
Amor
Fandom: Lngshot
Criado: 20/10/2026
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O Eco do Primeiro Acorde
A casa dos Park sempre teve um cheiro específico: uma mistura de amaciante de roupa limpa, café fresco e o perfume amadeirado que Jay, o irmão mais velho, insistia em usar. Para Ohyul, aquele lugar era o epicentro de todas as suas memórias. Cada degrau da escada de madeira parecia guardar um segredo, especialmente o terceiro degrau, que rangia de um jeito denunciador toda vez que ele tentava escapar de fininho para ver Woojin durante a adolescência.
Ohyul estava sentado na varanda, observando o jardim. Sua pele, branca como porcelana e impecável sob a luz do fim de tarde, contrastava com os cabelos negros que caíam levemente sobre os olhos. Ele sempre foi o "irmão bonito", aquele que atraía olhares sem fazer esforço, mas sua beleza era acompanhada por um silêncio reservado, um espírito de justiça que o fazia intervir em qualquer briga de rua, mesmo que não dissesse uma palavra depois.
Ao seu lado, as memórias de Woojin eram inevitáveis.
Eles cresceram colados. Woojin era a música daquela casa. Enquanto Ohyul era o silêncio observador, Woojin era o som do violão no meio da tarde, os dedos sujos de tinta guache e os olhos brilhando com uma sensibilidade que Ohyul nunca soube explicar, apenas sentir. Eles foram o primeiro tudo um do outro: o primeiro beijo desajeitado atrás da garagem, o primeiro toque trêmulo, a primeira promessa de "para sempre".
Mas o "para sempre" de dois adolescentes é uma unidade de tempo frágil. Quando Ohyul completou dezoito anos e se preparou para a faculdade, o medo de prender Woojin — que ainda tinha dois anos de ensino médio pela frente — falou mais alto.
— A gente precisa parar, Woojin — disse Ohyul naquela noite chuvosa, dois anos atrás, no quarto de Woojin, cercado por partituras e telas inacabadas.
— Por quê? — Woojin perguntou, a voz embargada, os olhos grandes e expressivos já marejados. — É por causa da faculdade? Eu posso esperar. Eu vou te visitar todo final de semana.
— Não é justo com você — Ohyul respondeu, embora seu coração estivesse se partindo. — Você tem sua arte, suas músicas, seu último ano. Eu vou entrar em um mundo novo. Se ficarmos presos um ao outro, vamos acabar nos odiando por não termos vivido.
Ohyul foi embora. Ele entrou na faculdade, focou nos estudos e, eventualmente, conheceu Ryul.
Ryul era o oposto da melancolia artística de Woojin. Apenas dois centímetros mais baixo que Ohyul, ele era uma força da natureza. Direto, sem filtros e absurdamente descolado, Ryul não perdia tempo com metáforas. Se ele queria algo, ele pegava. E ele queria Ohyul. O relacionamento deles começou como algo casual, noites sem compromisso que se transformaram em uma rotina de conveniência e atração física intensa. Ryul era apaixonado, possessivo de um jeito charmoso e nunca tinha medo de dizer o que pensava.
Mas então, o destino decidiu que o hiato de Ohyul havia acabado.
O primeiro dia do novo semestre na faculdade de artes e música trouxe um rosto familiar. Ohyul estava no refeitório com Ryul quando o viu. Woojin atravessava o pátio carregando um case de violão, parecendo um pouco mais alto, um pouco mais maduro, mas com a mesma aura de quem sentia o mundo intensamente demais.
— Quem é o garoto do violão? — Ryul perguntou, notando o modo como Ohyul congelou com o copo de café a meio caminho da boca. — Ele parece perdido. Ou talvez seja só o estilo "artista sofredor".
Ohyul não respondeu de imediato. Ele sentiu um aperto no peito que não sentia há anos.
— É o Woojin — murmurou Ohyul. — Um velho amigo.
— Amigo? — Ryul arqueou uma sobrancelha, um sorriso ladino surgindo em seu rosto determinado. — Pelo jeito que você está olhando para ele, parece que ele é o dono da sua música favorita que você parou de ouvir.
A chegada de Woojin mudou a dinâmica de tudo. Não demorou para que os círculos sociais se cruzassem. Jay e Louis, os irmãos de Ohyul, adoravam Woojin e o receberam de braços abertos, ignorando o clima estranho que pairava no ar.
Certa noite, Ohyul estava saindo da biblioteca quando encontrou Woojin sentado em um banco, desenhando em um caderno de esboços. A luz do poste criava sombras dramáticas em seu rosto sensível.
— Você ainda desenha no escuro? — Ohyul se aproximou, a voz suave.
Woojin levantou o olhar. Houve um silêncio pesado, carregado de dois anos de palavras não ditas.
— As sombras são mais honestas que a luz, Hyul — Woojin respondeu, usando o apelido de infância que fez o estômago de Ohyul revirar. — O que você está fazendo aqui a essa hora?
— Estudando. E você? — Ohyul sentou-se ao lado dele, mantendo uma distância segura.
— Tentando entender como as coisas mudaram — Woojin fechou o caderno. — Eu vi você com aquele cara. O Ryul. Ele parece... decidido.
— Ele é. — Ohyul olhou para as próprias mãos. — Ryul é simples. Com ele, eu não preciso pensar muito.
— E desde quando você gosta de não pensar, Ohyul? — Woojin virou-se para ele, os olhos brilhando com aquela coragem altruísta que sempre o definira. — Você sempre foi o cara que buscava justiça, que buscava profundidade. Você terminou comigo porque queria que eu vivesse, ou porque estava com medo do que a gente sentia ser grande demais para o seu mundo novo?
Ohyul abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um assobio alto. Ryul estava parado a alguns metros de distância, as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, um sorriso desafiador no rosto.
— Atrapalho a reunião de condomínio? — Ryul caminhou até eles e passou o braço pelos ombros de Ohyul, reivindicando seu espaço com a naturalidade de quem não conhece a vergonha.
— Estávamos apenas conversando, Ryul — disse Ohyul, sentindo-se desconfortável sob o olhar atento de Woojin.
— Prazer, eu sou o Ryul — disse o mais baixo, estendendo a mão para Woojin com uma firmeza quase agressiva. — O namorado, parceiro e o cara que tira o Ohyul do sério.
Woojin levantou-se, apertando a mão de Ryul com uma delicadeza que escondia sua força interior.
— Eu sou o Woojin. O passado, o presente e, possivelmente, a nota que o Ohyul não consegue tirar da cabeça.
Ohyul sentiu a tensão elétrica entre os dois. Ryul, com sua determinação inabalável, e Woojin, com sua carga emocional e história compartilhada.
— Vamos, Ohyul? — Ryul chamou, puxando-o levemente. — Tenho ingressos para aquele show que você queria ver.
Ohyul olhou para Woojin, que apenas acenou com a cabeça, um sorriso triste e compreensivo nos lábios.
— Vá, Hyul. A gente se vê por aí.
Nos dias que se seguiram, a mente de Ohyul tornou-se um campo de batalha. Ryul era o fogo; ele era direto, apaixonado e fazia Ohyul se sentir vivo e desejado no presente. Ele não pedia desculpas por ocupar espaço. Por outro lado, Woojin era a água; ele era profundo, calmo e conhecia cada cicatriz invisível da alma de Ohyul.
A crise estourou durante uma festa na casa dos Park. Jay e Louis tinham organizado um churrasco para comemorar o início do semestre. A casa estava cheia, a música estava alta, e o álcool fluía livremente.
Ohyul encontrou Woojin na cozinha, longe da multidão. Woojin estava bebendo um copo de água, parecendo exausto.
— Você está bem? — Ohyul perguntou, aproximando-se.
— Não muito — confessou Woojin. — É difícil estar aqui, Hyul. Esta casa... ela tem o nosso cheiro. Eu fecho os olhos e ainda vejo a gente correndo pelo corredor. Eu vejo você me defendendo daqueles garotos na escola. Eu vejo o dia em que você disse que me amava pela primeira vez.
— Woojin, não faz isso...
— Por que não? — Woojin deu um passo à frente, a sensibilidade dando lugar a uma coragem desesperada. — Eu tentei te esquecer. Eu juro que tentei. Eu escrevi músicas inteiras sobre como eu te odiava por ter me deixado, mas todas elas terminavam em amor. Eu vim para esta faculdade por você.
Antes que Ohyul pudesse reagir, a porta da cozinha se abriu. Ryul entrou, e o sorriso que ele trazia no rosto desapareceu instantaneamente ao ver a proximidade dos dois.
— De novo isso? — Ryul cruzou os braços. — Olha, Woojin, eu respeito o passado. De verdade. Mas o Ohyul está comigo agora. Ele escolheu terminar com você.
— Ele escolheu porque teve medo! — Woojin rebateu, a voz subindo de tom.
— Ou talvez ele tenha escolhido porque queria alguém que não precisasse de um poema para dizer que o quer na cama! — Ryul caminhou até Ohyul e segurou seu rosto com as duas mãos. — Diga a ele, Ohyul. Diga que você gosta do jeito que eu te beijo sem pedir licença.
Ohyul olhou de um para o outro. A beleza de porcelana de seu rosto estava franzida em angústia. Ele amava a segurança e a paixão de Ryul. Ele amava a alma e a história de Woojin.
— Eu não posso fazer isso aqui — Ohyul murmurou, tentando se desvencilhar.
— Pode sim — Ryul insistiu, sua determinação beirando a teimosia. — Você é justo, não é? O grande Ohyul, o defensor da verdade. Então seja justo com a gente. Com quem você quer ficar? Com o garoto que te faz lembrar de quem você era, ou com o homem que te mostra quem você pode ser?
Woojin deu um passo à frente, os olhos brilhando.
— Ou com a pessoa que te conhece melhor do que você mesmo, Hyul? Aquele que sabe que, por trás dessa fachada de gelo, você só quer alguém que entenda o seu silêncio?
O silêncio na cozinha era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som abafado da música na sala de estar. Jay apareceu na porta, observando a cena com a seriedade de um irmão mais velho.
— Ohyul — Jay chamou baixinho. — Você precisa decidir. Não por eles, mas por você. Você está vivendo no passado ou fugindo dele?
Ohyul olhou para Woojin. Ele viu as tardes de sol, o primeiro violão, a dor do término que nunca cicatrizou de verdade. Depois, olhou para Ryul. Viu as noites de adrenalina, o riso fácil, a sensação de ser desejado sem o peso da expectativa.
— Eu passei dois anos tentando convencer a mim mesmo de que o que tivemos, Woojin, era coisa de criança — Ohyul começou, a voz firme, embora seu coração estivesse disparado. — E passei os últimos meses tentando me convencer de que o que tenho com você, Ryul, é o suficiente para preencher o vazio.
Ele respirou fundo, a justiça de seu espírito finalmente falando mais alto.
— Woojin, você é a minha base. Mas você me faz querer voltar para quem eu era. E Ryul... você é o meu impulso. Mas você às vezes esquece de quem eu sou de verdade.
— E o que isso significa? — Ryul perguntou, a impaciência começando a aparecer.
— Significa que eu não posso escolher nenhum de vocês enquanto eu estiver tentando ser duas pessoas diferentes — Ohyul disse, as lágrimas finalmente ameaçando cair. — Eu amo vocês dois. De jeitos que me rasgam ao meio.
Woojin aproximou-se e tocou a mão de Ohyul.
— Eu não vou desistir, Hyul. Eu esperei dois anos. Posso esperar mais um pouco até você se encontrar.
Ryul soltou um suspiro pesado, a arrogância desaparecendo por um momento.
— Eu sou um cara direto, Ohyul. Eu não gosto de esperar. Mas por você... eu posso tentar aprender a ser um pouco menos apressado. Mas não ache que eu vou facilitar para o artista ali.
Ohyul olhou para os dois homens à sua frente. O triângulo estava longe de ser resolvido, mas pela primeira vez em anos, ele sentiu que a verdade estava sobre a mesa. A faculdade seria longa, e o coração de Ohyul, embora disputado, finalmente começava a entender que a beleza da vida não estava em escolher entre o passado e o presente, mas em como harmonizar os dois acordes em uma nova canção.
Ele saiu da cozinha, deixando os dois para trás, sentindo o peso do olhar de cada um em suas costas. A jornada estava apenas começando, e Ohyul sabia que, independentemente de quem ganhasse seu coração no final, ele nunca mais seria o mesmo garoto que fugiu pela janela no terceiro degrau da escada.
