
A Parte Mais Bonita de Nós
Fandom: Charles Leclerc, fórmula um, madelyn cline
Criado: 23/10/2026
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Fragmentos de Nós
O som característico do mar batendo contra o cais de Fontvieille sempre teve o poder de acalmar os pensamentos barulhentos de Charles Leclerc. No entanto, naquela tarde de quinta-feira, nem mesmo a brisa morna do Mediterrâneo parecia capaz de silenciar a inquietação que vibrava sob sua pele. Ele tamborilava os dedos impacientes contra o volante do carro, encarando a entrada do edifício residencial de linhas modernas onde Manuella havia se instalado.
Já se passavam quase quatro anos desde que o mundo deles havia desmoronado e se reconstruído em formatos completamente diferentes.
Charles fechou os olhos por um segundo, e as memórias vieram em ondas quase involuntárias. Em 2016, quando se conheceram por intermédio de amigos em comum, tudo parecia descomplicado, quase etéreo. Ele era apenas um jovem prodígio sonhando com um assento na Scuderia, e ela, uma garota americana brilhante, dona de um riso fácil e de uma determinação feroz que o fascinou no primeiro instante em que seus olhares se cruzaram. O namoro aconteceu de forma orgânica, intenso e veloz como uma volta de classificação.
Depois veio 2020. O ano em que o planeta parou e eles se viram trancados no apartamento dele em Mônaco. Foram meses de um casulo improvável, onde o medo do lado de fora deu lugar a uma intimidade crua e avassaladora entre quatro paredes. E, no meio daquela calmaria forçada, o teste positivo. Duas linhas que mudaram tudo. Eloïse havia nascido em um quarto de hospital cercado por protocolos estritos, mas envolvida pelo amor mais puro que Charles jamais imaginou sentir. Ele ainda se lembrava das lágrimas de Manuella misturadas ao suor do parto, de suas sardas evidentes e da sensação esmagadora de segurar um pedacinho dos dois nos braços.
Mas o mundo voltou a girar, rápido e voraz demais. Em 2022, a pressão pelo título mundial, as viagens constantes, as lentes invasivas dos paparazzi em cima de Manuella — que lutava para consolidar sua própria marca e carreira sem ser engolida pelo rótulo de "namorada de piloto" — cobraram seu preço. As discussões tornaram-se mais frequentes que os abraços. O desgaste silencioso os consumiu até que restou apenas a decisão inevitável de seguir caminhos separados.
O clique da maçaneta do portão arrancou Charles de seus devaneios.
Pelo retrovisor, ele a viu. Manuella caminhava com aquela postura altiva e graciosa que ele conhecia de cor, vestindo uma camisa de linho branco aberta sobre um top neutro e calças jeans folgadas. O cabelo loiro com mechas douradas caía em ondas suaves pelos ombros, emoldurando os lábios naturalmente volumosos e os olhos amendoados que costumavam desafiá-lo com um simples piscar. Ao lado dela, segurando sua mão com entusiasmo desmedido, vinha a razão de tudo aquilo.
Eloïse. Aos cinco anos de idade, a menina parecia um esboço perfeito dos dois: os cabelos castanhos ondulados, as bochechas coradas que se destacavam quando sorria e os olhos claros, idênticos aos de Charles, que brilhavam com curiosidade pura.
Charles desceu do carro imediatamente, o cansaço da semana de treinos se dissipando em uma fração de segundo.
— Papai! — gritou a garotinha, soltando a mão da mãe e correndo pelo calçamento de pedra.
— Mon cœur! — Charles abriu os braços, agachando-se a tempo de receber o impacto macio do corpinho de Eloïse, erguendo-a no ar enquanto girava sob o sol da tarde. As risadas cristalinas da filha ecoaram pela rua tranquila. — Olha o tamanho que você tá! Acho que você cresceu uns dez centímetros desde terça-feira.
— A mamãe disse que é porque eu comi todo o espinafre — disse Eloïse com seriedade infantil, envolvendo o pescoço de Charles com os bracinhos pequenos —, mas eu acho que foi o bolo de chocolate da vovó Pascale.
Charles gargalhou, beijando a bochecha macia da filha com estrépito, fazendo-a rir ainda mais alto.
— Tenho quase certeza de que foi o espinafre — rebateu Manuella, aproximando-se com passos tranquilos. Ela trazia uma mochila cor-de-rosa com estampas de carros de corrida e uma pequena mala nas mãos. — Embora ela tente negociar cada mordida como se estivesse fechando um contrato comercial.
Charles colocou Eloïse no chão, mantendo uma das mãos protetora sobre o ombro da menina, e levantou os olhos para Manuella. Havia sempre um instante de hesitação silenciosa quando se olhavam pela primeira vez após alguns dias separados — um ajuste fino de frequência entre quem um dia dividiu a mesma cama e os mesmos medos, e que agora aprendia a dividir uma vida em metades.
— Oi, Manu — disse ele, a voz um tom mais suave do que usava com qualquer outra pessoa no paddock.
— Oi, Charles — respondeu ela, um meio sorriso contido curvando seus lábios. Ela estendeu a mochila. — Tudo o que ela precisa para o fim de semana está aqui. O casaco térmico extra também, caso você decida levá-la para passear de barco com o vento frio do fim de tarde.
— Eu sei cuidar da temperatura dela, Manuella — provocou ele, arqueando uma sobrancelha com um brilho maroto nos olhos verdes. — Não sou marinheiro de primeira viagem.
— É claro que sabe — retrucou ela com uma ponta de ironia elegante, cruzando os braços —, só estou lembrando que a última vez que você achou que não precisava de casaco, quem passou a noite medindo febre e ouvindo tosse fui eu.
— Golpe baixo — murmurou Charles, aceitando a mala e colocando-a no porta-malas do carro.
Eloïse, alheia à habitual troca de farpas veladas dos pais, olhava atentamente para a camiseta de Charles, que ostentava o cavalo rampante no peito. Seus dedinhos tocaram o emblema com fascínio.
— Papai, você vai ser muito rápido no domingo? — perguntou a menina, inclinando a cabeça de lado com aquele olhar perspicaz que desmontava qualquer argumento.
— Vou tentar ser o mais rápido de todos, querida — Charles respondeu, agachando-se novamente para ficar na altura dos olhos dela. — Se você estiver torcendo por mim, o carro vai ainda mais veloz.
— Eu vou torcer — prometeu ela com determinação, herdada inegavelmente da mãe. — E a mamãe também vai ver na televisão, né mamãe? Você disse que sempre assiste para garantir que o papai não bata no muro.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
As bochechas de Manuella adquiriram uma tonalidade rosada sob as sardas douradas, e ela limpou a garganta discretamente, desviando o olhar para o porto ao longe. Charles sentiu o canto dos lábios tremer com a revelação involuntária. Ele fixou o olhar nela, desfrutando da rara cena de vê-la pega de surpresa.
— É mesmo? — perguntou Charles, num tom deliberadamente lento, sem tirar os olhos do rosto de Manuella. — Você assiste para eu não bater no muro?
— Eloïse tem uma imaginação muito fértil — rebateu Manuella rapidamente, recuperando sua postura fria e controlada, embora o lampejo de nervosismo em seus olhos castanhos amendoados não tivesse escapado a ele. — Eu apenas assisto quando a corrida coincide com o meu horário livre. E só para avisar se o pai dela estiver fazendo besteira.
— Entendi. Pura preocupação técnica e logística — zombou ele, endireitando o corpo.
— Exatamente — confirmou ela, sustentando o olhar dele agora com um desafio tácito. Mas o disfarce era fino demais para quem a conhecia há uma década.
Charles deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Mesmo depois de tantos anos, o perfume floral e amadeirado de Manuella continuava sendo o mesmo — aquele aroma que costumava impregnar os travesseiros do seu quarto e as mangas de seus moletons favoritos. Era desconcertante perceber que, apesar de todo o tempo e da dor do término, o espaço entre eles nunca parecia completamente vazio; era sempre preenchido por eletricidade acumulada.
— Você vai à corrida no domingo? — perguntou Charles, desta vez com a voz baixa, despida do sarcasmo defensivo. — Sabe que tem credencial para o motorhome. Eloïse ia adorar se você estivesse lá com ela.
Manuella olhou para a filha, que agora estava ocupada inspecionando uma pedrinha brilhante que havia encontrado perto do pneu do carro. Um lampejo de vulnerabilidade atravessou suas feições antes que as defesas habituais se erguessem novamente.
— Não acho uma boa ideia, Charles — respondeu ela, com sinceridade contida. — As câmeras já procuram drama o suficiente quando você está na pista. Se eu aparecer nos boxes, as manchetes de segunda-feira não vão ser sobre a sua corrida, vão ser sobre nós dois. E nós prometemos que deixaríamos essa bagunça longe da Eloïse.
Charles suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros e bagunçando as mechas onduladas com um gesto frustrado. Ele odiava admitir, mas ela estava certa. A imprensa de fofocas sempre teve uma obsessão doentia pela história deles: o piloto prodígio da Ferrari e a modelo americana, o conto de fadas interrompido, a filha secreta durante a quarentena. Qualquer passo em falso virava munição para especulações sem fim.
— Eu só queria que fosse mais simples — disse ele, a franqueza escapando antes que pudesse conter. — Às vezes eu esqueço como tudo ficou complicado.
Manuella o encarou por um longo segundo. Havia algo de suave e doloroso na forma como seus olhos percorreram as linhas tensas do rosto de Charles, notando as olheiras sutis provocadas pela intensidade da temporada de Fórmula 1. Por um instante, o instinto de dar um passo à frente e tocar sua bochecha quase venceu o orgulho, mas ela manteve os pés firmes no chão.
— Nunca foi simples, Charles — disse ela em um sussurro compreensivo. — Mas nós fazemos funcionar. Pelo menos para ela.
— Pelo menos para ela — repetiu ele, com um tom agridoce que não passou despercebido.
Eloïse correu de volta até os dois, segurando a pedrinha entre os dedos com orgulho evidente.
— Olha, mamãe! Parece uma estrela que caiu do céu!
Manuella sorriu de verdade agora, aquele sorriso aberto e luminoso que Charles costumava fotografar secretamente nas manhãs ensolaradas de outono. Ela se ajoelhou diante da filha, ajeitando uma mecha rebelde do cabelo castanho que caía sobre os olhinhos claros da menina.
— É linda, meu amor — disse Manuella suavemente, beijando a testa de Eloïse. — Agora vá com o papai. Seja boazinha, coma toda a comida e não deixe ele comer doce antes do jantar.
— Eu juro que sou eu quem dita as regras em casa — protestou Charles, fingindo indignação.
— Sei bem como funcionam as suas regras quando ela faz esse bico — provocou Manuella sem olhar para trás, ainda concentrada na filha. — Te vejo no domingo à noite, tá bom? Te amo até a lua.
— Até a lua e as estrelas, mamãe — respondeu Eloïse, dando um abraço apertado no pescoço da mãe antes de correr para o banco traseiro do carro, subindo com facilidade na sua cadeirinha.
Manuella se levantou devagar, limpando a poeira invisível dos joelhos. Ela olhou para Charles mais uma vez, o silêncio voltando a se assentar entre eles como uma névoa delicada.
— Boa sorte no fim de semana — disse ela, a voz carregada de um carinho que ela raramente admitia em voz alta. — E pilote com cuidado. Por favor.
Charles sorriu, aquele sorriso torto e juvenil que ela conhecia tão bem, com as covinhas discretas se aprofundando.
— Sempre piloto, Manu.
Ele a observou por alguns segundos antes de caminhar até a porta do motorista. Havia tantas palavras não ditas represadas na garganta — pedidos de desculpas antigos, perguntas sobre o que poderia ter sido diferente, confissões de que, em certas noites solitárias de hotel em países distantes, era o som da risada dela que ainda preenchia o silêncio. Mas a maturidade cobrava seu preço: algumas coisas precisavam permanecer onde estavam para que o presente pudesse respirar.
Charles entrou no carro, ajustou o retrovisor e viu Eloïse acenando freneticamente pela janela de vidro escuro. Pelo espelho, ele viu Manuella acenar de volta com as duas mãos, um sorriso radiante iluminando seu rosto enquanto a filha olhava.
Assim que o carro começou a se mover, ganhando as ruas ensolaradas de Monte Carlo, Eloïse apoiou o queixo na mão, olhando pensativa para o pai pelo espelho central.
— Papai?
— Sim, meu amor?
— A mamãe ainda é a sua pessoa favorita do mundo todo?
Charles quase engasgou com a própria respiração, segurando o volante com mais força enquanto fazia a curva suave contornando a marina. Ele olhou para o reflexo daqueles olhos curiosos, tão parecidos com os seus, buscando as palavras certas que uma criança de cinco anos pudesse compreender sem que ele precisasse mentir.
— A mamãe é a pessoa que me deu você — respondeu Charles com delicadeza, o coração batendo pesado contra o peito. — Então ela sempre vai ser uma das pessoas mais especiais do mundo para mim.
Eloïse pareceu satisfeita com a resposta, voltando sua atenção para a pedrinha brilhante que segurava nas mãos pequenas.
— Eu acho que ela ainda gosta quando você faz cócegas nela — murmurou a menina distraidamente, começando a cantarolar uma melodia inventada.
Charles não respondeu. Ele apenas sorriu com um aperto suave no peito, acelerando o motor em direção à avenida beira-mar, consciente de que, mesmo que o amor entre ele e Manuella tivesse mudado de formato, de endereço e de propósito, ele nunca deixaria de existir. Estava vivo, correndo nas veias daquela garotinha no banco de trás, e gravado para sempre em cada curva daquela cidade que um dia havia sido o palco exclusivo dos dois.
