
Rocinha
Fandom: Não tem
Criado: 21/10/2026
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Sol de Quarenta Graus
O sol no topo da Rocinha não pedia licença; ele entrava rasgando a névoa matinal que cobria o morro e batia de frente contra os vidros espelhados do casarão. No quarto principal, porém, o silêncio era absoluto. O isolamento acústico de ponta a ponta nas paredes e esquadrias blindadas não deixava passar nem o eco do primeiro pagode estalando na laje vizinha, nem o ronco das motos que já cortavam o asfalto lá embaixo.
Guilherme abriu os olhos devagar. A claridade filtrava suavemente pelas frestas da cortina blackout, desenhando faixas douradas sobre os lençóis de linho escuro. Ao seu lado, encolhida contra o seu peito como se procurasse abrigo a vida inteira, Letícia respirava num ritmo sereno.
O Patrão não se mexeu de imediato. Com quase dois metros de pura massa muscular, tatuagens cobrindo os braços e o peito largo, ele parecia uma muralha ao lado da mulher. Passou a ponta dos dedos grossos pela bochecha dela, contornando a pele clara e macia, antes de descer até a curva do quadril que continuava perfeita, mesmo depois de carregar gêmeos gigantes e, dezessete anos depois, uma menininha. O cavanhaque cerrado roçou no ombro nu de Letícia, arrancando dela um suspiro sonolento.
— Já tá acordado, meu rabugento? — murmurou ela, com a voz rouca, sem sequer abrir os olhos.
— Sempre, coração — respondeu Guilherme, com o timbre grave reverberando no peito. Ele beijou o pescoço dela com calma, descendo a boca até a clavícula. — Mas se você continuar manhosa assim, eu não saio dessa cama nem pra botar ordem no morro hoje.
Letícia soltou uma risadinha gostosa, virando o corpo para encará-lo. Os olhos escuros brilhavam com aquela cumplicidade que vinha desde quando ele era só um pivete marrento da pista e ela a menina que tirava o sono dele.
— O Rick já deve estar aí fora querendo saber do churrasco, Gui. E a Luna... estranho ela não ter chorado ainda.
Guilherme franziu a testa, os olhos verdes semicerrados em desconfiança.
— Não chora porque o marginalzinho do teu filho mais velho deve ter feito a ronda noturna de novo. Vou lá ver essa palhaçada.
Ele jogou o lençol para o lado, levantando-se apenas de bermuda preta de tecido leve. Letícia sentou-se na cama, ajeitando a camisola de cetim, balançando a cabeça com um meio sorriso. Ela já sabia exatamente o que encontrariam.
Saindo do quarto e atravessando o corredor imenso que dava para a ala dos meninos, Guilherme empurrou a porta entreaberta do quarto de Kaelton.
Dito e feito.
A cama de casal espaçosa estava uma bagunça de travesseiros empilhados para criar uma barreira nas bordas. No meio de tudo, esparramado de bruços, Kael dormia pesado, usando apenas um short esportivo. O braço musculoso e marcado por traços pretos de tatuagem envolvia protetoramente um pacotinho gordo: Luna
