
estou vendo voce
Fandom: another
Criado: 19/10/2026
Tags
O Calor das Sombras Invisíveis
O ar na sala de artes da Escola Norte de Yomiyama parecia mais denso do que o habitual, carregado com o cheiro metálico de tinta a óleo e o pó de gesso que flutuava nos raios de sol poente. Misaki estava sentada em seu canto habitual, perto da janela. Seus cabelos pretos, curtos e levemente volumosos, moldavam seu rosto pálido enquanto ela se concentrava nas páginas amareladas de um livro antigo sobre folclore local.
Misaki não era como as outras garotas da Classe 3-3. Enquanto suas colegas discutiam moda ou os últimos rumores sobre quem estava gostando de quem, ela preferia o silêncio das bibliotecas e a adrenalina silenciosa de desvendar mistérios que a maioria preferia ignorar. Havia algo de errado com aquela cidade, algo que pulsava sob o asfalto e as raízes das árvores, e Misaki sentia que estava perto de entender a lógica por trás da "maldição".
— Você ainda está aqui, Misaki? — Uma voz suave a tirou de seus pensamentos. Era Sakakibara, parado à porta com sua mochila pendurada no ombro.
Misaki levantou os olhos pretos e profundos, marcando a página do livro com o dedo.
— Os mistérios não tiram folga, Sakakibara-kun — respondeu ela, com um leve esboço de sorriso que raramente chegava aos lábios. — Estava lendo sobre os incidentes de 1972. As peças parecem não se encaixar, não importa o quanto eu tente.
Sakakibara aproximou-se, observando as anotações meticulosas que ela havia feito nas margens de um caderno.
— Você deveria descansar um pouco. O clima na escola está... estranho hoje. Todo mundo parece estar prendendo a respiração.
— É o medo — disse Misaki, fechando o livro com um estalo seco. — O medo é um combustível poderoso. Ele faz as pessoas verem coisas onde não existem, ou ignorarem o que está bem diante de seus narizes.
Ela se levantou, sentindo uma súbita tontura. O calor dentro da sala parecia ter subido vários graus em questão de segundos. Misaki levou a mão à têmpora, sentindo o suor brotar em sua testa.
— Você está bem? — perguntou Sakakibara, dando um passo à frente com preocupação evidente. — Você parece pálida. Bem, mais pálida do que o normal.
— Está apenas... muito quente aqui dentro — murmurou ela. — Você não sente?
Sakakibara franziu o cenho e olhou para as janelas abertas, por onde entrava uma brisa fresca de outono.
— Na verdade, eu estava achando que estava esfriando. Quer que eu te leve até a enfermaria?
Misaki balançou a cabeça negativamente, tentando afastar a sensação de que seu sangue estava começando a ferver. Ela caminhou em direção à saída, mas a cada passo, a sensação de queimação interna aumentava. Não era um calor externo, como o do sol ou de uma estufa; vinha de dentro, de algum lugar profundo entre seus órgãos e seus ossos.
— Eu vou para casa — disse ela, sua voz soando um pouco mais rouca. — Preciso de ar fresco.
— Eu te acompanho até o portão — insistiu o rapaz.
Eles caminharam pelos corredores silenciosos da escola. Misaki sentia que o chão sob seus pés estava vibrando. Suas mãos começaram a tremer. Ela olhou para a pele de seus braços e notou que estava adquirindo um tom avermelhado, como se estivesse sob o efeito de uma febre altíssima.
— Misaki, sua mão... — Sakakibara parou abruptamente, apontando para os dedos dela.
Uma pequena fumaça branca, quase imperceptível, começava a emanar das pontas dos dedos de Misaki. Ela olhou para as próprias mãos, os olhos pretos arregalados em choque e uma curiosidade científica mórbida. Mesmo naquele momento, a mente dela tentava processar o fenômeno.
— Combustão humana espontânea... — sussurrou ela para si mesma. — Eu li sobre isso. É raro, inexplicável... e mortal.
— Do que você está falando? — Sakakibara tentou segurar o braço dela, mas recuou instantaneamente com um grito de dor. — Ai! Você está pegando fogo!
— Não toque em mim! — gritou Misaki, afastando-se. — Sakakibara-kun, afaste-se!
Eles agora estavam no pátio deserto da escola. O sol já havia se posto, deixando o céu em tons de roxo e laranja escuro. Misaki caiu de joelhos, o calor agora era uma agonia insuportável. Ela sentia como se milhares de agulhas incandescentes estivessem perfurando sua pele de dentro para fora.
— Misaki! Eu vou buscar ajuda! Aguente firme! — Sakakibara estava em pânico, olhando ao redor em busca de um extintor ou de qualquer pessoa que pudesse ajudar.
— Não há tempo! — Misaki olhou para ele, e por um breve momento, o medo em seus olhos foi substituído por uma clareza absoluta. — A maldição... ela não escolhe apenas acidentes. Ela escolhe o impossível.
Uma chama azulada começou a brotar do peito de Misaki, rasgando o tecido de seu uniforme escolar. Não havia cheiro de queimado comum; era algo mais puro, mais intenso.
— Por favor, saia daqui! — implorou ela, enquanto as chamas começavam a envolver seus ombros. — Não deixe que isso seja em vão. Continue procurando... a resposta está no que não podemos ver!
— Eu não vou te deixar assim! — Sakakibara tentou se aproximar novamente, mas o calor que emanava de Misaki era tão intenso que o ar ao redor dela começou a distorcer, criando uma redoma de fogo invisível.
Misaki sentiu seus pulmões arderem. Cada respiração era como engolir brasas. No entanto, sua mente, sempre tão focada em mistérios, não conseguia parar de analisar o próprio fim. Ela sempre quis saber como a maldição operava, quais eram seus limites. Agora, ela era a prova viva — ou moribunda — de que a Classe 3-3 não seguia as leis da física.
— É... fascinante — sussurrou ela, embora suas cordas vocais estivessem começando a falhar.
As chamas agora eram um redemoinho vívido, consumindo-a por completo. Misaki não gritou. Ela apenas fechou os olhos pretos, aceitando o calor que a transformava em luz. O brilho era tão intenso que Sakakibara teve que cobrir os olhos, as lágrimas escorrendo por seu rosto enquanto ele gritava o nome dela repetidamente.
Em poucos segundos, o clarão atingiu seu ápice e, tão rapidamente quanto começou, desapareceu.
O silêncio retornou ao pátio da escola, mais pesado do que nunca. Sakakibara abriu os olhos lentamente, sua visão ainda manchada por pontos de luz. Onde Misaki estivera ajoelhada, não havia mais nada. Nem cinzas, nem restos de roupas, nem marcas de queimadura no chão de cimento.
Era como se ela nunca tivesse existido.
— Misaki? — chamou ele, sua voz falhando em um soluço.
Ele caminhou até o local, tateando o ar, mas não sentiu nada além da brisa fria da noite que agora soprava com força. No chão, apenas o livro de folclore que ela carregava estava caído, intocado pelas chamas, aberto em uma página que falava sobre almas que se tornam fumaça para proteger segredos.
Sakakibara pegou o livro, as mãos ainda tremendo. Ele olhou para o prédio da escola, cujas janelas pareciam olhos escuros observando-o.
— Ela descobriu algo — murmurou ele para o vazio. — Ela descobriu e a maldição a calou.
Longe dali, na biblioteca da cidade, uma luz piscou e se apagou. O mistério que Misaki tanto amava investigar permanecia vivo, mas a garota que dedicara seus dias a decifrá-lo agora fazia parte do próprio enigma de Yomiyama.
A Classe 3-3 havia reclamado mais uma vítima, e desta vez, o fogo não deixou rastros, apenas o eco de um silêncio que queimava mais do que qualquer chama. Misaki, a garota que gostava de ler e desvendar mistérios, tornara-se o maior mistério de todos, desaparecendo no calor de uma noite que ninguém jamais esqueceria, mas que muitos tentariam apagar da memória.
Sakakibara apertou o livro contra o peito, sentindo o peso da responsabilidade que agora caía sobre seus ombros. Ele olhou para o céu estrelado e, por um breve momento, pensou ter visto uma centelha azul cruzar o horizonte.
— Eu vou descobrir, Misaki — prometeu ele em voz baixa. — Eu prometo que vou terminar o que você começou.
Mas o vento apenas soprou as folhas secas pelo pátio, e a escola permaneceu em seu silêncio sepulcral, guardando seus segredos sob o véu da escuridão.
