
Sterling point
Fandom: Sterling point
Criado: 17/10/2026
Tags
Entre Pinhos e Fagulhas
O ar do Canadá tinha um cheiro diferente de qualquer outro lugar que Karen já havia conhecido. Era límpido, cortante e impregnado pelo aroma resinoso dos pinhos altos que cercavam Sterling Point. Para ela, acostumada com verões abafados e a herança vibrante de sua família italiana — onde a pele bronzeada pelo sol parecia reter o próprio calor do Mediterrâneo e os almoços de domingo duravam horas em meio a risos altos —, aquele canto do mundo parecia quase saído de uma pintura a óleo.
Ela viajara para passar a temporada com Annie, sua melhor amiga de anos. O plano original era simples: fugir um pouco da rotina, navegar pelos lagos espelhados, comer biscoitos de bordo e colocar todas as conversas em dia. No entanto, nenhum plano adolescente sobrevive intacto ao primeiro olhar que desvia a rota. E o desvio de Karen tinha nome, sobrenome e um par de olhos atentos: Ramona.
Ramona era a irmã mais velha de Annie. Enquanto Annie era um turbilhão de impulsividade e risadas fáceis, Ramona carregava uma serenidade magnética. Nos primeiros dias, a presença de Karen na casa fora marcada pela timidez de quem invade o espaço alheio. Mas não demorou para que os olhares na cozinha, nas manhãs preguiçosas, se transformassem em conversas sussurradas na varanda nas madrugadas frias. A conexão entre as duas não havia sido construída tijolo por tijolo; fora um curto-circuito, uma atração fulminante que assustou ambas pela intensidade.
Karen descobriu logo que o toque de Ramona era quente, contradizendo o clima lá fora. E Ramona descobriu que os cabelos escuros e a pele dourada de Karen traziam um verão particular que Sterling Point nunca tivera.
O problema, no entanto, não era a distância ou a partida iminente. O problema atendia pelo nome de Onna.
Onna era a melhor amiga de infância de Ramona. Praticamente uma mobília fixa na casa, daquelas que entram sem bater e abrem a geladeira sem pedir licença. Só que, por trás da fachada de amiga leal e inseparável, Onna guardava um sentimento sufocante e obsessivo por Ramona — algo que todo mundo fingia não ver, até Karen chegar.
Naquela tarde de quinta-feira, o céu estava coberto por nuvens cinzentas e densas, anunciando uma chuva de fim de verão. As quatro estavam sentadas no cais de madeira da propriedade da família de Annie, as pernas balançando sobre a água escura do lago.
— Eu ainda acho que deveríamos pegar a canoa e ir até a outra margem — disse Annie, jogando uma pedrinha na água e quebrando o silêncio. — O vento está calmo.
— Vai chover, Annie — alertou Ramona, ajeitando a gola do casaco xadrez. — E se o tempo virar no meio da travessia, vamos ter que rebocar você de volta.
Karen sorriu com a observação, seus ombros encostando de leve nos de Ramona. Foi um toque inocente, quase involuntário, mas o suficiente para que os olhos de Onna faiscassem do outro lado do tablado.
— Nem todo mundo aqui nasceu no lago, Ramona — soltou Onna, a voz carregada de uma acidez pouco sutil enquanto olhava diretamente para Karen. — Algumas pessoas são frágeis demais para o clima do norte. Qualquer brisa e já ficam tremendo.
Karen sentiu o rosto esquentar, não pelo frio, mas pela provocação gratuita. Desde que colocara os pés em Sterling Point, Onna a tratava como uma intrusa que precisava ser expulsa antes que criasse raízes.
— Eu não me incomodo com o frio, Onna — respondeu Karen, tentando manter o tom neutro. — Na verdade, o ar daqui é ótimo.
— Que bom que você acha isso — rebateu Onna, cruzando os braços e inclinando a cabeça com desdém. — Porque logo você volta para casa e isso tudo vira só uma lembrança de férias, né? Uma temporada curta. Algumas coisas simplesmente não pertencem a este lugar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Annie olhou de uma para a outra, desconfortável, percebendo que a linha tênue da civilidade estava prestes a se romper.
— Onna, chega — repreendeu Ramona, a voz firme, cortando o ar como uma lâmina. — Karen é nossa convidada. E ela fica o tempo que quiser.
— Convidada da Annie, você quer dizer — disparou Onna, levantando-se bruscamente da borda do cais. — Porque parece que você esqueceu completamente quem sempre esteve aqui com você antes de qualquer garota bonita de fora aparecer.
Sem esperar por uma resposta, Onna deu meia-volta, pisando duro na madeira envelhecida, e seguiu em direção à trilha que levava à estrada.
Annie soltou um suspiro longo e esfregou o rosto com as duas mãos.
— Eu vou atrás dela antes que ela decida furar os pneus da minha bicicleta — murmurou Annie, olhando para Karen com um misto de desculpas e cansaço. — Me desculpe por isso, Ka. A Onna às vezes passa do ponto.
— Tudo bem, Annie — disse Karen, embora não estivesse nada bem.
Assim que Annie se afastou, deixando apenas as duas sozinhas no cais com o barulho suave da água batendo contra as estacas, Karen sentiu o peso do nó que se formava em sua garganta. Ela olhou para as próprias mãos, a pele morena destacando-se contra a madeira cinzenta do cais, e sentiu uma pontada aguda de culpa.
Ramona se aproximou, deslizando a mão até cobrir a de Karen. Os dedos de Ramona eram longos, firmes e acolhedores.
— Não dê ouvidos a ela — pediu Ramona em um sussurro, buscando os olhos escuros de Karen. — Onna está sendo egoísta.
Karen puxou a mão de leve, não por falta de vontade de segurá-la, mas pelo aperto no peito que a sufocava.
— Ela não está apenas sendo egoísta, Ramona. Ela é apaixonada por você — disse Karen, sentindo o gosto amargo daquelas palavras na boca. — Todo mundo percebe. E eu sinto que… que estou destruindo anos de amizade de vocês duas. Eu cheguei agora. Eu sou apenas a amiga da Annie que veio passar algumas semanas.
— Não ouse dizer isso — interrompeu Ramona, com uma urgência quase dolorosa na voz. Ela se virou de frente para Karen, segurando seu rosto entre as mãos com uma ternura que fez o coração de Karen falhar uma batida. — Não ouse se diminuir a “apenas uma amiga da Annie”. O que eu sinto por você não começou porque você é conveniente ou porque está de passagem. Começou porque é você.
— Mas dói ver o jeito que ela olha pra mim — desabafou Karen, os olhos marejados. — Ela me vê como uma inimiga. E o pior é que eu me sinto péssima, porque não quero fazer você escolher entre o seu passado e… seja lá o que nós duas somos agora.
— Não existe escolha, Karen — declarou Ramona, os olhos brilhando com uma certeza inabalável que desarmou qualquer defesa. — Mesmo se você nunca tivesse pisado em Sterling Point, eu nunca poderia corresponder ao que a Onna quer de mim. Eu a amo como amiga, mas nunca foi ela. Nunca seria.
O vento soprou mais forte, despenteando os cabelos castanhos e ondulados de Karen. As primeiras gotas de chuva começaram a cair, salpicando o lago com pequenos círculos concêntricos e molhando a madeira ao redor.
— Vamos entrar — sugeriu Karen, engolindo em seco, a respiração curta pela proximidade de Ramona. — Está começando a chover de verdade.
Ramona não se moveu de imediato. Em vez disso, deslizou os polegares pelas maçãs do rosto de Karen, limpando uma gota de chuva que havia acabado de cair ali.
— Deixe molhar um pouco — murmurou Ramona, antes de puxar Karen para um beijo lento, doce e urgente sob a água fresca que começava a cair dos céus canadenses.
O beijo tinha gosto de chuva e promessa. Todo o medo de Karen, toda a insegurança sobre não pertencer àquele lugar ou sobre o drama juvenil que ameaçava engoli-las se dissipou por aqueles breves segundos. Quando se separaram, ambas com a respiração ofegante e as bochechas coradas, riram da loucura de estarem se encharcando no final do cais.
Correram de mãos dadas pela grama alta até a varanda dos fundos da casa de madeira, rindo enquanto tiravam os sapatos enlameados na entrada. A casa estava vazia; Annie provavelmente ainda tentava acalmar os ânimos de Onna na lanchonete da cidade.
Ramona pegou duas toalhas grossas no armário do corredor e entregou uma para Karen.
— Vá tomar um banho quente primeiro — disse Ramona, com um sorriso suave brincando nos lábios. — Não quero que você pegue um resfriado e culpe o meu país por isso.
— A culpa seria totalmente sua, não do Canadá — retrucou Karen, arrancando uma risada sincera da garota.
Minutos depois, vestindo um moletom folgado e com os cabelos úmidos caindo pelas costas, Karen desceu para a cozinha. O aroma reconfortante de chá de camomila e maçã preenchia o ambiente. Ramona estava encostada na bancada, esperando a chaleira chiar, enrolada em um suéter grande de lã.
Karen aproximou-se em silêncio e parou ao lado dela, observando a chuva bater contra o vidro da janela da cozinha. Lá fora, os pinhos balançavam como gigantes adormecidos.
— Eu nunca imaginei que uma viagem de verão pudesse virar minha cabeça desse jeito — confessou Karen, quebrando o silêncio confortável. — Minha mãe sempre me dizia que o sangue italiano da nossa família é intenso demais e que a gente se entrega muito rápido. Eu costumava rir disso.
Ramona virou-se para encará-la, servindo duas canecas com o líquido fumegante.
— Talvez seja essa intensidade que Sterling Point estava precisando — respondeu Ramona, entregando uma das canecas para Karen. As pontas dos seus dedos se tocaram no processo, mantendo a eletricidade viva entre elas. — As coisas aqui são sempre tão calmas, tão previsíveis. Até você chegar. Com esses olhos expressivos e esse jeito que me faz esquecer até como se respira.
— Ramona… — Karen corou, baixando os olhos para a caneca.
— É verdade — insistiu Ramona. — Eu sei que o clima com a Onna está horrível. Eu sei que ela está tornando as coisas difíceis, criando essa tempestade e agindo como se você fosse a vilã de uma história que ela inventou na cabeça dela. Mas você não é. Você é a melhor coisa que me aconteceu em anos, Karen. E eu não vou deixar que o ciúme dela nos faça sentir vergonha do que estamos construindo.
Karen suspirou, sentindo uma onda de alívio e carinho inundar seu peito. Era fácil se perder na culpa quando você se vê no meio de uma amizade quebrada, mas ouvir a convicção na voz de Ramona dava a ela um chão firme para pisar.
— Eu só não quero ser o motivo da dor de ninguém — disse Karen, com sinceridade.
— Você não é — garantiu Ramona. — A dor da Onna vem da incapacidade dela de aceitar a realidade. Eu pretendo conversar seriamente com ela amanhã. Estabelecer limites. Mas faça o que fizer, Karen, por favor… não se afaste de mim.
— Eu não vou — prometeu Karen, erguendo a cabeça e encontrando o olhar doce e decidido de Ramona. — Mesmo que o verão acabe, mesmo que eu tenha que voltar… agora eu sei que deixei um pedaço de mim aqui.
A porta da frente se abriu de repente, acompanhada pelo barulho de passos molhados e o rangido característico da porta de madeira. Annie entrou no corredor, tirando o casaco ensopado e bufando.
— Se alguém me disser a palavra "drama" hoje, eu juro que me mudo para o Polo Norte — gritou Annie da sala.
Ramona e Karen trocaram um olhar cúmplice e não contiveram um riso baixo.
— Como foi com ela? — perguntou Ramona, indo em direção à sala enquanto Karen a seguia de perto.
Annie se jogou no sofá velho, encarando o teto com uma expressão dramática de exaustão.
— Ela chorou, gritou, disse que você a trocou por uma turista de pele dourada e que nunca mais vai pisar nesta casa — relatou Annie, virando a cabeça para olhar as duas. — Mas relaxem. Duas horas depois, ela já estava pedindo batata frita e me fazendo jurar que não contaria nada disso para vocês. Ela está magoada, óbvio, mas vai ter que engolir. Porque até eu, que sou lerda, já percebi o jeito que a Ramona olha para você, Karen. Nem para mim ela olha com tanta consideração assim, e olha que eu dividi o útero com ela.
— Annie! — ralhou Ramona, atirando uma almofada contra a irmã, que riu enquanto se defendia.
Karen sentiu o peso que carregava nos ombros finalmente se dissolver. A franqueza desbocada de Annie sempre tinha o poder de trazer tudo de volta à realidade. Não seria uma situação fácil; Onna ainda estaria por perto, as farpas ainda poderiam surgir nas esquinas da pequena cidade e o desconforto adolescente ainda cobraria seu preço. Mas não havia mais fantasmas ou dúvidas silenciosas.
Mais tarde, quando as luzes da casa se apagaram e a tempestade lá fora diminuiu para uma garoa mansa, Karen estava deitada em seu quarto de hóspedes, fitando a penumbra. A porta se abriu devagar, emitindo apenas um sussurro na madeira.
A silhueta de Ramona entrou na ponta dos pés, fechando a porta atrás de si com cuidado. Sem dizer uma palavra, ela caminhou até a cama e deslizou sob as cobertas grossas, aninhando-se contra Karen.
O contraste entre as duas era nítido mesmo no escuro: a respiração compassada, a pele fria de Ramona buscando o calor reconfortante de Karen, os dedos se entrelaçando sob o edredom como se pertencessem exatamente àquele encaixe.
— Você não deveria estar no seu quarto? — sussurrou Karen, embora já estivesse puxando Ramona para mais perto, envolvendo-a com os braços protetores.
— Deveria — murmurou Ramona contra a curva do pescoço de Karen, onde o calor parecia concentrado. — Mas este é o único lugar de Sterling Point onde eu realmente quero estar.
Karen sorriu na escuridão, descansando o queixo no topo da cabeça de Ramona. O drama, os olhares de ressentimento de Onna e a incerteza do futuro continuavam lá fora, esperando pelo dia seguinte. Mas ali, sob o abrigo daquele quarto simples cercado por florestas infinitas, nada disso importava.
Para Ramona, sempre fora Karen. E Karen finalmente entendeu que o verão não pertencia a uma estação no calendário, mas sim à garota que havia encontrado nas profundezas do outono canadense.
