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Eu não esperava por isso

Fandom: Alien stage

Criado: 17/10/2026

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Sombras do Primeiro Dia

O sinal da escola Anakt tocou com aquele som estridente que parecia projetado para perfurar o crânio de qualquer um que tivesse dormido menos de oito horas. Para Mizi Kang, isso significava praticamente todos os dias de sua vida. Ela caminhava pelo corredor principal com a mochila pendurada em um ombro só, o passo lento e desleixado. Sua gravata rosa estava tão frouxa que era apenas um detalhe decorativo sobre a blusa social com o último botão aberto, e a saia, bem mais curta que o padrão exigido pela coordenação, balançava conforme ela avançava.

Ela parou diante de seu novo armário, bocejando de forma exagerada enquanto tentava enfiar a combinação. Seus olhos dourados estavam semicerrados, pesados de sono, mas ainda assim captavam a movimentação ao redor. Ela sabia que estava sendo observada. Não era arrogância; era apenas um fato que ela aceitava com a mesma naturalidade com que aceitava a gravidade. Com seu cabelo rosa vibrante terminando em pontas azuis neon, Mizi não passava despercebida nem se tentasse.

— Puta merda, eu só queria uma cama — resmungou Mizi para si mesma, a voz rouca de quem acabou de acordar.

— Primeiro dia e você já está morrendo? — Uma voz masculina, carregada de um sarcasmo ácido, veio logo ao lado.

Mizi virou a cabeça devagar. Um garoto com o cabelo cinza completamente bagunçado e olhos verdes expressivos estava encostado no armário vizinho. Ele vestia a calça social do uniforme, mas a gravata estava tão torta que parecia ter sido colocada durante um terremoto. Ele segurava um caderno de desenhos sob o braço e tinha aquela aura de quem preferia estar em um show de rock underground do que em uma aula de álgebra.

— Eu estou sempre morrendo, garoto — Mizi respondeu, dando um sorriso de canto, observando o estilo "emo revoltado" dele. — E você parece que brigou com um liquidificador e perdeu. Sou Mizi.

O garoto deu de ombros, mas um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

— Till. E o liquidificador se chama "acordar às seis da manhã".

— Justo. — Mizi finalmente conseguiu abrir o armário e jogou os livros lá dentro sem qualquer ordem. Ela tirou uma lata de energético da bolsa, abriu-a com um estalo seco e deu um gole generoso. — Quer?

— Passo. Se eu tomar isso agora, eu infarto antes do almoço — Till respondeu, observando a garota. — Você é do primeiro ano também, né? Sala 1-B?

— Acho que sim. Se for a sala com menos luz e mais chances de eu tirar um cochilo no fundo, é lá que eu vou estar.

Os dois começaram a caminhar juntos em direção à sala, uma dupla improvável que já atraía olhares. Till percebeu que Mizi tinha uma confiança silenciosa, algo que não precisava de gritos para ser notado. Ela era bonita pra caralho, e ele não era cego, mas havia algo nela — talvez o jeito sarcástico ou a forma como ela parecia estar em seu próprio mundo — que o fazia sentir que seriam bons amigos, e nada mais.

Enquanto isso, no andar de cima, a atmosfera era bem diferente.

No corredor dos veteranos, o grupo do segundo ano estava reunido perto do bebedouro. Hyuna, com seu sorriso radiante e a saia curta que ela ostentava com a mesma energia de uma líder de torcida rebelde, estava contando sobre suas férias, enquanto Luka, ajustando os óculos e mantendo o uniforme impecavelmente passado, ouvia com uma atenção que beirava a adoração silenciosa. Ivan, alto e com aquela expressão de quem está planejando a próxima piada interna, comia um pirulito de cereja enquanto observava o movimento.

No centro deles, Sua permanecia em silêncio. Seus cabelos pretos curtos emolduravam um rosto pálido e olhos roxos que pareciam constantemente em alerta. Ela segurava um livro contra o peito, os dedos apertando a capa com força. Sua estava com o uniforme fechado até o pescoço, a gravata perfeitamente alinhada, como uma armadura.

— Relaxa, Sua — disse Hyuna, colocando a mão no ombro da amiga. — Aquele pesadelo acabou. A Seoyeon se formou, foi pro raio que o parta. Este ano vai ser só a gente.

— Eu sei — Sua respondeu, a voz baixa e um pouco seca. — Só... é difícil desaprender a olhar por cima do ombro.

— Se alguém tentar qualquer gracinha, eu faço a pessoa engolir o próprio celular — Ivan interveio, dando um sorriso provocador que, no fundo, era reconfortante. — E o Luka pode escrever uma redação tão passivo-agressiva que a pessoa vai entrar em depressão.

Luka deu um suspiro, ajeitando os óculos.

— Eu não faria isso, Ivan. Mas eu certamente denunciaria qualquer irregularidade à direção.

Sua deu um sorriso fraco, mas o conforto durou pouco. Perto dali, um grupo de garotas do primeiro ano passava cochichando alto o suficiente para que o nome "Kang" flutuasse pelo ar como um veneno.

— ...você viu a garota nova? A de cabelo rosa? — uma delas dizia. — É a irmã da Seoyeon Kang. A mesma cara, só que mais chamativa.

— Sério? Nossa, coitado de quem cruzar o caminho dela. Se for igual à irmã...

O sangue de Sua gelou. O livro em suas mãos quase escorregou. Ela sentiu o ar ficar pesado, a mesma sensação de asfixia que sentia no ano passado quando Seoyeon a encurralava nos corredores vazios, sussurrando palavras que destruíam sua autoestima peça por peça.

— O quê? — Hyuna se virou bruscamente, a expressão amigável sumindo instantaneamente. — O que elas disseram?

Ivan parou de rodar o pirulito na boca. Seus olhos pretos ficaram sérios enquanto ele olhava na direção das garotas que fofocavam.

— Irmã da Seoyeon? — Ivan murmurou. — Você está brincando.

Sua sentiu as pernas tremerem.

— Não pode ser — sussurrou Sua, o pânico começando a subir pela garganta. — Ela... ela não deveria estar aqui. A Seoyeon disse que a família ia se mudar.

— Calma, Sua. — Luka se aproximou, tentando manter a voz racional. — Ter o mesmo sangue não significa que ela é a mesma pessoa. Pode ser só uma coincidência de sobrenome, ou talvez elas nem se falem.

— É a Anakt, Luka — Ivan rebateu, o tom sarcástico voltando, mas agora com uma ponta de irritação. — Nada aqui é coincidência.

Lá embaixo, na sala 1-B, Mizi e Till haviam acabado de se sentar nas últimas fileiras. Mizi já tinha os braços cruzados sobre a mesa, preparando o terreno para uma soneca antes do professor chegar.

— Ei, Mizi — Till chamou, cutucando o braço dela com o lápis.

— O que foi, emo? Eu estou tentando entrar em coma.

— O pessoal está olhando estranho pra você. Mais do que o normal por causa do cabelo.

Mizi abriu um dos olhos dourados e olhou ao redor. Alguns alunos desviavam o olhar rapidamente, outros cochichavam e apontavam. Ela soltou um suspiro pesado, sentando-se direito e passando a mão pelo cabelo rosa.

— Ah, deve ser por causa da minha irmã — disse ela, o tom de voz neutro, quase indiferente. — Seoyeon estudou aqui até o ano passado. Ela era... bem, ela era o tipo de pessoa que gostava de deixar uma marca.

Till arqueou uma sobrancelha.

— Ela era popular?

— Ela era uma escrota, Till — Mizi respondeu com uma franqueza brutal. — A gente não se dá bem. Ela acha que eu sou uma decepção porque não sigo as regras dela, e eu acho que ela é uma sociopata manipuladora. Mas o sobrenome é o mesmo, então o pessoal projeta a merda dela em mim.

Till olhou para ela por um momento, processando a informação. Ele sabia o que era ser julgado pela aparência ou pelo jeito fechado, mas carregar o peso dos pecados de um irmão parecia um nível diferente de chatice.

— Isso é uma bosta — concluiu Till, voltando a desenhar um crânio com chifres em seu caderno.

— É o que tem pra hoje — Mizi deu de ombros, pegando um maço de cigarros da bolsa, mas lembrando-se de que estava dentro da sala e guardando-o logo em seguida. — Só espero que ninguém venha me encher o saco achando que eu vou fazer bullying com eles. Eu não tenho energia nem pra escovar o cabelo direito, imagina pra planejar a ruína emocional de alguém.

O sinal para o início das aulas tocou novamente. O corredor se esvaziou, mas a tensão permaneceu flutuando como fumaça.

No andar de cima, Sua não conseguia se concentrar. A imagem de uma "Seoyeon de cabelo rosa" assombrava sua mente. Ela sabia que era irracional ter medo de alguém que nunca tinha visto, mas o trauma não é racional. O trauma é uma cicatriz que dói antes mesmo de ser tocada.

— Eu preciso ver quem é — disse Sua, de repente, levantando-se da cadeira antes que o professor de literatura entrasse.

— Sua, senta aí, a aula vai começar — pediu Hyuna, preocupada.

— Eu só... eu só preciso saber com o que estou lidando. — Sua saiu da sala sem esperar resposta.

Ela caminhou até a varanda do segundo andar, que dava vista para o pátio interno onde os alunos do primeiro ano costumavam passar para ir ao laboratório. Ela esperou, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.

Poucos minutos depois, a porta da sala 1-B se abriu e um grupo de alunos saiu. No meio deles, Sua a viu.

Mizi caminhava ao lado de um garoto de cabelo bagunçado. Ela estava rindo de algo que ele disse, um riso curto e sarcástico. O sol batia em seus olhos dourados, fazendo-os brilhar, e o contraste do rosa e azul de seu cabelo era quase ofuscante. Ela parecia o oposto absoluto de Seoyeon, que era sempre sombria, de cabelos pretos e roupas impecáveis.

Mas então, Mizi fez um movimento. Ela inclinou a cabeça para o lado e deu um sorriso de canto enquanto ajeitava a gravata frouxa. Foi um gesto rápido, mas para Sua, foi como um gatilho. Era o mesmo ângulo, a mesma inclinação de cabeça que Seoyeon fazia antes de dizer algo que faria Sua querer desaparecer.

Sua recuou, batendo as costas contra a parede do corredor. O ar sumiu de seus pulmões.

— É ela — sussurrou Sua, as lágrimas de frustração e medo começando a arder em seus olhos. — É a mesma coisa.

Lá embaixo, Mizi parou de andar por um segundo. Ela sentiu um arrepio na nuca, como se estivesse sendo observada. Ela olhou para cima, em direção aos corredores do segundo ano, mas não viu nada além das sombras das janelas altas.

— O que foi? — perguntou Till, parando também.

— Nada. — Mizi bocejou, voltando a caminhar. — Senti um calafrio. Alguém deve estar falando mal de mim.

— Ou seja, uma terça-feira normal — ironizou Till.

— Exatamente. Vamos logo, se eu perder a experiência de explodir algo no laboratório porque cheguei atrasada, eu vou ficar muito puta.

Mizi seguiu em frente, sem saber que sua simples presença havia acabado de reabrir uma ferida que Sua levou um ano inteiro para tentar fechar. E Sua, escondida nas sombras do andar superior, sentiu que o segundo ano não seria o recomeço que ela tanto esperava, mas sim o início de uma nova e aterrorizante fase.

Enquanto isso, Ivan observava a cena de longe, encostado na porta da sala. Ele viu o estado de Sua e viu a garota nova lá embaixo. Ele não conhecia Mizi Kang, mas já tinha decidido uma coisa: se aquela garota fosse metade do que a irmã foi, ele faria da vida dela um inferno antes que ela pudesse sequer chegar perto de Sua.

O jogo na escola Anakt estava apenas começando, e as peças, embora ainda não se conhecessem, já estavam posicionadas para uma colisão inevitável.

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