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O dia q aconteceu

Fandom: Gahh show

Criado: 18/10/2026

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RomanceFatias de VidaHumorEstudo de PersonagemCenário CanônicoLinguagem Explícita
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Fio Desencapado

O barulho de caixas plásticas se chocando contra o chão de linóleo ecoou por todo o corredor do estúdio, acompanhado por um gemido conjunto e pelo estalo seco de papéis voando para todas as direções.

Gusta tropeçou no próprio cadarço e, no reflexo estabanado de tentar se equilibrar, agarrou a gola da camiseta de Gaba. O resultado foi um efeito dominó desastroso que terminou bem nos pés de Analice.

Ela não caiu. Analice parecia ter raízes fincadas no concreto, imutável como uma estátua de granito cinzento. No entanto, o copo de café gelado que segurava com a mão direita não teve a mesma sorte: a tampa plástica estourou com o impacto súbito, derramando uma poça escura sobre a barra de sua calça de alfaiataria impecável e manchando a pasta suspensa que trazia debaixo do braço.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Dava para ouvir o zumbido baixo das lâmpadas fluorescentes e a respiração pesada de Gaba, que se viu de joelhos no chão, com a cara a poucos centímetros do coturno preto dela.

— Vocês dois... — A voz de Analice veio baixa, modulada em uma frequência que fez os pelos da nuca de Gaba se arrepiarem por completo. Ela respirou fundo, fechando os olhos por três segundos intermináveis, provavelmente contando mentalmente para não cometer um homicídio doloso em horário de trabalho. — Vocês dois têm cinco anos de idade por acaso?

— Foi sem querer, juro pela minha vida! — Gusta levantou as mãos imediatamente, ainda sentado no chão, os olhos arregalados num misto de pavor genuíno e vontade inoportuna de rir. — O Gaba me empurrou, ele é um perigo público ambulante!

— Eu? — Gaba virou o rosto na direção do amigo com indignação, mas a voz falhou miseravelmente na última sílaba. Ele tentou se levantar rápido demais, escorregou levemente no café derramado e acabou apoiando uma das mãos na parede logo ao lado de Analice. O cheiro cítrico e amadeirado do perfume dela o atingiu de surpresa. — Analice, me desculpa. Foi culpa minha, eu não tava prestando atenção na curva. Deixa que eu limpo, eu compro outro café, eu pago a lavanderia, eu...

— Cala a boca, Gaba — cortou ela, abrindo os olhos escuros que pareciam queimar a pele dele.

Analice era o tipo de pessoa que não tolerava meio-termo. Pavio curto era pouco para descrever seu temperamento; ela era uma mecha acesa pronta para explodir diante de qualquer sinal de incompetência ou lentidão. Enquanto metade da equipe de produção do canal vivia fazendo piada e rindo alto por qualquer bobagem, Analice mantinha a espinha reta, a prancheta sob o braço e um olhar afiado que congelava qualquer tentativa de gracejo. Ela quase nunca sorria. Seu riso era uma moeda raríssima no set, guardada a sete chaves sob camadas e camadas de pragmatismo impaciente.

E era exatamente aquilo que deixava Gaba completamente louco.

Ele gostava do jeito tempestuoso dela. Gostava da maneira como ela organizava o caos dos bastidores com ordens precisas, de como não se dobrava para ninguém e, secretamente, sonhava com o dia em que seria o responsável por arrancar dela aquele sorriso difícil, daquele que desarmava a postura defensiva e mostrava o que existia por trás daquela armadura pesada.

— Pega um pano — ordenou ela, olhando para Gusta com desprezo cirúrgico. — E você, levanta desse chão antes que termine de limpar o rodapé com a sua camisa.

— Sim, senhora — murmurou Gaba, engolindo em seco enquanto se colocava de pé com cuidado.

Gusta saiu quase engatinhando pelo corredor em busca de rolos de papel-toalha na cozinha, feliz por escapar da linha de tiro. Gaba ficou ali, imóvel, sentindo o peso do olhar de Analice sobre si.

— Você vive no mundo da lua — ela disse, cruzando os braços e soltando um suspiro exasperado. O nó entre suas sobrancelhas não se desfez nem por um instante. — Se a gravação atrasar porque a planilha molhou, eu juro que você vai apresentar o programa de cabeça para baixo.

— Eu já disse que sinto muito — ele respondeu em tom manso, tentando encontrar um ponto fixo no rosto dela que não parecesse uma afronta. — O Gusta me puxou, de verdade.

— Vocês parecem duas crianças grandes — rebateu ela, impaciente, sacudindo a barra da calça molhada. — Não sei como o canal ainda não faliu. Dá licença.

Ela passou como um vendaval, deixando para trás apenas o rastro do perfume e a poça de café no chão. Gaba ficou parado no mesmo lugar, a mão ainda meio levantada no ar, com um sorriso bobo e involuntário repuxando o canto da boca.

— Ela vai matar a gente — disse Gusta, reaparecendo com um maço de papel encardido nas mãos. — E você tá aí com cara de quem acabou de ver um anjo. O que tem de errado com a sua cabeça, irmão?

— Nada — disfarçou Gaba, limpando a garganta e pegando metade do papel das mãos de Gusta. — Cala a boca e limpa o chão.


As duas semanas seguintes foram um teste de resistência para o autocontrole de Gaba.

Analice parecia determinada a ignorar sua existência tanto quanto o trabalho permitia. Ela entrava na sala de edição, jogava os discos rígidos na mesa, dava as diretrizes com sua voz firme e sem margem para réplicas e saía batendo a porta com força suficiente para estremecer os quadros decorativos. Gaba observava cada movimento com atenção doentia: o hábito que ela tinha de prender uma mecha de cabelo atrás da orelha quando estava frustrada, a forma como mordia a ponta da caneta enquanto lia os relatórios de métricas, a linha tensa dos ombros que nunca pareciam relaxar.

Era final de uma quinta-feira cansativa. O estúdio estava praticamente deserto. As luzes principais do mezanino já haviam sido apagadas, restando apenas o brilho azulado dos monitores na sala de corte e os focos de emergência espalhados pelas paredes do galpão. Gusta havia jurado de pés juntos que precisava sair mais cedo para resolver um problema pessoal — o que provavelmente significava encontrar alguém ou ir comer hambúrguer em algum lugar do centro.

Gaba ficou para trás terminando a renderização de um vídeo pesado, esticado na cadeira giratória com os fones pendurados no pescoço. O silêncio do lugar foi quebrado pelo barulho de passos firmes e apressados contra o piso.

Ele não precisou se virar para saber quem era.

Analice entrou na sala como um furacão contido, carregando a jaqueta preta de couro nas mãos e uma expressão de puro ódio estampada na testa. Ela caminhou diretamente até a mesa de som, remexendo nas gavetas com uma força desnecessária.

— Perdeu alguma coisa? — perguntou Gaba com a voz calma, deslizando a cadeira para o lado.

— A chave do almoxarifado — rosnou ela, batendo a primeira gaveta com força antes de puxar a segunda. — Alguém pegou e não devolveu no quadro. Aposto que foi o Gusta. Aquele garoto não tem meio neurônio funcional na cabeça.

— O Gusta foi embora faz quase uma hora — explicou Gaba, levantando-se devagar e se aproximando da bancada. — E as chaves reservas ficam comigo desde a semana passada, lembra? A gerência mudou o protocolo por causa daquele sumiço das lentes.

Analice parou com as mãos apoiadas sobre a madeira da mesa. Ela ergueu a cabeça lentamente, os olhos cravados nos dele. Se olhares pudessem queimar, a camiseta de Gaba já estaria em chamas.

— E por que você não falou nada antes? — perguntou ela, dando um passo à frente, com a voz carregada daquela impaciência cortante que era sua marca registrada. — Eu tô há quinze minutos revirando a produção inteira que nem uma idiota.

— Porque você acabou de entrar aqui que nem um trator, Analice — ele retrucou sem recuar, surpreendendo a si mesmo pelo tom firme. — Você nem me deu bom dia, nem me perguntou nada. Só começou a bater nas gavetas.

Ela franziu a testa, os lábios finos comprimidos em uma linha rígida. Havia uma faísca perigosa naqueles olhos, mas também uma sombra de cansaço evidente nas olheiras suaves sob eles.

— Eu não sou paga pra dar bom dia, Gaba. Sou paga pra fazer essa bagunça rodar no horário certo. Cadê a porcaria da chave?

— Tá no meu bolso — respondeu ele, mantendo a postura ereta, a menos de um metro de distância dela.

— Então me dá.

— Pede com educação.

Analice soltou um riso curto pelo nariz — não era um riso de diversão, mas de pura descrença com a audácia dele. Ela deu mais um passo em direção a Gaba, diminuindo a distância entre os dois de forma que ele conseguia sentir o calor que emanava do corpo dela. A diferença de altura obrigava-a a inclinar a cabeça para encará-lo nos olhos, o que parecia deixá-la ainda mais irritada.

— Você tá achando que tá falando com quem? — sussurrou ela, com a voz perigosamente rouca. — Passa a chave, Gaba. Agora. Eu quero ir pra casa.

— Não precisa ficar armada o tempo todo — ele disse, com a voz baixando de tom quase involuntariamente, sentindo o pulso acelerar a um ritmo absurdo dentro do peito. — Ninguém tá contra você aqui. Eu só queria que você falasse comigo feito uma pessoa normal uma vez na vida.

— Essa sou eu falando normalmente — rebateu ela, impaciente. — Se não aguenta, problema seu.

— Eu aguento — soltou ele, sem pensar. — Aguento até demais. Esse é o problema.

Analice parou. Seus olhos se estreitaram, examinando o rosto de Gaba com uma intensidade crua que tirou o ar dos pulmões dele. A sala de edição parecia ter encolhido dez vezes de tamanho. O zumbido das ventoinhas dos computadores era a única coisa preenchendo o vácuo entre eles.

— O que você quer dizer com isso? — a voz dela perdeu um pouco da agressividade inicial, mas manteve a urgência áspera.

— Você sabe muito bem — disse ele, dando o passo que faltava para fechar o espaço entre eles. Suas botas quase tocavam os coturnos dela. — Você é insuportável quando quer, pavio curto pra caramba, não ri de piada nenhuma e trata todo mundo na base do chicote. E eu passo o dia inteiro esperando você entrar por aquela porta só pra você olhar na minha direção, nem que seja pra brigar comigo.

Analice abriu a boca para falar alguma coisa cáustica, para disparar um dos seus insultos certeiros e cortar o assunto pela raiz, mas as palavras simplesmente pareceram travar na garganta. O olhar dela desceu rapidamente para a boca de Gaba e voltou para os olhos castanhos dele, revelando uma hesitação que ele nunca tinha visto nela antes.

— Você é um idiota — murmurou ela, mas a frase não carregava peso algum.

— Provavelmente sou — concordou Gaba.

Ele não esperou por uma permissão formal. Levou a mão até o rosto dela, as pontas dos dedos tocando a mandíbula tensa de Analice com uma cautela infinita. A pele dela estava quente. Por um segundo aterrorizante, ele achou que ela fosse empurrá-lo contra os equipamentos ou acertar um tapa em sua orelha, mas a reação de Analice foi completamente oposta.

Ela soltou um suspiro entrecortado e, em vez de recuar, agarrou a gola da jaqueta jeans dele com as duas mãos, puxando-o para baixo com a mesma urgência impulsiva que regia tudo o que ela fazia.

O beijo começou quase como um choque elétrico. Não houve hesitação romântica ou delicadeza de filme: os lábios de Analice encontraram os dele com fome e com uma ferocidade contida que parecia estar acumulada há semanas. Gaba passou os braços firmes ao redor da cintura dela, levantando-a levemente até que suas costas colidissem contra a borda da bancada de madeira, arrastando pastas e cadernos para o lado sem a menor preocupação.

Analice soltou um som baixo contra a boca dele, enfiando os dedos nos cabelos castanhos da nuca de Gaba e puxando-o para mais perto ainda, se é que aquilo era fisicamente possível. A língua dela era ágil, quente, ditando o ritmo de um jeito dominador que fez a cabeça de Gaba girar. A frieza profissional e o mau humor crônico haviam evaporado por completo, substituídos por uma paixão violenta, direta e sufocante.

Gaba pressionou seu corpo contra o dela, sentindo cada curva por baixo da roupa, respondendo ao ritmo desenfreado enquanto as mãos de Analice desciam para os ombros dele, cravando as unhas no tecido com força real.

— Você fala demais... — murmurou ela entre os beijos, os lábios vermelhos e brilhantes contra os dele, puxando seu lábio inferior com os dentes numa mordida de aviso antes de afundar a boca novamente na dele.

— E você reclama demais — sussurrou Gaba de volta, antes de tomar a boca dela outra vez, sentindo a risada abafada dela vibrar contra seu peito — finalmente um som próximo a um riso genuíno, rouco e sem defesas.

Eles estavam completamente perdidos naquele turbilhão de pele, respirações descompassadas e calor repentino, cegos e surdos para qualquer coisa que não fosse a presença urgente um do outro. As mãos de Gaba deslizavam pela lateral das coxas dela, erguendo o tecido da blusa apenas o suficiente para sentir a pele morna da cintura, quando o eco estridente de metal batendo contra a porta de vidro os atingiu como um balde de gelo.

— Ei, rapaziada, esqueci meu carregador portátil em cima da mes...

A frase morreu no ar.

Gusta estava parado no batente da porta, segurando uma garrafa térmica de água em uma das mãos e as chaves do carro penduradas no dedo indicador da outra. O queixo dele havia caído tanto que quase encostava no peito. Os olhos, já naturalmente expressivos, estavam duas vezes maiores do que o habitual, piscando em um ritmo alucinado entre Gaba e Analice.

Gaba congelou no mesmo instante, o coração disparado martelando nas têmporas, as mãos ainda posicionadas na cintura de Analice sobre a bancada.

Analice, por outro lado, empurrou Gaba com uma força descomunal no peito, fazendo-o cambalear dois passos para trás e quase trombar na cadeira de edição giratória. Ela desceu da bancada em um movimento ágil e seco, ajeitando a blusa amarrotada com puxões rápidos e nervosos enquanto o rubor subia furiosamente pelo seu pescoço até as bochechas.

O silêncio na sala era tão denso que quase dava para cortar com uma faca de pão.

Gusta olhou para o chão, onde os papéis haviam sido derrubados pela segunda vez naquele mesmo dia. Olhou para o cabelo desgrenhado de Gaba. Olhou para os lábios visivelmente inchados e avermelhados de Analice. E então olhou de volta para Gaba.

— Mas que p... — Gusta começou, apontando a ponta do chaveiro na direção deles como se estivesse segurando uma arma carregada. — O quê... o que diabos tá acontecendo aqui? Vocês dois? Tipo... juntos? Vocês tavam literalmente se comendo em cima da mesa de mixagem!

— Gusta — disse Gaba, com a voz pelo menos três oitavas mais aguda do que o normal, levantando as duas mãos em um gesto de pura rendição. — Não é o que parece... ou melhor, é exatamente o que parece, mas...

— Cala a boca, Gabriel! — cortou Analice, os olhos faiscando em um tom homicida que fez até Gusta recuar meio centímetro em direção ao corredor. Ela pegou a jaqueta de couro da cadeira, jogou sobre o ombro e caminhou na direção da saída a passos largos, sem olhar diretamente para nenhum dos dois.

Ao passar por Gusta na porta, ela parou por uma fração de segundo, encarando o rapaz com uma frieza cortante que parecia ignorar todo o calor dos últimos cinco minutos.

— Se você abrir essa boca idiota para qualquer pessoa desse estúdio — ameaçou ela, apontando um dedo firme no meio da testa de Gusta —, eu arranco a sua língua e uso de chaveiro. Fui clara?

Gusta assentiu freneticamente, com as costas coladas no batente de alumínio.

— Claríssima, comandante. Nem sei falar português mais. Sou mudo. Perdi a voz agora mesmo.

Analice virou o corredor sem olhar para trás, seus passos ecoando rápidos até o portão principal bater com um baque surdo ao longe.

A sala voltou a ficar silenciosa, restando apenas os dois rapazes sob o brilho tênue das luzes de trabalho. Gusta esperou alguns segundos até ter certeza absoluta de que ela havia saído do prédio. Lentamente, ele virou a cabeça na direção de Gaba, os olhos ainda arregalados, a boca se abrindo em um sorriso inacreditável e gigante.

— Mano... — sussurrou Gusta, a voz carregada de um espanto quase reverente. — Você é o cara mais corajoso do planeta Terra ou o mais suicida. Ela quase te engoliu vivo!

Gaba encostou as costas na bancada de edição, passando os dedos pelos lábios que ainda formigavam com o gosto do beijo e do atrito dela. Ele respirou fundo, tentando controlar o tremor que ainda corria por seus braços, mas não conseguiu evitar.

Um sorriso largo, aliviado e completamente idiota se espalhou pelo seu rosto.

— Valeu cada segundo — murmurou ele, encarando o corredor escuro por onde ela acabara de passar.

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