pequena em seu ombro.

— Papai está triste? — perguntou o menino.

Ness forçou um sorriso, puxando o filho para um abraço apertado.

— Não, meu amor. O papai só está cansado. Mas eu prometo... ninguém vai tirar você de mim. E ninguém vai me quebrar de novo.

No entanto, o cheiro de rosas e aço ainda impregnava o ar, uma promessa silenciosa de que a guerra entre o orgulho de um ômega e a obsessão de um alfa estava apenas começando. Kaiser não queria apenas ser pai; ele queria a rendição total de Alexis Ness. E Kaiser, como sempre, jogava para ganhar, não importando quantas vidas ele tivesse que destruir no processo.

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