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Fandom: Peaky Blinders
Criado: 21/10/2026
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O Gosto da Pólvora e do Segredo
O ar de Small Heath tinha sempre o mesmo gosto amargo: uma mistura densa de carvão queimado, ferro enferrujado e a lama fria que parecia nunca secar nas sarjetas. Para Clara Gray, no entanto, aquele era simplesmente o cheiro de casa. Ajustando o casaco de lã pesada sobre os ombros, ela apressou o passo contra o vento cortante que soprava do canal. Clara tinha um metro e sessenta e oito de pura presença; suas curvas bem distribuídas em oitenta quilos davam-lhe um porte imponente, com quadris largos e um busto farto que costumavam preencher seus vestidos com uma elegância sólida e feminina, longe da magreza frágil que a tuberculose impunha a tantas moças da vizinhança.
Ela costumava ser um raio de sol em dias normais — ria fácil quando estava entre os seus, zombava das tolices dos irmãos Shelby e adorava uma boa caneca de cerveja escura. Mas Clara também tinha um lado impenetrável. Havia uma cerca invisível ao redor de seus pensamentos; gostava de sua própria companhia, de seus livros escondidos e do silêncio que só a madrugada oferecia. Era meio antissocial quando lhe convinha, preferindo observar os outros pelas frestas a se misturar com qualquer estranho.
Quando empurrou a porta pesada de madeira do The Garrison, o tilintar do sino de latão foi abafado pelo murmúrio rouco dos homens no balcão. O pub cheirava a tabaco barato, cerveja azeda e suor acumulado da jornada nas fundições.
Assim que os sapatos de couro de Clara bateram nas tábuas do chão, um fenômeno curioso e imediato aconteceu.
Dois operários corpulentos que conversavam alto junto à lareira interromperam a frase no meio, pigarrearam e deram um passo atrás, baixando a cabeça. Um sujeito encostado na mureta, que por um segundo ergueu os olhos para o decote aconchegante do vestido verde-escuro de Clara, desviou o olhar com tanta pressa que quase derramou o uísque nos próprios sapatos. Ninguém encarava. Ninguém assobiava. Ninguém ousava respirar torto na direção dela.
Clara ergueu uma sobrancelha, achando aquela subserviência repentina uma piada silenciosa. Sempre fora assim. Se perguntasse a qualquer um em Watery Lane por que nenhum homem era louco o bastante para olhá-la com segundas intenções, a resposta vinha na ponta da língua: "Ora, você é filha de Polly Gray. Ninguém quer acordar com a tia Polly cortando sua garganta com uma navalha ou jogando uma maldição cigana na sua família".
Clara sorriu de canto com a lembrança, mas sabia que Polly, por mais aterrorizante que fosse quando contrariada, não explicava todo aquele pavor silencioso. Havia algo mais nos olhares assustados dos homens. Algo que ela fingia não notar para manter a própria sanidade.
Ela caminhou até o balcão, desabotoando os primeiros botões do sobretudo para respirar melhor no calor abafado do salão. Foi então que seus olhos encontraram uma figura totalmente deslocada por trás da madeira gasta.
Ali, segurando um pano engordurado como se fosse feito de seda fina, estava uma mulher loira, de pele excessivamente clara e postura impecável. Os cabelos estavam arrumados com um esmero que Small Heath simplesmente não produzia, e as mãos macias nunca tinham esfregado o chão de uma fábrica na vida.
Clara estreitou os olhos aveludados. Aquela devia ser a novata de quem Harry tanto falara nos últimos dois dias. Grace.
— Uma cerveja preta, Harry — pediu Clara, apoiando os antebraços no balcão.
O velho Harry Chatterton apareceu apressado da despensa, limpando o suor da testa calva com o avental.
— Senhorita Gray! — Harry forçou um sorriso nervoso, olhando rapidamente por cima do ombro de Clara, como se procurasse fantasmas ou homens armados na porta. — Claro, claro, saindo imediatamente.
A loira se adiantou, oferecendo um sorriso calmo e educado que Clara achou frio demais, ensaiado demais.
— Eu posso servir — disse a mulher com um sotaque refinado que tentava disfarçar sob um tom irlandês leve, mas que ainda soava excessivamente cantante para uma sarjeta como Birmingham. — Sou Grace. Comecei esta semana.
Clara sustentou o olhar da outra moça sem piscar. Havia uma doçura calculada nos olhos azuis de Grace que fez a intuição de Clara soar como um apito de trem. Mulheres bonitas demais não vinham parar no Garrison por acaso; mulheres educadas daquele jeito não serviam bêbados em troca de míseros xelins a menos que estivessem fugindo de algo mortal ou procurando por algo muito perigoso.
— Clara — respondeu apenas, mantendo o tom neutro, quase desinteressado. — Cuidado para não deixar espuma demais, Grace. O pessoal daqui paga pelo líquido, não pelo ar.
— Entendido — disse Grace, mantendo o sorriso que não chegava aos olhos enquanto puxava a alavanca da torneira.
— Clara! Até que enfim! — Uma voz conhecida ecoou atrás dela, quebrando a tensão tênue.
Ada Shelby surgiu entre os homens, empurrando uma cadeira com a bota e jogando-se ao lado de Clara. A irmã mais nova de Tommy parecia exausta, mas trazia nos lábios aquele deboche característico dos Shelby.
— Pensei que você tivesse ficado trancada no quarto escrevendo cartas secretas de novo — provocou Ada, cutucando a costela de Clara com o cotovelo.
— Se eu ficasse no quarto, você morreria de tédio sem ter com quem reclamar da vida — retrucou Clara, abrindo um sorriso genuíno e empurrando uma mecha rebelde do cabelo castanho para trás da orelha. — O que foi agora? Freddie Thorne?
— Não fale esse nome tão alto, sua tonta — sussurrou Ada, olhando em volta antes de fixar os olhos na novata do bar. — Quem é a duquesa aí atrás do balcão?
— Grace — Clara murmurou em voz baixa, inclinando-se para Ada enquanto Harry colocava o copo de cerveja escura na frente dela. — Estranha. O jeito que ela segura os copos, o jeito que olha para as mesas... ela parece mais uma governanta perdida do que uma garçonete de pub.
— Deixe a coitada — disse Ada, rindo baixinho enquanto tomava um gole da própria bebida. — Ela só deve estar desesperada por trabalho. Nem todo mundo tem a sorte de ser adotada pelos Gray e ter a melhor comida de Small Heath na mesa.
— Não é isso, Ada. Tem algo errado nela — insistiu Clara, bebendo um trago generoso de sua cerveja, sentindo o amargor reconfortante descer pela garganta. — O instinto não mente.
— Você e a mamãe Polly com essas coisas ciganas de instinto... — Ada revirou os olhos com carinho, mas logo seu tom mudou, tornando-se mais baixo, quase conspiratório. — Falando em família... o Tommy passou a noite toda fora de novo. Chegou com a cara fechada, cheirando a cigarro e terra molhada. Você por acaso saberia onde ele estava?
Clara congelou por uma fração de segundo com a caneca a caminho da mesa, mas controlou o músculo do rosto antes que Ada pudesse registrar qualquer susto.
— Tommy Shelby não presta contas a mim, Ada. Ele mal fala bom-dia para a própria sombra.
— É, mas ele fala com você — Ada arqueou uma sobrancelha, os olhos brilhando com uma astúcia perigosa. — Eu vejo como ele olha para o corredor quando você está em casa. E como ele some às vezes nas noites em que você diz que vai "caminhar para pensar".
— Você anda lendo romances baratos demais — desconversou Clara, dando uma risada curta e leve, perfeitamente calibrada para desarmar a amiga. — Se eu tivesse paciência para aturar o humor de cão do seu irmão no meio da noite, merecia uma medalha de honra do próprio rei.
Ada deu de ombros, não totalmente convencida, mas deixou o assunto morrer quando a porta dos fundos se abriu com um estalo seco.
O ar dentro do Garrison mudou de repente. O burburinho que já era baixo cessou quase por completo.
Thomas Shelby entrou no salão.
Ele usava o sobretudo longo e escuro, as abas cortando o ar como asas de corvo, a boina de tweed puxada até a linha dos olhos cinzentos e impiedosos. Havia um cigarro apagado entre os lábios finos e a postura rígida de um homem que trouxera as trincheiras da França cravadas na espinha dorsal.
Os homens no pub praticamente colaram as costas na parede. Grace observou a entrada de Tommy com uma atenção discreta demais para não ser calculada, limpando o mesmo copo repetidas vezes. Clara, no entanto, apenas sentiu um formigamento familiar queimar na boca do estômago.
Antes da guerra, Tommy era diferente. Ele ria, ele sonhava alto, e eles costumavam se encontrar nos fundos dos estábulos de Charlie Strong, escondidos sob o cheiro de feno e cavalos. Ela se lembrava do peso do corpo dele sobre o seu, da pele quente e das promessas sussurradas que a guerra roubara. Clara achara que ele morrera em Somme, mesmo quando Polly dizia que as cartas confirmavam que ele respirava. E quando ele voltou — quebrado, sem alma, com os olhos de vidro e os pulmões tossindo pesadelos —, Clara pensara que nunca mais o tocaria.
Mas uma noite, três meses após o armistício, Tommy batera à porta do quarto dela na casa de Polly. Ele tremia sob o efeito do ópio e do frio, os olhos vazios suplicando por algo que ele não conseguia nomear. Clara apenas abrira espaço nos lençóis. Não houve palavras bonitas. Houve apenas a urgência desesperada de dois corpos que se conheciam de cor, o calor reconfortante das curvas dela acolhendo as cicatrizes dele, a carne farta e viva de Clara provando a Tommy que ele não estava debaixo da terra.
Desde então, o caso continuava. Em segredo absoluto, roubado em salas trancadas, no escritório empoeirado da casa de apostas ou nas madrugadas quando Polly dormia um sono pesado induzido por uísque. Ou assim eles acreditavam que fosse segredo.
Tommy caminhou em direção ao balcão com passos medidos. Seus olhos passaram por Grace, ignorando-a solenemente por ora, passaram por Ada, que lhe lançou um olhar desafiador, e finalmente pousaram em Clara.
Por uma fração de segundo, a máscara de gelo de Thomas Shelby vacilou. Suas pupilas dilataram ao percorrer o decote do vestido verde, a curva suave do pescoço dela e o modo como ela segurava a caneca, altiva e sem medo dele.
Um rapaz novo no bar, um ajudante de ferreiro que acabara de chegar do turno da tarde, cometeu o erro fatal de se aproximar demais do banquinho de Clara para pedir uma dose de gim. O rapaz deixou os olhos vagarem pelos quadris largos de Clara, um olhar tolo de quem apreciava uma bela mulher sem medir as consequências.
Tommy parou a dois passos de distância. Não disse uma palavra. Apenas fixou o olhar azul-ártico no garoto, levando a mão com lentidão calculada até a aba da própria boina — o gesto universal que todo homem em Small Heath sabia significar que lâminas de barbear costuradas no tecido estavam prestes a rasgar carne humana.
O garoto empalideceu. O sangue fugiu de seu rosto em segundos.
— Com licença... senhor Shelby — gaguejou o jovem, dando três passos para trás sem tirar os olhos do chão, quase tropeçando nos próprios pés antes de sair pela porta da frente no frio sem sequer pegar a bebida.
Clara olhou para Tommy, balançando a cabeça de leve, divertida.
— O coitado só queria um gim, Tommy. O povo daqui é medroso demais. Minha mãe deve ter colocado pânico nessa cidade inteira enquanto vocês estavam na França.
Tommy tirou a boina e a jogou sobre o balcão de madeira, soltando a fumaça de um fósforo recém-aceso. Seus lábios quase se curvaram no esboço de um meio sorriso, invisível para qualquer um que não o conhecesse tão bem quanto ela.
— Não é da Polly que eles têm medo, Clara — murmurou ele, a voz rouca arranhando o ar entre os dois com uma intimidade perigosa.
Grace observava a troca com olhos afiados por trás do balcão, fingindo organizar as garrafas na prateleira superior. Clara notou a atenção da loira e sentiu o instinto territorial arder nas veias.
— Harry — Tommy chamou, a voz cortando o silêncio. — Uma garrafa do irlandês na sala dos fundos. Agora.
— Imediatamente, Tommy! — Harry correu para atender a ordem.
Tommy deu meia-volta, mas antes de entrar na sala privada, seus olhos encontraram os de Clara mais uma vez. Um comando silencioso, um convite que queimava com promessas que nada tinham a ver com negócios.
— Eu preciso ir ao banheiro — Ada anunciou de repente, levantando-se e lançando a Clara um olhar carregado de segundas intenções. — Mas não demore muito aqui fora, Clara. O vento de Birmingham é perigoso... e algumas correntes de ar são mais quentes do que deveriam.
Clara deu um chute de brincadeira na canela de Ada sob a mesa, mas suas bochechas esquentaram levemente. Ada suspeitava. Polly com certeza sentia o cheiro no ar. Arthur era bêbado demais para notar, e John estava ocupado demais com os filhos, mas as mulheres daquela família tinham olhos em todos os cantos.
Esperando Ada desaparecer pelo corredor e aproveitando que Grace virara as costas para atender um cliente tímido na outra ponta, Clara levantou-se com calma. Deixou a caneca meio cheia na mesa e caminhou até a porta dos fundos, empurrando a madeira pesada sem bater.
O escritório privado estava na penumbra, iluminado apenas pelas chamas baixas da pequena lareira de ferro fundido. O cheiro de Tommy estava por toda parte: fumo de corda, couro e o sabão amargo que ele usava.
Ele estava de pé junto à mesa, tirando o sobretudo. Quando ouviu o clique do trinco sendo fechado por dentro, virou-se.
— Você está chamando muita atenção com esse vestido — disse ele, a voz baixa, despida da autoridade fria que usava com os homens lá fora.
— Eu não me visto para os homens lá fora — rebateu Clara, dando passos lentos até ele, os quadris balançando com naturalidade. — E para de ameaçar os rapazes do bairro, Tommy. Eles acham que eu sou intocável só porque a Polly sabe ler mãos e joga pragas. Deixe eles continuarem achando que o terror vem dela.
Tommy deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. As mãos dele, calejadas e marcadas por cicatrizes da guerra, subiram com firmeza para a cintura de Clara, apertando a carne macia sob o tecido com uma possessividade que a fez perder o fôlego por um instante.
— Ninguém põe os olhos em você — sussurrou ele contra a pele do pescoço dela, inalando o cheiro de lavanda e chuva que ela sempre carregava. — Nem nesta vida, nem na próxima. Eles sabem disso. Se não souberem, eu corto a garganta deles e lembro a cidade inteira.
— Tão romântico quanto um estouro de artilharia — zombou Clara, embora suas mãos já estivessem enterradas nos cabelos escuros e cortados rentes da nuca dele, puxando-o para mais perto. Ela adorava a solidez dele, a maneira como ele a segurava como se ela fosse a única âncora que o impedia de ser levado pela tempestade em sua cabeça. — Tommy... aquela mulher no bar. Grace.
Tommy parou, o rosto a centímetros do dela, seus olhos cinzentos semicerrados.
— O que tem ela?
— Ela é falsa — disse Clara, o tom agora sério, sem qualquer traço de brincadeira. — As mãos dela não têm calos. Ela fala como uma dama que finge ser pobre e me olhou como se estivesse memorizando cada detalhe do Garrison. Fique longe dela.
Tommy soltou o ar devagar contra os lábios de Clara, os olhos brilhando com uma frieza calculista.
— Eu sei exatamente o que ela é, Clara. E eu cuido dela.
— Não deixe ela se aproximar demais — insistiu Clara, pressionando o corpo farto contra o dele, sentindo o coração acelerado de Tommy bater contra o seu peito. — Você já tem fantasmas demais para carregar, Thomas. Não preciso de uma espiã bonita rondando a sua cama.
Tommy segurou o queixo de Clara entre os dedos, aplicando uma pressão suave, mas inflexível, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos tempestuosos.
— Minha cama só tem espaço para uma pessoa, Clara Gray. E você sabe muito bem quem é.
Antes que ela pudesse retrucar com qualquer sarcasmo, Tommy colou a boca na dela. O beijo foi urgente, faminto, com o gosto acre de tabaco e a doçura do uísque barato. As mãos dele desceram para os quadris de Clara, puxando-a contra a mesa de carvalho enquanto ela se entregava ao calor secreto que mantinham enterrado sob a névoa de Small Heath.
Lá fora, a música desafinada e o tinir dos copos continuavam. Grace observava a porta fechada com curiosidade, Ada fingia não saber o que acontecia, e os homens de Small Heath continuavam desviando os olhos com medo. Mas ali dentro, no escuro, Tommy Shelby pertencia apenas a ela — e Clara sabia que, enquanto aquele segredo existisse, Birmingham inteira continuava em suas mãos.
