
Oliver x ∆lice!
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 24/10/2026
Sussurros em Fita Magnética
A tarde no quarto de Oliver cheirava a uma mistura bizarra de cera de vela, grafite apontado e essência artificial de lavanda. Sentado no chão de madeira clara, com as pernas esticadas e as costas apoiadas contra a lateral da cama, o garoto mastigava com visível prazer uma barra retangular de sabonete azul. O estalo seco a cada mordida parecia o de uma maçã fresca, liberando bolhas minúsculas pelos cantos de sua boca sorridente.
Ele tinha acabado de se despedir de Zip e Edward após mais uma tarde de pegadinhas caóticas pelos corredores da escola de papel. Os três haviam passado horas colando réguas no teto e escondendo os cadernos dos alunos mais ingênuos, mas agora que estava sozinho em sua casa qualquer, o silêncio começava a incomodar seu espírito inquieto. Oliver ajeitou a mecha volumosa e arrepiada no topo de sua cabeça, sentindo o peso suave do rabo de cavalo baixo que descia em cascata branca até a altura de seus tornozelos, preso por um laço preto bem ajustado. Ao lado direito da franja, a marca carmesim no formato de um "A+" brilhava sob a fraca luz da lâmpada do teto.
Com a ponta afiada de seu braço esquerdo — que há muito tempo havia sido substituído por um lápis gigante de madeira tratada —, ele cutucou uma caixa de papelão empoeirada debaixo de uma cômoda.
— O que temos aqui? — murmurou Oliver para si mesmo, engolindo o pedaço espumoso de sabão.
A ponta de grafite engatou em algo sólido e plano. Ele puxou o objeto: era uma fita VHS preta, sem rótulo, riscada pelo tempo e coberta por uma fina camada de fuligem escura que parecia não pertencer àquele quarto. Oliver arqueou as sobrancelhas acima de seus olhos amendoados e tocou os próprios chifres pretos, pensativo. Aquilo parecia saído diretamente de um sótão esquecido ou de uma daquelas piadas ruins que Edward tentava inventar.
— Uma fita cassete velha? Sério mesmo? Quem ainda usa isso além de museus empoeirados? — Ele riu sozinho, achando a descoberta uma tremenda bobeira.
Mesmo assim, o tédio era um inimigo formidável. Levantando-se num salto elástico, com as botas pretas estalando no piso e a bermuda branca balançando levemente, ele caminhou até uma televisão de tubo antiga que descansava sobre um móvel de compensado. O aparelho pertencia a uma época em que televisores tinham telas de vidro abauladas e carcaças pesadas de plástico cinza.
Oliver empurrou a fita pela fenda do videocassete acoplado. O aparelho emitiu um gemido mecânico, engolindo o plástico preto com engrenagens barulhentas. Ele apertou o botão de ligar.
A tela acendeu imediatamente, mas não havia imagem. Uma parede de estática ruidosa — o clássico chiado de "chuvisco" cinza e preto — preencheu o quarto, banhando o tecido escuro de sua camisa de gola listrada e suas meias brancas com reflexos bruxuleantes e frios. O som áspero do canal fora do ar parecia pulsar no mesmo ritmo dos batimentos cardíacos do garoto.
Oliver tombou a cabeça para o lado, esperando um comercial antigo ou talvez uma gravação caseira de Zip caindo de patins.
— Vamos lá, lata-velha, mostre alguma coisa divertida — disse ele, dando uma leve batidinha na lateral da carcaça plástica com o grafite do braço de lápis.
Como se respondesse ao comando, a estática falhou abruptamente. O ruído branco foi engolido por um vácuo absoluto de som.
A imagem se estabilizou em tons desbotados e decadentes de sépia e preto e branco. Na tela, revelou-se um cenário desolado: uma clareira pantanosa cercada por uma névoa espessa, no centro da qual repousava a borda circular de um poço de pedras antigas, carcomidas pelo tempo e cobertas de musgo negro. A atmosfera era pesada, quase viscosa, como um pesadelo gravado em fita magnética.
Oliver semicerrou os olhos.
— Um poço? Que clichê mais barato...
Foi quando a água escura no fundo daquele poço pareceu tremer.
Duas mãos pálidas, de dedos longos e unhas afiadas como navalhas, apoiaram-se na borda de pedra. Em seguida, uma figura ergueu-se lentamente das profundezas.
Oliver paralisou, mas o sorriso em seus lábios não se desfez; pelo contrário, alargou-se em puro reconhecimento.
Era ∆lice.
Sua namorada, a temida e fascinante princesa demônio que geralmente habitava os cantos mais escuros e proibidos dos aposentos sombrios, estava ali dentro daquela gravação estranha. Ela vestia um vestido branco simples, de tecido fino que caía suavemente pelas linhas de seu corpo, com mangas curtas que deixavam seus longos ombros expostos. Seus cabelos negros, densos como piche derretido, desciam retos e pesados até a altura dos joelhos, contrastando violentamente com a alvura de sua roupa.
A fita apresentava pequenas falhas horizontais, linhas de interferência que cortavam a figura de ∆lice em intervalos regulares. Ela permaneceu imóvel por um instante, com a cabeça baixa, as mechas escuras ocultando seu rosto.
Então, lentamente, com um movimento quase inumano e desconexo, ela levantou a fronte.
Oliver viu os olhos dela fixarem-se na lente da câmera imaginária. Não, não na câmera: diretamente nele. O olhar penetrante, tingido pela loucura e pelo afeto distorcido que ela reservava apenas para ele, atravessou a tela curva de vidro. A fita magnética não era uma barreira; era uma janela.
— Ora, ora... — Oliver murmurou em voz baixa, dando um passo à frente sem nenhum traço de medo. — Olha só quem resolveu aparecer na TV.
Dentro da gravação, os cantos dos lábios de ∆lice se curvaram em um sorriso silencioso e afiado, repleto de dentes pontiagudos. Ela ergueu uma das mãos esguias em direção à tela.
De repente, a imagem do poço desapareceu em um estouro de interferência distorcida, e a tela pareceu inflar para fora. O vidro da televisão chiou, estalando com faíscas azuis microscópicas. As pontas dos dedos negros e manchados de tinta de ∆lice tocaram a superfície interior do vidro, mas, em vez de baterem no obstáculo sólido, a superfície esticou-se como látex aquecido.
Com um sussurro gutural e borbulhante que reverberou por todo o quarto, a matéria escura que compunha a essência de ∆lice rasgou a fronteira da transmissão. A cabeça da garota projetou-se para fora do tubo de imagem, seguida por seus ombros alvos e pelos longos cabelos pretos que pingavam sombras viscosas no chão de madeira.
Ela não estava presa à ilusão; estava rastejando para fora da televisão.
Os braços dela pousaram no tapete com um som úmido. Com movimentos serpenteantes, arrastando o vestido branco contra o piso, a princesa demônio deslizou para fora do aparelho com uma agilidade espantosa. O tecido de sua vestimenta parecia flutuar como se ela ainda estivesse submersa nas profundezas do poço etéreo, mas o peso de sua presença preencheu o quarto inteiro, derrubando a temperatura a ponto de Oliver soltar uma baforada de ar condensado.
Ela rastejou até parar bem diante dos pés de Oliver, erguendo o rosto pontiagudo e o cabelo rebelde para encará-lo de baixo para cima. As marcas demoníacas em sua pele pulsavam em tons escuros de tinta fresca.
— Oliver... — A voz dela saiu em uma cadência dupla, um sussurro suave sobreposto a um eco cavernoso e monstruoso, arrepiando o ar ao redor.
— Você demorou — respondeu Oliver calmamente, com as mãos apoiadas na cintura e uma expressão divertida nos olhos. — Sabia que entrar pela tela da TV vai estragar o aparelho? Eu acabei de achar essa tralha.
∆lice soltou uma risadinha rouca, infantil e terrivelmente perigosa ao mesmo tempo. Ela se impulsionou do chão com força surpreendente, saltando como uma predadora graciosa e jogando os braços compridos ao redor do pescoço de Oliver. O impacto fez o garoto dar dois passos para trás, mas ele riu e a segurou com o braço direito, mantendo a ponta do braço de lápis apontada para longe para não rasgar o tecido branco da garota.
— Eu vi você me assistindo — sussurrou ela, afundando o rosto na curva do pescoço dele, aspirando o aroma doce de sabonete que ele exalava. — Achei que você nunca colocaria aquela fita velha para rodar. Eu estava esperando lá embaixo há tanto tempo...
— Eu achei que era só uma pegadinha boba do Edward — explicou Oliver, passando os dedos livres pelos longos cabelos negros dela, desembaraçando algumas mechas que pareciam feitas de fumaça sólida. — Mas admito que a encenação foi ótima. Aquele poço deu um toque bem dramático. Você andou assistindo àqueles filmes antigos de terror de novo?
— Talvez... — ∆lice recuou um pouco para encará-lo, seus olhos brilhando com um fulgor sobrenatural. Um sorriso largo e travesso cortou suas feições pálidas. — Eu estava entediada no meu quarto escuro. Não tem ninguém para despedaçar lá... e ninguém para me fazer rir.
— Bom, eu não recomendo tentar me despedaçar — avisou ele, batendo a ponta afiada do seu lápis contra a palma da mão dela em um gesto amigável. — Meu grafite dá azia.
∆lice deu outra gargalhada, um som que fez os vidros da janela vibrarem suavemente. Ela desceu os pés no chão, ainda segurando a camisa listrada dele, e olhou ao redor do quarto com curiosidade febril.
— Quero brincar, Oliver — exigiu ela, inclinando a cabeça em um ângulo exagerado, o cabelo balançando até quase tocar o chão. — Vamos brincar!
— Brincar de quê, sua maluca? De assustar as pessoas que passarem na calçada? Porque se for isso, eu topo na hora. A gente pode jogar baldes de espuma de sabão pela janela do segundo andar.
— Não lá fora — disse ∆lice, puxando-o pela manga com uma força que facilmente arrancaria uma porta de suas dobradiças, embora medisse o aperto com cuidado para não machucá-lo. — Aqui dentro. De esconde-esconde no escuro. Se eu te pegar... eu te mordo.
Oliver ergueu a sobrancelha esquerda, fingindo desdém, embora seus olhos ardessem com a mesma faísca de diversão perversa que os dela.
— E se eu te achar primeiro?
— Então eu deixo você desenhar o que quiser no meu vestido com esse seu braço pontudo — respondeu ela prontamente, com os dentes estalando no ar como pequenas garras de marfim.
— Fechado — disse Oliver sem hesitar.
Ele enfiou a mão direita no bolso da bermuda branca e tirou uma segunda barra de sabonete, desta vez de cor verde-menta, quebrando-a ao meio com os dentes. Ele estendeu a outra metade para a princesa demônio.
— Toma. Para dar energia antes do massacre.
∆lice encarou o pedaço de sabão verde com uma expressão indecifrável, pegou-o com as garras afiadas e colocou-o na boca sem pestanejar. Ela mastigou lentamente, fazendo uma careta estranha enquanto pequenas bolhas aromáticas começavam a brotar entre seus lábios negros.
— Tem gosto de limpeza demais — resmungou ela, cuspindo uma bolha reluzente que flutuou até o teto.
— É uma iguaria refinada, você não entende nada de gastronomia moderna — rebateu Oliver, rindo abertamente enquanto mastigava a sua própria porção.
Com um movimento rápido, ∆lice apagou a lâmpada do teto com um único gesto de sombra, mergulhando o quarto inteiro em uma escuridão quase impenetrável. Apenas a luz bruxuleante da televisão de tubo — que continuava ligada, exibindo o poço vazio agora abandonado — iluminava parcialmente os cantos das paredes.
— Dez segundos, Oliver — a voz de ∆lice ressoou de todas as direções ao mesmo tempo, ecoando do guarda-roupa, debaixo da cama e de trás das cortinas. — Um... dois... três...
Oliver engoliu o resto de seu lanche improvisado e girou nos calcanhares com um sorriso radiante no rosto. Ele correu para o canto mais sombrio atrás da porta, usando o longo rabo de cavalo branco para amortecer seus passos na madeira e preparando-se para o melhor jogo de gato e rato que uma tarde de sábado qualquer poderia oferecer. Afinal, para um garoto que comia sabonete e tinha um lápis no lugar do braço, namorar um demônio que saía de fitas VHS amaldiçoadas era apenas mais um dia perfeitamente normal.
