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O dia

Fandom: Mundo torajo

Criado: 19/10/2026

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RomanceFatias de VidaDramaHumorFofuraEstudo de PersonagemCenário Canônico
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Entre Pavios Curtos e Tons de Roxo

O barulho estridente do primeiro sinal ecoou pelas paredes do colégio como uma sirene de aviso para uma catástrofe iminente. Para Analice, no entanto, aquele som não era apenas um lembrete de que o dia letivo estava começando; era uma afronta direta à sua pouca paciência.

Segurando a alça da mochila com força suficiente para deixar os nós dos dedos esbranquiçados, a garota olhava ao redor do corredor lotado. Havia gente correndo, adolescentes rindo alto demais para as oito da manhã e armários batendo com estrondo. Era o seu primeiro dia naquela escola nova, e seu nível de tolerância já estava perigosamente perto de zero. Analice não era do tipo que fazia amigos facilmente. Tinha o pavio curto como um fósforo riscado e uma aversão quase física a piadas sem graça e sorrisos forçados. Para fazê-la rir, era preciso um milagre; para tirá-la do sério, bastava respirar um pouco mais alto ao lado dela.

— Com licença — murmurou ela pela terceira vez, tentando passar por um grupo que simplesmente ocupava a largura inteira do corredor sem a menor consideração. Ninguém se moveu.

Ela respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não começar seu primeiro dia na diretoria.

— Eu disse com licença! — disparou Analice, elevando a voz em um tom seco e afiado que fez dois calouros pularem para o lado como se tivessem visto um fantasma.

Satisfeita apenas pelo espaço conquistado, ela deu mais três passos antes de um turbilhão verde cruzar o seu caminho.

Um garoto de cabelos castanhos e casaco verde chamativo vinha tropeçando nos próprios pés enquanto tentava equilibrar uma pilha indecente de cadernos e um copo de suco que certamente não deveria estar aberto ali.

— Cuidado, Torajo! — gritou uma voz feminina alguns passos atrás, mas já era tarde.

Torajo cambaleou para a esquerda, depois para a direita, e finalmente colidiu de ombro com Analice. O impacto não a derrubou, mas fez a pasta com suas folhas de matrícula voar direto para o chão, espalhando papéis brancos por todo o piso encerado.

— Droga! — esbravejou Analice, as bochechas queimando de pura indignação. Ela se virou para o garoto com os olhos semicerrados em fúria. — Você tem algum problema de visão ou só gosta de agir como um trator desgovernado?

Torajo congelou no lugar, piscando assustado diante da hostilidade imediata da garota nova. Ele ajeitou os óculos imaginários e soltou uma risada nervosa, coçando a nuca.

— Ai, caramba! Desculpa, sério! Eu juro que vi você, quer dizer, não vi, porque a pilha tava muito alta e o Linn disse que eu não ia conseguir carregar tudo e...

— Torajo, cala a boca um segundo — interrompeu uma garota ruiva com detalhes vermelhos e um sorriso caloroso, aproximando-se às pressas. Era Zulmi, que logo se abaixou para recolher as folhas. — Mil desculpas por ele! Ele é meio... estabanado. Você é nova aqui, não é? Sou a Zulmi!

— Eu consigo pegar meus papéis sozinha, obrigada — respondeu Analice, com a voz cortante, agachando-se rapidamente para juntar as folhas antes que alguém pisasse nelas.

Um terceiro garoto, vestindo roupas em tons de amarelo e com uma expressão calma e sensata, parou ao lado de Torajo e cruzou os braços com um suspiro resignado.

— Eu avisei que você ia derrubar — disse Linn, balançando a cabeça em reprovação amigável. — Sempre avisa.

— Não ajuda, Linn! — resmungou Torajo, agachando-se também para tentar catar uma folha que havia deslizado para baixo de um banco.

Analice sentia uma veia pulsar suavemente na têmpora. Ela só queria encontrar a sala 204, entregar aquela maldita papelada na secretaria e passar o resto do dia ignorando a existência humana. Em vez disso, estava cercada por uma trupe barulhenta que parecia ter saído de um desenho animado colorido demais para o seu gosto.

— Deixa ela em paz, Torajo. Você claramente já causou trauma o suficiente para uma manhã.

A voz veio de trás, baixa, arrastada e carregada de um sarcasmo tão genuíno que cortou o ar de maneira quase cirúrgica.

Analice ergueu o olhar enquanto pegava a última folha.

Encostado contra a fileira de armários, com as mãos enfiadas nos bolsos de um moletom roxo-escuro e o capuz cobrindo parcialmente o cabelo bagunçado, estava outro garoto. Ele tinha uma postura desleixada, olhos expressivos e um sorriso de canto que oscilava entre o tédio absoluto e a diversão pura. Era Morajo.

— Eu não fiz por querer, Morajo! — protestou Torajo, levantando-se e bufando. — Foi um acidente de percurso!

— Um acidente que acontece toda terça-feira — retrucou Morajo, descosturando-se do armário e dando dois passos lentos na direção do grupo. Ele olhou para Analice, medindo a expressão carrancuda da garota com um brilho de aprovação nos olhos. — Relaxa, novata. Ele faz isso com todo mundo, mas você foi a primeira pessoa esperta o bastante para não fingir que achou engraçado.

Analice se levantou, batendo a poeira invisível da saia do uniforme. Ela encarou Morajo de frente. Esperava encontrar mais um idiota zombeteiro, mas havia algo na indiferença tranquila dele que, paradoxalmente, a impediu de gritar.

— Não tem nada de engraçado em gente que não sabe olhar para onde anda — devolveu ela, ajeitando as folhas em uma pilha reta e batendo-as contra a perna. — E eu não preciso de plateia para o meu estresse.

Zulmi arregalou os olhos de leve, claramente surpresa com a resposta afiada da novata, enquanto Linn soltou uma risadinha abafada atrás da mão. Torajo apenas parecia constrangido.

Morajo, por outro lado, arqueou uma sobrancelha. Em vez de se ofender, o canto da sua boca subiu mais um milímetro. Ele deu mais um passo à frente, parando a uma distância quase respeitosa, mas perto o suficiente para que Analice sentisse o cheiro suave de algo cítrico misturado ao tecido do casaco dele.

— Mau humor logo às oito da manhã? — comentou ele em tom confidencial, inclinando ligeiramente a cabeça. — Gostei de você.

Analice sentiu um calor repentino subir pela base do pescoço, mas engoliu em seco e forçou o semblante mais frio que conseguiu montar.

— Não tente ser simpático. Não vai funcionar.

— Confie em mim, "simpático" é a última palavra que alguém usaria para me descrever — disse Morajo, soltando um meio riso que soou surpreendentemente genuíno.

— Ei! Não liga para ele, ele é sempre amargo assim! — interveio Zulmi, querendo quebrar a tensão, exibindo um sorriso radiante. — Mas sério, seja bem-vinda! Qual é o seu nome?

Analice olhou para Zulmi, depois para Torajo e Linn. Todos pareciam esperar uma resposta amigável. Ela soltou o ar com força pelo nariz.

— Analice.

— Analice — repetiu Torajo, assentindo com a cabeça como se decorasse o nome com seriedade. — Novamente, foi mal pelo empurrão, Analice. Qual é a sua primeira aula? A gente pode te mostrar o caminho para compensar o vexame!

— Sala 204 — disse ela, seca. — E eu sei ler placas, não preciso de guia turístico.

— A 204 fica no corredor antigo, que tá em reforma — avisou Linn, apontando com o polegar por cima do ombro. — Se você seguir a sinalização das placas, vai acabar presa numa escada bloqueada por andaimes.

Analice cerrou os punhos ao lado do corpo.

— Maravilha — murmurou ela entre dentes. — Escola fantástica.

Morajo olhou para o relógio de pulso e depois para Torajo e os outros.

— Vocês três não tinham que entregar o projeto do laboratório antes do segundo toque? A professora Helena vai arrancar o couro de vocês se atrasarem de novo.

Os olhos de Torajo se arregalaram em desespero puro.

— O projeto! O Linn tá com a maquete! Corre!

— Espera aí! — gritou Zulmi, sendo puxada pelo braço por Torajo enquanto Linn já acelerava o passo pelo corredor. — Tchau, Analice! A gente se vê no almoço!

Em questão de três segundos, os três desapareceram no mar de alunos como se nunca tivessem existido, deixando para trás apenas uma folha solta voando ao vento.

E Morajo.

Analice piscou, surpresa com a velocidade da debandada, e então virou a cabeça devagar para encarar o garoto de roxo, que continuava parado ali, observando os corredores se esvaziarem conforme os outros alunos entravam nas salas.

— Você não tem aula? — perguntou ela, cruzando os braços e mantendo a postura defensiva.

— Tenho — respondeu Morajo calmamente. — Na 204.

Ela estreitou os olhos.

— Tá inventando isso só para me encher o saco?

— Eu tenho cara de quem se dá ao trabalho de inventar desculpas para andar com pessoas irritadiças? — rebateu ele, dando as costas com naturalidade e começando a caminhar pelo corredor à esquerda. — Vem logo antes que o inspetor comece a caçar quem tá fora da sala. A menos que você prefira ficar aqui encarando a parede.

Analice hesitou por uma fração de segundo. Parte dela queria mandar ele passear e encontrar a sala sozinha apenas por orgulho, mas seu bom senso falou mais alto. Ela bufou, arrumou a mochila no ombro e apertou o passo para alcançá-lo.

Caminharam lado a lado por alguns metros em um silêncio tenso. O colégio ia ficando mais silencioso à medida que as portas das salas se fechavam. O ritmo de Morajo era compassado, quase preguiçoso, o que irritava um pouco o temperamento apressado de Analice, mas ela preferiu não reclamar logo de início.

— Eles são sempre daquele jeito? — perguntou ela de repente, quebrando o silêncio sem olhar para ele.

— Quem? O trio elétrico? — Morajo soltou um riso curto pelo nariz. — Sempre. O Torajo é barulhento demais, a Zulmi é otimista demais e o Linn é a única razão pela qual nenhum dos dois colocou fogo na escola ainda.

— Parece exaustivo — observou ela, sincera.

— E é. Mas a gente se acostuma. Ou simplesmente ignora, que é o que eu costumo fazer na maior parte do tempo.

Analice olhou para ele de soslaio. Morajo tinha um perfil tranquilo, com os cabelos caindo ligeiramente sobre a testa. Havia uma espécie de barreira ao redor dele, muito parecida com a que ela mesma mantinha para afastar as pessoas, mas com uma diferença sutil: enquanto a barreira dela era feita de faíscas prontas para explodir, a dele parecia uma névoa densa e impenetrável.

— Você não parece se esforçar muito para fingir que gosta deles — comentou ela, com uma pitada de curiosidade que tentou mascarar.

— Eu gosto deles — disse ele, surpreendendo-a pela resposta simples e direta. — Só não preciso ficar gritando isso aos quatro ventos nem sorrindo feito um idiota o dia todo. Silêncio é subestimado.

Analice sentiu uma sensação estranha e morna no peito. Pela primeira vez naquela manhã caótica, alguém dissera algo com o qual ela concordava plenamente.

— Finalmente alguém com cérebro por aqui — soltou ela, quase sem pensar.

Morajo parou no meio do corredor e se virou para ela.

— O quê? — perguntou ela, já endurecendo a postura novamente, na defensiva. — Tem alguma coisa na minha cara?

— Não — disse ele, com o olhar fixo nela. O sorriso de canto voltou, mas agora parecia diferente. Menos irônico, um pouco mais suave. — Só achei que você ia demorar pelo menos uma semana para concordar comigo em qualquer coisa.

Analice sentiu as bochechas esquentarem de novo, e dessa vez não era de raiva. Aquilo a irritou ainda mais.

— Não se ache tanto. Eu só concordei que silêncio é bom. Você ainda tá falando bastante para quem diz valorizar a quietude.

— Touché — admitiu ele, encolhendo os ombros sem perder o sorriso.

Eles viraram em um corredor mais estreito, onde o chão de taco dava lugar a um piso antigo e havia uma fita zebrada isolando metade da passagem, exatamente como Linn havia previsto. No final do corredor, havia uma porta de madeira escura com o número 204 meio desgastado em metal dourado.

— Chegamos — anunciou Morajo, parando em frente à maçaneta. — Sã e salva, sem precisar de mapa.

— E sem precisar de muito esforço — completou ela, ajeitando a alça da mochila mais uma vez para disfarçar o nervosismo súbito. — Valeu pela carona a pé.

Ela fez menção de alcançar a maçaneta, mas Morajo se moveu no mesmo instante com a intenção de abrir a porta para ela. As mãos dos dois se tocaram sobre o metal frio.

O contato durou menos de um segundo, mas foi tempo suficiente para ambos congelarem no lugar. A mão de Morajo era quente, contrastando com a pele fria de Analice. Por um instante, nenhum dos dois puxou a mão para trás.

Analice ergueu os olhos, encontrando o olhar de Morajo a poucos centímetros de distância. Ele não estava com o sorriso sarcástico de antes. Pelo contrário: uma mancha tênue de rubor começava a pintar as pontas de suas orelhas sob o capuz, e os olhos dele pareciam genuinamente desconcertados, piscando mais rápido que o normal.

Ele limpou a garganta pigarreando baixinho e recuou um passo, enfiando a mão no bolso do moletom com uma pressa que traía sua habitual calma fingida.

— Foi mal — murmurou ele, desviando o olhar para a fita zebrada no chão.

Analice sentiu o coração bater no ritmo acelerado de um tambor descompassado. Ela cruzou os braços com força, fingindo inspecionar a pintura descascada da porta para que ele não percebesse o tom avermelhado que agora cobria suas próprias bochechas até a raiz dos cabelos.

— Não precisa pedir desculpa — disse ela, com a voz ligeiramente mais suave do que pretendia. Percebendo a brecha, tentou corrigir o tom imediatamente: — Quer dizer... só não faz de novo. Não gosto que me toquem sem aviso.

Morajo olhou para ela pelo canto do olho e, ao notar o rubor evidente no rosto da garota, aquele sorriso torto e confiante voltou a se insinuar nos lábios dele, embora com uma doçura rara.

— Anotado, estentadinha.

— Não me chama de esquentadinha! — ralhou ela, mas o pavio que costumava explodir em fúria parecia ter se apagado numa poça de água fria. Ela apenas mordeu o lábio inferior, virando a maçaneta e empurrando a porta.

A sala estava razoavelmente quieta, com o professor ainda escrevendo no quadro-negro. Quando os dois entraram, o homem apenas apontou para duas carteiras vazias no fundo, sem interromper o giz contra a lousa verde.

Analice caminhou em linha reta e puxou a cadeira da ponta, jogando a mochila no chão ao lado dos pés. Para seu completo desespero — ou talvez alívio, um sentimento confuso demais para admitir àquela hora —, a única outra carteira livre ficava logo atrás da sua.

Morajo se sentou, arrastou a cadeira para a frente e apoiou os cotovelos na mesa, debruçando-se ligeiramente.

— Ei — sussurrou ele, perto o bastante para que apenas ela ouvisse.

Analice respirou fundo, fingindo abrir o caderno de anotações com o máximo de seriedade possível.

— O que foi agora?

— Você tem uma caneta sobrando? — perguntou ele em tom zombeteiro. — O trator desgovernado do meu amigo acabou esmagando meu estojo semana passada e esqueci de comprar outro.

Analice revirou os olhos com dramaticidade, enfiando a mão no bolso frontal da mochila. Puxou uma caneta esferográfica preta e a jogou por cima do ombro, fazendo-a aterrissar direto na mesa dele.

— Devolve no final da aula. Se você mastigar a tampa, eu acabo com você.

Morajo pegou a caneta, rodando-a entre os dedos compridos, e soltou uma risadinha baixa que reverberou pelo ar silencioso entre eles.

— Prometo tratar sua caneta com todo o respeito do mundo, Analice.

Ela não respondeu. Manteve os olhos fixos na lousa, mas as mãos pararam de tremer na folha em branco. E, pela primeira vez desde que havia acordado naquele dia detestável, um quase imperceptível esboço de sorriso ameaçou romper a linha dura de seus lábios antes que ela conseguisse sufocá-lo a tempo.

Talvez, afinal de contas, aquele colégio não fosse a pior coisa do mundo.

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