
Existe amor entre garotas?
Fandom: LGBT
Criado: 16/10/2026
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Entre Equações e Batimentos Cardíacos
O corredor do Colégio Saint Claire parecia uma passarela para Kelly. Com seus cabelos loiros perfeitamente ondulados, um sorriso que parecia iluminar até os dias mais nublados e aquela aura de "garota de ouro", ela era o centro gravitacional de qualquer ambiente. Garotos como o capitão do time de futebol, Bruno, faziam fila para carregar seus livros ou tentar arrancar um convite para o baile de primavera.
Mas, enquanto Kelly sorria educadamente para as piadas sem graça de Bruno, seus olhos castanhos buscavam outra coisa. Ou melhor, outra pessoa.
Lá estava ela, no canto da biblioteca, quase camuflada entre as estantes de física e química. Maria Eduarda, ou Duda para os poucos que tinham coragem de falar com ela, ajustava os óculos de aro grosso que insistiam em escorregar pelo nariz. Ela era o oposto de Kelly: silenciosa, focada, vestindo moletons dois números maiores e sempre com um livro nas mãos. Para o resto da escola, Duda era apenas a "nerd". Para Kelly, ela era o mistério mais fascinante que já havia encontrado.
— Kelly, você está ouvindo? — perguntou Bruno, encostado no armário dela. — O treino de hoje vai ser insano, você podia passar lá pra me ver marcar uns gols.
Kelly fechou o armário, dando um sorriso doce que não chegava aos olhos.
— Adoraria, Bruno, de verdade. Mas estou com uma dificuldade enorme em Trigonometria. Se eu não tirar um dez na próxima prova, meus pais me matam.
— Eu posso te ajudar! — ofereceu ele, estufando o peito.
— Ah, querido, você é ótimo com a bola, mas acho que Seno e Cosseno não são sua praia — Kelly riu, dando um tapinha leve no ombro dele. — Já combinei com a Maria Eduarda de estudarmos hoje à tarde.
Bruno franziu o cenho, olhando para a garota solitária no fundo do corredor.
— A nerd esquisita? Kelly, você é a rainha dessa escola. Não precisa se misturar com gente assim.
Kelly sentiu uma pontada de irritação, mas manteve a fachada gentil.
— Ela é a melhor da classe, Bruno. E eu prezo pelo meu boletim. Tchauzinho!
Ela se afastou antes que ele pudesse protestar. O coração de Kelly acelerou à medida que ela se aproximava da mesa de Duda. A popularidade tinha um preço: a solidão de ser sempre o que os outros esperavam. Perto de Duda, Kelly sentia que podia ser apenas Kelly.
— Oi, Duda — disse ela, baixinho, sentando-se na cadeira à frente da garota.
Maria Eduarda deu um sobressalto, os olhos arregalados por trás das lentes.
— Ah... oi, Kelly. Aconteceu alguma coisa?
— Além da minha total incapacidade de entender o círculo trigonométrico? — Kelly brincou, apoiando o queixo nas mãos. — Estava pensando... você ainda está de pé para me ajudar hoje? Meus pais vão sair para um jantar de negócios, teremos a casa só para nós. Paz total para estudar.
Duda engoliu em seco. Ela tinha uma queda secreta por Kelly desde o primeiro ano, mas sempre achou que era como desejar a lua: bonita de longe, mas inalcançável.
— Claro. Eu... eu posso ir às 18h?
— Perfeito. Vou te passar meu endereço por mensagem. Não se atrase, professora.
Kelly piscou para ela e saiu, deixando uma Duda completamente atordoada para trás.
A casa de Kelly era o reflexo de sua vida: impecável, luxuosa e um pouco fria. Quando a campainha tocou, Kelly correu para abrir, vestindo um short curto de seda e uma regata soltinha. Ela queria parecer casual, mas cada detalhe tinha sido pensado.
— Oi! Entra — disse Kelly, puxando Duda para dentro.
— Uau, sua casa é... grande — comentou Duda, segurando a mochila com força contra o peito.
— É grande demais para pouca gente — Kelly deu de ombros. — Vamos para o meu quarto? Lá em cima é mais silencioso.
O quarto de Kelly cheirava a baunilha e flores frescas. Duda sentou-se na beirada da cama, abrindo seus livros com as mãos levemente trêmulas. Kelly sentou-se ao lado dela, tão perto que seus ombros se tocavam.
— Então... por onde começamos? — perguntou Duda, tentando focar nos números.
— Acho que podemos começar por aqui — Kelly disse, mas em vez de apontar para o livro, ela tocou suavemente a mão de Duda.
Duda congelou. O toque era quente e elétrico.
— Kelly, a matéria...
— Duda, você realmente acha que eu te chamei aqui para falar de matemática? — Kelly sussurrou, aproximando o rosto.
— Mas você disse que seus pais... e a prova... — a voz de Duda falhou.
— Eu disse o que precisava para ter você aqui. Sem o Bruno, sem as líderes de torcida, sem ninguém olhando.
Kelly usou o dedo indicador para levantar o queixo de Duda. A nerd parecia um cervo diante dos faróis, mas não se afastou. Pelo contrário, sua respiração começou a ficar pesada.
— Você é tão linda, sabia? — Kelly continuou, a voz carregada de uma doçura que Duda nunca tinha ouvido antes. — E tão inteligente. Fico olhando para você nas aulas e me pergunto como alguém pode ser tão perfeita e não perceber.
— Eu não sou perfeita, Kelly. Eu sou só... eu.
— E "você" é exatamente quem eu quero.
Kelly não esperou mais. Ela encurtou a distância e selou seus lábios nos de Duda. Foi um beijo tímido no início, um teste de território, mas Duda respondeu com uma intensidade que surpreendeu a ambas. Os livros de matemática foram esquecidos, deslizando da cama e caindo no tapete felpudo.
— Tem certeza? — perguntou Duda entre beijos, a voz rouca. — Eu nunca... eu não sou como as pessoas com quem você sai.
— Ainda bem — Kelly sorriu, puxando a nerd para cima de si na cama. — Eu não quero mais ninguém. Só você.
O que começou como uma "aula de reforço" rapidamente se transformou em uma descoberta mútua. Kelly, sempre tão controlada e popular, entregou-se à vulnerabilidade, enquanto Duda, a garota invisível, descobriu um poder que não sabia que possuía.
As mãos de Kelly exploravam o corpo de Duda com uma curiosidade gentil, desfazendo-se das camadas de roupas que serviam como armadura para a nerd. Duda, por sua vez, perdia-se na maciez da pele de Kelly, sentindo o perfume de baunilha tornar-se mais intenso a cada toque.
— Você é incrível — sussurrou Duda, beijando o pescoço de Kelly, fazendo a outra garota arquear as costas e soltar um suspiro longo.
— Shh... menos conversa, Duda — Kelly brincou, puxando-a para um beijo profundo.
O tempo parecia ter parado, mas o relógio na parede não mentia. Uma hora se passou, depois duas, e a conexão entre elas só aumentava. Não era apenas desejo físico; era a quebra de todas as barreiras sociais que as separavam nos corredores da escola. Ali, entre os lençóis de seda, não havia "popular" ou "nerd". Havia apenas duas garotas descobrindo o amor e o prazer pela primeira vez.
Duda se desfazia sob o toque de Kelly, perdendo a timidez, revelando uma paixão que estava guardada há anos. Kelly, por sua vez, sentia que finalmente tinha encontrado alguém que a via de verdade, não apenas como um troféu ou uma imagem de perfeição.
Foram mais de três horas de uma entrega absoluta. O suor brilhava em suas peles, e a exaustão feliz começou a tomar conta. Elas estavam abraçadas, envoltas no edredom, quando o som de um carro entrando na garagem ecoou pela casa.
— Meus pais — Kelly disse, os olhos arregalados, sentando-se abruptamente.
— Meu Deus, que horas são? — Duda procurou seus óculos no chão, em pânico.
— São quase dez da noite! Duda, corre, se veste!
O caos se instalou. Duda tentava vestir o moletom ao avesso enquanto Kelly tentava arrumar a cama e esconder qualquer vestígio do que tinha acontecido. Elas desceram as escadas tentando parecer casuais, encontrando os pais de Kelly na sala de estar.
— Ah, olá, meninas — disse a mãe de Kelly, retirando o casaco de pele. — Estudaram muito?
— Sim, mãe. A Duda é uma ótima professora — Kelly disse, com a voz um pouco trêmula e o rosto ainda corado.
O pai de Kelly, um homem rigoroso e observador, franziu a testa, olhando para o cabelo ligeiramente bagunçado da filha e para o estado nervoso de Maria Eduarda.
— Três horas para estudar trigonometria? — perguntou ele, cruzando os braços. — Parece que o estudo foi intenso.
— Foi... foi sim, senhor — gaguejou Duda. — Eu já estava de saída.
— Eu te levo até a porta — Kelly disse rapidamente.
Na varanda, sob a luz da lua, o silêncio era carregado.
— Eles suspeitam de algo? — perguntou Duda, a voz baixa.
— Provavelmente. Meus pais são conservadores, Duda. Eles esperam que eu namore um Bruno da vida, não que eu me perca nos braços da garota mais inteligente da escola.
— E você se arrepende? — Duda olhou para os próprios pés, com medo da resposta.
Kelly deu um passo à frente, segurando o rosto de Duda com as duas mãos e dando-lhe um selinho rápido, mas cheio de promessas.
— Foi a melhor nota que eu já tirei na vida. E eu não pretendo parar de estudar com você tão cedo.
Duda sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto de uma forma que nenhum livro de física conseguiria explicar.
— Vejo você amanhã na escola?
— Na primeira fila — Kelly piscou. — E dessa vez, eu que vou carregar os seus livros.
Duda caminhou até o portão, sentindo-se flutuar. Kelly entrou em casa, pronta para enfrentar o interrogatório dos pais, mas com uma certeza ardendo em seu peito: a rainha da escola finalmente tinha encontrado sua verdadeira coroa, e ela tinha o nome de Maria Eduarda.
As famílias poderiam não gostar, a escola poderia entrar em choque, mas naquela noite, entre fórmulas e carícias, elas haviam escrito sua própria história. E aquele era apenas o primeiro capítulo.
