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sachiko ever after

Fandom: corpse party; tortured souls

Criado: 19/10/2026

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O Eco das Línguas Cortadas

O cheiro de carne podre e madeira úmida era tão espesso que Naomi sentia que poderia mastigá-lo. Cada passo nos corredores da Escola Primária Heavenly Host ecoava como um tiro, mas o som era imediatamente abafado pelo lamento constante das almas que habitavam aquelas paredes. O "escurecimento" não era apenas uma névoa mental; era uma substância viscosa que parecia escorrer pelas paredes, infiltrando-se nos poros de quem ainda respirava.

Naomi Nakashima caminhava abraçada ao próprio corpo, os olhos fixos no chão para evitar ver os restos mortais que decoravam os cantos das salas. A culpa a corroía por dentro, um ácido que queimava mais que a fome ou a sede. A imagem de Seiko — sua melhor amiga, a pessoa que sempre sorria — pendurada naquela corda, lutando por ar, não saía de sua mente. E o pior: a revelação de que suas próprias mãos haviam ajudado a empurrar o balde.

— Eu sinto muito, Seiko... — sussurrou Naomi, a voz falhando. — Por favor, me perdoa...

— Ela não pode te ouvir, Naomi.

A voz de Satoshi Mochida era um fio de esperança em meio ao caos, embora estivesse carregada de uma dor insuportável. Ele segurava a mão de Naomi com força, mas seus olhos estavam vazios. O trauma de ver Yuka, sua pequena e inocente irmã, expirar nos seus braços após a perseguição implacável daquele assassino maníaco, havia quebrado algo dentro dele que talvez nunca pudesse ser consertado.

— Temos que continuar — disse Satoshi, a voz trêmula. — Por Yoshiki... pela Professora Yui... por todos eles.

Ayumi Shinozaki caminhava à frente deles, segurando uma lanterna que falhava constantemente. A representante de classe, antes tão orgulhosa de seus conhecimentos sobre o oculto, agora parecia uma sombra do que fora. O sacrifício de Yoshiki Kishinuma pesava sobre seus ombros como uma montanha. Ele, o delinquente de coração de ouro que sempre a protegera, dera a vida lutando contra as aparições para que ela pudesse correr.

— É aqui — disse Ayumi, parando diante da porta do escritório do diretor. — O centro de toda essa maldição.

Eles entraram na sala, onde o ar parecia vibrar com uma energia estática e maligna. No centro do cômodo, uma pequena figura vestida de vermelho estava de costas para eles. Sachiko Shinozaki. O espírito da garotinha cujos olhos negros pareciam conter todo o sofrimento do mundo.

— Vocês demoraram — disse Sachiko. Sua voz não era a de uma criança, mas um coro de mil almas gritando em uníssono.

— Acabou, Sachiko! — gritou Ayumi, embora suas pernas tremessem. — Nós sabemos a verdade! Sabemos o que aconteceu em 1973. Sabemos sobre o diretor e o professor... sobre o que fizeram com a sua mãe!

Sachiko virou-se lentamente. Seu rosto estava pálido, e um sorriso macabro cortava sua face, revelando uma fileira de dentes afiados. Em sua mão direita, ela balançava ritmicamente um par de tesouras enferrujadas, manchadas com sangue fresco.

— A verdade não muda o que aconteceu — sibilou o espírito. — A dor da corda no meu pescoço... o som das línguas sendo arrancadas... isso nunca para. Por que eu deveria parar?

— Porque você não é um monstro! — Naomi deu um passo à frente, as lágrimas escorrendo livremente. — Você era apenas uma menina que queria a mãe! A escola te transformou nisso, o ódio te consumiu!

— O ódio é a única coisa real aqui — retrucou Sachiko, e o chão começou a tremer. — O ciúme que você sentiu de Seiko... a paranoia que consumiu Satoshi... vocês todos pertencem a este lugar agora.

As paredes começaram a sangrar. O líquido escuro e viscoso subia pelos tornozelos dos sobreviventes. Ayumi sentiu o "escurecimento" tentar invadir sua mente novamente, sussurrando que Naomi a odiava, que Satoshi a culpava por terem feito o feitiço. Ela fechou os olhos com força, agarrando o pingente de papel que ainda restava.

— Yoshiki morreu por mim! — gritou Ayumi, a voz sobrepondo-se aos gritos das almas. — A Professora Yui se esmagou sob aqueles escombros para que eu pudesse viver! Eu não vou deixar que o seu ódio apague o sacrifício deles!

Satoshi deu um passo à frente, colocando-se entre as garotas e o espírito vingativo. Ele estava apavorado, seus dentes batiam e suas mãos suavam, mas o desejo de proteger o que restava de sua "família" era maior que seu medo.

— Sachiko — chamou Satoshi, a voz agora mais firme. — Nós encontramos os restos da sua mãe. Ela não queria isso para você. Ela não queria que você se tornasse a mesma coisa que os homens que a mataram.

O espírito da menina hesitou. As tesouras pararam de balançar. Por um breve momento, a névoa vermelha em seus olhos pareceu dissipar-se, revelando a criança assustada que fora estrangulada para silenciar um crime.

— Eles cortaram as línguas deles... — sussurrou Sachiko, e uma lágrima de sangue escorreu por sua bochecha. — Para que ninguém pudesse gritar. Para que ninguém pudesse contar.

— Nós estamos contando agora — disse Ayumi, aproximando-se com cautela. — Estamos ouvindo o seu grito. Por favor, Sachiko... deixe-nos ir. Deixe as almas descansarem.

O ambiente distorcido da escola começou a se contorcer violentamente. As tábuas do chão se levantavam como dentes de uma fera imensa. O "escurecimento" atingiu seu ápice, e Naomi sentiu uma vontade súbita de cravar as unhas no próprio pescoço, enquanto Satoshi via a imagem de sua irmã Yuka, mas com o rosto deformado, pedindo para que ele se juntasse a ela na morte.

— Não escutem as vozes! — gritou Ayumi, segurando as mãos de Naomi e Satoshi. — Lembrem-se de quem somos! Lembrem-se do feitiço!

Eles se deram as mãos, formando um círculo de resistência contra a psicose que ameaçava devorá-los. Sachiko soltou um grito agudo, um som que parecia rasgar a própria realidade. As tesouras caíram no chão com um tilintar metálico.

— Mãe... — a voz de Sachiko agora era apenas a de uma criança pequena e frágil.

A figura vermelha começou a se desintegrar em pétalas de flores negras, que voavam em direção ao teto inexistente da sala. A pressão esmagadora no peito de Naomi aliviou-se por um segundo, mas a escola não estava pronta para deixá-los ir tão facilmente. O espaço dimensional estava colapsando.

— Temos que sair daqui! Agora! — ordenou Ayumi.

Eles correram pelos corredores que se desfaziam. Onde antes havia madeira, agora havia abismos de escuridão infinita. Naomi tropeçou em um pedaço de escombro, e Satoshi a puxou para cima com uma força que ele não sabia que possuía.

— Não pare! — gritou Satoshi. — Pela Yuka! Pela Seiko!

Eles chegaram ao pátio central, onde o portal rúnico que Ayumi havia preparado brilhava fracamente. Era a última chance. O feitiço "Sachiko para sempre" precisava ser revertido com as palavras exatas, ou eles ficariam presos no limbo entre as dimensões para sempre, tornando-se apenas mais alguns dos cadáveres sem língua que decoravam os corredores.

— Repitam comigo! — Ayumi gritou, enquanto o chão sob seus pés começava a desaparecer. — "Sachiko, nós te imploramos!"

— Sachiko, nós te imploramos! — Naomi e Satoshi gritaram em uníssono.

A luz do portal tornou-se cegante. Por um breve momento, Naomi viu o rosto de Seiko sorrindo para ela, um adeus silencioso e cheio de perdão. Satoshi sentiu um toque suave em seu ombro, como se a pequena mão de Yuka estivesse lhe dando um último empurrão para a liberdade. E Ayumi... Ayumi viu a sombra de Yoshiki, encostado na parede com seu sorriso de lado, protegendo a retaguarda deles até o último segundo.

— Vão! — pareceu soprar o vento com a voz de Yoshiki.

O mundo explodiu em branco.

Quando Naomi abriu os olhos, ela estava no chão da sala de aula da Academia Kisaragi. O sol da tarde entrava pelas janelas, e o silêncio era absoluto. Ela olhou para o lado e viu Satoshi e Ayumi, ambos ofegantes, cobertos de poeira e sangue que não deveria estar ali.

Eles estavam de volta. Mas a sala estava vazia. As classes de Seiko, Yoshiki, Mayu, Sakutaro e da Professora Yui estavam lá, silenciosas.

Naomi olhou para suas mãos. Elas estavam limpas, mas ela ainda podia sentir a textura da corda de Seiko. Ela olhou para Satoshi, que chorava silenciosamente, abraçando os próprios joelhos. Ayumi estava caída de bruços, soluçando o nome de Yoshiki repetidamente.

Eles haviam sobrevivido ao massacre da Heavenly Host, mas a escola levara tudo o que amavam. O "escurecimento" havia passado, mas a escuridão em seus corações seria eterna.

— Nós voltamos... — sussurrou Naomi, mas sua voz soou estranha em seus próprios ouvidos.

Ela tateou o bolso da saia e encontrou o pedaço de papel do feitiço. Estava encharcado de sangue. Ao olhar para o quadro negro, Naomi viu algo que a fez congelar. Escrito com giz, em uma caligrafia infantil e trêmula, estava uma única frase:

"Vejo vocês nos seus sonhos."

Naomi fechou os olhos, mas mesmo na escuridão de suas pálpebras, ela ainda podia ver o brilho vermelho do vestido de Sachiko e ouvir o som metálico de uma tesoura se fechando. O pesadelo não havia terminado; ele apenas mudara de endereço.

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