
NOS?
Fandom: supernatural
Criado: 15/10/2026
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Entre Monstros e Espelhos
Era uma daquelas noites sufocantes em que até o ar parecia ter peso.
Rebekah estava jogada na cama desfeita do apartamento temporário, vestindo apenas um short jeans curto e uma regata preta em decote V que deixava à mostra a linha delicada de suas clavículas. O ventilador de teto girava preguiçoso, cortando o vento morno com um rangido metálico quase hipnótico. Na velha televisão de tubo, apoiada sobre uma cômoda gasta, passava um filme qualquer dos anos oitenta em volume baixo, mas ela nem prestava atenção. Seus pensamentos orbitavam em um vórtice muito mais complexo e exaustivo.
Havia dias em que o eco de sua antiga vida a assombrava — a dor lancinante da traição que a transformou naquilo que era, o pavor de ser caçada, a necessidade quase doentia de controlar cada maldita variável ao seu redor para não virar cinzas. Era a herança de Katherine sussurrando em seu ouvido: sobreviva a qualquer custo, manipule antes de ser manipulada, não ame ninguém. Mas logo abaixo daquela couraça de cinismo e vestidos caros, ainda pulsava o coração insistente de Caroline: a garota que acreditava na honra, que morreria por aqueles com quem se importava e que ainda procurava, tolamente, uma réstia de calor humano no meio de um mundo infestado de dentes e sangue.
O celular sobre o colchão vibrou, rompendo o silêncio com o zumbido áspero da madeira vibrando. Rebekah esticou o braço devagar, os movimentos fluidos e predatórios, sem tirar os olhos do teto.
— Oi? — atendeu, a voz soando rouca, um convite desinteressado.
— Tá em casa? — A voz grave, arrastada e carregada daquele sarcasmo inconfundível ecoou do outro lado da linha.
— Tô.
— Então abre a porta, tô indo aí.
A chamada caiu antes que ela pudesse sequer pensar em uma resposta insolente. Rebekah soltou uma risada nasalada, encarando o aparelho escuro. Tipicamente Dean Winchester. Ele não pedia permissão; ele simplesmente ocupava o espaço que decidia ser dele.
Alguns minutos depois, o som pesado de passos subindo os degraus de madeira ressoou no corredor. Dean entrou como se fosse o dono do lugar, a jaqueta de couro gasta pendurada em um dos ombros e a postura larga de quem estava acostumado a enfrentar aberrações cósmicas antes do café da manhã. Ele cheirava a asfalto, pólvora e aquele sabonete barato de motel que teimava em se misturar ao seu cheiro natural de homem.
Rebekah se levantou com uma lentidão deliberada, a postura impecável e cada músculo consciente do efeito que seu corpo causava. Foi até a pequena cozinha, abriu a geladeira quase vazia e pegou duas garrafas long neck de cerveja. Voltou para a sala e se sentou no sofá de molas gastas, estendendo uma para ele com um olhar afiado por baixo dos cílios.
— E aí, Rapunzel — disse ele, com aquele sorriso torto que parecia sempre esconder uma piada suja ou um desafio mortal.
— Quer uma?
— Até parece que você aguenta mais que uma. — Ele riu, pegando a garrafa e abrindo-a com um movimento seco do anel de prata que usava no polegar. O estalo da tampa metálica voando soou quase como o engatilhar de uma arma.
Dean desabou no sofá ao lado dela, largo demais para o espaço apertado, invadindo a zona de conforto com uma facilidade irritante. O papo foi deslizando entre provocações e comentários afiados que certamente não passariam no crivo de um jantar de família. Dean tinha um jeito bruto, meio largado, uma casca grossa esculpida por anos de perdas e violência, mas com uma inteligência rápida para o deboche. Ele a chamou de princesa rebelde que provavelmente fazia escândalo se o esmalte descascasse durante um massacre; Rebekah, sem perder o ritmo e com a língua afiada como uma lâmina de barbear, retrucou chamando-o de “macho alfa de segunda mão”, um soldado obediente demais que só sabia atirar e quebrar coisas quando não entendia os próprios sentimentos.
A tensão entre eles era quase palpável, um cabo de guerra invisível. Dean, com aquele olhar verde penetrante de aquariano teimoso, sentimental e esquentadinho, não recuava um milímetro. Rebekah, sentindo o calor da bebida começar a suavizar as barreiras de sua mente sempre vigilante, cruzou as pernas, apoiando o queixo na mão. A doçura em seus traços subitamente deu lugar à audácia provocadora.
— Sabia que eu já achei que você queria… me comer?
Dean parou com a garrafa a centímetros da boca. Ele arqueou uma sobrancelha grossa, o braço pesado descansando sobre o encosto do sofá, os dedos quase tocando o ombro nu dela.
— Achei que você já tinha entendido que eu não sou o tipo que manda flores.
Rebekah arregalou ligeiramente os olhos, um lampejo de surpresa genuína quebrando sua expressão calculada.
— Então você já quis ficar comigo?!
Dean soltou um meio sorriso, aquele que parecia muito mais um desafio jogado na cara do perigo do que uma confissão tímida. Ele deixou a garrafa sobre a mesa de centro com um baque surdo.
— Rebekah… você já se olhou no espelho? — Ele a mediu de cima a baixo, sem pressa, fazendo a pele dela queimar como se estivesse sob a luz do sol sem o anel da luz do dia. — Você é gostosa. Não pensa que não.
Ela desviou o olhar, pega de surpresa pela franqueza descarada daquele caçador bruto. Por um segundo, a garota insegura que Caroline fora um dia pareceu buscar aprovação, enquanto o reflexo na tela apagada da televisão mostrava a silhueta da predadora que Katherine aperfeiçoara. Rebekah tomou um gole generoso de cerveja, engolindo a hesitação antes de devolver com um tom zombeteiro:
— Nossa… você nunca nem falou.
— Falar o quê? — Dean rebateu, levantando-se devagar. O movimento era predatório à sua própria maneira, o corpo tenso sob a camisa xadrez, exalando a certeza absoluta do impacto que causava.
Ele deu um passo à frente, fechando a distância até ficar perigosamente perto de onde ela estava sentada. O olhar dele estava carregado de um sarcasmo quente e de algo muito mais profundo, temperamental, visceral — aquele instinto bruto de Winchester que não aceitava nada pela metade.
— Eu não sou o cara que fica declarando coisa. Eu faço.
O tom era direto, seco, sem nenhuma ponta de melosidade de novela barata, mas vibrava com uma energia perigosa, como o clique final da trava de segurança de uma pistola. Dean inclinou a cabeça para o lado, sustentando o olhar azul-acinzentado dela como se procurasse decifrar onde terminava a garota que ele já vira proteger humanos indefesos e onde começava o monstro calculista capaz de arrancar um coração pela garganta sem piscar.
Ele deu outro daqueles sorrisos tortos, pegou a garrafa de novo e tomou um longo gole, deixando o silêncio pesar na sala como uma tempestade prestes a desabar.
— E aí, vai ficar me olhando ou vai me acompanhar? — ele provocou, deixando o clima carregado de eletricidade estática. Não havia promessa de romance, não havia juras poéticas, mas havia a iminência de uma colisão inevitável.
Rebekah não se mexeu por três segundos inteiros. Sua respiração desceu compassada enquanto seu cérebro processava a audácia de Dean. Qualquer outra mulher no planeta talvez ficasse sem palavras ou recuasse diante daquela masculinidade crua e intimidadora. Mas ela não era qualquer mulher. Ela havia sobrevivido a séculos de paranoia, havia escapado de monstros muito mais velhos que a linhagem dos Homens das Letras e aprendido a fazer do perigo a sua melhor mobília.
Lentamente, ela apoiou a garrafa de cerveja na mesinha ao lado da dele. Deslizou para a borda do sofá e se levantou. Rebekah era mais baixa que ele, mas a postura que assumiu — coluna perfeitamente alinhada, ombros para trás, queixo sutilmente erguido — equilibrou a balança de poder instantaneamente.
— Você fala demais para quem diz que faz, Winchester — retrucou ela, dando um passo à frente até que a ponta de seus pés tocasse as botas pesadas dele. O espaço pessoal havia deixado de existir. — Tá achando que esse seu charme de mecânico de beira de estrada funciona com todo mundo?
Dean deu uma risada baixa, um som áspero que vibrou no peito largo. Ele não recuou um milímetro. Seus olhos verdes faiscaram, descendo rapidamente para os lábios carnudos de Rebekah antes de voltarem a fitar os olhos dela com intensidade feroz.
— Funciona onde precisa funcionar. E você tá muito perto para quem tá tentando bancar a indiferente.
— Quem disse que eu sou indiferente? — Ela inclinou o rosto para cima, deixando um sorriso doce florescer nos lábios — um sorriso tão puro e radiante que, para quem não a conhecesse, pareceria inocente. Mas a sombra de Katherine cortou aquela doçura em uma fração de segundo, transformando a expressão em puro veneno sedutor. — Eu só não gosto de homem que late e não morde. E você, Dean… você me parece muito acostumado a caçar monstros fáceis.
A mandíbula de Dean travou. O orgulho dele, sempre no limiar do explosivo, reagiu ao desafio. Ele deu um meio passo, a mão esquerda subindo e pousando com firmeza no encosto do sofá, praticamente encurralando-a contra o móvel, enquanto a outra mão ainda segurava a garrafa com os nós dos dedos brancos de tensão.
— Você não sabe nada sobre os monstros que eu caço, loira — rosnou ele, a voz caindo uma oitava, tornando-se mais rouca, mais perigosa. — E se eu mordesse toda vez que tenho vontade, você já estaria em apuros há muito tempo.
— Ah, é mesmo? — Rebekah arqueou uma sobrancelha, o peito subindo e descendo mais rápido. Havia um arrepio gostoso percorrendo sua espinha, aquela adrenalina antiga que ela costumava odiar, mas que perto de Dean parecia a única coisa viva no universo. — E o que tá te segurando? O medo de descobrir que o monstro aqui morde de volta?
Dean soltou uma expiração quente contra o rosto dela, o cheiro de lúpulo e malte atingindo os sentidos aguçados de Rebekah. Ele era teimoso, cabeça-dura, com uma necessidade patológica de ter o controle da situação, mas os olhos dele a traíam. Havia fome ali. Uma fome reprimida pela constante obrigação de salvar o mundo, de cuidar de Sam, de carregar os pecados do pai nas costas.
— Medo? — Ele deu uma risadinha debochada, aproximando o rosto do ouvido dela, seus lábios quase roçando a pele sensível da curva do pescoço. — Você tem uma opinião muito alta sobre si mesma, Daimont. Eu não tenho medo de você. Tenho pena de quem não percebe o veneno antes de beber.
Rebekah não hesitou. Em um reflexo guiado pela ousadia imprudente herdada de sua juventude e a crueldade refinada de sua vida eterna, ela levou a mão ao peito dele. Seus dedos tocaram o algodão macio da camisa, sentindo as batidas fortes e descompassadas do coração humano sob a pele quente. Ela não apertou para machucar, mas exerceu pressão suficiente para lembrá-lo de que tinha força para estraçalhar suas costelas em um milésimo de segundo se quisesse.
— Então beba, Winchester — sussurrou ela, virando o rosto de modo que suas bocas ficassem a um fôlego de distância. O olhar dela alternou, sem freios, entre a vulnerabilidade desarmada de quem só queria ser tocada de verdade e a frieza de quem já havia enterrado centenas de inimigos. — Seja o homem prático que você jura que é. Ou vai continuar usando esse sarcasmo barato de escudo?
O ar entre eles parecia prestes a explodir. Dean encarou os lábios dela, os olhos escurecendo em uma tempestade de impulsividade aquariana. Ele não suportava ser provocado daquela maneira, especialmente por alguém que o desafiava em todos os níveis possíveis — moral, físico e emocional. Por um instante que pareceu durar uma eternidade, a mão dele que segurava a cerveja desceu até a mesinha, largando o vidro com um estalo seco, livre para fazer o que o corpo inteiro exigia.
Ele levou a mão à cintura de Rebekah, os dedos calejados se cravando com firmeza surpreendente na pele nua da sua lateral, logo acima do cós do short jeans. O toque foi possessivo, quente, desprovido de qualquer hesitação. Rebekah sentiu uma onda de choque descer por sua espinha, os olhos arregalando-se ligeiramente enquanto ela prendia a respiração.
— Você quer jogar esse jogo comigo, Daimont? — murmurou Dean, com a voz tão baixa que parecia vibrar no fundo dos ossos dela. Os olhos verdes dele queimavam com uma promessa silenciosa, destituída de qualquer cavalheirismo. — Porque quando eu começo, eu não paro até você esquecer até o próprio nome.
Ela sustentou o olhar, sentindo o calor das mãos dele como se fossem brasas vivas contra sua pele fria de imortal. Um sorriso lento, afiado e infinitamente perigoso curvou os lábios de Rebekah. A garota assustada estava trancada no fundo da mente; quem estava no controle agora era a sobrevivente impiedosa que nunca recuava de um confronto.
— Isso é uma promessa, Dean? — ela desafiou, erguendo a outra mão e pousando-a na nuca dele, os dedos embrenhando-se no cabelo curto e castanho, puxando-o para baixo com suavidade letal. — Porque até agora, eu só vi promessas vazias e cerveja morna.
Dean soltou um riso rouco, sacudindo a cabeça de leve antes de firmar os pés no chão. Ele não respondeu com palavras. Não precisava. A distância entre eles foi reduzida a zero quando a respiração pesada dos dois se misturou, parados à beira de um abismo que nenhum dos dois parecia muito disposto a evitar, o ventilador de teto girando preguiçoso acima deles enquanto a noite lá fora prometia queimar até o amanhecer.
