
Jennie e Lisa
Fandom: Blackpink
Criado: 15/10/2026
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Passos Incertos e Corações Entrelaçados
A luz dourada da manhã californiana filtrava-se suavemente pelas frestas das persianas brancas, desenhando linhas tênues sobre o piso de madeira clara do quarto. Jennie Ruby Jane Kim estava sentada na borda da cama, os olhos puxados de gato, escuros e atentos, fixos no pequeno berço de madeira ao lado. O silêncio da casa era quebrado apenas pelo som compassado da respiração miúda de Minji, que dormia profundamente enrolada em uma manta cor-de-rosa.
Jennie levou os dedos aos cabelos castanhos de comprimento mediano, ajeitando uma mecha atrás da orelha antes de suspirar. Havia um nó apertado em sua garganta. Aquele não era um dia qualquer; era a primeira segunda-feira em cinco meses na qual sua rotina seria bruscamente alterada. Cinco meses inteiros dedicados exclusivamente à maternidade, trocando fraldas, decifrando choros, amamentando e fazendo tarefas escolares enviadas por e-mail entre uma soneca e outra do bebê.
Aos dezesseis anos, ela jamais imaginou que estaria vivendo aquela realidade. A lembrança de Kai Kim ainda deixava um gosto amargo em sua boca. Um garoto bonito, herdeiro de uma família influente, que prometera o mundo sob as estrelas de Los Angeles, mas que desaparecera covardemente no instante em que o teste de gravidez acusou positivo. Kai simplesmente mudou de colégio, apagou suas redes sociais e se escondeu atrás dos advogados e do dinheiro dos pais para escapar de qualquer responsabilidade. Jennie sentira raiva, uma dor dilacerante e medo do futuro. Contudo, no momento em que segurou Minji em seus braços pela primeira vez, percebeu que aquele amor esmagava qualquer vestígio de rancor.
Minji era a sua cópia quase perfeita. Tinha os mesmos olhinhos amendoados e puxados, o formato delicado do nariz e as bochechas cheias. Era Jennie em miniatura, o pedaço mais precioso de sua existência.
A porta do quarto se abriu devagar, emitindo apenas um estalo sutil. Minjae surgiu com um sorriso caloroso no rosto, segurando uma caneca de café fumegante.
— Bom dia, meu amor — sussurrou a mulher, caminhando na ponta dos pés até a filha. — Como você passou a noite?
— Quase não preguei os olhos, mãe — confessou Jennie em um sussurro, levantando-se. Com sua estatura mediana, cintura fina e postura elegante que mesmo o cansaço não apagava, ela abraçou a mãe de lado. — Parece que meu coração vai ficar para trás hoje.
Minjae passou a mão carinhosamente pelas costas da filha.
— Eu sei, querida. A transição é difícil — consolou Minjae, com a serenidade de quem sempre fora o esteio inabalável daquela casa. Mesmo discordando no início da ideia de uma gravidez tão precoce, ela nunca abandonou Jennie. Garantiu plano de saúde, assistência, carinho e nunca permitiu que nada faltasse para a neta. — Mas lembre-se de que a escola preparou aquele berçário exatamente para meninas como você. Você vai poder vê-la nos intervalos. Minji estará a poucos metros da sua sala.
— Eu sei, mãe. Mas olhar para ela ali e pensar em deixá-la com alguém que não seja você ou as meninas... me dá um aperto no peito.
Antes que Minjae pudesse responder, a campainha tocou lá embaixo, com dois toques breves e ritmados bem familiares.
— É a Lisa — disse Jennie, sentindo um alívio involuntário amenizar o aperto em seu peito.
— Vou abrir a porta enquanto você termina de vestir Minji — disse Minjae, deixando a caneca na mesinha de cabeceira e saindo do quarto.
Jennie caminhou até o berço. Como se pressentisse a movimentação matinal, a pequena Minji começou a se mexer, esticando os bracinhos roliços e soltando um pequeno bocejo manhoso.
— Bom dia, meu pacotinho — murmurou Jennie, com a voz carregada de doçura. Ela pegou a filha no colo com extrema destreza, aninhando-a contra o peito. — Hoje é um dia grande para nós duas, ouviu?
Passos suaves soaram no corredor e, logo em seguida, a figura de Lalisa Manobal apareceu na porta. Lisa era poucos centímetros mais alta que Jennie, dona de uma presença magnética e reconfortante. Seus longos cabelos pretos emolduravam o rosto perfeitamente, com uma franja reta impecável. Seus olhos castanhos e amendoados brilhavam com um calor sincero, e seus lábios carnudos se abriram em um largo sorriso ao ver a cena diante de si. Vestia uma jaqueta bomber estilosa que combinava com sua cintura fina, equilibrando uma bolsa escolar em um ombro e uma bolsa térmica no outro.
— Olha só quem já está acordada para conquistar o mundo! — Lisa exclamou baixinho, aproximando-se com passos leves.
— Lalisa, você veio cedo demais — disse Jennie, embora seus olhos traíssem o alívio que sentia por ter a amiga ali.
— Eu prometi que não deixaria você passar por esse primeiro dia sozinha, não prometi? — Lisa parou bem em frente a Jennie. Seu olhar desceu por um segundo para os lábios da Kim antes de subir rapidamente para seus olhos. Lisa guardava aquele sentimento no peito há anos: um amor silencioso, leal e paciente. Ela estendeu os braços em direção à bebê. — Vem cá com a tia Lili, meu amor. Deixa a mamãe arrumar a bolsa dela.
Minji reconheceu a voz imediatamente e soltou um gorgolejo animado, estendendo as mãozinhas na direção de Lisa. Lisa pegou a menina com uma naturalidade tocante, acomodando-a com segurança em seu peito e apoiando a cabeça da pequena na curva do pescoço.
— Viu só? Ela já estava com saudades de mim — brincou Lisa, beijando o topo da cabecinha de Minji com infinita ternura.
— Ela é mimada por você, isso sim — Jennie rebateu, mas não pôde conter um sorriso suave. Era impossível não se emocionar com a forma como Lisa cuidava de sua filha. Para qualquer pessoa de fora, Lisa parecia uma segunda mãe, sempre vigilante, sempre afetuosa.
— Eu apenas dou a ela o amor que ela merece — retrucou Lisa, balançando o corpo de um lado para o outro para embalar a bebê. — E você, Nini? Como está a cabeça?
Jennie parou na frente do espelho enquanto ajustava sua própria jaqueta jeans sobre a blusa branca, que se ajustava ao seu busto discreto e à silhueta fina.
— Apavorada — admitiu, olhando para o reflexo de Lisa segurando Minji logo atrás dela. — Sinto que todo mundo vai ficar me encarando nos corredores. Todo mundo sabe o que aconteceu com o Kai. E agora eu volto com uma bebê de cinco meses...
— Deixa que olhem — disse Lisa, a voz endurecendo levemente com uma determinação protetora. — Se alguém ousar falar qualquer besteira, vai se ver comigo. Além disso, a Jisoo e a Rosé já estão nos esperando no portão da escola. Nós somos o seu escudo, Jennie. Ninguém vai tocar em você ou na Minji.
Jennie se virou, encarando aqueles olhos amendoados tão sinceros. O peso em seus ombros pareceu diminuir alguns gramas graças à firmeza de Lisa.
— Obrigada, Lili. Por tudo. De verdade.
— Você não precisa me agradecer por nada. Nunca — Lisa respondeu suavemente, dando um passo à frente e tocando o ombro de Jennie com a mão livre. O toque transmitia uma eletricidade serena, cheia de palavras não ditas.
Depois de conferirem a bolsa de fraldas, as mamadeiras preparadas com leite materno ordenhado e as roupinhas extras, as duas desceram para a sala. Minjae beijou a testa de Jennie, deu um cheirinho prolongado em Minji e entregou a chave do carro a Lisa, que se oferecera para dirigir.
O caminho pelas avenidas de Los Angeles transcorreu sob o som suave do rádio e as conversas tranquilas entre elas. Lisa dirigia com extremo cuidado, atenta a cada freada para não incomodar Minji, que observava o movimento das palmeiras através da janela do bebê-conforto.
Quando o carro finalmente estacionou nas vagas laterais da escola, o estômago de Jennie deu um nó violento. A estrutura imensa de tijolos vermelhos e vidro do colégio erguia-se à frente, cercada pelo movimento barulhento de adolescentes com mochilas, skates e copos térmicos de café.
— Respira fundo — orientou Lisa, desligando o motor e virando-se para o banco traseiro. — Nós estamos aqui. Um passo de cada vez.
Assim que saíram do veículo, duas figuras familiares correram na direção delas. Rosé, com seus longos cabelos loiros e um casaco oversized, vinha de mãos dadas com Jisoo, que exibia um sorriso largo emoldurado por fios pretos e brilhantes. O casal parou em frente ao carro, oferecendo abraços imediatos.
— Nini! — exclamou Rosé baixinho, abraçando a amiga com delicadeza para não assustar Minji, que agora estava no colo de Jennie, protegida por uma manta leve. — Você está maravilhosa! Como você consegue ter um bebê há cinco meses e parecer saída de uma revista de moda?
— Deixe de exageros, Rosie — disse Jennie, soltando uma risada tímida.
— Não é exagero nenhum — interveio Jisoo, piscando para Jennie antes de estender o indicador para que Minji o agarrasse com seus dedinhos gordinhos. — E a nossa princesinha veio para comandar esta escola. Bom dia, Minji!
— Ela está um pouco agitada com a barulheira — comentou Jennie, cobrindo melhor o corpinho da filha. — Acho melhor irmos logo para a ala infantil.
— Nós vamos com você até a porta — garantiu Lisa, pegando a bolsa pesada de fraldas e a mochila de Jennie, carregando tudo nos próprios ombros sem pestanejar.
Caminhar pelos corredores da escola foi uma experiência intensa. Jennie sentiu vários pares de olhos se voltarem na direção delas. Havia sussurros discretos, olhares de curiosidade e alguns de julgamento velado. No entanto, o quarteto formava uma barreira impenetrável: Jisoo e Rosé iam à frente abrindo caminho com passos confiantes, enquanto Lisa caminhava milimetricamente colada ao lado de Jennie, seus olhos atentos desafiando qualquer um que ousasse fitá-las por tempo demais.
Finalmente, chegaram à nova ala oeste da escola, onde uma placa decorada com letras coloridas indicava o berçário estudantil. Era uma iniciativa da cidade para combater a evasão escolar entre jovens mães. O ambiente ali era completamente diferente do resto do prédio: paredes pintadas em tons suaves de menta e lilás, isolamento acústico contra os ruídos dos corredores, berços individuais acolchoados, tapetes emborrachados e um cheiro suave de lavanda e talco.
A coordenadora do berçário, uma senhora de expressão gentil chamada Sra. Clark, aproximou-se imediatamente com um sorriso acolhedor.
— Bom dia, meninas. Você deve ser a Jennie, certo? E esta coisinha linda é a Minji.
— Sim... sou eu — respondeu Jennie, sentindo a voz vacilar. Seus braços apertaram instintivamente a bebê contra o peito.
— Nós estávamos ansiosas pela chegada dela — disse a Sra. Clark com suavidade profissional. — Temos tudo preparado. O berço número quatro está identificado com o nome dela, e você pode deixar as instruções de alimentação aqui na prancheta.
Jennie assentiu mecanicamente. Ela deu dois passos para dentro da sala, mas seus pés pareciam feitos de chumbo. Olhou para o rostinho de Minji. A bebê a encarava com curiosidade, os olhinhos de gato piscando lentamente, sem a menor ideia de que a mãe teria que deixá-la ali.
— Eu... eu não sei se consigo — sussurrou Jennie, as lágrimas pinicando os cantos de seus olhos puxados. Ela se virou para trás, buscando apoio. — E se ela chorar muito? E se ela sentir minha falta e não conseguir respirar direito? Ela nunca passou horas longe de mim ou da minha mãe.
Jisoo e Rosé observaram a cena com compaixão da entrada da sala, mas foi Lisa quem deu um passo firme para dentro do ambiente.
Colocando as bolsas no chão perto de um armário, Lisa se aproximou devagar. Ela parou ao lado de Jennie, tocando gentilmente seus braços trêmulos.
— Ei... olha para mim, Nini — pediu Lisa em um tom baixo e melodioso, feito sob medida para acalmá-la.
Jennie levantou os olhos úmidos para encontrar os de Lisa. A franja escura da tailandesa quase tocava suas sobrancelhas, e a intensidade nos olhos castanhos dela era como uma âncora firme em meio a uma tempestade.
— Ela vai ficar bem — garantiu Lisa, usando o polegar para secar uma lágrima solitária que escorria pela bochecha de Jennie. O contato de sua pele contra a de Jennie durou um instante a mais do que o estritamente necessário, transmitindo todo o afeto calado que nutria. — Você preparou tudo com perfeição. O leite está ali, as roupinhas estão ali. A equipe daqui é treinada. E, o mais importante: você está a dois lances de escada de distância. No primeiro intervalo, antes mesmo do sinal parar de tocar, nós duas vamos descer correndo para você dar de mamar.
— Você jura? — perguntou Jennie, com o lábio inferior tremendo ligeiramente.
— Eu juro por tudo que é mais sagrado no mundo — afirmou Lisa com convicção absoluta. — Jennie, você foi a pessoa mais corajosa que eu já vi na vida nos últimos nove meses. Você enfrentou a solidão, os olhares tortos e a dor de cabeça com as matérias em casa. Você já provou que é invencível. Isso aqui não é abandono; você está fazendo isso para dar o melhor futuro possível para ela.
As palavras de Lisa desceram como um bálsamo sobre a angústia de Jennie. Ela respirou fundo, puxando o ar gelado do ambiente e soltando-o devagar.
— Você tem razão — murmurou Jennie, voltando o olhar para a filha. — A mamãe precisa ser forte por você, não é, Minji?
Jennie inclinou-se sobre o berço espaçoso indicado pela coordenadora. Com mãos hesitantes, mas cheias de carinho, acomodou a menina sobre o lençol macio. Minji soltou um pequeno resmungo quando as mãos quentes da mãe se afastaram, mas Lisa rapidamente se aproximou com um móbile colorido em mãos, fazendo os bichinhos de pelúcia dançarem sobre o rosto da bebê.
Minji riu, esticando as perninhas e esquecendo momentaneamente o afastamento.
— Viu só? — sussurrou Lisa ao ouvido de Jennie, sua respiração fazendo cócegas sutis no pescoço da coreana. — Ela é esperta como a mãe.
Jennie beijou a testa macia e perfumada da filha mais uma vez, passando a mãozinha por suas bochechas gordinhas.
— Eu volto logo, meu amor. Eu prometo.
A Sra. Clark aproximou-se devagar, assumindo a vigília do berço com um olhar compreensivo para Jennie.
— Podem ir tranquilas, meninas. Se ela ficar muito inquieta, nós chamamos você imediatamente. A sala de aula de vocês é a 204, correto? Temos o interfone direto.
— Sim, obrigada — agradeceu Jennie, limpando o rosto com as costas das mãos.
Lisa pegou a mochila de Jennie, pendurou-a em um dos ombros e, com a mão esquerda livre, envolveu com firmeza a mão pequena de Jennie, entrelaçando seus dedos longos aos dela. O calor da palma de Lisa parecia enviar uma corrente direta de coragem para o peito de Jennie.
— Vamos? — chamou Lisa com um sorriso sereno.
— Vamos — concordou Jennie, segurando a mão de Lisa com a mesma intensidade.
Ao saírem do berçário, encontraram Rosé e Jisoo encostadas nos armários metálicos do corredor.
— Tudo certo por lá? — perguntou Jisoo, desencostando-se da parede.
— Tudo certo. Ela ficou brincando com o móbile — respondeu Jennie, sentindo que o pior obstáculo do dia acabara de ser superado.
— Você foi maravilhosa, Jen — elogiou Rosé, dando um leve tapinha solidário no ombro da amiga antes de entrelaçar seu braço ao de Jisoo. — Agora, temos exatamente sete minutos para subir até a aula de História do Sr. Miller antes que ele feche a porta e nos dê detenção.
As quatro começaram a caminhar juntas em direção às escadas centrais do colégio. Jennie notou que alguns alunos ainda cochichavam nos cantos, mas com Lisa ao seu lado, segurando sua mão com tamanha naturalidade e firmeza, ela já não se sentia desamparada.
Kai havia fugido como um covarde, mas ela não precisava da presença de quem não tivera coragem para ficar. Ela tinha sua mãe em casa, tinha suas melhores amigas ali e, acima de tudo, tinha Lisa, cujo olhar carregava promessas tácitas de um apoio incondicional que dinheiro nenhum poderia comprar.
— Nervosa para o teste surpresa que o Miller com certeza vai passar? — brincou Lisa, inclinando o rosto um pouco para baixo para encontrar a expressão de Jennie enquanto subiam os degraus.
Jennie olhou para Lisa, notando como a luz da manhã destacava o contorno de seus lábios carnudos e a ternura em seus olhos amendoados. Pela primeira vez em muito tempo, um sorriso genuíno e relaxado iluminou seu rosto felino.
— Se eu sobrevivi a cinco meses sem dormir direito e a um parto sem anestesia perfeita, um teste de História não vai ser nada, Lalisa.
Lisa soltou uma risada melodiosa que ecoou pelo vão da escadaria, apertando os dedos entrelaçados aos de Jennie.
— É essa a Jennie Kim que eu conheço. Bem-vinda de volta.
