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Rocinha, RJ 📍

Fandom: Não tem

Criado: 22/10/2026

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Dias Quentes no Alto da Colina

O sol no Rio de Janeiro não pedia licença, principalmente no topo da Rocinha. Antes mesmo das sete da manhã, a claridade já tentava cortar as cortinas pesadas da suíte principal do casarão. No quarto com isolamento acústico total — projetado sob medida para abafar tanto o barulho constante dos bailes e rajadas ocasionais quanto a foda barulhenta do casal —, Guilherme Allegretti despertou devagar.

Com um metro e noventa e três de puro músculo torneado e coberto de tinta escura, o Magnata esticou o braço pesado, sentindo a cama espaçosa. O cavanhaque cerrado roçou no ombro nu da mulher ao lado. Letícia dormia de bruços, o cabelo liso e escuro espalhado pelos travesseiros brancos, o lençol cobrindo apenas a curva do quadril farto. Aos trinta e sete anos e mãe de três, ela mantinha um corpo impecável, que prendia o olhar dele todos os dias como se ainda tivessem dezesseis anos e se esbarrassem nas vielas.

— Acorda, preta — murmurou ele com a voz rouca, a mão grande descendo pelo meio das costas dela até apertar a carne macia da bunda.

Letícia se mexeu com preguiça, soltando um gemido sonolento antes de virar o rosto de lado. Os olhos castanhos focaram nele com um meio sorriso folgado.

— Já vai começar a me atazanar logo cedo, meu rabugento? — provocou ela, esticando a perna por cima da dele. — Deixa eu dormir mais dez minutos, Gui...

— Dez minutos porra nenhuma, amor — rebateu o homem, puxando-a contra o peito tatuado com firmeza possessiva. — Dormiu a noite inteira colada em mim e agora quer me dar gelo? Teu homem acordou cheio de disposição.

Ela riu baixo, sentindo o calor dele e o volume evidente por baixo do short fino que ele usava. Gui não perdia tempo. Segurou o queixo fino da mulher, colando os lábios nos dela em um beijo quente, molhado, de língua funda e cheiro de posse antiga. Ele chupou seu lábio inferior com força antes de soltar um suspiro pesado contra o pescoço dela.

— Cadê a gordinha? — perguntou ele, quebrando o beijo de repente e franzindo o cenho. O silêncio do casarão era bom, mas a falta do choro de Luna às sete era novidade. — Tu não levantou pra dar de mamar não, coração?

— O Kael deve ter passado a mão nela de madrugada, vida — respondeu Letícia, sentando-se e ajeitando a camisola de seda. — Aquele garoto não tem jeito. Vai deixar a menina mal acostumada.

Guilherme resmungou, passando a mão pelos cabelos castanhos e levantando da cama. Vestiu uma regata preta larga sobre o peito largo e saiu descalço pelo corredor largo da casa, com Letícia logo atrás prendendo os fios num coque desajeitado.

Na porta entreaberta do quarto de Kaelton, o ar-condicionado estalava no gelo. A cena lá dentro era a mesma de várias outras manhãs: Kael, de dezoito anos, moreno e com a mesma cara fechada do pai, dormia de barriga para cima, só de bermuda jeans rasgada. Sobre o peito largo e já riscado de tatuagens do rapaz, a pequena Luna dormia profundamente. Com apenas sete meses, a bebê gordinha e de cabelos negros chupava o bico com força, com as mãozinhas fechadas agarradas no tecido da camisa que o irmão tinha tirado e deixado de lado.

— Coé, o que eu falei de tirar a menina do berço, moleque? — Gui soltou a voz grossa, entrando sem bater.

Kael abriu os olhos verdes imediatamente, o reflexo rápido de quem herdou a prontidão do morro. Piscou, encarando o pai com a marra costumeira, sem se intimidar.

— Qual foi, coroa? — soltou Kael, a voz rouca de sono e carregada de sotaque carioca. Ele não se mexeu para não acordar o bebê, mantendo o braço musculoso em volta do corpinho dela como uma muralha. — A garota tava dengosa lá choramingando mó tempão. Fui lá e peguei. Dormiu que nem uma pedra, tá mec.

— Tá mec nada, Kaelton — Letícia ralhou de braços cruzados, embora o olhar fosse puro derretimento pela cria. — Você estraga sua irmã. Depois ela só quer ficar no teu cangote e sobra pra mim o escândalo.

Antes que o primogênito respondesse, a porta foi escancarada de vez. Bernardo apareceu ali, idêntico ao irmão nos traços e nos olhos claros, mas com um sorriso sacana estampado na cara limpa. Já estava de bermuda de tactel e sem camisa, com a toalha pendurada no pescoço.

— Que isso, manin, roubando a gordinha de novo? — Bernardo riu alto, avançando na cama e pulando ao lado de Kael, fazendo o colchão balançar. — Solta minha chaveirinho aí, ô zangado. Coé, Luninha! Acorda, bagulho doido!

A bebê se assustou com o barulho, soltou a chupeta e arregalou os olhos verdes iguaizinhos aos dos três homens no quarto. Quando viu a cara de Bernardo fazendo careta, soltou uma gargalhada banguela, jogando os bracinhos para o alto.

— Não joga a garota pra cima não, Bernardo, ela acabou de acordar! — Letícia avisou no mesmo segundo em que Bê pegava a sobrinha pelas axilas e a jogava para o alto com cuidado, pegando-a no ar. Luna dava gritinhos estridentes de pura felicidade, rindo alto no teto do quarto.

— Ela se amarra, mãe! Deixa de caô — Bê devolveu rindo, mas bastou ele parar de sacudir para a menina virar a cabeça e procurar Kael, fechando a cara com uma birra súbita. O lábio inferior tremeu num beicinho de choro ameaçador.

— Devolve aqui, Bernardo — Kael resmungou na hora, a cara fechando, puxando a irmã de volta para o próprio colo. No instante em que tocou a pele do irmão mais velho, Luna se calou, grudou o nariz gordinho no pescoço dele e suspirou satisfeita. — Pronto, acabou a palhaçada. Ela não gosta de muito papo com comédia não.

— Tu é muito marrento, manin, papo reto — Bernardo balançou a cabeça, rindo da empáfia do gêmeo. — Essa menina vai crescer insuportável por tua causa.

— Cuida da tua vida que da minha pretinha cuido eu — Kael rebateu seco, mas os olhos verdes suavizaram ao beijar a bochecha gorducha da irmã.

— Bora descer todo mundo — Guilherme cortou a resenha, impondo a presença. — Teu tio Rick já tá aí embaixo com a Ster. Temos que passar na contenção antes do almoço e vocês dois têm aula em São Conrado mais tarde. Não quero saber de faltar o colégio pra ficar morgando na laje não.

— Tranquilo, patrão — responderam os gêmeos quase juntos, o respeito à palavra do pai sendo uma regra inviolável.


No terraço aberto da casa, que tinha vista panorâmica para o mar distante e para a imensidão de lajes e ruelas da comunidade, o café da manhã já estava posto. A mesa farta tinha pão francês quente, queijo coalho frito, frutas e muito café preto.

Ricardo, o temido Caveira, estava sentado com uma perna por cima da outra, bebericando uma xícara enquanto conferia algumas mensagens no rádio. Ao lado dele, Stefanne, com um vestido florido solto, conversava animadamente com Letícia assim que a primeira-dama desceu as escadas. As duas eram inseparáveis desde meninas, criadas nas mesmas esquinas antes do morro virar o império que era hoje.

— Fala tu, meu compadre — Rick cumprimentou Gui com um aperto de mão firme e um abraço de lado quando o chefe se aproximou. — O bagulho tá calmo lá embaixo na curva da 12. Os moleques seguraram um comédia tentando passar rasteira ontem, mas já demos o corretivo. Tudo sob controle.

— Bom. Na minha gestão não tem espaço pra vacilão achar que a Rocinha é terra de ninguém — Gui respondeu sério, sentando na ponta da mesa e puxando Letícia para sentar na cadeira colada à sua. A mão dele logo encontrou a coxa da esposa por baixo da mesa, apertando com posse natural. — Depois do almoço a gente desce pro miolo pra ver como tá o movimento do comércio.

— E vocês dois, hein? — Ster apontou a colher na direção dos gêmeos, que sentavam um do lado do outro, atacando os pães. — Soube que sexta-feira teve confusão naquele quiosque em São Conrado com uns riquinhos da tua sala, Bernardo. Abre teu olho que tua madrinha sabe de tudo.

Bernardo deu uma mordida enorme no pão e deu uma piscadela cínica para a tia.

— Caô puro, tia Ster. Os caras de lá são mó comédia, queriam cantar de galo porque tavam com carro do ano. Só passei a visão que com nós o papo é reto. E as patricinhas deles ficaram tudo babando, nem dei moral.

— Nem deve dar mesmo — Letícia interveio, fuzilando os dois filhos com o olhar. — Quero vocês focados em terminar esse colégio. Mulher nenhuma vai tirar a cabeça de vocês agora, entenderam?

— Relaxa, mãe — Kael soltou entre um gole de suco, mantendo a postura séria de sempre. — Nós só dá um perdido nas menininhas de vez em quando, ninguém se apega não. Mulher dá dor de cabeça demais, basta o coroa aguentando a senhora.

Guilherme engasgou com o café e quase cuspiu, encarando o filho com uma sobrancelha arqueada.

— Tá engraçadinho hoje, né, Kaelton? Quer que eu te dê um corretivo aqui na frente de todo mundo pra tu aprender a respeitar tua mãe?

Letícia jogou um pedaço de guardanapo na cara do filho mais velho, mas segurava o riso. Luna, que estava na cadeirinha de bebê ao lado de Kael, bateu as palmas na bandeja de plástico, rindo do alvoroço como se entendesse cada palavra.


Mais tarde, o calor do início da tarde batia forte no asfalto quente da parte baixa da Rocinha. O ritmo da favela era frenético: motos passavam cortando giro nas esquinas, caixas de som estouravam funk antigo misturado a pagode nas biroscas, e o cheiro de churrasquinho de gato disputava espaço com o ar denso da maresia que subia da praia.

Guilherme caminhava no ritmo calmo de quem sabe que manda em cada centímetro de pedra daquele lugar. Bermuda de sarja, camisa de linho aberta até o meio do peito cabeludo e chinelo de correia grossa. Não precisava carregar arma à mostra para impor respeito. Rick andava meio passo atrás, observando tudo com olhos de águia.

— Bênção, patrão! — gritou um comerciante mais velho da porta de uma mercearia, estendendo a mão áspera.

— Deus abençoe, seu Manuel — respondeu Guilherme com um aceno firme de cabeça, parando por dois segundos. — O movimento da loja tá rendendo? Se precisar de reforço na entrega, me dá o papo.

— Graças a Deus e ao senhor tá tudo em paz, Magnata!

Mais à frente, a algazarra vinha do campinho de terra batida que ficava espremido entre os becos da localidade conhecida como Roupa Suja. Era sábado de sol rachando, e o futebol de rua comia solto.

Kael e Bernardo já estavam lá há quase uma hora com a rapaziada da área. Nada de jogo profissional, nada de tática: era pelada raiz, cinco na linha e um no gol, valendo o engradado de cerveja e a humilhação do adversário. Os dois jogavam sem camisa, suados, a pele morena brilhando sob o sol escaldante, bermudões de time balançando conforme corriam descalços pela terra avermelhada.

— Joga essa bola na frente, Dudu! — berrou Kael, dominando a bola no peito com precisão bruta e girando em cima do marcador. O rapaz tinha a força física do pai, atropelando quem vinha dividir na dividida sem dó. — Solta logo, manin!

Bernardo passou em disparada pela ponta direita, rindo da cara do zagueiro que tropeçou sozinho no chão irregular.

— Toca aqui, toca aqui que o pai tá livre! — gritou Bê, recebendo a bola quadrada de Kael, ajeitando com o bico do pé e soltando uma bomba no ângulo do gol feito de dois chinelos velhos. A bola bateu numa lona rasgada atrás da baliza e levantou poeira. — Gol, porra! Paga dez aí, seus arrombados! Respeita a tropa do Allegretti!

A garotada em volta da quadra foi à loucura, assobiando e zoando os perdedores. Duas meninas do morro, sentadas na mureta bebendo refrigerante, riram alto e cochicharam, olhando com interesse escancarado para os gêmeos sarados e suados. Kael nem virou a cara para olhar; passou direto para pegar uma garrafa de água mineral gelada e virou na boca, jogando o resto por cima da cabeça para aliviar o calor insuportável.

Bernardo até piscou para a mais morena, dando aquele sorriso de canto que desmontava qualquer uma, mas sem dar trela além disso. Sabia exatamente a linha tênue entre curtir a resenha e se enrolar em cobrança boba.

— Fala tu, Magnata! — um dos moleques do campinho notou a chegada de Guilherme e Rick, parando a bola imediatamente.

O silêncio desceu por alguns segundos antes de Gui soltar uma risada curta, quebrando a tensão.

— Continuem a porra do jogo, caralho. Bernardo chuta com essa perna esquerda torta parecendo que tá com câimbra e ainda acha que joga muito.

— Qual foi, pai, pegou na gaveta certinho, fala a verdade! — Bê retrucou limpando a testa com o antebraço, caminhando até a linha lateral com o irmão.

Kael se aproximou do pai, pegando a toalha pequena que Rick jogou pra ele.

— Cadê a preta e a bebê? — Kael perguntou pro pai, demonstrando que a mente não desligava da irmã nem por um minuto.

— Ficaram na casa da tua tia Ster fazendo doce — respondeu Gui, olhando os dois garotos com um misto de orgulho e rigor. Ele via a si mesmo refletido na postura dominante dos gêmeos. — Tomem um banho antes de descer pra orla. E nada de gracinha com o carro que eu conheço vocês dois. Se baterem aquela picape, vão subir o morro a pé durante um mês.

— Tranquilo, coroa, nós é piloto de fuga, esqueceu? — Bê brincou, levando um tapa estalado de leve na nuca dado pelo próprio pai.

— Piloto de fuga na minha mão vira pedestre rapidinho, moleque abusado.

Kael riu pelo nariz, olhando pro irmão gêmeo.

— Deixa de caô, Bernardo, vamos subir logo que eu tenho que ver a pretinha antes de sair. Tu fala demais.

— Demorô, manin. Só vou pegar minha sandália ali — concordou Bernardo, dando as costas e correndo de volta pro barro pra recolher as coisas.

Guilherme ficou observando os dois garotos começarem a caminhada de volta pelas vielas, sendo cumprimentados por todos os moradores que passavam. Ao seu lado, Rick acendeu um cigarro, soltando a fumaça rala contra o céu límpido do Rio.

— Os moleques são sangue bom, Gui. Puxaram a tua rédea curta e a esperteza da Letícia. Ninguém monta em cima deles não.

— Se tentar montar, eu mesmo quebro as pernas — Guilherme disse em tom baixo, o olhar verde cintilando com a frieza que lhe garantia o controle daquela comunidade há anos. — Mas agora vamos voltar pro casarão. Prometi pra Letícia que a gente ia dar um mergulho na piscina antes de escurecer.

— Sei bem o tipo de mergulho que tu quer dar com a minha irmã, seu sem-vergonha — Rick zombou rindo, jogando o toco de cigarro no chão e pisando em cima.

— Cala a boca, Rick. Cuida da tua mulher que da minha cuido eu — o patrão finalizou com um meio sorriso largo, ajeitando a postura imponente e dando meia-volta em direção ao alto do morro.

O sol já começava a tingir o céu do Rio de Janeiro de um laranja queimado, anunciando que a noite na Rocinha prometia ser quente, agitada e exatamente do jeito que a família Allegretti mandava e desmandava.

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