Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Um romance apocalíptico

Fandom: Falling skies

Criado: 23/10/2026

Tags

Pós-ApocalípticoFicção CientíficaAçãoRomanceAngústiaDor/ConfortoDramaCiúmesSobrevivênciaEstudo de Personagem
≡ Índice

Ecos na Linha de Frente

O vento cortante daquela tarde soprava contra a carcaça de ferrugem dos carros abandonados, espalhando uma poeira cinzenta que parecia nunca assentar. Três meses haviam se passado desde que a Segunda Divisão de Massachusetts fora forçada a se transformar em um fantasma errante pelas estradas secundárias. Três meses desde que o céu engoliu Tom Mason dentro de uma daquelas naves colossais.

Hal Mason ajustou o colarinho de sua jaqueta militar puída, protegendo o pescoço do frio impiedoso enquanto observava o horizonte através da mira de seu rifle de precisão. Ele era alto, imponente e carregava nos ombros largos o peso descomunal de um luto que se recusava a aceitar. Sem o pai, ele precisava ser a rocha dos irmãos mais novos, o braço direito na linha de frente e o homem em quem todos confiavam para puxar o gatilho sem hesitar. Mas, naquele exato momento, sua atenção estava dividida entre a patrulha inimiga a trezentos metros de distância e o som ritmado da respiração de Amara Weaver logo ao seu lado.

Amara estava deitada de bruços sobre o cascalho, a coronha do rifle apoiada com firmeza contra o ombro esquerdo. Ela tinha herdado a determinação ferrenha do Capitão Weaver, o maxilar rígido quando focada e os olhos escuros e expressivos que, para o desespero de Hal, tinham o poder absoluto de desarmá-lo com um simples olhar.

— Não atire ainda — sussurrou Hal, a voz grave e rouca quase se perdendo no vento. — Aquele Mech não está sozinho. Tem um Saltador na retaguarda, rondando os escombros do armazém.

— Eu vi — respondeu ela em um murmúrio firme, sem desviar os olhos da mira. — Ele está arrastando a perna traseira. Provavelmente foi atingido pela armadilha que Ben montou ontem à noite. Se eu acertar na junção da carcaça do Mech, ele tomba antes de mandar um sinal de rádio.

Hal estendeu a mão, segurando o cano da arma dela com cuidado e abaixando-o alguns milímetros. Amara virou o rosto para ele, os cabelos castanhos presos num rabo de cavalo desgrenhado caindo sobre a têmpora suada.

— Não vale o risco, Amara — disse ele, encarando-a com uma intensidade que beirava o possessivo. — Se você errar por um centímetro, o feixe de energia daquele monstro corta esta colina ao meio. Eu não vou arriscar você por um batedor desgarrado.

— Eu não erro por um centímetro, Hal — rebateu ela, arqueando uma sobrancelha, embora um meio sorriso involuntário tenha suavizado a dureza de seus lábios. — E você sabe disso.

— Sei que você é teimosa como o seu pai — retrucou Hal, com um lampejo daquela confiança indomável brilhando nos olhos. — Mas enquanto eu estiver liderando este grupo de reconhecimento, você obedece à minha ordem. Vamos recuar. O comboio precisa saber que essa rota está infestada.

Amara suspirou, mas baixou o rifle completamente. Ela confiava no instinto de Hal tanto quanto confiava no próprio. Havia nele uma bravura natural, algo que não vinha de arrogância, mas de um senso desesperado de responsabilidade por cada vida ao seu redor.

Eles se arrastaram de costas pela encosta pedregosa até alcançarem a depressão segura da ravina. Hal levantou-se primeiro, com a agilidade graciosa de quem vivia correndo pela própria sobrevivência, e ofereceu a mão para ajudá-la a subir. Quando os dedos enluvados de Amara tocaram os dele, Hal a puxou com um pouco mais de força do que o necessário, trazendo-a para perto de seu peito antes de soltá-la.

— Você está bem? — perguntou ele em voz baixa, os olhos descendo rapidamente pelo corpo dela para checar qualquer sinal de ferimento.

— Estou inteira, Mason — respondeu ela, sentindo o calor habitual subir pelo peito com a proximidade física repentina. — Pare de me olhar como se eu fosse quebrar a qualquer instante.

— Não acho que você vá quebrar — disse ele, ajeitando a alça da arma no ombro com um sorriso ladino que escondia as cicatrizes do cansaço. — Acho que você é perigosa demais para o seu próprio bem. Isso me dá cabelos brancos.

— Você ficaria horrível de cabelos brancos.

Eles caminharam em silêncio rápido e coordenado pela mata fechada até encontrarem as motocicletas camufladas sob galhos secos. Hal montou em sua moto primeiro, chutando a partida enquanto esperava Amara fazer o mesmo. O ronco baixo dos motores reverberou abafado pela folhagem densa enquanto cortavam o caminho de volta para o coração da Segunda Divisão.

O acampamento daquele dia fora montado nos limites de um antigo pátio ferroviário abandonado. Vagões enferrujados serviam de barricadas contra ataques surpresa e dormitórios improvisados contra a chuva iminente. O cheiro de querosene, óleo de motor e ensopado ralo impregnava o ar úmido.

Assim que estacionaram perto do vagão de comando, a figura imponente do Capitão Dan Weaver surgiu na plataforma de metal. Weaver segurava uma xícara de metal fumegante em uma mão e o mapa tático na outra. Ele desceu os degraus de ferro com passos pesados, os olhos faiscando na direção dos dois jovens.

— Relatório — ordenou Weaver, a voz de trovão interrompendo qualquer conversa lateral.

— A rodovia 9 está bloqueada, capitão — explicou Hal, assumindo uma postura ereta e militar por puro respeito à liderança do homem mais velho. — Encontramos uma patrulha mista a quatro quilômetros daqui. Um Mech pesado e pelo menos três Saltadores cobrindo o flanco do depósito. Se movermos os caminhões pesados por ali, seremos encurralados em uma garganta estreita.

Weaver franziu o cenho, soltando uma baforada pesada de ar frio. Ele olhou para a filha com uma mistura de preocupação contida e rigidez paternal.

— Você concorda com a avaliação dele, Amara?

— Concordo — respondeu ela com seriedade. — Eles pareciam estar vasculhando ativamente, não apenas montando guarda. Se o comboio tentar passar, teremos que lutar sem cobertura. A rota oeste pela ferrovia é mais longa, mas as árvores ainda nos dão alguma camuflagem.

Weaver assentiu brevemente, dando dois tapinhas rudes no ombro de Hal.

— Bom trabalho, garoto. Vá ver seus irmãos. Ben está ajudando Jimmy a limpar as armas perto da caldeira, e Matt estava te procurando desde o meio-dia.

— Sim, senhor — respondeu Hal.

Weaver virou-se para a filha antes de subir os degraus novamente.

— Amara, ajude Lourdes a organizar os suprimentos médicos no terceiro vagão. Ouvi dizer que alguns batedores voltaram com febre.

— Já estou indo, pai.

Quando Weaver se afastou, Hal deu um passo à frente, bloqueando suavemente o caminho de Amara antes que ela pudesse seguir em direção à enfermaria improvisada.

— Você não comeu nada antes de sairmos — disse ele, o tom agora despido da formalidade militar, carregado de um carinho protetor. — Pelo menos passe na cozinha antes de se enfiar no meio dos remédios.

Amara olhou nos olhos amendoados dele, tocando de leve a lapela da jaqueta militar que ele usava religiosamente.

— Você também não comeu, Hal. Não seja hipócrita.

— Eu como depois que garantir que Matt esteja alimentado.

— Sempre o líder impecável — murmurou ela, com uma doçura que raramente mostrava a qualquer outra pessoa naquele acampamento. — Vá cuidar dos seus irmãos. Eu te encontro mais tarde.

Hal segurou o olhar dela por mais um segundo antes de se forçar a se afastar. Caminhou entre os sobreviventes, respondendo a acenos de cabeça e cumprimentos rápidos com a cordialidade firme que havia herdado do pai.

Ao encontrar Ben polindo uma espingarda, o estômago de Hal se apertou. As luzes azuis e tênues sob a pele das costas do irmão, remanescentes dos arreios que quase o escravizaram, pareciam pulsar em um ritmo silencioso. Ben estava cada vez mais quieto, mais letal, consumido por um ódio cego contra os alienígenas.

— Ei — chamou Hal, sentando-se em um caixote de munição à frente dele. — Como você está se sentindo?

— Bem — respondeu Ben sem levantar os olhos da peça de metal que limpava. — Os Saltadores estão agitados hoje. Consigo sentir a interferência estática no fundo da cabeça. Eles sabem que estamos nos movendo para o norte.

— O Weaver vai mudar nossa rota. Não vamos nos expor — garantiu Hal, tentando transmitir uma segurança que ele próprio mal sentia. Ele pousou a mão sobre o ombro magro e tenso de Ben. — Preciso que você fique perto do Matt hoje à noite, Ben. Não faça nenhuma loucura nas patrulhas.

— Não sou eu quem faz loucuras, Hal. Eu só mato eles antes que eles nos matem — respondeu o garoto, os olhos frios encontrando os do irmão mais velho.

Hal suspirou, sentindo o vazio colossal que Tom Mason havia deixado. Se o pai estivesse ali, saberia exatamente o que dizer para alcançar o coração de Ben, saberia que livros citar para fazer o garoto se lembrar de quem era antes de ter as costas rasgadas por espinhos biomecânicos. Para Hal, tudo se resumia a manter a família viva, mesmo que isso custasse cada gota de sua sanidade.

A noite caiu implacável sobre o pátio ferroviário, trazendo consigo uma garoa fina e gélida que transformou o chão em uma pasta escorregadia de lama preta. O acampamento estava silencioso, com exceção do gotejar incessante nas chapas de aço e dos murmúrios abafados das sentinelas nos postos de vigia.

Hal terminou de verificar a segurança do perímetro leste e caminhou em direção a um dos vagões de carga semienterrados no mato, onde sabia que encontraria refúgio do barulho. No entanto, ao se aproximar, viu uma silhueta alta encostada na lateral do vagão, conversando com Amara.

Era Dai, um dos batedores mais habilidosos do grupo. Ele estava sorrindo, entregando uma caneca para Amara enquanto se inclinava de forma ligeiramente informal demais contra a barra de ferro.

Um calor repentino e incômodo subiu pelo peito de Hal, transformando a calma forçada de sua mente em uma onda aguda de ciúme. Ele sabia que Dai era um bom homem, um guerreiro confiável com quem já havia lutado ombro a ombro dezenas de vezes. Mas ver qualquer pessoa invadindo o espaço de Amara, fazendo-a rir no meio daquele inferno cinzento, causava-lhe uma pontada territorial involuntária e primitiva.

Hal acelerou o passo, suas botas pesadas quebrando os gravetos no chão com um estalo deliberado.

— Algum problema por aqui? — perguntou Hal, aproximando-se com a voz cortante, parando a menos de um metro deles com os polegares enganchados nas alças do cinto tático.

Dai virou-se, percebendo a postura rígida de Hal, e levantou as mãos em um gesto tranquilo de desescalada.

— Nenhum problema, Mason. Eu só estava trazendo um pouco de café quente para a filha do capitão. Ela passou a tarde inteira costurando ferimentos de estilhaços.

— Ela já está liberada das funções por hoje — disse Hal, mantendo o olhar fixo no outro homem com uma firmeza quase desafiadora. — E você deveria estar rendendo o posto de vigia na torre de água. Weaver não tolera atrasos nas trocas de turno.

Dai olhou de Hal para Amara, captando a tensão elétrica no ar, e soltou uma risada baixa e quase imperceptível.

— Entendido, Mason. Boa noite, Amara.

— Boa noite, Dai. Obrigada pelo café — respondeu ela com educação.

Assim que Dai desapareceu na escuridão entre os vagões, Amara virou-se para Hal, cruzando os braços e encarando-o com os olhos faiscando de exasperação e ironia.

— Você precisa mesmo fazer isso toda vez que alguém fala comigo por mais de dois minutos?

— Fazer o quê? — perguntou Hal, fingindo uma inocência descarada enquanto dava um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Eu apenas lembrei um batedor sobre as obrigações militares dele. Isso se chama liderança, caso você não saiba.

— Isso se chama ciúme absurdo, Hal Mason — rebateu ela, dando um passo em direção a ele, desafiando a postura intimidatória do jovem. — Dai é nosso companheiro de pelotão. Ele estava apenas sendo gentil.

Hal a fitou por um longo segundo, e a máscara de arrogância militar desmoronou lentamente, revelando a tempestade crua de emoções que ele passava o dia inteiro tentando reprimir. Ele deu mais um passo, prensando-a suavemente contra a parede fria do vagão de trem, envolvendo a cintura dela com uma das mãos enluvadas enquanto a outra subia para acariciar a curva de sua mandíbula.

— Eu não me importo com a gentileza dele — confessou Hal em um sussurro rouco, os olhos escuros ardendo de uma paixão desesperada. — Eu passo o dia inteiro morrendo de medo de te ver cair naquela lama. Passo o dia todo pensando se a próxima emboscada vai ser a que vai te tirar de mim. Então, me perdoe se eu não gosto de ver outro homem achando que tem o direito de te fazer sorrir quando tudo o que eu quero é te manter trancada em um lugar seguro.

O coração de Amara disparou contra as costelas. A raiva que sentia evaporou instantaneamente diante da vulnerabilidade quase dolorosa que ele expressava. Hal era destemido diante de robôs assassinos e alienígenas com garras venenosas, mas quando se tratava dela, ele parecia sangrar por medo de perdê-la.

Ela pousou a mão livre sobre o peito dele, sentindo o tecido grosso da jaqueta militar e as batidas fortes e rápidas do coração de Hal logo abaixo.

— Ninguém vai me tirar de você, Hal — sussurrou ela, a voz carregada de uma promessa sincera. — E você sabe que não existe nenhum lugar seguro neste mundo. O único lugar onde eu escolho estar é ao seu lado na trincheira.

— Eu sei — respondeu ele, encostando a testa na dela, fechando os olhos por um breve instante para respirar o aroma de chuva e pólvora que parecia fazer parte da pele de Amara. — Mas isso não me impede de querer você só para mim.

Amara segurou a nuca dele, puxando-o para baixo. Quando os lábios de Hal encontraram os dela, o beijo começou urgente, faminto, como se eles estivessem tentando roubar um momento de vida de um mundo que só lhes oferecia morte. A mão de Hal segurou com força a cintura de Amara, puxando-a contra o próprio corpo, enquanto a boca dela se abria suavemente, aprofundando o contato.

Havia desespero naquele toque, mas também uma doçura profunda, a certeza de que, em meio ao caos das cinzas, eles haviam encontrado a âncora um do outro. Hal beijou o canto da boca dela, a bochecha fria pela chuva e desceu até a curva do pescoço, onde soltou uma respiração quente e trêmula.

— Eu sinto tanta falta dele, Amara — desabafou ele baixinho, o peso da ausência de Tom Mason finalmente quebrando a muralha de ferro que ele mantinha diante do acampamento. — Eu não sei se consigo continuar fazendo isso se ele não voltar. Não sei se consigo manter Matt e Ben vivos sem ele.

Amara ergueu o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela na penumbra úmida da noite.

— Você consegue, Hal. Você já está fazendo isso há meses. Você é um líder incrível, tão forte e honrado quanto o seu pai jamais foi. E você não está sozinho. Eu estou aqui. Nós vamos encontrar uma saída para tudo isso, juntos.

Hal encarou os olhos brilhantes da garota e, pela primeira vez em semanas, sentiu o ar entrar completamente em seus pulmões. Ele assentiu devagar, deslizando o polegar pelos lábios macios dela, prestes a beijá-la novamente, quando um grito cortou o ar como um estilhaço afiado.

— Alarme! Contato visual na barricada sul! — a voz ecoou da torre de vigia, acompanhada pelo som mecânico e seco de dezenas de fuzis sendo destravados ao mesmo tempo.

Hal e Amara se separaram em um reflexo condicionado. O amante apaixonado desapareceu em uma fração de segundo, dando lugar imediatamente ao soldado implacável e calculista.

Hal puxou o rifle das costas com um movimento fluido, a postura rija enquanto seus olhos varriam o pátio ferroviário em busca de ameaças. Amara já estava ao lado dele, a arma empunhada na altura do peito, a respiração presa na garganta.

— Saltadores? — perguntou ela, tensa.

— Não ouvi barulho de motores ou tiros — sussurrou Hal, já se movendo com passos rápidos e precisos na direção da entrada principal da barricada. — Fique atrás de mim.

Eles atravessaram a lama correndo até alcançarem o parapeito de sacos de areia onde Dan Weaver e uma dúzia de combatentes estavam reunidos, os faróis de um caminhão apontados para a estrada escura que saía da floresta.

O feixe de luz amarelada cortava a chuva fina, revelando uma figura solitária tropeçando pelo asfalto rachado.

O homem caminhava com passos trôpegos, vestindo roupas esfarrapadas e cobertas de lama, segurando o braço esquerdo colado ao corpo como se estivesse ferido. Ele levantou a cabeça lentamente, piscando contra o brilho cegante dos faróis militares.

O ar congelou nos pulmões de Hal. O rifle em suas mãos quase escorregou pelos dedos enluvados.

— Não atirem! — gritou Weaver, a voz subitamente rouca e trêmula de surpresa. — Pelo amor de Deus, abaixem as armas!

Amara olhou para o homem na estrada e depois para Hal. Os olhos do jovem Mason estavam arregalados, a mandíbula entreaberta enquanto uma mistura de choque, terror e esperança avassaladora rasgava sua compostura.

Parado sob a chuva, respirando com dificuldade e encarando o comboio da Segunda Divisão, estava Tom Mason.

≡ Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic

Novidades do Fanfy

Um novo modelo para suas histórias

Atualizamos o modelo de geração para deixar suas histórias ainda melhores. O novo modelo já está ativado.

Se preferir a versão anterior, escolha «Anterior» no menu do perfil: clique no seu avatar no canto superior direito.

Seus capítulos já escritos serão mantidos. Sua escolha vale para as próximas gerações.