
Sovereign of a warrior and a witch
Fandom: EngLot FayeLotte
Criado: 19/10/2026
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Correntes de Ferro e Sombras
O mármore negro do salão do trono de Malveria ecoava com o arrastar metálico e pesado das correntes. O ar ali dentro era rarefeito, gélido como o sopro de uma lâmina recém-forjada, impregnado com o cheiro sutil de incenso amargo e poder absoluto. No topo dos degraus esculpidos em pedra vulcânica, Faye Malisorn repousava com uma elegância letal, o queixo apoiado na mão pálida enquanto os longos cabelos vermelhos como sangue fresco caíam em cascatas sobre o veludo escuro de suas vestes reais.
Aos vinte e oito anos, Faye governava com um punho de ferro e um olhar cirúrgico. Seus olhos afiados varriam o chão diante dela, onde duas figuras acabavam de ser violentamente empurradas pelos guardas da corte.
O baque dos corpos atingindo o chão soou como música para a rainha.
— De joelhos diante da soberana! — rugiu o comandante da guarda, forçando as cabeças das prisioneiras para baixo com as mãos blindadas.
Engfa Waraha não se dobrou pacificamente. A guerreira traidora, cujo nome agora era sinônimo de ruína após ter aberto os portões do próprio reino para o massacre de seus antigos aliados, cuspiu no chão de mármore. O sangue manchava seus lábios cortados, mas a fúria em seus olhos castanho-escuros ardia com a intensidade de um incêndio descontrolado. As correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos eram grossas o bastante para conter uma besta de cerco, e a cada movimento brusco, o ferro cortava sua pele bronzeada.
Ao lado dela, Charlotte Austin respirava de forma contida. A jovem bruxa mantinha a postura impecável, mesmo ajoelhada à força. Seus cabelos castanho-claros caíam em ondas suaves pelas pontas, emoldurando um rosto sereno, quase desinteressado, não fosse pela faísca perigosa em seu olhar. As amarras que a prendiam não eram de ferro comum; estavam gravadas com runas arcanas que pulsavam em um tom doentio de cinza, bloqueando o fluxo de sua linhagem ancestral. Para Charlotte, a ausência de suas sombras era como ter os pulmões cheios de chumbo, mas ela jamais daria o luxo àquela corte de demonstrar dor.
Faye endireitou-se no trono, descendo lentamente o primeiro degrau. A silhueta imponente de um metro e setenta e cinco projetava uma sombra longa sobre as prisioneiras. Um sorriso lento, cortante e perversamente divertido surgiu em seus lábios pintados de carmesim.
— Então este é o grande terror das fronteiras? — Faye zombou, a voz aveludada carregando um sarcasmo cortante. — A guerreira cão de caça que vendeu os próprios irmãos por desdém... e a herdeira da linhagem proibida, reduzida a uma boneca acorrentada. Devo admitir que esperava algo mais intimidador.
— Por que não desce até aqui e diz isso sem esses vermes armados ao seu redor, Malisorn? — rosnou Engfa, tentando erguer o tronco, a respiração pesada sacudindo seus ombros largos. — Prometo que não vai precisar de mais do que três segundos para me implorar por misericórdia.
— Engfa, cale a boca — murmurou Charlotte, a voz baixa, controlada, mas carregada de um aviso gélido. — Gritar como uma cadela raivosa só massageia o ego dela. Guarde a saliva para quando puder morder de verdade.
Faye soltou uma risada baixa, um som genuinamente encantado com a audácia diante de si. Fazia meses, talvez anos, que ninguém ousava olhar em seus olhos sem tremer, quanto mais insultá-la em sua própria sala de audiência. Aquela mistura de ódio fervilhante e rancor acumulado a fascinava.
— Que adorável — Faye deu mais dois passos lentos, aproximando-se da borda do estrado. — Charlotte Austin, a bruxa que desafiou os deuses antigos, repreendendo a guerreira de estimação. Diga-me, bruxinha... como é a sensação de não ter suas sombras queridas para rastejarem aos seus pés? Sente frio sem elas?
Charlotte ergueu os olhos frios para a rainha, sustentando o olhar vermelho e predatório sem piscar.
— Minhas sombras têm paciência, Majestade — respondeu ela, articulando cada sílaba com calma letal. — Elas não se importam de esperar no escuro. E garanto que o dia em que estas correntes caírem será o último dia em que você dormirá sem pesadelos.
— Uma promessa e tanto vinda de alguém de joelhos no meu chão — zombou a soberana, os olhos brilhando em deleite sádico.
Engfa não aguentou o tom de deboche. A veia em sua têmpora saltou, o orgulho estraçalhado e a arrogância indomável tomando o controle de seus membros machucados. Com um rugido rouco de pura fúria, ela disparou para a frente, impulsionando-se com as pernas presas, as correntes esticando-se violentamente na direção da garganta de Faye.
— Sua vadia orgulhosa—!
Antes que Engfa pudesse avançar meio metro, o comandante da guarda reagiu com brutalidade mecânica. A ponta metálica de sua maça atingiu em cheio o estômago da guerreira, seguido por um golpe implacável contra sua omoplata. O impacto fez o ar fugir dos pulmões de Engfa, arremessando-a contra o chão de pedra com um baque surdo que ecoou pelas vigas do teto.
Um gemido abafado escapou dos lábios de Engfa enquanto ela tossia sangue, o peito subindo e descendo com violência.
Faye nem sequer havia recuado um centímetro. Pelo contrário, assistira à queda com um olhar dilatado de profundo prazer. Ver aquela leoa arrogante se arrebentar contra os próprios grilhões enviou um arrepio elétrico por sua espinha. Era gratificante, delicioso, quase viciante.
— Controle-se, Waraha — disse Faye, inclinando-se para frente e tocando a ponta de sua bota de couro polido sob o queixo de Engfa, forçando a guerreira a encará-la enquanto sangrava. — Se quebrar antes de começarmos a brincadeira, eu ficarei terrivelmente desapontada.
— Eu nunca... vou quebrar para você — sibilou Engfa, cuspindo outro rastro escarlate aos pés da rainha, os olhos faiscando de desprezo. Um desprezo doentio, distorcido, que ardia tão perto do fascínio que quase a enojava admitir.
Charlotte respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não perder a compostura com a estupidez imprudente de Engfa.
— Eu avisei para não gritar — murmurou Charlotte, a irritação evidente em sua expressão estoica. — Sua falta de cérebro ainda vai fazer a minha cabeça rolar junto com a sua.
— Guardas — ordenou Faye, afastando a bota e voltando a erguer a postura régia, a voz cortando o murmúrio tenso do salão.
— Para as masmorras mais profundas, Vossa Majestade? — perguntou o capitão, pronto para arrastar os corpos.
— Não — Faye sorriu, um brilho perigoso e malévolo iluminando suas feições perfeitas. — As masmorras são escuras e monótonas demais para convidadas de tal calibre. Levem as duas para os meus aposentos privados.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Os guardas entreolharam-se, hesitantes, enquanto Charlotte cerrava os punhos e Engfa forçava os dentes até trincar.
— Vossa Majestade? — gaguejou o comandante.
— É surdo por acaso? — Faye virou-se de costas, a capa vermelha rodopiando com sua arrogância natural. — Acomodem-nas no centro do meu quarto. Amarrem-nas nos pilares da alcova. Elas ficarão sob meus olhos até que eu decida como, quando e em quantas partes irei quebrá-las. Agora saiam da minha frente.
Os aposentos da rainha eram o reflexo exato de sua mente: luxuosos, vastos e sufocantes. Tapeçarias escuras com o brasão de Malveria cobriam as paredes de pedra polida; lareiras gêmeas queimavam madeira perfumada, e uma cama gigantesca com cortinados de seda negra dominava o fundo do aposento.
No centro do quarto, entre colunas de ônix esculpidas, Engfa e Charlotte haviam sido jogadas. As correntes agora estavam ancoradas nas bases de ferro das colunas. Elas tinham liberdade suficiente para sentar-se ou mudar de posição, mas qualquer tentativa de fuga seria fútil. A porta maciça de carvalho bateu, trancada por fora com ferrolhos pesados, deixando as duas sozinhas no calor abafado daquele quarto opulento.
Engfa soltou uma sequência de maldições em sua língua nativa, puxando as correntes até que seus pulsos escorressem mais sangue.
— Droga, mil vezes maldita seja aquela desgraçada ruiva! — praguejou, apoiando a cabeça contra a coluna, ofegante e pálida pela pancada que levara.
— Engfa — Charlotte a chamou, a voz seca como palha no inverno. — Pelo amor dos antigos deuses, cale essa boca por cinco minutos. Você está me dando dor de cabeça desde que fomos capturadas na fronteira.
— Ah, me perdoe, senhorita mística! — rebateu Engfa, virando o rosto machucado com uma careta sarcástica. — Esqueci que seus ouvidos delicados não aguentam a realidade de estarmos prestes a virar tapete para a vadia da Malisorn.
— Se você tivesse um pingo de paciência, seus pulmões não estariam doendo agora — Charlotte ajeitou-se com dificuldade, os nós dos dedos cinzentos pelo bloqueio das runas. — Ela está jogando. Faye não nos quer mortas, ao menos não ainda. Se quisesse, nossas cabeças já estariam penduradas nos portões da cidadela.
— Ela é um monstro sádico, Charlotte — grunhiu Engfa, fechando os olhos e sentindo o gosto metálico da derrota. — Ela quer um espetáculo. Quer nos humilhar.
— E você deu exatamente o que ela queria quando tentou pular no pescoço dela como um cão sarnento — retrucou a bruxa, inclinando a cabeça levemente para o lado, observando as chamas da lareira refletidas na tapeçaria. — Ela gosta da dor. Dá para ver nos olhos dela. Aquele olhar faminto... Faye se alimenta da nossa resistência.
— E você parece admirar isso — cuspiu Engfa, cheia de veneno.
Charlotte soltou um suspiro tedioso, fitando a guerreira com uma calma gélida.
— Admirar? Não seja ridícula. Eu odeio Malisorn tanto quanto você. O simples fato de ela respirar no mesmo cômodo que eu me causa repulsa. Mas ao contrário de você, eu sei como o poder opera. Se você continuar agindo como um animal enjaulado, ela vai adorar arrancar suas presas uma por uma.
Antes que Engfa pudesse retrucar, o clique pesado da tranca ecoou pela câmara. As dobradiças rangeram suavemente, e os passos ritmados de saltos sobre o assoalho de carvalho anunciaram a chegada da anfitriã.
Faye havia se desfeito da coroa pesada e da capa formal. Usava apenas um robe de seda escura, frouxamente amarrado na cintura, que revelava a linha de sua clavícula e a curvatura de seu pescoço pálido. Os cabelos vermelhos estavam soltos, caindo rebeldes sobre os ombros. Ela trazia consigo duas taças de vinho e uma garrafa, caminhando com a tranquilidade de quem inspeciona seus próprios pertences.
— Vejo que ainda estão respirando — disse Faye, a voz arrastada, parando a uma distância segura, porém próxima o bastante para que pudessem sentir o perfume doce e perigoso de flores noturnas que emanava dela. — E, para minha surpresa, ainda brigando entre si. Fascinante.
Engfa rosnou baixo, tentando se erguer, mas o peso do golpe recente a manteve sentada, os músculos tensos, prontos para atacar como uma mola recolhida.
— Veio nos servir uma última refeição, Majestade? — provocou Charlotte, inclinando o queixo com um deboche frio, encarando o robe decotado de Faye com um olhar insolente. — Que gentileza da sua parte. Quase me faz esquecer o quão patética você parece tentando fingir que não tem medo de nós duas.
Faye arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, um sorriso lento e calculado desenhando-se em seu rosto. Ela deu um passo à frente, abaixando-se graciosamente até ficar na altura de Charlotte. A rainha estendeu a mão enluvada e, com a ponta dos dedos, tocou a bochecha da bruxa. Charlotte não recuou, mas seus olhos semicerraram-se em um desafio mudo, uma tensão palpável queimando entre suas respirações próximas.
— Medo, pequena Austin? — murmurou a rainha, a voz deslizando como veludo sobre a pele da prisioneira. — De uma bruxa amordaçada pelo próprio sangue? Você não consegue nem acender uma faísca nesta sala. Suas sombras estão enterradas tão fundo que você mal se lembra de como é senti-las rastejando pela sua espinha.
— Tira as mãos dela — rosnou Engfa, as correntes retumbando contra o piso quando ela tentou se aproximar, tomada por uma onda irracional de fúria e posse distorcida.
Faye não se assustou. Em vez disso, lentamente virou a cabeça para Engfa, o sorriso alargando-se ao ver a ira nos olhos escuros da guerreira. Ela soltou Charlotte e deslizou até Engfa, parando a centímetros de seu rosto suado e ensanguentado. O calor da respiração de Faye bateu contra os lábios cortados de Engfa.
— Olhe para você, Waraha — Faye sussurrou, acariciando com uma crueldade deliberada o maxilar tenso da guerreira, pressionando de leve o corte em sua boca para vê-la estremecer. — Tão furiosa. Tão quebrada. Você traiu uma nação inteira, mas aqui está, rosnando por migalhas de atenção. Você me odeia tanto que chega a tremer, não é?
— Eu odeio tudo o que você é, Malisorn — respondeu Engfa entre dentes, mas seus olhos caíram por um milésimo de segundo nos lábios vermelhos da rainha antes de voltarem a subir, uma corrente elétrica densa e sufocante ligando as duas. — E vou adorar assistir ao momento em que seu pescoço estiver sob as minhas mãos.
— Promessas, promessas... — Faye riu baixinho, a pupila dilatada pelo vislumbre daquela resistência pura. Ela se levantou em toda a sua altura, olhando para ambas como um predador que acaba de encontrar presas que valem o esforço da caçada. — Vocês duas têm algo que há muito tempo não vejo nesta corte de covardes. Têm fogo. Um ódio tão refinado que quase parece devoção.
Charlotte soltou um riso seco e desdenhoso.
— Não confunda náusea com devoção, Faye.
A rainha serviu-se de uma taça de vinho, bebendo um gole lento enquanto seus olhos percorriam as duas mulheres amarradas no centro de seu santuário.
— Não importa o nome que queiram dar — declarou Faye, caminhando lentamente em direção à sua cama e sentando-se na beirada macia, cruzando as pernas longas com indolência. — O destino de vocês agora me pertence. Eu poderia mandar enforcá-las ao amanhecer, mas isso seria um desperdício imperdoável. Quero ver até onde vai esse orgulho tolo. Quero ver a guerreira implorar por clemência e a bruxa esquecer seus encantos para pedir por mim.
Engfa cuspiu as palavras com puro desprezo, mesmo que o calor sob sua pele dissesse o oposto daquela frieza aparente.
— Você vai apodrecer esperando por isso.
— Nós veremos, minha querida traidora — Faye ergueu a taça em um brinde silencioso, o brilho cruel e sedutor nos olhos vermelhos iluminando a penumbra do quarto. — A noite é uma criança em Malveria. E eu sou incrivelmente paciente quando se trata de quebrar brinquedos tão bonitos.
