
Oliver!!:3
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 23/10/2026
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Entre Nós e Grafite
A penumbra da sala de ciências abandonada cheirava a poeira, papel velho e uma ponta acre de metal aquecido. Não era um cheiro incomum para os recantos esquecidos daquela escola, mas o ambiente em que Oliver se encontrava era consideravelmente menos agradável do que o habitual.
A primeira sensação que atingiu sua consciência foi o aperto sufocante ao redor do peito e dos braços. Cordas grossas e ásperas davam voltas precisas em torno de seu tronco, prendendo-o firmemente ao encosto de uma robusta cadeira de madeira de carvalho. Tentou mover o braço esquerdo por instinto, mas a longa haste cônica de grafite e madeira — sua característica prótese pontiaguda de lápis — estava completamente imobilizada contra a lateral da cadeira, amarrada com nós tão firmes que qualquer tentativa de girar a ponta afiada contra os laços resultava apenas em estalos secos e dor no ombro.
Seus cabelos brancos, tão longos que costumavam deslizar até os calcanhares como um manto de papel fino, estavam desgrenhados e espalhados pelo chão, com o laço preto frouxo perto da base do rabo de cavalo baixo. No alto de sua cabeça, a mecha arrepiada e teimosa que sempre desafiava a gravidade tremia a cada respiração truncada. Seus chifres negros pareciam pesar mais do que o normal, e o pequeno "A+" vermelho gravado na lateral de sua franja brilhava sob a luz fosca que entrava pelas frestas das persianas.
No entanto, o maior de seus tormentos não eram os nós que prendiam suas bermudas brancas e botas pesadas à mobília. Era o que havia em sua boca.
Uma mordaça de bola de borracha vermelha e brilhante empurrava sua língua para trás, forçando seus lábios a permanecerem escancarados num esgar involuntário. As tiras de couro preto cruzavam suas bochechas pálidas, presas por uma fivela bem ajustada na nuca, impedindo qualquer articulação coerente. Um filete fino de saliva escorria pelo canto de sua boca, manchando o tecido escuro da gola de sua camisa, enquanto suas bochechas queimavam em uma tonalidade carmesim furiosa.
Ele era Oliver. Ele era o garoto que pregava peças nos corredores, que aterrorizava os novatos com sorrisos sádicos ao lado de Zip e Edward, que roía barras de sabonete com a mesma naturalidade com que os outros devoravam maçãs no recreio. Não era suposto que ele fosse a vítima de uma armadilha.
Ao perceber a totalidade de sua situação humilhante, a raiva subiu em espiral pela sua espinha. Oliver franziu o cenho com tanta força que os olhos quase se fecharam em fendas perigosas. Ele começou a se debater violentamente.
— Mmmff! Nnngh! — grunhiu contra a borracha, o som saindo abafado e pastoso.
Ele jogou o peso do corpo para a frente, tentando tombar a cadeira ou esticar as fibras da corda, mas quem quer que o tivesse amarrado sabia exatamente o que estava fazendo. As amarras rangiam, porém não cediam um milímetro sequer. Suas meias brancas arranharam as pernas da cadeira, e suas botas bateram contra o linóleo desgastado com batidas secas e impotentes.
O esforço inútil só serviu para deixá-lo ainda mais vermelho, o rubor se espalhando desde as orelhas pontudas até a linha da gola preta com losangos brancos. Ele estava bufando, o peito subindo e descendo em arfadas descompassadas pelo nariz. Se conseguisse soltar o braço esquerdo, jurava que enfiaria a ponta de grafite no infeliz que tivera aquela audácia.
De repente, o ranger enferrujado da porta dos fundos quebrou a melodia de seus gemidos abafados.
Passos calmos e medidos ecoaram pelo piso. Oliver ergueu a cabeça rapidamente, o laço de cabelo balançando frouxo contra as costas.
Surgindo da sombra dos armários de metal, Edward caminhava com as mãos nos bolsos e uma postura terrivelmente relaxada. Ele ajustou os óculos no topo do nariz com o indicador, e um sorriso torto, carregado de uma malícia calculada, desenhou-se em seus lábios finos. Ele observou o estado do amigo de longa data com o mesmo olhar satisfeito de um cientista contemplando o resultado perfeito de uma experiência demorada.
— Ora, ora... — disse Edward, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado. — Olha só quem finalmente resolveu acordar. Pensei que o sedativo fosse te apagar até o final do período da tarde.
— Mmph! Rrr-mmmph! — Oliver rugiu pela mordaça, os olhos fixos em Edward com pura promessa de assassinato.
Edward não pareceu nem um pouco intimidado. Pelo contrário: deu uma risadinha baixa, aquele risinho seco e anasalado que sempre usava quando construía uma nova engenhoca ou quando conseguia enganar algum professor incauto. Ele deu mais três passos lentos, parando bem na frente da cadeira onde Oliver continuava a se contorcer feito uma serpente encurralada.
— Não precisa gastar a voz, Oliver — disse Edward, parando a centímetros dele. — A bola foi projetada para preencher a cavidade bucal com noventa e oito por cento de eficiência acústica. Você não vai conseguir chamar a Zip, muito menos a Alice. Por enquanto, somos só você e eu.
Oliver tentou cuspir contra a tira de couro, mas tudo o que conseguiu foi emitir outro gemido áspero, sacudindo a cabeça em negativa furiosa. Seus chifres quase roçaram a manga do casaco de Edward. O rubor em sua face, que antes era puramente de indignação, começou a adquirir nuances diferentes à medida que Edward dava a volta na cadeira com uma lentidão deliberadamente teatral.
— Sabe — continuou Edward, deslizando a mão com luva pelo encosto de madeira —, você tem sido incrivelmente barulhento ultimamente. Sempre correndo, sempre quebrando meus protótipos para fazer piadas idiotas... e você comeu aquela barra de sabonete artesanal que eu tinha deixado no laboratório para experimentos de flotação.
— Mmmph! — Oliver arregalou os olhos por um segundo. Aquele sabonete de menta tinha sido maravilhoso, afinal de contas. Ele não se arrependia de nada.
— É, eu sei que foi você — murmurou Edward, com a voz baixando de tom. Ele parou ao lado esquerdo de Oliver, ali mesmo onde a ponta de lápis gigante jazia imóvel. Edward bateu com o nó dos dedos na grafite, fazendo um som oco. — Uma arma fascinante, mas completamente inútil quando bem imobilizada, não acha?
Oliver trincou os dentes contra a borracha, tentando jogar o corpo para o lado e atingir a canela de Edward com a bota, mas o outro rapaz foi mais rápido e deu um passo para trás, rindo suavemente.
— Tão agitado... — sussurrou Edward.
Antes que Oliver pudesse reagir com outra investida raivosa, Edward estendeu a mão direita. Seus dedos, pálidos e longos, tocaram suavemente a lateral do rosto de Oliver.
O contato repentino fez o garoto de cabelos brancos congelar no mesmo instante. O toque não era violento, como se esperaria de uma briga entre encrenqueiros; era assustadoramente gentil, quase carinhoso. As pontas dos dedos de Edward deslizaram com extrema lentidão sobre a pele aquecida da bochecha de Oliver, contornando a tira de couro que apertava sua pele e subindo até a têmpora, acariciando com a polpa do polegar a pequena marca vermelha do "A+".
Oliver arregalou os olhos. Um arrepio involuntário e elétrico percorreu toda a sua espinha, descendo pelas costas amarradas até a ponta de seus pés. O calor em seu rosto se intensificou de tal maneira que ele jurou que suas bochechas estavam incandescentes. Seus lábios tremeram ao redor da mordaça vermelha.
— Olha só para isso... — disse Edward em um tom aveludado e zombeteiro, aproximando o rosto do de Oliver. Seus olhos brilhavam por trás das lentes. — O grande Oliver, o terror do corredor leste, sem palavras e corando como uma página em branco manchada de tinta vermelha.
— M-mmph...! — Oliver tentou desviar a cabeça, tentando sacudir o toque do amigo, mas Edward manteve a mão firme, deslizando agora para a base de um de seus chifres negros, acariciando a textura rígida com uma calma desconcertante.
Aquele gesto causou uma reação quase caótica nos sentidos de Oliver. Tomado por uma onda avassaladora de vergonha, fúria e uma confusão visceral que ele jamais admitiria em voz alta, ele jogou o peso do corpo para trás com toda a força que restava em seus músculos, querendo se afastar daquela carícia insuportável a qualquer custo.
O movimento foi bruto demais, impensado.
Os pés da frente da cadeira se ergueram violentamente do chão. O centro de gravidade se perdeu em uma fração de segundo. A cadeira inclinou para trás em um ângulo perigoso, oscilando precariamente sobre os dois pés traseiros. Oliver sentiu o estômago despencar. O chão de concreto duro parecia correr para encontrá-lo em uma queda inevitável de costas que certamente racharia o encosto da cadeira e sua cabeça.
Seus olhos se abriram em pânico puro.
— Mmmff! — gritou ele, esperando o impacto.
O impacto, contudo, não veio.
Num reflexo rápido e preciso, Edward deu um passo à frente, jogou os braços ao redor dos ombros de Oliver e cravou as próprias botas no chão, segurando o peso da cadeira tombada bem antes que ela batesse contra as lajotas.
O choque do movimento interrompido lançou o corpo de Edward diretamente contra o de Oliver. O peito de Edward colidiu com o peito amarrado do amigo, o rosto do inventor a meros centímetros do rosto de Oliver. A respiração ofegante de Oliver, quente e úmida contra a borracha da mordaça, batia diretamente no queixo de Edward.
Por alguns longos segundos, o único som na sala foi o ranger da madeira estressada e a respiração entrecortada dos dois. Oliver estava literalmente jogado nos braços de Edward, inclinado para trás, incapaz de fazer qualquer coisa além de encará-lo, o rubor cobrindo agora até o pescoço e a ponta das orelhas. Seu coração martelava contra a caixa torácica como um pássaro enjaulado.
Edward não recuou de imediato. Ele sustentava o peso com uma facilidade surpreendente, os braços firmes mantendo a cadeira suspensa em um ângulo quase impossível. Um sorriso ainda mais largo e vitorioso se espalhou por sua face.
— Calma aí, valentão — sussurrou Edward, tão perto que Oliver podia ver o reflexo de sua própria expressão transtornada nas lentes dos óculos dele. — Se quebrar essa cadeira, eu vou ter que arrumar outra... e amarrar você de novo vai levar um tempo que eu não estou muito a fim de gastar.
Com um puxão firme e controlado, Edward puxou a cadeira para a frente, fazendo os quatro pés de madeira baterem novamente no chão com um baque seco e definitivo.
Oliver soltou o ar ruidosamente pelo nariz, o peito sacudindo enquanto recuperava o fôlego que o susto havia roubado. Ele se sentia tonto, a mecha arrepiada em sua cabeça parecendo murchar um pouco antes de saltar de novo, acompanhando o bater descompassado de suas têmporas.
Edward deu um passo para trás, limpando as mangas da camisa com fingida elegância, embora seus olhos continuassem cravados no rapaz preso.
— Você quase se quebrou inteiro só para fugir de um carinho? — perguntou Edward, cruzando os braços e fingindo desapontamento. — Que falta de consideração com um amigo.
— Mmmph-ya! Nnggh, rrr-aah! — vociferou Oliver através da esfera de borracha, sacudindo a cabeça num gesto claro de desafio e insulto. Se a mordaça não estivesse ali, Edward estaria ouvindo os piores palavrões que a mente travessa de Oliver conseguia formular.
Edward riu baixinho, balançando a cabeça. Ele caminhou até uma bancada próxima, pegou algo sobre a mesa de fórmica e voltou, mantendo o objeto escondido na palma da mão fechada.
— Eu trouxe uma coisa para você se acalmar — disse Edward, estendendo a mão e abrindo os dedos bem na frente do nariz de Oliver.
Sobre a palma da mão de Edward repousava uma barra retangular de sabonete perfeitamente cortada, de um tom verde-claro brilhante, exalando um forte e delicioso perfume de maçã verde e glicerina.
Os olhos de Oliver imediatamente desceram da cara presunçosa de Edward para a barra de sabonete. Suas pupilas dilataram por uma fração de segundo. Seus instintos primitivos gritaram. Ele adorava aquele sabor ceroso e denso, a textura que espumava de forma tão divertida entre seus dentes pontiagudos. Uma pontada de desejo genuíno cruzou sua mente antes que ele se lembrasse da humilhação em que se encontrava.
Ele lançou um olhar mortal para Edward, recusando-se a demonstrar o quanto queria dar uma mordida naquele bloco verde.
— Eu sabia que você ia gostar da fragrância — comentou Edward, girando o sabonete entre os dedos como se fosse uma moeda de truque. — Mas tem um probleminha, não tem? Com essa bola vermelha ocupando todo o espaço, acho que você não vai conseguir mastigar nem uma lasquinha.
Oliver soltou um rosnado estrangulado. As tiras de couro apertavam sua pele à medida que ele tensionava a mandíbula.
— Nós podemos fazer um acordo — propôs Edward, abaixando-se até ficar com os olhos exatamente na mesma altura dos de Oliver. Aquele sorriso perverso nunca deixava seu rosto. — Eu tiro a mordaça. Eu deixo você comer o sabonete todinho. Mas, em troca, você vai ter que me deixar terminar os testes das minhas novas amarras sem tentar me furar com esse seu braço de lápis. O que me diz?
Oliver hesitou. Seus dentes estavam doloridos de tanto morder a esfera dura, a saliva continuava acumulando de maneira irritante, e a proximidade de Edward ainda fazia seu estômago dar voltas estranhas que ele não conseguia decifrar. Mas o orgulho de Oliver falava mais alto. Ele nunca cedia tão fácil.
Com um movimento brusco, Oliver tentou cabecear a mão de Edward, mirando no sabonete para tentar derrubá-lo no chão sujo.
Edward, no entanto, previu o movimento com a precisão de quem conhecia todos os truques infantis do companheiro. Ele recolheu a mão no último milissegundo, e Oliver apenas cortou o ar, quase desequilibrando a cadeira mais uma vez.
— Tsc, tsc, tsc... — Edward estalou a língua em desaprovação brincalhona. — Péssima escolha, Oliver. Muito malcriado para quem está completamente à minha mercê.
Edward guardou o sabonete no bolso do casaco e deu um passo para trás, estalando os dedos. Ele pegou um caderno de anotações que estava jogado sobre uma cadeira vazia ao lado e abriu em uma página cheia de diagramas.
— Acho que você precisa de mais um tempo para pensar na minha proposta — disse ele, dando as costas com indiferença fingida. — Vou deixar você aí refletindo por uns vinte minutos. Talvez o silêncio ajude a esfriar essa sua cabeça quente.
— MMMMPH! — berrou Oliver, debatendo-se com renovado desespero contra o encosto da cadeira. As cordas queimaram sua pele através das bermudas e da camisa, e o braço de grafite estalou em protesto silencioso.
Edward virou o rosto apenas o suficiente para espiar Oliver por cima do ombro. O olhar zombeteiro brilhava com intensidade.
— Não se preocupe, meu caro — murmurou ele, caminhando em direção à porta com passos lentos. — Eu não vou demorar muito. E quem sabe... se você se comportar direitinho quando eu voltar, eu te faça mais um carinho. Você fica adorável quando está todo corado.
Com uma risada baixa e ecoante, Edward empurrou a porta de metal, que se fechou atrás dele com um clique pesado e sonoro, deixando Oliver sozinho na penumbra da sala silenciosa.
O garoto de cabelos brancos jogou a cabeça para trás, encarando o teto manchado de umidade. As bochechas queimavam como fogo vivo, o coração disparado como se tivesse corrido uma maratona pelos corredores da escola. Ele soltou um suspiro abafado, longo e derrotado contra a borracha vermelha.
Ele ia matar Edward. Ele ia definitivamente transformar aquele caderno de anotações em picadinho com seu braço afiado, roubar todo o estoque de sabonetes do laboratório e nunca, sob hipótese alguma, permitir que ele tocasse em seu rosto daquele jeito de novo.
Mas, enquanto o eco das palavras de Edward ainda flutuava pela sala fria, Oliver fechou os olhos com força, incapaz de impedir que o calor em seu rosto se espalhasse ainda mais profundamente pela sua pele amarrada.
