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Fandom: Ré: Zero

Criado: 17/10/2026

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O Peso de um Sorriso Forçado

O sol da tarde banhava as imensas janelas de arco da Mansão Milroad com uma tonalidade dourada e preguiçosa. Era um dia que beirava a perfeição absoluta, daqueles que pareciam ter sido pintados à mão para afastar qualquer resquício de pesadelo ou tragédia. O tilintar sutil de louças de porcelana fina e o cheiro doce de biscoitos de manteiga recém-saídos do forno preenchiam a sala de estar, criando um ambiente tão pacífico que quase parecia uma ilusão cruel.

Quase.

No centro daquele pequeno paraíso particular, Natsuki Subaru equilibrava uma bandeja de prata em uma das mãos enquanto fazia uma pose teatral desnecessariamente dramática com a outra.

— E aqui está! Para a gloriosa e inigualável Senhorita Emilia, a maior candidata real que este mundo já testemunhou, o chá de folhas silvestres com o toque secreto do grande Natsuki Subaru! — exclamou ele com uma risada estridente, curvando-se como um mordomo de uma peça de comédia barata.

— Ah, Subaru, você não precisava fazer tudo isso... — disse Emilia, com as bochechas coradas e um sorriso tímido que iluminava os traços angelicais de seu rosto. — Mas muito obrigada. O cheiro está maravilhoso, de verdade!

— Elogios da Emilia-tan restauram instantaneamente cem pontos da minha barra de vida! — respondeu ele piscando o olho com vigor exagerado.

Ele girou nos calcanhares com uma energia quase elétrica, movendo-se rápido demais, falando alto demais. Seus olhos castanhos brilhavam, mas, para um observador atento, havia uma rigidez quase imperceptível nos cantos de sua boca, uma leve contração na mandíbula que ele mascarava com mestria invejável.

— Ora, ora, Barusu — zombou Ram, sentada em uma das poltronas com a postura impecável de sempre —, sua capacidade de tagarelar bobagens antes do cair da noite continua sendo a única coisa verdadeiramente consistente na sua existência medíocre.

— Que crueldade, Ram! Eu passei vinte minutos acertando a temperatura dessa água para não amargar o chá da minha querida cunhada! — retrucou Subaru, colocando uma xícara à frente dela com um floreio exagerado.

— Quem é sua cunhada, seu pedaço de lixo insolente? — Ram arqueou a sobrancelha, embora tenha aceitado a xícara sem reclamar, levando-a aos lábios com um suspiro quase imperceptível de aprovação.

Sentada ao lado de Ram, Rem observava o rapaz com olhos límpidos e transbordantes de adoração. Ela estendeu a mão para segurar o tecido áspero da manga de Subaru assim que ele se aproximou.

— Subaru-kun sempre se esforça tanto por todos nós... — murmurou Rem, sua voz soando como um bálsamo suave. — Mas você parece cansado. Por favor, sente-se um pouco. Rem pode servir o restante das bebidas.

— O quê? Nem pensar, Rem! — Subaru deu um tapinha gentil no topo da cabeça da garota de cabelos azuis, mantendo o sorriso mais brilhante que pôde conjurar. — O grande herói da facção Emilia nunca se cansa de servir as garotas mais adoráveis deste reino! Isso é combustível puro para a minha alma!

— O herói da facção devia se preocupar em não derramar chá nas próprias calças, eu suponho — soou uma voz infantil, carregada de um desdém fingido e imensa autoridade.

Beatrice estava sentada no sofá mais largo, abraçada a um volume grosso de capa de couro. Seus cachos loiros em formato de broca balançavam levemente enquanto ela lançava um olhar fulminante na direção de Subaru. No entanto, por baixo daquela atitude fria, sua mãozinha livre segurava discretamente a ponta da jaqueta esportiva dele, sem a menor intenção de soltar.

— Beako! Minha doce e adorada contratante! Como você pode ferir os sentimentos do seu único e fiel empreiteiro dessa maneira? — Subaru soltou um gemido teatral de agonia, fingindo cambalear enquanto servia uma xícara menor, com três colheres generosas de mel, exatamente como ela gostava.

— Betty só está dizendo a verdade, de fato — murmurou ela, aceitando a bebida sem erguer completamente os olhos, mas afrouxando a tensão em seus ombros minúsculos. Através do contrato que compartilhavam, ela podia sentir as flutuações sutis da mana e, mais do que isso, o ritmo frenético do coração dele. O pulso de Subaru batia como o de alguém correndo desesperadamente para escapar de uma fera invisível, embora ele estivesse simplesmente parado no meio da sala.

— Ei, Capitão! — rugiu Garfiel do outro lado da mesa, mastigando avidamente um biscoito com seus dentes pontiagudos à mostra. — Essa coisa doce é incrível pra caramba! O que cê colocou nessa porcaria? Dá vontade de engolir até a louça junto!

— Garfiel, por favor, mastigue com a boca fechada! Estamos na residência dos nobres da família Milroad, tenha um pouco de decoro! — repreendeu Otto Suwen, cujos ombros pareciam afundados sob uma pilha intimidadora de relatórios, listas de suprimentos e livros fiscais. — E Subaru, pare de agir como se fôssemos convidados de férias! Você prometeu que me ajudaria a revisar os termos comerciais da restauração do Santuário depois do almoço!

— Otto, meu caro e estressado amigo! — Subaru apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se para a frente com uma expressão de falsa gravidade. — Você precisa aprender a relaxar. A juventude escapa pelos dedos como a areia de um ampulheta quebrada! Se você continuar franzindo a testa desse jeito, vai ficar careca antes dos vinte e cinco anos, sabia?

— Isso é calúnia! Eu me preocupo com o futuro da nossa facção enquanto você fica aí fazendo poses idiotas e servindo chá com nomes ridículos! — Otto massageou as têmporas, largando a pena com um suspiro exasperado, embora o canto de seus lábios denunciasse que ele não conseguia realmente se enfurecer.

— Ha! Um homem que não consegue apreciar a beleza de uma pausa para o chá da tarde não pode compreender a vitória na batalha! — decretou Garfiel, rindo alto e batendo com a mão pesada nas costas de Otto, quase fazendo o jovem mercador engasgar com a saliva.

A sala explodiu em uma mistura caótica de discussões familiares, risadas abafadas e broncas. Era a definição exata de calmaria. Era o tipo de cena que Subaru tinha desenhado em sua mente centenas de vezes, enquanto sangrava até a morte em cantos escuros e solitários, sentindo o cheiro nauseante de entranhas e o frio congelante do esquecimento.

Ali, rodeado pela luz e pelas vozes daquelas pessoas que amava mais do que a própria vida, ele deveria se sentir em paz.

No entanto, o peso em seu peito era quase sufocante.

Ele deu um passo para trás, deixando a bandeja sobre um aparador próximo. Suas mãos, quando ninguém estava olhando diretamente para elas, tremiam de forma quase imperceptível. O ar parecia subitamente rarefeito, como se a mansão estivesse no topo de uma montanha inóspita. Toda vez que ele piscava, imagens indesejadas relampejavam na escuridão sob suas pálpebras: os olhos sem vida de Rem, o sorriso quebrado de Emilia em um mundo coberto de neve, o som dos dentes das Grandes Lebres devorando sua carne viva.

Ele forçou os dentes a se cerrarem, empurrando as memórias de volta para o abismo escuro onde pertenciam.

Sorria, ele disse a si mesmo, cravando as unhas nas palmas das mãos escondidas nos bolsos da calça. Sorria. Ninguém pode perceber. Se você cair, eles caem. Você tem que ser o cara legal. Você tem que ser o alicerce.

— Subaru? — A voz doce de Emilia quebrou sua espiral interna.

Ela estava em pé ao lado dele agora, tendo deixado a xícara na mesinha de centro. Seus olhos de ametista, incrivelmente profundos e expressivos, fitavam o rosto de Subaru com uma preocupação genuína que fez o estômago dele se revirar em culpa.

— O que foi, minha deusa da prata? — Ele imediatamente colocou as mãos nos quadris, estufando o peito com sua habitual arrogância cômica. — Já está sentindo tanta saudade do meu rosto charmoso a ponto de não conseguir ficar longe nem por trinta segundos?

— Subaru, você está bem? — perguntou ela, ignorando a provocação como sempre fazia quando percebia algo errado. — Você... esteve tão ocupado o dia todo. Ajudou na cozinha, limpou os corredores com a Rem e a Ram, treinou com o Garfiel e agora está servindo todo mundo. Suas mãos estão frias.

— Claro que estou bem! — Ele soltou uma risada que soou uma oitava acima do normal, rápida e forçada. — Eu sou o cara que derrotou a Baleia Branca e o Preguiça! Cansaço é uma palavra que não existe no dicionário de Natsuki Subaru!

— Mentiroso, eu suponho — interveio Beatrice, que havia descido do sofá e agora se postava ao lado de Subaru, puxando a bainha de seu agasalho com insistência. — A alma de Betty está ligada à sua, idiota. Você não pode enganar a sua própria contratante. Sua mana está agitada como uma poça de água pisoteada por uma besta mágica.

— Beako, não seja tão dura com seu empreiteiro na frente de todo mundo... — Subaru tentou disfarçar com um sorriso torto, mas sua voz perdeu um pouco da força.

Rem aproximou-se pelo outro lado, seus passos silenciosos e elegantes. Ela não disse nada a princípio; apenas pegou a mão trêmula de Subaru entre as suas, envolvendo-a em um calor suave e reconfortante. Ela olhou diretamente nos olhos dele com uma serenidade que desarmava qualquer tentativa de fuga.

— Subaru-kun não precisa provar nada para nós aqui nesta sala — disse Rem suavemente. — Todas as pessoas aqui amam você. Você não precisa usar uma armadura quando está dentro de casa.

As palavras dela bateram contra a barreira emocional de Subaru como um martelo pesado contra uma vidraça fina. Ele engoliu em seco, sentindo a garganta apertada, as lágrimas ameaçando queimar o fundo de seus olhos.

Do outro lado da sala, a discussão barulhenta entre Garfiel e Otto cessou. Ambos olhavam na direção do trio com expressões que variavam entre a preocupação rústica e a empatia discreta. Até mesmo Ram mantinha sua xícara no ar, observando o garoto com seus olhos rubis afiados, sem pronunciar qualquer insulto afiado.

— O Capitão sempre corre na frente de todo mundo — disse Garfiel, coçando a nuca e desviando o olhar, constrangido, mas firme. — Mas você tem gente nas suas costas agora, sabia? Minha força incrível não serve só pra esmagar coisas que cê aponta, Capitão. Serve pra carregar o peso quando suas pernas idiotas resolverem falhar.

— Pela primeira vez na vida, tenho que concordar com o Garfiel — acrescentou Otto, ajeitando a gola da camisa com um sorriso melancólico. — Subaru, você é péssimo em esconder quando está à beira de um colapso. Seu rosto fica terrivelmente pálido e suas piadas ficam ainda mais sem graça do que o habitual, o que eu sinceramente não achava que fosse humanamente possível.

— Ei! Minhas piadas são refinadas e apreciadas pela elite cultural! — retrucou Subaru, mas a voz dele quebrou ligeiramente no final.

O sorriso em seu rosto vacilou. Por um breve segundo, a máscara desabou. A exaustão monumental que ele carregava na alma — o acúmulo de centenas de mortes brutais, o terror do fracasso constante, o medo desesperador de que um único erro pudesse custar o futuro brilhante que ele havia arrancado das garras do destino — transpareceu em seus olhos caídos.

Ele olhou para Emilia, para Rem, para Beatrice que segurava suas roupas como se ele pudesse desaparecer no ar a qualquer momento.

— Eu só... — Subaru começou, a voz caindo para um sussurro rouco, quase inaudível, tão diferente dos gritos teatrais de minutos atrás. — Eu só queria que este momento durasse. Eu queria que todos vocês pudessem sorrir assim todos os dias. Eu tinha medo de que, se eu parasse de me mexer... se eu não fosse útil... tudo isso pudesse desmoronar de novo.

— Barusu — disse Ram, pousando a xícara no pires com um estalo delicado que ecoou pelo cômodo silencioso —, você é um tolo presunçoso se acredita que a felicidade de qualquer pessoa nesta sala depende exclusivamente dos seus malabarismos patéticos.

Ela cruzou os braços, encarando-o diretamente.

— Você já fez o suficiente para nos trazer até aqui. Agora, seu único trabalho é não ser um estorvo desmaiando no meio do tapete caro da Senhorita Annerose.

Apesar da frieza habitual, o olhar de Ram continha uma aprovação tácita e um carinho velado que Subaru conhecia bem.

Emilia deu mais um passo à frente, fechando o espaço entre eles, e colocou as duas mãos suavemente sobre o peito de Subaru, bem onde o coração dele batia em um ritmo descompassado.

— Subaru — chamou ela, com uma doçura que fez o mundo parecer desacelerar —, nós estamos aqui porque nós escolhemos estar com você. Não porque você é útil, ou porque é forte, ou porque nos serve chá com nomes esquisitos. Nós estamos aqui porque você é o nosso Subaru. E ver você se machucar fingindo que está tudo bem dói em todos nós.

Uma lágrima teimosa escapou do olho esquerdo de Subaru, descendo quente por sua bochecha. Ele ergueu o dorso da mão para enxugá-la rapidamente, mas Rem foi mais veloz, usando a ponta do polegar para limpar a umidade com uma ternura infinita.

— Por favor, chore se precisar, Subaru-kun — sussurrou Rem. — Rem estará sempre ao seu lado para enxugar suas lágrimas.

— E Betty não vai a lugar nenhum, de fato — acrescentou o espírito artificial, apertando a mão dele com uma força surpreendente para o seu tamanho. — Você prometeu me tirar daquela biblioteca para me mostrar o mundo lá fora. Um mundo onde meu contratante fica se torturando sozinho não tem graça nenhuma, eu suponho.

Subaru fechou os olhos por um instante. O terror e o peso esmagador não desapareceram por completo — as cicatrizes que ele carregava dentro de si eram profundas demais para sumirem com palavras bonitas —, mas, pela primeira vez em semanas, a escuridão não parecia invencível. Ela estava sendo empurrada de volta pelo calor das mãos que o seguravam.

Ele soltou uma respiração longa e trêmula, esvaziando os pulmões de todo o ar pesado que parecia carregar desde que pisara na Mansão Milroad.

Quando ele abriu os olhos novamente, o sorriso que surgiu em seus lábios não era largo, barulhento ou extravagante. Era pequeno, genuíno e um pouco cansado, mas infinitamente mais brilhante do que a farsa que ele vinha sustentando o dia todo.

— Vocês... são realmente um bando de pessoas difíceis, sabiam disso? — disse ele, com uma risada rouca e suave. — Não deixam nem um cara fingir ser o herói invencível por uma tarde inteira.

— Esse papel nunca combinou com você mesmo, Capitão! — exclamou Garfiel, abrindo um sorriso largo e feroz. — O Capitão que a gente segue é o cara que chora, que grita, que sangra e que ainda assim arranja um jeito de vencer no final!

— Exatamente — concordou Otto, pegando a xícara que Subaru havia deixado para ele. — Então, por favor, sente-se logo antes que o chá esfrie. A papelada pode esperar mais uma hora.

Emilia puxou suavemente a mão de Subaru, guiando-o até o sofá ao lado de Beatrice. Ele não resistiu. Permitiu-se afundar nas almofadas macias, sentindo o alívio físico e mental descer sobre seu corpo como um cobertor quente em uma noite de inverno rigoroso.

Rem sentou-se ao seu lado direito, servindo-lhe uma xícara nova de chá, enquanto Beatrice pulava habilmente de volta para o assento à sua esquerda, repousando a cabeça contra o braço dele sem a menor vergonha. Emilia acomodou-se logo à frente, olhando para ele com olhos cheios de ternura.

— Está melhor agora? — perguntou Emilia, inclinando a cabeça de lado com curiosidade carinhosa.

Subaru levou a xícara aos lábios, sentindo o calor do líquido deslizar pela garganta, seguido pelo sabor suave das ervas silvestres. Ele olhou para cada um dos rostos reunidos naquela sala iluminada pelo sol poente — os amigos, a família improvável que ele havia conquistado com sangue, lágrimas e determinação.

— Sim — respondeu ele em voz baixa, e pela primeira vez naquele dia, a palavra não continha uma única gota de mentira. — Estou muito melhor agora.

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