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Caos de Família, Rocinha, RJ 📍🔞

Fandom: Não tem

Criado: 24/10/2026

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O Dono do Alto

O calor do meio de janeiro no Rio de Janeiro não dava trégua nem no topo do morro, onde o vento que vinha do mar de São Conrado tentava, em vão, refrescar a laje envidraçada do casarão. No quarto principal da mansão, no entanto, o clima era mantido rigorosamente fresco pelo ar-condicionado central. As paredes grossas contavam com isolamento acústico de ponta — uma exigência antiga de Guilherme, tanto por segurança quanto pela privacidade inegociável de poder foder a mulher sem se preocupar se os filhos ou os seguranças na contenção estavam ouvindo qualquer gemido.

Guilherme acordou antes do despertador natural do morro. Com o braço pesado e tatuado descansando sobre a cintura nua de Letícia, ele ficou observando as feições serenas da esposa. Mesmo aos trinta e sete anos e após três gestações, ela continuava a mesma garota que o deixava desnorteado quando eles mal tinham trocado o primeiro beijo na adolescência. O corpo curvilíneo estava colado ao dele, a respiração calma batendo contra seu peito largo.

Ele roçou o queixo rascante da barba fechada no ombro alvo de Letícia, arrancando dela um resmungo manhoso.

— Já vai começar a me azucrinar tão cedo, meu rabugento? — murmurou Letícia, sem abrir os olhos escuros, virando a cabeça na direção dele com um sorriso preguiçoso.

— Oito horas já, coração — a voz de Guilherme saiu rouca, grave, vibrando contra o lençol de fios egípcios. Ele distribuiu beijos estalados pelo pescoço dela, apertando sua cintura. — Bom dia pra mulher mais gostosa dessa Rocinha inteira.

Letícia virou o corpo macio nos braços do marido, enterrando as mãos no peito malhado e tatuado de Gui, sentindo as cicatrizes antigas e o calor da pele morena.

— Bom dia, meu amor. — Ela ergueu o rosto, recebendo a boca dele em um beijo lento, possessivo e cheio de intimidade construída em duas décadas de parceria. — Como tá o morro hoje? Rick te ligou?

— Tá tudo na paz, preta. Os moleques seguraram a madrugada sem nenhuma novidade. Daqui a pouco o Ricardo cola aí com a Ster pra gente descer no campinho. — Guilherme mordeu de leve o lábio inferior dela, a mão descendo com firmeza pela coxa redonda, quase possessiva. — Mas antes de pensar em rua, a gente podia aproveitar que essa porta tá trancada...

Letícia soltou uma risada baixa, provocadora, e puxou o rosto dele para outro beijo antes que ele pudesse terminar a frase.

— Você não tem jeito, Guilherme.

Enquanto isso, no corredor do andar superior, o silêncio já havia sido quebrado. O quarto de Kaelton tinha a porta apenas encostada. O rapaz de dezoito anos estava jogado na cama king size vestindo apenas um short largo de basquete preto, com a pequena Luna deitada sobre seu peito largo. A menina de sete meses, gordinha e de olhinhos verdes idênticos aos do pai e dos irmãos, chupava a ponta da própria mãozinha, vidrada no rosto sério de Kael.

Kaelton passava o dedão com delicadeza incomum na bochecha rosada da irmã, ignorando o desenho animado que passava sem som na televisão de setenta polegadas presa à parede. Ele tinha ido até o berço no quarto dela por volta das seis da manhã, quando a menina começou a resmungar, trazendo-a para o seu quarto como fazia quase todas as semanas. Não gostava da ideia de deixar a irmãzinha sozinha muito tempo, e tinha um ciúme doentio de qualquer pessoa que não fosse da família pegando a garota no colo.

A porta foi empurrada sem cerimônia com o pé. Bernardo entrou no quarto, já vestido com um short d’água florido, descalço, com o cabelo castanho bagunçado e um sorriso largo no rosto.

— Qual foi, manin? Sabia que a gordinha tava aqui — soltou Bê, encostando no batente e cruzando os braços grossos. — Mãe já já vai surtar achando que a garota sumiu, tu é foda.

— Ela tava choramingando lá, pô. Ia acordar a coroa à toa — retrucou Kael, sem tirar os olhos da bebê, a voz naturalmente grossa e seca. — Nem vem fazer estardalhaço perto dela não, Bernardo.

— Deixa de ser marrento, caralho. — Bernardo deu dois passos largos, se inclinou sobre a cama e fez um barulho com a boca, chamando a atenção de Luna.

A menina imediatamente arregalou os olhos verdes, soltou o dedo da boca e abriu um sorriso banguela, batendo as perninhas gordinhas. Bê a puxou com cuidado dos braços de Kael, ignorando o olhar torto do irmão.

— Coisa linda do irmão, vem cá! — Bernardo ergueu Luna no alto, jogando-a levemente para cima e pegando de volta com precisão. A bebê soltou uma gargalhada alta e gostosa, balançando os bracinhos curtos no ar. — Eita porra, tá pesada, hein? Tá comendo reboco de parede, Luninha?

— Cuidado com ela, Bernardo, caralho — Kael se sentou de supetão na beira da cama, fechando a cara. — Para de sacudir a menina desse jeito, ela acabou de acordar.

— Ih, relaxa, manin, ela se amarra! Né não, minha princesa? — Bernardo deu um beijo barulhento na bochecha rechonchuda da garota, que ria sem parar. Quando tentou colocá-la sentada no colchão, porém, Luna fez bico e esticou os dois bracinhos na direção do peito de Kael, já querendo manhosear.

Kael pegou a irmã de volta no mesmo segundo, ajeitando-a no colo protetor. A menina enterrou a cabecinha na curva do pescoço dele, agarrando a corrente grossa de prata que ele usava.

— Falei pra tu. Grude do caralho — disse Kael, com um meio sorriso raro surgindo no canto dos lábios.

— Folgada igualzinha à mãe — zombou Bê, rindo. — Bora descer, manin. O tio Rick já tá buzinando lá embaixo com a tia Ster. O pai mandou avisar que hoje tem pelada dos crias lá na curva do S.

— Só vou botar uma bermuda decente e descer com ela.

Meia hora depois, a varanda principal do casarão parecia uma feira animada. A vista da Rocinha daquele ponto era cinematográfica: as centenas de casas descendo em cascata pela encosta até encontrar a pista de São Conrado e o azul profundo do oceano Atlântico. O cheiro de café passado fresco e pão na chapa se misturava com o cheiro da maresia que subia com a brisa matinal.

Na mesa farta da varanda, Ricardo, o Caveira, já estava sentado com uma caneca na mão. Moreno, com o olhar atento de quem passou a vida toda cuidando do movimento ao lado de Guilherme, Rick vestia regata preta e bermuda cargo. Ao lado dele, Stefanne conversava animadamente com Letícia sobre a formatura dos gêmeos no colégio particular em São Conrado, onde os dois cursavam o terceiro ano.

— Se esses dois tirarem nota baixa no último bimestre, eu juro por Deus que capo os dois — dizia Ster, gesticulando com a xícara na mão. Ela era bonita, expansiva e a madrinha mais coruja do mundo. — Guilherme passa pano demais pra eles.

— Passa porra nenhuma — Guilherme rebateu, saindo da cozinha com uma garrafa de suco e colocando na mesa. Ele estava de short preto da Oakley, sem camisa, exibindo as tatuagens no peito e o cavanhaque alinhado na régua. — Se vacilarem na escola, ficam sem carro e sem as motos por três meses. Papo reto.

— Mentira pura, vida — Letícia riu, ajeitando o macaquinho estampado de alcinha. — No primeiro dia que eles pedirem, você já libera as chaves. Tu é mole com eles.

— Sou nada, preta. Respeito aqui é lei.

Os gêmeos apareceram na varanda nesse momento. Kael trazia Luna no colo, com a menina usando apenas uma fralda decorada e um lacinho vermelho nos pouquíssimos cabelos pretos.

— Bom dia pra quem é de bom dia — soltou Bê, indo direto na fruteira e pegando uma maçã. Cumprimentou Rick com um toque de mãos e um abraço de lado. — E aí, padrinho? Preparado pra levar caneta hoje no terrão?

— Caneta de quem, moleque? Tu não aguenta dez minutos de correria no sol quente sem pedir arrego — retrucou Ricardo, rindo com o deboche natural de carioca. — Respeita teus tios, ô comédia.

Letícia se levantou e foi até Kael, estendendo os braços para pegar a filha.

— Dá aqui essa gordinha, Kaelton. Ela já mamou?

— Ainda não, mãe. Acordou faz pouco tempo — Kael entregou a bebê para Letícia com relutância. Luna fez um choramingo curto ao se afastar do irmão, mas se aninhou rápido no peito da mãe quando sentiu o cheiro doce de Letícia. — Ela tomou só um gole de água.

— Vem cá, minha vida — Letícia beijou a testa de Luna, sentando-se novamente ao lado de Ster, que já começou a fazer cócegas no pezinho da afilhada.

— Coisa mais gostosa dessa casa — Ster se derreteu, olhando para a comadre. — Amiga, hoje ela tá a cara do Guilherme cuspida e escarrada. Deus me livre, esse teu marido tem o esperma forte demais, nenhum puxou teus olhos.

— Graças a Deus, né? Minha genética é de patrão — Guilherme se gabou, arrancando um tapa no braço vindo de Letícia e risadas de Ricardo.

— Otário — murmurou Letícia, segurando o riso enquanto dava uma mamadeira morna para a pequena.

Depois do café demorado, a movimentação começou para descerem até o campinho. A caminhada pelas vielas da parte alta era uma rotina que Guilherme não abandonava nos fins de semana. Ele gostava de circular, de ver como estavam as obras comunitárias, conversar com os moradores antigos e garantir que a disciplina no morro continuasse impecável.

Desceram a pé pelas ladeiras de paralelepípedo. O sol das onze da manhã já castigava o asfalto. Pelas calçadas estreitas, o pagode tocava alto nas caixas de som das biroscas; o cheiro de churrasquinho na brasa e peixe frito preenchia o ar típico de comunidade carioca. Meninos passavam empinando pipa com linha chilena, desviando das motos que subiam em velocidade moderada. Ao verem o bonde descendo — Guilherme imponente na frente, com Rick ao seu lado, e os gêmeos logo atrás trocando socos de brincadeira —, todos abriam espaço com respeito imediato.

— Salve, Patrão! Bom dia, dona Letícia! — gritou um senhor de cabelos brancos na porta de uma mercearia, levantando a mão.

— Bom dia, Seu Jorge. Tudo em ordem lá com o encanamento da rua três? — Guilherme parou um segundo, apertando a mão do comerciante com firmeza.

— Tudo resolvido, Gui. Os moleques vieram ontem e acertaram o cano. Ficou zero bala!

— Se der ruim de novo, avisa o Caveira aqui. Valeu, seu Jorge, fica com Deus.

Mais abaixo, um grupo de garotas da idade dos gêmeos estava sentado na mureta de uma laje, usando shorts curtos e tops de crochê, rindo alto. Quando Bernardo e Kael passaram, as meninas cochicharam entre si, lançando olhares explícitos e cheios de malícia para os dois.

Bernardo piscou em direção a uma morena de tranças, dando aquele sorrisinho de lado que deixava qualquer uma sem ar.

— Ih, qual foi, Bê? Tá solteiro agora, é? — a menina gritou da mureta, rindo.

— Sempre no corre, gatinha — Bernardo respondeu rápido, sem parar o passo. — Mais tarde eu passo por aí pra gente trocar um papo reto.

Kael nem sequer olhou para o lado. Mantinha as mãos nos bolsos do short, com a cara fechada e o passo firme, alheio aos gracejos das garotas. O foco dele era a pelada e a segurança da família. Bernardo deu uma cotovelada na costela do irmão.

— Larga de ser chato, manin. A mina de trança tava te secando legal, pô.

— Tá moscando, Bernardo. Não quero arrumar dor de cabeça com mina do morro não. Se quiser, pega pra tu — Kael deu de ombros, indiferente. Os dois eram conhecidos por passar o rodo nas festas em São Conrado e nos camarotes da Barra, mas nenhum deles dava moral para romance. Mulher para eles era diversão de uma noite só; a lealdade ficava estritamente restrita entre eles.

— Tu é foda, coração de gelo do caralho — Bê riu alto.

Chegaram ao campinho de grama sintética reformado recentemente no miolo da comunidade. O alambrado estava cheio de moleques esperando a vez de jogar. Uma tenda de lona azul dava sombra para alguns bancos de plástico, onde Letícia, Stefanne e a pequena Luna se acomodaram para assistir. Rick tirou a regata, jogando para o lado, enquanto Guilherme fazia o mesmo. Os corpos dos homens mais velhos, embora imponentes e cheios de cicatrizes de guerra antiga, mostravam que ainda davam trabalho a qualquer novato.

— Vai dividir os times como, Gui? — perguntou Dudu, um dos soldados de confiança da boca da curva, que já estava com a bola debaixo do braço.

— Velha guarda contra os novinhos — Guilherme decretou, ajeitando o short e entrando na quadra descalço mesmo. — Eu, Rick, Dudu, Baiano e Neguinho contra Bernardo, Kaelton e os amigos deles da pista. Quem perder paga o engradado de cerveja e a carne do churrasco.

— Já vai preparando o bolso, velho — Bernardo provocou, pulando para dentro da linha e começando a bater embaixadinha de forma habilidosa. — Hoje tu não acha nada na minha zaga.

— Cala a boca e joga bola, moleque — Guilherme rosnou, mas os olhos verdes brilhavam com a rivalidade boa de pai e filho.

O jogo começou no ritmo frenético que só o futebol de favela tinha: sem falta boba, disputas de corpo pesadas, muita gíria voando e zoeira a cada drible desconcertante. Kael jogava sério, como volante de contenção; dividia bola firme até mesmo contra o pai, que não aliviava o tranco. Em um lance na linha de fundo, Kael deu um carrinho preciso, roubando a bola de Guilherme e lançando rasteiro para Bernardo na ponta esquerda.

— Vai que é tua, manin! — berrou Kael, levantando rápido do chão sintético.

Bernardo dominou na ponta da chuteira velha, deu um elástico seco no lateral adversário e soltou uma bomba no ângulo do goleiro improvisado, fazendo o alambrado tremer.

— Gol, porra! — Bernardo correu tirando onda, apontando para o pai e mandando beijinho. — Aprende como é que faz, Magnata! O morro é nosso agora!

Na beira do campo, a galera estourou na risada. Letícia bateu palmas rindo enquanto Luna balançava os bracinhos ao ver o irmão fazendo palhaçada.

— Tu viu isso, coração? — Guilherme gritou da quadra para Letícia, fingindo irritação enquanto limpava o suor da testa. — Esse moleque tá merecendo levar uma coça no vestiário!

— Joga bola e para de reclamar, amor! O Bernardo tá jogando melhor que você hoje! — Letícia devolveu a provocação, fazendo Ster gargalhar alto ao seu lado.

— Mulher do lado do inimigo é foda... — Rick resmungou, dando um tapa na nuca de Gui. — Bora virar essa porra logo, patrão, senão os moleques vão alugar nossa cabeça a semana toda.

A partida durou mais de uma hora sob o sol escaldante do Rio. No final, a experiência de Guilherme e Ricardo prevaleceu, fechando o placar em sete a cinco com dois gols de cavadinha de Guilherme sobre Bernardo só para tripudiar. A zoação comeu solta enquanto todos sentavam na mureta do campo tomando água de coco gelada e refrigerante.

Kael sentou-se direto no chão de cimento ao lado da mãe, pegando Luna do colo dela e colocando a bebê sobre suas pernas cansadas. A menina imediatamente agarrou sua mão suada, soltando gritinhos alegres.

— Tá fedendo a suor, moleque — Letícia brincou, passando a mão nos cabelos úmidos do primogênito.

— Ela não liga não, mãe. Né, Luninha? — Kael beijou a mãozinha gorda da irmã, que riu dengosa, querendo morder os nós dos dedos dele.

Guilherme se aproximou com duas garrafas de cerveja abertas, entregando uma para Ricardo. O chefe do morro estava com o peito largo coberto por uma fina camada de suor, a respiração já controlada. Ele se encostou no banco de plástico atrás de Letícia, passando o braço pesado pelos ombros da mulher e deixando um beijo molhado em sua têmpora.

— Jogou bem, coração? — ela perguntou, com carinho evidente no olhar escuro.

— Dei aula pros teus filhos, como sempre — ele respondeu, rouco e orgulhoso. Olhou ao redor: o morro pulsando vida, a segurança garantida, a família unida e o sol do Rio de Janeiro começando a cair dourado sobre as lajes da Rocinha. — Mais tarde vamos descer pro quiosque ou vamos acender a churrasqueira lá em cima?

— Churrasco em casa, Gui — disse Rick, se aproximando com Ster abraçada de lado em sua cintura. — Chama os crias da contenção, bota aquele pagode antigo na caixa e deixa o couro comer até a madrugada.

— Fechou então — Guilherme concordou, descendo o olhar verde e penetrante para Letícia, com um sorriso sacana surgindo sob o bigode bem aparado. — Mas quando a noite terminar, preta... tu não me escapa. Aquela acústica do quarto vai ter que trabalhar dobrado hoje.

Letícia mordeu o lábio, sentindo o calor característico subir pelo corpo, ciente de que Guilherme nunca fazia ameaças vazias.

— Vamos ver quem vai pedir arrego primeiro, meu amor — ela sussurrou de volta, enquanto os gêmeos, distraídos com a irmã no chão, nem prestavam atenção no flerte dos pais, prontos para subir de volta ao casarão e dominar mais uma noite de sábado no alto da favela.

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