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Eu sempre volto

Fandom: Fatos reais sobre mim

Criado: 22/10/2026

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Notificações em Segundo Plano

A tela do computador era a única fonte de iluminação dentro daquele quarto escuro em Salvador. O reflexo azulado dançava nas mechas dos cachos curtos de Geise, que mal passavam da linha do pescoço, balançando de leve conforme ela ajeitava os fones de ouvido. Naquela época, o mundo parecia se resumir à janela do jogo e ao som de digitação rápida no chat. Foi em uma partida qualquer, entre rodadas caóticas e piadas ruins jogadas ao vento, que Kayo apareceu.

Ele era o tipo de pessoa que dominava qualquer ambiente sem precisar fazer força. Carioca típico, com aquele sotaque arrastado que transformava qualquer frase trivial em provocação, não demorou três partidas para mandar no chat público um pedido direto:

— Passa tua rede aí, baiana. Não dá pra carregar você nas costas e ainda ter que digitar no chat do jogo.

Geise riu, tímida por trás da tela, mas com a língua afiada o suficiente para devolver a implicância antes de soltar o arroba. Ela não imaginava que aquele clique mudaria o compasso dos seus dias.

Quando finalmente se viram pela câmera pela primeira vez, ela entendeu perfeitamente a presença dele. Kayo tinha a pele morena, exatamente no mesmo tom da sua, o cabelo cortado bem baixo em um degradê caprichado e óculos de armação escura que contrastavam com as várias tatuagens de anime espalhadas pelos braços e pelo peito. Ele era encorpado — aquele típico "falso gordinho" de ombros largos, com presença física marcante, mas que mantinha um ar despojado, quase infantil, quando começava a rir das próprias besteiras. Ele era safado quando queria, flertando na linha tênue entre a zoeira e o desejo sincero, mas capaz de sustentar conversas sérias nas madrugadas quando a guarda baixava.

O que começou como uma simples amizade de jogatina virou um vício perigoso. O GTA e o Roblox eram apenas desculpas para estarem conectados. Rapidamente, o Discord virou palco de chamadas de vídeo que duravam horas a fio. Nas madrugadas quentes, a conversa mudava de tom. A intimidade cresceu sem freios: chamadas de voz abafadas, o som de respirações descompassadas, brincadeiras de duplo sentido que viravam confessionários explícitos, promessas sussurradas através de fones de ouvido enquanto cada um explorava a própria pele pensando no outro a centenas de quilômetros de distância. Eles compartilhavam tudo: risadas, partidas, intimidades sem filtro, madrugadas inteiras de um amor disfarçado de fetiche e companheirismo.

Mas a internet tem suas próprias correntes de ar frio.

Sem uma explicação muito clara, o ritmo foi quebrando. Kayo começou a demorar para responder; as chamadas de vídeo deram lugar a desculpas curtas. A rotina pesou, ou talvez o medo da intensidade tenha falado mais alto. Eles se afastaram. Geise sentiu o golpe em silêncio. Para ele, talvez tivesse sido apenas uma fase divertida; para ela, o sentimento havia criado raízes profundas sob os cachos e a timidez. Ela amava aquele garoto de óculos e piadas indecentes com uma força que a assustava.

Semanas depois desse hiato doloroso, o celular vibrou. Era ele. O coração de Geise deu aquele solavanco traiçoeiro no peito, mas a mensagem não trazia a confissão que ela secretamente esperava.

— Ei, Geise. Tem um mano meu que te viu nas minhas coisas e ficou doidão por você — disse a voz dele em um áudio rápido, com o barulho característico do trânsito do Rio de Janeiro ao fundo. — Vou te colocar no servidor do Discord da rapaziada. Entra lá.

Foi como levar um balde de água fria no meio de uma febre. Kayo não estava voltando; estava bancando o cupido.

Mesmo engolindo a decepção, Geise entrou no servidor. Era um grupo agitado, com os amigos mais próximos de Kayo e umas duas ou três garotas que entravam nas chamadas para falar de jogos e futilidades. Mas o tal amigo não perdeu tempo. Quase no mesmo instante em que ela deu o primeiro "boa noite" na sala geral, a notificação de mensagem direta piscou.

Ele começou a puxar assunto. Era simpático a princípio, mas logo se tornou insistente. Geise não tinha interesse algum; seus olhos procuravam o avatar de Kayo na lista de membros, esperando ver o status mudar para "ouvindo música" ou "jogando". Ela queria Kayo — a voz rouca, o deboche carioca, as tatuagens que ela conhecia por detalhes na tela. Mas Kayo parecia completamente cego ao que estava fazendo, agindo com a maior naturalidade do mundo enquanto o amigo a cercava.

— Dá uma chance pro cara, pô — comentou Kayo certo dia, em tom de brincadeira, no meio de uma chamada coletiva. — O moleque é gente boa.

Aquilo partiu algo dentro de Geise. Se Kayo era capaz de empurrá-la para os braços de outro com tanta leveza, é porque ela realmente nunca tinha passado de uma diversão passageira. O amigo, por sua vez, não dava trégua. Mandava mensagens pela manhã, à tarde, insistia em chamadas particulares, pedia fotos, implorava por uma oportunidade com uma persistência quase sufocante.

Cansada de resistir, fragilizada pela carência e tentando desesperadamente arrancar Kayo do peito, Geise cometeu o erro clássico: cedeu. Aceitou namorar o rapaz.

Mas o coração é um órgão teimoso e não aceita ordens da razão. Mesmo dizendo palavras carinhosas para o novo namorado, a mente de Geise permanecia trancada em outra cidade, em outro quarto, com outro sotaque. Ela nunca deixou de amar Kayo nem por um único segundo.

Para piorar a tortura, pouco tempo depois, Kayo também apareceu namorando. A garota era brasileira, mas morava em Portugal. A distância real era ainda maior do que a dele com Geise, mas a oficialização do romance foi um golpe devastador.

A partir desse dia, Geise desenvolveu um hábito silencioso e autodestrutivo. Todas as noites, antes de dormir ou enquanto fingia prestar atenção nas conversas monótonas com o namorado, ela abria o Roblox. Era uma mania quase doentia, mas incontrolável. Ela olhava a lista de amigos para checar o status de Kayo.

Se ele estivesse em uma experiência qualquer com o perfil da namorada portuguesa vinculado, um aperto familiar lhe fechava a garganta. Mas, quando via a bolinha verde brilhando e o perfil dele sozinho em um servidor qualquer, a imaginação de Geise disparava: Será que brigaram? Será que terminaram e ele não contou pra ninguém? Será que ele finalmente percebeu que aquilo não ia dar certo? Era uma esperança inútil, vazia, mas era o único oxigênio que alimentava sua ilusão.

Os meses se arrastaram nessa dinâmica sufocante. O namoro com o amigo de Kayo tornara-se um fardo cinzento, sem química, sustentado apenas pela inércia e pela insistência do rapaz, que cobrava uma atenção que Geise simplesmente não conseguia oferecer.

Até que veio aquela noite de sexta-feira.

O fone de ouvido pesava nas orelhas. O namorado estava em chamada de voz com ela pelo Discord, falando sobre algum assunto trivial que ela ouvia no piloto automático, limitando-se a soltar "hum", "é mesmo" e "pois é". Com o celular na mão, Geise rolava o feed do TikTok sem muito foco, até que o algoritmo decidiu pregar uma peça.

Um vídeo surgiu na tela: Kayo. Ele usava a clássica camiseta preta de anime, os óculos tortos no rosto enquanto dublava um áudio qualquer com a cara lavada de cinismo, exibindo as tatuagens no antebraço. Ela congelou. Fazia tempo que não via o rosto dele de forma tão nítida. O impulso falou mais alto e ela clicou no perfil dele.

Rolou a bio. Havia apenas uma frase boba e nenhum link ou marcação.

Tentando soar o mais despretensiosa possível, mantendo o tom jocoso de quem apenas faz uma fofoca boba para passar o tempo, Geise quebrou o monólogo do namorado:

— Engraçado... Acabei de achar o TikTok do Kayo aqui sem querer. Por que ele não bota aliança na bio da rede dele? Todo mundo que namora hoje em dia bota.

Houve uma pausa de dois segundos do outro lado da linha, acompanhada pelo barulho de cliques de mouse.

— Ah, isso? — respondeu o namorado, em um tom casual. — Eles não tão mais juntos, não. Já tem um tempinho.

O quarto pareceu girar por uma fração de segundo. Um calor súbito subiu do peito de Geise até a raiz dos cabelos. Um alívio avassalador, violento e quase vergonhoso tomou conta de cada terminação nervosa do seu corpo. Ele estava solteiro. A fantasia tola dos status do Roblox de repente fazia sentido; ele estava livre. Ela sentiu uma vontade absurda de gritar, de sorrir, de levantar da cadeira e dançar no meio do quarto.

Contudo, ela engoliu o fôlego e manteve a voz perfeitamente estável.

— Ah, é? Nem sabia — comentou, como se falasse da previsão do tempo para o dia seguinte.

Para disfarçar a explosão de euforia interna, ela continuou rolando o aplicativo, vendo vídeos de garotas gravando tendências com iluminação impecável ao som de batidas lentas de R&B. Querendo mudar de assunto para não levantar suspeitas sobre sua alegria repentina, Geise soltou uma brincadeira ácida sobre si mesma:

— Aff, olha isso... Queria ser bonita assim pra ficar biscoitando no TikTok com as músicas do The Weeknd.

Ela esperava a resposta padrão que qualquer namorado daria: um "você é linda" preguiçoso ou qualquer bobagem reconfortante. Mas o garoto do outro lado da chamada parecia confortável demais na própria mediocridade. Com uma risadinha anasalada, ele disparou:

— Ainda bem que você é feia, então. Nem precisa passar essa vergonha.

O silêncio que se seguiu não foi de tristeza. Não houve lágrimas, não houve mágoa.

Geise piscou uma vez, encarando a interface preta do Discord na tela do monitor. Aquela frase não a feriu; pelo contrário, soou como o som de uma chave girando em uma cela trancada. Era o estopim perfeito. Ela estava apenas esperando uma brecha, qualquer desculpa plausível, qualquer tropeço dele que justificasse chutar o balde sem precisar parecer a vilã da história.

Sem dizer uma única palavra, sem alterar a respiração, Geise levou o cursor do mouse até o botão vermelho de desconectar a chamada.

Click.

Em seguida, os dedos voaram pelo teclado com uma frieza cirúrgica. Clicou no perfil dele: bloquear no Discord. Pegou o celular: bloquear no WhatsApp. Abriu o Instagram: bloquear. Bloqueou no jogo, bloqueou em todas as redes que existiam entre eles. Em menos de trinta segundos, ela varreu a existência daquele rapaz da sua rotina, sentindo um peso gigantesco descolar de suas costas. Ela respirou fundo pela primeira vez em meses. Estava livre. Feia ou bonita, agora ela pertencia apenas a si mesma outra vez.

Os dias que se seguiram trouxeram uma calmaria estranha. Sem as mensagens pegajosas do ex-namorado e sem a obrigação de fingir sentimentos, Geise voltou a jogar por pura diversão. Ela não procurou Kayo. Tinha seu orgulho, e a lembrança de como ele a empurrara para aquele amigo ainda deixava uma ponta de receio no ar. Ela apenas seguiu seu rumo, focando em suas coisas, rindo com os amigos que restaram, vivendo a rotina quente da Bahia.

Quase duas semanas haviam se passado desde a noite do término relâmpago.

Era uma tarde de domingo qualquer. Geise estava sentada na cama, com o ventilador girando em velocidade máxima para amenizar o mormaço, assistindo a episódios aleatórios na televisão enquanto mexia no celular distraída.

O visor do aparelho iluminou-se com uma notificação no topo da tela.

Um ícone de mensagem direta.

O nome gravado era Kayo.

Geise encarou a tela, o coração disparando com a mesma intensidade da época em que eles passavam madrugadas trocando segredos proibidos pelo microfone. Com a ponta dos dedos trêmula, ela tocou na notificação para abrir a janela da conversa.

Não havia nenhum textão dramático sobre o amigo bloqueado, nenhuma pergunta profunda sobre onde ela tinha se metido, nem cobranças sobre o tempo em silêncio.

Havia apenas uma palavra, enviada há exatos dois minutos:

"Oier"

Geise encarou a tela por alguns segundos. Ela cobriu o rosto com a mão livre, sentindo os cachos caírem sobre a testa, e começou a rir sozinha no meio do quarto silencioso.

Aquele idiota de óculos e tatuagens não mudaria nunca. E era exatamente por isso que ela o amava.

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