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Fandom: Harry Potter

Criado: 24/10/2026

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Entre Tintas, Capas e o Impossível

O cheiro de papel antigo e baunilha sempre fora o refúgio favorito de Diana Gallagher. Naquela tarde chuvosa em Londres, a pequena livraria de usados no Soho parecia o único lugar no mundo onde a realidade fazia sentido. Diana ajeitou os óculos, afastando uma mecha rebelde de seu cabelo ruivo que insistia em cair sobre os olhos, e deslizou os dedos pelas lombadas gastas da seção de ficção fantástica.

Ela parou diante da prateleira dedicada à saga que definira sua adolescência. Harry Potter. Diana sorriu, lembrando-se das noites em claro lendo sobre o Menino que Sobreviveu. Para o resto do mundo, era apenas uma história fenomenal de J.K. Rowling. Para Diana, era um escape necessário da monotonia de sua vida como restauradora de livros.

— Vejamos se encontro aquela edição de colecionador de O Enigma do Príncipe — murmurou ela para si mesma, sua voz carregada com o sarcasmo habitual que usava mesmo quando estava sozinha. — Porque, claramente, eu não tenho contas o suficiente para pagar.

Ela puxou um volume de capa verde esmeralda que parecia deslocado. Não tinha título na lombada. Ao abrir a primeira página, uma luz prateada e ofuscante emanou das folhas, tão intensa que Diana sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O cheiro de baunilha foi substituído por grama cortada, pergaminho e algo metálico, como o ar antes de uma tempestade.

Quando a visão de Diana clareou, ela não estava mais no Soho.

Ela estava em um corredor de pedra fria, iluminado por tochas que crepitavam nas paredes. O teto era tão alto que se perdia nas sombras. Diana piscou, o coração martelando contra as costelas.

— Mas que diabos de alucinógeno tinha naquela tinta? — exclamou ela, a voz ecoando pelas paredes de pedra.

— Quem está aí? E o que faz fora da cama a esta hora?

Diana deu um pulo, virando-se rapidamente. A figura que caminhava em sua direção parecia ter saído diretamente de um de seus sonhos febris — ou de um pôster de cinema.

Ele era alto, com uma postura aristocrática e rígida. O uniforme preto era impecável, adornado com um brasão que ela reconheceria em qualquer lugar: uma serpente de prata em fundo verde. Mas era o rosto que a paralisava. Os cabelos eram de um loiro tão claro que pareciam brancos sob a luz das tochas, e os olhos cinzentos brilhavam com uma mistura de irritação e desconfiança.

Diana sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ela conhecia aquele rosto. Ela tinha lido descrições minuciosas sobre ele. Ela tinha visto ilustrações de fãs e atores interpretando-o.

— Draco Malfoy? — sussurrou ela, incrédula.

O rapaz franziu a testa, dando um passo à frente. A varinha em sua mão estava erguida, a ponta brilhando levemente.

— É claro que sou eu, sua idiota sangue-ruim — rebateu ele, a voz arrastada e carregada de desdém. — Quem mais seria? E como você sabe meu nome? Você não é de Hogwarts. Eu conheço cada rosto nesta escola, e certamente me lembraria de uma ruiva com roupas tão... deploráveis.

Diana olhou para seu próprio jeans rasgado e para a camiseta com a estampa de uma banda de rock. Depois, voltou a olhar para o bruxo à sua frente. O sarcasmo, seu mecanismo de defesa favorito, assumiu o controle antes que o pânico pudesse se estabelecer.

— Deploráveis? — Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha ruiva. — Escuta aqui, Doninha, eu levei vinte minutos para escolher essa combinação "despojada". E, para sua informação, você não deveria existir. Você é tinta e papel. Um personagem literário. Um vilão incompreendido com problemas paternos.

Draco estreitou os olhos, a expressão de confusão sendo rapidamente substituída por uma fúria contida.

— Personagem? Vilão? — Ele deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal dela. — Eu não sei de qual hospício trouxa você escapou, mas aconselho que feche a boca antes que eu a enfeitiçe. Onde está sua varinha?

— Eu não tenho uma varinha, eu tenho um cartão de biblioteca e um spray de pimenta — respondeu Diana, mantendo o olhar firme. — E se você der mais um passo, eu vou descobrir se o seu nariz é tão sensível quanto a sua reputação sugere.

Draco parou, genuinamente surpreso. Ninguém, exceto talvez Potter ou Granger, falava com ele daquela maneira. E mesmo eles tinham um certo receio da influência de sua família. Essa garota, no entanto, olhava para ele como se ele fosse uma curiosidade em uma prateleira, e não uma ameaça.

— Você é louca — sentenciou ele, abaixando levemente a varinha, embora ainda mantivesse a guarda alta. — Como entrou nos terrenos de Hogwarts? As proteções deveriam ter fritado alguém como você.

— Eu abri um livro — explicou ela, gesticulando dramaticamente. — Um livro verde, sem título. E agora estou aqui, discutindo moda com um desenho animado que ganhou vida.

Draco bufou, passando a mão pelo cabelo loiro perfeitamente alinhado.

— Eu não sou um desenho animado. Sou Draco Lucius Malfoy, herdeiro da mais nobre casa dos Malfoy. E você é... uma intrusa irritante.

— Diana. Diana Gallagher — corrigiu ela. — E se você for mesmo o Draco, onde está o seu bando? Onde estão o Crabbe e o Goyle para rirem das suas piadas sem graça?

Draco estancou. O nome de seus "amigos" parecia ter atingido um ponto sensível. Ele olhou em volta, certificando-se de que o corredor estava vazio, e sua expressão suavizou-se por apenas um milésimo de segundo antes de endurecer novamente.

— Eles estão na comunal. E eu não preciso de babás — disse ele, embora o tom fosse menos agressivo. — Siga-me. Vou levá-la até o Diretor. Snape saberá o que fazer com uma lunática como você.

— Snape? — Diana sentiu um aperto no peito. — Ele está vivo?

Draco parou e olhou para ela como se ela tivesse duas cabeças.

— Por que ele não estaria? Ele é o Diretor de Hogwarts agora. E se você valoriza a sua vida, não faria perguntas tão estúpidas na frente dele.

Diana engoliu em seco. Diretor Snape. Isso significava que ela estava na linha do tempo do sétimo livro, ou algo próximo disso. Onde as coisas eram sombrias e perigosas.

— Escuta, Draco — disse ela, usando o primeiro nome dele de propósito para ver a reação dele. Ele estremeceu levemente. — Eu sei que você acha que eu sou louca. Mas na minha realidade, no meu mundo... você é famoso. Existem milhares de pessoas que te amam, que escrevem histórias sobre você, que discutem se você merecia ou não uma redenção.

Draco riu, um som seco e sem humor.

— Pessoas que me amam? Garota, o mundo está em guerra. Metade da população bruxa me quer morto porque sou um Comensal da Morte, e a outra metade me despreza porque não sou "cruel" o suficiente. Eu não sou um herói de histórias.

— Eu não disse que você era um herói — retrucou Diana, aproximando-se dele. — Eu disse que você é famoso. E no meu mundo, você não tem escolha. Aqui, você parece ter.

Eles ficaram em silêncio por um momento, as chamas das tochas dançando nos olhos cinzentos dele. Pela primeira vez, Draco não parecia o garoto arrogante das páginas; ele parecia exausto. Havia olheiras profundas sob seus olhos e uma tensão em seus ombros que nenhum adolescente deveria carregar.

— Você fala demais — resmungou ele, virando as costas para começar a andar pelo corredor. — Venha logo, Gallagher. Se Filch nos pegar, nem mesmo suas histórias fantásticas vão te salvar de um castigo.

Diana o seguiu, observando o balanço da capa verde e preta dele.

— Você gosta muito de verde, não é? — perguntou ela, a ironia voltando à sua voz. — Combina com a sua palidez. Dá um ar de "eu passo muito tempo em masmorras e preciso de vitamina D".

Draco parou bruscamente, fazendo Diana quase colidir com suas costas. Ele se virou, o rosto a centímetros do dela.

— Você é a criatura mais irritante que já cruzou este castelo — sibilou ele, mas não havia ódio real em suas palavras. Havia uma curiosidade relutante. — E o verde é a cor da ambição e do poder. Algo que você, claramente, não entende.

— Eu entendo de livros, Malfoy — respondeu ela, sorrindo desafiadoramente. — E em todos os livros que li, o vilão só é vilão até alguém decidir ler a história pelo ponto de vista dele.

Draco abriu a boca para retrucar, mas as palavras pareceram morrer em sua garganta. Ele a encarou por um longo tempo, o silêncio do castelo pesando entre eles.

— O que acontece no final? — perguntou ele, a voz tão baixa que era quase um sussurro. — No seu livro... o que acontece comigo?

Diana hesitou. Ela sabia sobre a Batalha de Hogwarts, sobre o incêndio na Sala Precisa, sobre a fuga covarde e a vida posterior cercada de julgamentos. Mas ela olhou para o garoto à sua frente — o garoto real, que cheirava a hortelã e medo — e percebeu que aquela história ainda não estava escrita para ele.

— O final ainda não foi escrito, Draco — mentiu ela suavemente. — Porque você não é um personagem agora. Você está aqui. E eu também.

Draco desviou o olhar, parecendo subitamente interessado em uma armadura próxima.

— Ótimo — disse ele, recuperando sua máscara de frieza. — Porque se o meu final dependesse de uma ruiva sarcástica que aparece do nada, eu preferiria me entregar ao Lorde das Trevas agora mesmo.

— Ah, qual é! — Diana riu, seguindo-o enquanto ele voltava a andar. — Eu seria uma ótima co-protagonista. Eu trago o humor, você traz o drama existencial e o gelo no cabelo.

— É pomada modeladora, sua ignorante — rosnou ele, mas Diana notou, com um pequeno salto de triunfo no coração, que os cantos da boca dele tremeram, quase formando um sorriso.

Eles continuaram pelo labirinto de pedra, uma restauradora de livros que sabia demais e um bruxo que sentia que não sabia nada. Em algum lugar entre as sombras de Hogwarts e as luzes de Londres, a realidade havia se dobrado, e Diana Gallagher decidiu que, se estava presa em seu livro favorito, ela faria questão de editar os capítulos mais sombrios de Draco Malfoy.

— Malfoy? — chamou ela, enquanto subiam uma escadaria que se movia.

— O que é agora, Gallagher?

— O verde realmente combina com você. Mas talvez você devesse tentar um pouco de amarelo de vez em quando. Só para irritar o seu pai.

Draco parou, olhou para ela com puro horror e depois soltou uma risada curta e genuína.

— Amarelo? Você quer que eu pareça um girassol gigante? Definitivamente, você é louca.

— E você é bravinho — retrucou ela, piscando para ele. — Vamos logo, o Diretor Morcegão está esperando.

Enquanto caminhavam, Diana percebeu que o livro que a trouxera ali não era apenas uma história de magia. Era uma oportunidade. E Draco Malfoy, com todo o seu veneno e sua elegância, era o mistério mais fascinante que ela já tivera a chance de restaurar.

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