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Fandom: Vida real

Criado: 19/10/2026

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Sob o Casaco Bege

O sinal havia tocado quase quarenta minutos antes do horário habitual, anunciando que o último tempo de aula fora cancelado devido a uma reunião pedagógica repentina. Em questão de instantes, os corredores do colégio foram tomados pelo eco de mochilas sendo fechadas às pressas, risadas estridentes e o tropel de passos afobados rumo ao portão principal. No entanto, para Iali e Thais, a pressa simplesmente não existia.

Enquanto a maioria dos estudantes praticamente disputava espaço para sair e alcançar o ponto de ônibus, as duas garotas desvencilharam-se do fluxo comum e seguiram por um caminho lateral, calmo e sombreado. O chamado “mini jardim” da escola não passava, na verdade, de um recanto meio esquecido atrás do bloco dos laboratórios: um canteiro comprido cercado por acácias baixas, alguns arbustos de hibisco e um banco comprido de concreto, parcialmente engolido por trepadeiras. O sol da tarde descia suave, filtrado pelas copas verdes, pintando manchas douradas no chão de terra batida.

Iali sentou-se na extremidade do banco, ajeitando a alça da mochila no chão entre seus pés. Seus cachos médios e bem definidos balançaram com a brisa leve, emoldurando o rosto de traços expressivos e pele morena escura. Os olhos pretos e atentos correram pelos arredores, conferindo se realmente estavam sozinhas. Vestia a camisa padrão do uniforme, mas completava a vestimenta com uma calça jeans clara, de corte reto, que desenhava com elegância as curvas de suas pernas compridas. Por natureza, Iali carregava uma presença centrada, uma postura ereta e uma maturidade que muitas vezes a fazia parecer alguns anos mais velha do que realmente era.

Contudo, bastava Thais se sentar ao seu lado para que aquela couraça polida começasse a estalar nas bordas.

Thais jogou-se no concreto sem a menor cerimônia, soltando um suspiro dramático. O cabelo castanho, cortado na altura dos ombros, estava levemente desalinhado pelo vento. Sobre a camiseta da escola, ela usava o inseparável casaco bege, dois números maior que seu corpo miúdo, que a deixava com um ar quase infantil de vulnerabilidade. O tecido folgado caía pelos pulsos, cobrindo metade de suas mãos. Qualquer pessoa que olhasse de relance para aquele rosto angelical e para os grandes olhos verde-escuros pensaria se tratar de uma aluna ingênua, absorta em fantasias inocentes. Mas Iali conhecia a mente por trás daquele olhar. Sabia que a cabeça de Thais operava em frequências caóticas, saltando de pensamentos filosóficos absurdos para provocações desconcertantes sem aviso prévio.

— Você sabia que se a gente ficasse presa aqui para sempre, nós provavelmente teríamos que aprender a comer essas folhas de hibisco? — perguntou Thais, com uma seriedade desconcertante, apontando para um ramo próximo. — Digo, elas parecem crocantes. Não que eu queira mastigar uma agora, mas é bom ter um plano B caso o mundo acabe antes das três da tarde.

Iali franziu o cenho de leve, soltando uma risada nasalada que denunciava seu divertimento contido.

— Nós estamos a trinta metros do portão da rua, Thais. Não vamos precisar comer folhas.

— Você é muito pragmática, amor. Falta imaginação de sobrevivência em você — retrucou a castanha, inclinando a cabeça para trás e fitando a copa das árvores. Seus olhos verdes brilhavam com reflexos dourados. — Olha aquela nuvem. Parece uma torradeira. Ou um hipopótamo triste. O que você acha?

— Acho que parece apenas vapor de água condensado — respondeu Iali, tentando soar inabalável, embora o coração já começasse a martelar num ritmo descompassado só de estar ali, tão perto, dividindo o silênco entre as falas tolas.

Thais continuou divagando sobre a hipotética tristeza dos hipopótamos e o formato das nuvens, gesticulando no ar com a mão meio escondida pela manga bege. Seu olhar se perdeu entre os galhos, completamente distraído, a boca entreaberta desenhando palavras desconexas com a naturalidade de quem vive em um universo paralelo.

Iali observou o perfil da namorada. A curva suave da bochecha, a ponta do nariz arrebitado, a calma aparente que Thais exalava. Uma onda súbita de calor subiu pelo peito da morena, misturada a uma pontada de carência corajosa. Ela costumava ser a pessoa ponderada da relação, a que dizia para terem cuidado nos corredores, a que mantinha as mãos devidamente nos bolsos. Mas ali, sob a sombra protetora do jardim e embalada pelo murmúrio distante da cidade, a timidez que sempre a dominava perto de Thais deu lugar a um impulso irresistível.

Estendendo o braço devagar, Iali envolveu os dedos quentes na mão distraída de Thais. A castanha nem sequer interrompeu a fala sobre como formigas deviam achar as pessoas gigantes desajeitadas, mas permitiu o toque com facilidade, relaxando os dedos entre os de Iali.

Foi então que Iali respirou fundo, engoliu em seco e puxou a mão de Thais para o próprio colo.

O movimento não parou por aí. Guiando a mão menor coberta pelo tecido bege, Iali a conduziu lentamente pelo comprimento de sua coxa, deixando-a repousar exatamente sobre a virilha, por cima do jeans claro e rígido de sua calça.

O monólogo de Thais congelou na metade de uma sílaba.

O silêncio que se seguiu pareceu pesar toneladas. Uma brisa soprou, fazendo as folhas secas rangerem no chão, mas nenhuma das duas se moveu de imediato. Iali sentiu o rosto queimar instantaneamente, as maçãs do rosto ganhando um tom profundo e avermelhado sob a pele escura. Ela soltou a mão de Thais, recolhendo os próprios braços em um gesto quase reflexo de autodefesa, arrependida pela ousadia súbita. Seus olhos pretos baixaram, fixando-se com intensidade no padrão desgastado da própria calça.

— Iali... — a voz de Thais soou diferente. Não havia mais nada daquela dispersão infantil de segundos atrás. O tom agora era grave, aveludado, tingido por um interesse elétrico e inesperado.

Iali mordeu o lábio inferior, sem coragem de encarar os olhos verdes.

— Foi só... eu só queria... — começou a gaguejar, a postura madura desmoronando feito um castelo de areia diante da maré. — Deixa para lá. Esquece.

Mas Thais não esqueceria. Pelo contrário. Aquela faísca era tudo o que ela precisava para desmontar sua carcaça de garota dispersa.

Em vez de afastar a mão, Thais abriu os dedos. A palma quente, envolta na lã suave do casaco, pressionou com firmeza o jeans claro. Um arrepio nítido percorreu a espinha de Iali, fazendo seus ombros subirem um milímetro.

— Esquecer? — murmurou Thais, inclinando o tronco para perto. O cheiro adocicado de xampu de baunilha que ela usava invadiu os sentidos da namorada. — Você me dá um presente desses e quer que eu finja que não vi?

— Thais, a gente está no colégio... — Iali sussurrou, a respiração vacilando quando a mão de Thais começou a se mover.

— Foram as suas mãos que trouxeram as minhas até aqui, linda — disse a de olhos verdes, com um sorriso de canto que era pura provocação. A inocência havia evaporado sem deixar rastro. — Eu estava quieta, falando das nuvens. Você é que foi safada.

Com uma lentidão calculada e quase cruel, Thais flexionou os dedos, afundando a ponta deles no tecido denso do jeans, bem no ponto onde a costura central encontrava o calor do corpo de Iali. O atrito do tecido rígido contra a carne sensível arrancou um suspiro entrecortado dos lábios da morena, que fechou os olhos com força.

— Olha para mim — pediu Thais em um tom que não admitia recusa, quase uma ordem sussurrada ao pé do ouvido.

Iali abriu as pálpebras devagar. O contraste não podia ser mais gritante: Thais, com aquele casaco frouxo e carinha de anjo, mantinha um brilho predador e malicioso nos olhos verdes escuros. A mão de Thais deslizou ligeiramente para cima e depois para baixo, aplicando uma pressão cadenciada, firme o suficiente para transmitir toda a intenção, mas sutil o bastante para que de longe parecesse apenas um repouso inocente de braço.

— Alguém... alguém pode passar — murmurou Iali, sentindo o ar rarefeito nos pulmões. O calor concentrado entre as pernas começava a se espalhar em ondas pulsantes, nublando seus pensamentos.

— Todo mundo foi embora, amor. E se alguém vier, a gente ouve os passos nas folhas secas — disse Thais, aproximando ainda mais o rosto, a respiração quente roçando a bochecha corada de Iali. — Mas se você quiser que eu pare... você sabe que eu paro. Basta me mandar parar.

A mão de Thais fez uma rotação curta com a palma, pressionando a base da mão contra o montículo sob o jeans, traçando a linha sensível com uma precisão cirúrgica.

Iali gemeu baixinho, um som sufocado que morreu no fundo de sua garganta. Suas mãos procuraram instintivamente o tecido do casaco bege de Thais, agarrando a lã com os nós dos dedos esbranquiçados. Ela não conseguia dizer a palavra. Não queria que ela parasse; a verdade nua e crua era que o toque a estava consumindo por dentro.

— Viu só? — sussurrou Thais, triunfante, percebendo a hesitação deliciosa. — Você não quer. Toda certinha, toda responsável... mas é só a gente ficar sozinha que você me desconstrói inteira.

A castanha continuou o movimento, variando entre carícias amplas que cobriam a extensão da virilha e apertos pontuais que faziam Iali arfar. O jeans claro oferecia resistência, mas o calor acumulado abaixo dele tornava cada fricção intensa demais. Iali moveu levemente os quadris para cima, buscando mais contato em uma resposta puramente instintiva que a fez ficar ainda mais vermelha ao perceber o que fizera.

Thais soltou uma risada rouca, visivelmente encantada com a reação.

— Tão sensível... você não tem vergonha de ser assim tão linda? — provocou, os dedos deslizando com mais velocidade sobre a costura.

— Cala a boca... — pediu Iali, com a voz embargada, a testa encostando na de Thais em busca de apoio. Seus cachos caíram sobre os rostos de ambas, criando uma cortina íntima que as isolava ainda mais do restante do mundo.

— Vem calar.

Iali não precisou de um segundo convite. Ela avançou sobre a boca de Thais em um beijo urgente, faminto, que misturava a vergonha pungente ao desejo reprimido das últimas horas. Os lábios de Thais eram macios e receptivos, mas não havia submissão naquele beijo: a castanha correspondia com avidez, usando a língua para aprofundar o contato enquanto a mão sob o casaco acelerava o ritmo contra o jeans de Iali.

A fricção ritmada, o atrito do tecido áspero contra o corpo aquecido e a boca exigente de Thais criaram uma sobrecarga nos sentidos da morena. Iali apertou os ombros de Thais, os dedos cravados no casaco bege, soltando pequenos gemidos abafados contra a boca da namorada. Cada movimento calculadamente vagaroso daquela mão parecia incendiar as fibras do jeans, derretendo qualquer resquício de autocontrole que Iali se orgulhava de possuir.

Thais usou o peso do próprio corpo para inclinar-se ligeiramente sobre a outra, intensificando a pressão. Com a lateral do polegar, encontrou o ponto mais sensível e começou a traçar círculos pequenos, implacáveis. O corpo de Iali estremeceu da cabeça aos pés; um espasmo doce e repentino correu por sua espinha, e ela precisou quebrar o beijo para arquear o pescoço para trás, puxando o ar com desespero.

— Thais... por favor... — a súplica saiu entrecortada, uma mistura confusa de alívio e vertigem.

A castanha diminuiu o ritmo aos poucos, suavizando a pressão para um afago reconfortante, mas sem retirar a mão de onde estava. Ela observava a namorada com uma ternura possessiva, admirando o peito que subia e descia descompassado, o suor fino na têmpora e os olhos pretos marejados de pura sensação.

— Eu adoro quando você perde essa sua postura séria — confessou Thais em um murmúrio doce, o tom de voz retornando àquela leveza quase sonhadora de antes. Ela ergueu a mão livre e afastou uma mecha encaracolada do rosto de Iali, prendendo-a atrás da orelha. — Você fica deslumbrante quando se entrega desse jeito.

Iali demorou alguns segundos para conseguir abrir os olhos completamente. A sensação de formigamento ainda reverberava por suas pernas, mas o ritmo cardíaco aos poucos tentava encontrar um compasso seguro. Olhar para Thais naquele momento — com os lábios ligeiramente inchados do beijo, as bochechas coradas, mas a mesma expressão travessa no rosto — fez Iali rir baixinho, uma risada trêmula e desarmada.

— Você é um perigo, sabia? — disse Iali, ajeitando-se no banco com cuidado e puxando a barra da própria camisa para disfarçar o desalinho. — Ninguém naquele colégio imagina o que se passa nessa sua cabeça.

— É a vantagem de usar casaco bege e falar de hipopótamos tristes — respondeu Thais, piscando um dos olhos verdes em uma cumplicidade descarada. Ela finalmente retirou a mão do colo de Iali, esticando as mangas longas sobre os punhos novamente, recompondo seu disfarce angelical com maestria espantosa. — A melhor camuflagem é parecer completamente lunática.

Iali balançou a cabeça, derrotada pela lógica tortuosa da namorada, mas puxou Thais para um abraço de lado. A castanha aninhou-se contra o peito da morena sem pestanejar, repousando a cabeça na curva de seu pescoço.

O vento frio do fim de tarde passou pelas copas das acácias, agitando os ramos de hibisco e espalhando folhas secas pelo chão de terra. Lá fora, o portão da escola bateu com um estrondo metálico distante, sinal de que o vigia logo começaria a ronda habitual para trancar as alas secundárias.

— Acho melhor a gente levantar — sugeriu Iali, embora os braços ao redor de Thais não dessem nenhum sinal de que pretendiam soltá-la tão cedo.

— Daqui a pouco — murmurou Thais, com a voz abafada contra a pele morena da namorada. — Me deixa aproveitar o calor do seu jeans primeiro.

Iali sorriu, beijando o topo da cabeça castanha e deixando-se ficar, por mais alguns minutos preciosos, completamente imersa naquele caos particular que só Thais conseguia criar.

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