
Teen Wolf (What IF)
Fandom: Teen Wolf
Criado: 23/10/2026
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O Peso da Lua e do Sarcasmo
A floresta de Beacon Hills sempre teve um cheiro peculiar à noite — uma mistura de terra úmida, folhas em decomposição e o medo palpável que Stiles Stilinski tentava esconder sob camadas de ironia. O feixe da lanterna cortava a escuridão, tremendo levemente na mão do garoto de dezoito anos que, por direito, deveria estar em casa estudando ou, no mínimo, dormindo.
— Stiles, a gente devia voltar — sussurrou Scott McCall, tropeçando em uma raiz exposta. — O meu asma está começando a chiar e, honestamente, procurar metade de um cadáver não parece o melhor plano para uma terça-feira.
Stiles parou e girou o corpo, a luz da lanterna atingindo diretamente os olhos de Scott, que protestou cobrindo o rosto.
— Scott, você não entende a magnitude disso. É um corpo! Ou metade de um. É a coisa mais interessante que aconteceu nesta cidade desde que... bem, desde que nada aconteceu nunca! — Stiles gesticulou freneticamente. — E meu pai está lá fora. Se eu encontrar primeiro, eu sou o herói. Se ele me pegar, eu sou o filho que precisa de terapia. É um risco calculado.
— Você é péssimo em matemática — resmungou Scott.
Eles continuaram a subir a encosta, o som da respiração pesada de Scott sendo o único ruído além do farfalhar das árvores. De repente, o silêncio da floresta foi estilhaçado. Não por um grito, mas por um som que parecia o bater de centenas de asas. Pássaros, em pânico, levantaram voo das copas das árvores simultaneamente.
— O que foi isso? — Scott perguntou, a voz falhando.
— Natureza? — Stiles tentou, mas seu sarcasmo soou vazio.
A luz da lanterna de Stiles varreu o matagal e, por um breve segundo, captou algo que não deveria estar ali. Dois globos vermelhos, brilhando com uma intensidade predatória, fixos neles.
— Scott, corre.
— O quê?
— CORRE! — gritou Stiles, empurrando o amigo na direção oposta.
Eles se separaram no pânico. Scott, em meio a uma crise de asma, deslizou por um barranco, perdendo a bombinha no processo. Stiles, cujas pernas pareciam movidas por puro TDAH e adrenalina, disparou entre os troncos das árvores. Ele ouvia algo atrás dele. Não era um animal comum. O som das patas batendo no chão era pesado, rítmico e aterrorizante.
Stiles tropeçou. O impacto com o solo gelado tirou o fôlego de seus pulmões. Ele tentou se levantar, mas o mundo girou. Quando olhou para cima, a fera estava lá. Era enorme, uma massa de pelos escuros e dentes que pareciam navalhas sob a luz pálida da lua cheia que espreitava entre as nuvens.
— Mas que diabos... — Stiles murmurou, a mão tateando o chão em busca de um galho, qualquer coisa.
A criatura não hesitou. Ela avançou com uma velocidade impossível. Stiles sentiu uma dor aguda, lancinante, como se um ferro em brasa tivesse sido cravado em seu flanco. Ele gritou, um som que ecoou por toda a reserva, antes de ser arremessado contra uma árvore.
A escuridão o reivindicou antes que ele pudesse ver a fera desaparecer nas sombras.
Na manhã seguinte, o quarto de Stiles parecia pequeno demais. A luz que entrava pela janela era agressiva, e cada pequeno som — o gotejar da torneira no banheiro, o motor de um carro a três quarteirões de distância — soava como uma explosão em seus ouvidos.
Ele estava sentado na beira da cama, a camisa levantada, encarando o curativo improvisado que Scott o ajudara a colocar na noite anterior, depois de o ter encontrado vagando pela estrada em estado de choque.
— Stiles, você está me ouvindo? — Scott estava parado na porta, segurando dois copos de café. — Você está encarando essa parede há dez minutos.
Stiles piscou, voltando a si. Ele olhou para o amigo e sentiu uma onda de irritação súbita, quase irracional.
— Eu estou ouvindo tudo, Scott. Literalmente tudo. Eu consigo ouvir o seu coração batendo. E está muito rápido. Para com isso, é irritante.
Scott franziu o cenho, aproximando-se.
— O meu coração? Stiles, você foi mordido por um lobo ou um coiote ou... sei lá o quê. A gente precisa ir ao hospital. Seu pai vai me matar se descobrir que eu deixei você assim.
— Não foi um lobo, Scott — Stiles disse, a voz subindo de tom. Ele se levantou, sentindo uma energia estranha percorrer seus membros, uma vontade de correr até seus pulmões explodirem. — Lobos não têm olhos vermelhos brilhantes e não pesam trezentos quilos. E lobos não fazem isso.
Stiles arrancou o curativo.
Scott soltou o café. Os copos atingiram o carpete, mas nenhum dos dois se importou. Onde na noite anterior havia uma ferida profunda e sangrenta, agora havia apenas pele lisa e levemente avermelhada. A mordida havia desaparecido.
— O que... como...? — Scott gaguejou, aproximando-se para tocar o local.
— Não toca! — Stiles rosnou. O som saiu gutural, profundo, algo que não pertencia à garganta de um humano.
Stiles recuou, assustado com o próprio som. Suas mãos tremiam.
— Scott, tem algo errado comigo. Mais errado do que o normal. Minha mente está acelerada, mas não é como o TDAH. É como se... como se eu estivesse ligado em uma voltagem que meu corpo não aguenta.
— Talvez seja a adrenalina? — Scott tentou confortar, embora sua própria voz estivesse carregada de pavor. — O corpo faz coisas estranhas em choque.
— O corpo não cura buracos de dentes em oito horas, Scott! — Stiles começou a andar de um lado para o outro no quarto. — E eu estou sentindo cheiros. Eu sinto o cheiro do chiclete que você comeu no café da manhã. Eu sinto o cheiro daquela lasanha estragada na geladeira do vizinho. E eu sinto... eu sinto você. Você está com medo.
— É claro que eu estou com medo! Você está agindo como um maníaco!
Stiles parou de repente. Ele fechou os olhos, tentando controlar a torrente de informações que seus sentidos estavam enviando.
— A gente precisa ir para a escola — Stiles decidiu, pegando sua mochila. — Se eu ficar parado aqui, eu vou acabar escalando as paredes.
O dia na escola foi um exercício de tortura. Stiles usava um moletom com capuz, tentando se esconder do mundo. A cada esbarrão no corredor, ele sentia uma faísca de agressividade que o assustava.
Durante a aula de economia, a caneta de Stiles batia ritmicamente na mesa. Tap. Tap. Tap.
— Stilinski! — o treinador Finstock gritou, fazendo Stiles pular da cadeira. — Se você bater essa caneta mais uma vez, eu vou fazer você comê-la. Entendido?
— Sim, treinador — Stiles respondeu, cerrando os dentes.
— O que foi isso? — Finstock se aproximou, estreitando os olhos. — Você está rosnando para mim?
— Não, senhor. Foi um... espasmo na garganta. Muita poeira nesta sala. O senhor já pensou em contratar uma equipe de limpeza profissional?
O treinador bufou e voltou para a lousa. Scott, sentado ao lado, sussurrou:
— Stiles, olha para a sua mão.
Stiles olhou. A caneta de plástico estava estraçalhada em sua palma, reduzida a pequenos pedaços pretos e tinta vazada. Ele não tinha sentido o esforço.
Na hora do almoço, eles se sentaram na mesa mais afastada do refeitório. Stiles não conseguia comer. O cheiro da comida processada o enjoava.
— Stiles, a gente precisa falar com alguém — Scott disse em voz baixa. — E se for raiva?
— Se for raiva, eu já teria espumado pela boca. Isso é diferente. — Stiles olhou ao redor, seus olhos parando em uma figura que entrava no refeitório.
Era Derek Hale. O cara cuja família tinha morrido no incêndio da mansão anos atrás. Ele parecia deslocado, perigoso e, por algum motivo, Stiles sentiu uma conexão estranha, como se o ar entre eles estivesse eletrizado. Derek o encarou por um momento longo demais antes de virar as costas e sair.
— Aquele cara — Stiles apontou com a cabeça. — Ele sabe de algo.
— O Derek Hale? Stiles, ele é um suspeito! Meu pai disse que ele está sendo investigado pelo corpo na floresta.
— Exatamente — Stiles disse, levantando-se. — Se ele está envolvido com corpos cortados ao meio e lobos gigantes, ele é a minha melhor aposta.
Depois da aula, Stiles não esperou por Scott. Ele sentia uma necessidade urgente de estar na floresta, no lugar onde tudo tinha mudado. Ele dirigiu o Jeep até a entrada da reserva e começou a caminhar. A dor em seu flanco tinha sido substituída por uma força vibrante.
Ele começou a correr. Não era uma corrida comum. Seus pés mal tocavam o chão, e as árvores passavam por ele como borrões verdes e marrons. Ele se sentia leve, poderoso, como se pudesse saltar sobre as copas das árvores.
Ele parou em uma clareira, ofegante, mas não cansado. O sol estava começando a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo.
— Você não deveria estar aqui — uma voz profunda disse atrás dele.
Stiles girou, as unhas cravando-se involuntariamente na palma das mãos. Derek Hale estava parado ali, as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, observando-o com uma mistura de pena e severidade.
— O que você fez comigo? — Stiles exigiu, a voz tremendo. — O que era aquela coisa?
— Eu não fiz nada — Derek respondeu, aproximando-se lentamente. — Mas o que te mordeu... isso é um problema. Para você e para todos nesta cidade.
— Me diz o que eu sou, Derek. Agora. Antes que eu perca a cabeça e tente morder você também.
Derek soltou um riso seco, sem humor.
— Você acha que isso é uma piada? Você não tem ideia do que está vindo. A mordida é um presente para alguns, uma maldição para outros.
— Eu não pedi presente nenhum! Eu só queria encontrar metade de um cadáver! — Stiles gritou, e dessa vez, ele sentiu a mudança.
Sua visão escureceu nas bordas, tornando-se mais nítida no centro. Seus caninos cresceram, pressionando o lábio inferior, e suas mãos arderam quando garras curtas e afiadas romperam a ponta dos dedos.
Derek não recuou. Pelo contrário, seus próprios olhos brilharam em um azul gélido.
— Controle-se, Stiles. O pânico é o que mata você. A raiva é o que te transforma, mas a vontade é o que te mantém humano.
Stiles caiu de joelhos, lutando contra a sensação de que algo dentro dele queria rasgar sua pele e sair.
— Dói — ele arquejou.
— Vai doer muito mais — Derek disse, ficando ao lado dele. — A lua cheia é amanhã. E se você não aprender a se controlar, você vai matar o seu melhor amigo, ou o seu pai, ou a si mesmo.
Stiles olhou para cima, suas íris brilhando em um dourado vibrante, a cor da chama e da curiosidade perigosa.
— Eu não sou o Scott, Derek. Eu não sou o herói atlético que aceita as coisas com calma. Eu sou o cara que entra em colapso se o café estiver frio. Como eu vou sobreviver a isso?
Derek olhou para o horizonte, onde a primeira estrela começava a brilhar.
— Você é inteligente, Stiles. Mais do que a maioria dos lobos que eu conheci. Use isso. Porque o Alfa que te mordeu não vai parar até ter você na matilha dele. Ou morto.
Stiles se levantou, as garras retraindo-se lentamente, mas a força ainda pulsando em suas veias. Ele olhou para as próprias mãos, percebendo que o garoto sarcástico e frágil que ele costumava ser tinha ficado para trás, em algum lugar entre as sombras da noite anterior.
— Uma matilha? — Stiles limpou o suor da testa, o sarcasmo retornando como um mecanismo de defesa. — Ótimo. Eu sempre quis fazer parte de um clube. Só espero que o uniforme não seja de couro.
Derek apenas o encarou, sério.
— Tente não morrer até amanhã, Stiles.
— Vou colocar isso na minha agenda — Stiles murmurou, observando Derek desaparecer na mata.
Ele caminhou de volta para o Jeep, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ele era Stiles Stilinski, o humano hiperativo com planos mirabolantes. Mas agora, ele era algo mais. E enquanto olhava para a lua que subia no céu, ele soube que Beacon Hills nunca mais seria a mesma. E nem ele.
Ao entrar no carro, ele pegou o celular. Havia dez chamadas perdidas de Scott.
— Ei, Scott — Stiles disse quando o amigo atendeu no primeiro toque.
— Stiles! Onde você está? Eu fui na sua casa e seu pai disse que você não tinha voltado.
— Eu estou bem. Ou quase isso. — Stiles ligou o motor, o som do metal parecendo mais alto do que nunca. — Escuta, a gente tem um problema. Um problema de lobisomem.
— O quê? Do que você está falando?
— Amanhã é lua cheia, Scott. E eu acho que vou precisar que você me acorrente no radiador do meu quarto.
— Stiles, você está me assustando.
— Bem-vindo ao clube, amigo — Stiles suspirou, acelerando pela estrada deserta. — Bem-vindo ao clube.
