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Criado: 24/10/2026
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Tarde de Sol no Alto da Rocinha
O sol escaldante do início de tarde no Rio de Janeiro batia contra as janelas de vidro espelhado do casarão no topo da Rocinha. Do lado de dentro da suíte master, o silêncio era absoluto. O isolamento acústico pesado em todas as paredes dos quartos barrava qualquer barulho que viesse dos becos ou dos outros cômodos, criando uma bolha onde o tempo parecia passar mais devagar.
Guilherme puxou o ar lentamente, sentindo o perfume doce de Letícia impregnado no lençol de fios egípcios. Ele estava deitado de lado, sem camisa, a pele morena e marcada por dezenas de tatuagens destacando os músculos densos das costas e dos braços. Com um metro e noventa e três, o corpo pesado ocupava quase a cama inteira. Ao lado dele, Letícia ainda dormia de bruços, os cabelos castanhos e lisos espalhados pelo travesseiro, a curva suave da cintura descendo até o quadril largo coberto apenas pela barra curta de uma camisola de cetim.
Gui abriu os olhos verdes, admirando a mulher como fazia há mais de vinte anos. Passou a mão áspera e calejada pela pele macia da coxa dela, subindo até a lateral do quadril.
— Acorda, preta — murmurou ele, a voz rouca e preguiçosa vibrando rente ao ouvido dela. — Já passou do meio-dia, coração.
Letícia se mexeu com uma manha gostosa, virando o rosto na direção dele com os olhos escuros semicerrados.
— Hm... deixa eu dormir mais cinco minutos, amor.
— Nada disso — Gui deu um beijo estalado no ombro dela e desceu a boca pelo pescoço, mordiscando a pele clara. — Tu sabe que se eu começar a te beijar agora, a gente só sai dessa cama amanhã. E eu ainda tenho que descer pro miolo pra resolver uns bagulhos com o Rick.
Letícia sorriu, virando o corpo de frente para encarar o marido. O cavanhaque cerrado dele arranhou sua bochecha de um jeito bom.
— Sempre mandão, né, meu rabugento? — Ela levou a mão ao rosto dele, acariciando a barba aparada. — Você não muda nunca.
— Mudo porra nenhuma, Letícia. Pra tu, continuo o mesmo de sempre — respondeu ele, roubando um beijo demorado, apertando a bunda dela com posse antes de se afastar com um suspiro satisfeito. — Vou tomar uma ducha rápida. Cadê a garota? Não ouvi choro nem barulho hoje.
— O quarto dela tem isolamento, esqueceu? Mas eu já sei exatamente onde a Luna tá — disse Letícia, rindo baixinho enquanto se sentava na cama e amarrava o cabelo num coque frouxo. — Teu filho mais velho deve ter feito o resgate da madrugada de novo.
Guilherme balançou a cabeça em sinal de negação, mas soltou uma risada contida enquanto calçava uma bermuda preta de tecido tactel.
— Esse moleque não toma jeito. Folgado pra caralho.
Letícia calçou os chinelos, colocou um short jeans confortável e uma regata básica antes de sair pelo corredor refrigerado. Parou em frente à porta do quarto de Kaelton e girou a maçaneta sem fazer barulho. A cena que encontrou era exatamente a que imaginava: Kael dormia esparramado de barriga para cima, só de short cinza de moletom, com a tatuagem tribal no peitoral à mostra. Bem no meio do peito dele, deitada como uma pequena rãzinha de macacão amarelo, estava Luna. A bebê de sete meses babava de leve na pele do irmão, com os dedinhos gordinhos firmemente cravados na corrente de prata dele.
— Eu não aguento isso — sussurrou Letícia, cruzando os braços com um sorriso no rosto.
Kael abriu os olhos imediatamente, o reflexo rápido herdado da rotina pesada da vida que levavam. Quando viu a mãe na porta, relaxou o semblante marrento e ajeitou a mão grande nas costas de Luna com todo o cuidado do mundo.
— Qual foi, coroa? — falou ele, num tom baixo e rouco pra não acordar a pequena. — Já vem tirar a gorducha de mim?
— Ela tem berço, sabia? Daqui a pouco teu pai vem aqui dar esporro.
— Deixa ele chiar. Ela acordou de madrugada chorando, pô. Fui lá e catei ela. Dormiu em dois minutos aqui comigo — explicou o garoto, passando o polegar na bochecha gordinha e corada da irmã. Luna se mexeu, soltou um muxoxo manho e abriu os olhinhos verdes idênticos aos dos homens da família, grudando ainda mais o rosto no pescoço de Kael.
— Ela é muito folgada, igual a vocês três — Letícia brincou, se aproximando e deixando um beijo na testa do rapaz e outro na cabeça da bebê. — Passa ela pra cá. Rick e Ster já mandaram mensagem avisando que tão vindo almoçar aqui.
Antes que Kael pudesse protestar, a porta foi escancarada de vez. Bernardo apareceu no vão, já pronto, vestindo apenas um short vermelho florido, descalço, com o sorriso sacana estampado na cara.
— Coé, família! Bom dia pros feios e boa tarde pros bonitos — soltou Bê, fazendo barulho de propósito. — Ih, a gordinha já tá na área. Passa ela pra cá, manin!
Luna arregalou os olhos verdes ao ouvir a voz de Bê e soltou uma gargalhada aguda sem dentes, agitando os bracinhos gordinhos no ar.
— Pega leve, mané — Kael resmungou, com a cara fechada habitual, mas passando a bebê para o colo do gêmeo. — Fica gritando no ouvido da garota, tá moscando?
— Tu é muito chato, na moral. Parece até o pai de manhã cedo — Bê rebateu rindo. Ele segurou Luna pelas axilas e começou a jogá-la suavemente para cima, fazendo cócegas na barriga da menina. — E aí, cabeçuda? Quem é a mais linda do morro, hein? Quem é?
A bebê dava gritinhos estridentes de pura felicidade, rindo até faltar o fôlego toda vez que subia e descia no ar. Kael ficou em pé na hora, vigiando com atenção milimétrica cada movimento do irmão.
— Segura direito, caralho. Se deixar ela cair, eu te quebro no pau, Bernardo.
— Relaxa, manin, segurança máxima aqui, qualidade pura — Bê debochou, mas desceu Luna com calma e apoiou a garotinha no quadril enquanto ela puxava a orelha dele sem dó.
— Parem de falar palavrão na frente da menina, vocês dois — Letícia repreendeu, descendo a escada larga da sala enquanto os dois a seguiam. — E vão colocar uma camisa, pelo menos.
A casa ao lado, separada apenas por uma mureta e um jardim suspenso com vista panorâmica para a praia de São Conrado e a imensidão da Rocinha, logo deu sinal de vida. A porta da frente se abriu sem cerimônia. Ricardo entrou primeiro, com a postura séria de quem vigiava cada centímetro daquele morro. O vulgo de Caveira não era por acaso; ele era magro, ágil e frio como gelo quando precisava ser, mas ali dentro a expressão mudava. Logo atrás vinha Stefanne, com uma travessa de vidro nas mãos e o sorriso aberto de sempre.
— Se não tiver comida pronta, eu dou meia-volta agora mesmo — Ster anunciou alto, colocando a travessa na bancada da cozinha e indo direto abraçar Letícia. — Amiga do céu, que calor dos infernos é esse hoje?
— Nem me fala. Esse sol do Rio tá de foder a paciência — Letícia concordou, rindo ao retribuir o abraço apertado da melhor amiga. — E cadê o almoço?
— Trouxe a maionese especial que tu gosta. E aí, meu afilhado palhaço? — Ster se virou para Bê, dando um tapa leve no braço dele e beijando Luna na bochecha. — Coisa mais gostosa dessa vida.
— Salve, dinda. Tranquilidade pura — respondeu Bê.
Guilherme desceu as escadas logo em seguida. Tinha trocado de roupa, agora de calça jeans escura e uma camisa preta que esticava nos braços fortes. No pulso, o relógio dourado pesado brilhava. Ele foi direto até Rick, apertando a mão do cunhado com firmeza e puxando num abraço de ombro.
— Tudo calmo lá embaixo? — perguntou Gui, o tom mudando imediatamente para o modo patrão.
— Na paz, Magnata. O plantão da curva rendeu sem estresse, a rapaziada do asfalto tá subindo de boa pro baile de mais tarde — Rick respondeu tranquilo, pegando uma garrafa de cerveja da geladeira. — Só falta tu descer lá pra assinar as notas dos fornecedores que chegaram cedo.
— Já desço. Primeiro vou comer com a minha família — Gui sentenciou, puxando Letícia pela cintura quando ela passou perto dele e dando um beijo na têmpora dela. — Tá linda, amor.
— Sempre com esse dengo, né, Guilherme? — Ster provocou. — Passam os anos e ele não larga o osso da minha comadre.
— Lardo nunca, porra. Minha mulher — Gui respondeu sem rodeios, arrancando uma risada de Letícia.
O almoço seguiu farto e barulhento na varanda gourmet do casarão. As famílias misturadas, a carne assando na churrasqueira enquanto a música tocava num volume agradável. Bê não parava de implicar com a comida de Kael, roubando batata frita do prato do irmão, enquanto Kael apenas retrucava com cotoveladas secas e o olhar fuzilante de quem não tinha paciência para gracinha.
Depois de comerem e colocarem os assuntos em dia, Bê se levantou, calçando os tênis esportivos.
— Bora lá no campinho da praça bater uma pelada, manin? Os moleques do terceiro ano mandaram mensagem no grupo. Tão tudo lá já.
Kael terminou de mastigar, limpou a boca com o guardanapo e olhou para o irmão.
— Quem tá lá?
— Biel, Marquinho, o Dudu... geral. Vamos descer logo, só pra desenferrujar antes do treino de amanhã no colégio.
— Demorou — Kael concordou, levantando-se.
Os dois estudavam no tradicional colégio particular em São Conrado, bem na descida do morro, bancados pelo dinheiro pesado do pai. Viviam no limite entre os dois mundos: o asfalto playboy onde pegavam geral nas festas e a Rocinha, onde eram respeitados como os filhos do dono. Mas não tinham apego com garota nenhuma de lá; eram conhecidos por serem desenrolados, marrentos e não quererem compromisso com ninguém.
— Se forem descer, nós vamos juntos — Guilherme avisou, levantando-se da mesa e ajeitando a pistola na cintura, escondida sob a camisa preta. — Eu e o Rick vamos passar na contenção e depois no galpão. Lê, leva a Luna pra tomar um ventinho na praça também. Ficar trancada aqui no ar-condicionado o dia todo não faz bem pra menina.
— Vou arrumar ela rapidinho — Letícia assentiu, chamando Ster para ajudar.
Minutos depois, a comitiva descia pelas ladeiras principais do alto da Rocinha. A descida a pé pelas ruas movimentadas mostrava o tamanho da autoridade da família. Moradores acenavam com respeito genuíno.
— Boa tarde, seu Gui! — cumprimentou Dona Neide da padaria.
— Tarde, Neide. Manda separar aquele pão doce mais tarde pra patroa — Gui respondeu com uma aceno firme de cabeça, a mão nunca se afastando muito da cintura, o olhar verde varrendo o movimento das esquinas com extrema atenção.
— Fala, Patrão! Salve, Caveira! — gritou um dos moleques do moto-táxi, cortando giro da moto antes de passar.
Rick apenas levantou dois dedos em saudação, enquanto os dois gêmeos andavam um pouco mais soltos, trocando ideia entre si e cumprimentando os conhecidos da mesma faixa de idade.
— Coé, menor! Tá moscando aí na esquina por quê? — Bê zoou um dos moleques que tomava açaí na calçada. — Vai trabalhar, vagabundo!
— Qual foi, Bê? Tá achando que é o dono da rua? — o garoto respondeu rindo, jogando um pedaço de guardanapo amassado nele.
Kael mantinha a postura mais fechada, quase idêntica à do pai. Tinha um cigarro apagado entre os dedos e os olhos atentos a qualquer um que olhava demais na direção de Letícia, que caminhava ao lado de Gui empurrando o carrinho de bebê onde Luna vinha sentadinha, chupando um mordedor de borracha.
Quando chegaram à praça onde ficava o campinho de grama sintética cercado por alambrado alto, o clima já estava animado. O pagode rolava solto numa caixa de som potente encostada no bar do Seu Zé. Um cheiro gostoso de espetinho de carne com farofa tomava conta do ar quente da tarde carioca.
— Olha eles aí! Achei que os playboys da zona sul não vinham hoje! — gritou Dudu lá de dentro do campo, chutando uma bola desgastada em direção a Kael.
Kael dominou a bola no peito com perfeição de quem jogava bola desde pirralho na favela, colocou a redonda no chão e chutou de volta com curva, acertando o travessão em cheio.
— Fala muito, comédia. Entra aí que hoje tu vai tomar caneta até cansar — Kael rebateu, a marra transbordando no tom de voz.
Letícia e Ster se sentaram em uma mesa de plástico sob a sombra de um toldo de lona. Gui ficou em pé logo atrás da esposa, uma mão pousada pesada e carinhosamente no ombro dela, conversando com Rick e Seu Zé enquanto observava os filhos entrarem no campo.
— Vai lá, amor, vai resolver o que você tem que fazer com meu irmão — Letícia disse, virando o rosto para cima e olhando para Guilherme. — Eu fico aqui com a Ster e as crianças.
— Nada disso. O Rick desce no galpão sozinho primeiro, confere o carregamento e volta — Gui ditou, sério, os olhos fixos na movimentação da rua. — Eu não deixo tu e a menina sozinhas na praça nem fodendo, coração. Sabe como é o bagulho. Tem gente demais hoje por aqui.
Letícia soltou um riso discreto, negando com a cabeça.
— Você não tem jeito mesmo com esse ciúme todo, Gui.
— Não é ciúme, é cuidado com o que é meu — ele respondeu baixo, inclinando-se para dar um beijo no topo da cabeça dela, fazendo questão de que qualquer um por perto visse que aquela mulher tinha dono.
No campinho, o jogo pegava fogo de um jeito descontraído. Bê já estava sem camisa, suado sob o sol forte, o corpo malhado brilhando enquanto driblava dois defensores com facilidade e soltava uma gargalhada escandalosa na cara deles.
— Ih, ficou na saudade! Vai comprar um pastel pra ver se me acha, mané! — Bê gritou, rolando a bola de calcanhar para trás.
Kael vinha na corrida, enquadrou o corpo e soltou uma bomba rasteira que estufou a rede do golzinho pequeno de ferro.
— Gol, porra! Pega a visão da qualidade, caralho! — Kael comemorou com os braços abertos, batendo no peito e correndo até a beira da grade onde a mãe estava.
Luna viu o irmão se aproximar e começou a se sacudir inteira no carrinho, esticando os bracinhos roliços na direção do alambrado, dando pequenos gritinhos estridentes.
— Olha tua fã aí — Bê se aproximou, rindo, também colando na grade. — Gostou do gol, gordinha? Foi passe do pai aqui, ó!
— Teu cu, tu quase errou o calcanhar — Kael cortou na hora, mas o rosto bruto se desfez completamente num sorriso largo ao olhar para a irmãzinha.
Uma garota do morro, com um shortinho curto jeans e top preto, que estava sentada perto do alambrado vendo o jogo, se levantou e caminhou em direção ao carrinho com um sorriso ensaiado.
— Ai, que gracinha de bebê, gente! Posso pegar no colo um pouquinho? — ela perguntou, esticando a mão cheia de anéis para tocar no bracinho de Luna.
No mesmo segundo, a postura de Kael mudou. Ele travou a mandíbula, os olhos verdes fuzilando a menina com uma frieza cortante.
— Tira a mão — Kael soltou, a voz baixa, mas tão seca e cortante que a garota recolheu o braço no susto.
— Qual foi, Kaelton? Só ia fazer um carinho... — ela gaguejou, sem graça, dando dois passos para trás diante da marra do rapaz.
— Não encosta na garota. Não gosto que estranho fique pegando nela, já mandei o papo — ele avisou, sem um pingo de simpatia, virando as costas e pegando Luna direto do carrinho com um movimento firme e protetor.
A bebê imediatamente afundou o rostinho no pescoço suado de Kael, agarrando a corrente dele e fechando a carinha dengosa, soltando um suspiro de quem tinha encontrado o porto seguro.
— Kael, não precisa ser tão grosso com a garota — Letícia murmurou, repreendendo o filho, embora soubesse exatamente como os três homens da casa funcionavam quando o assunto era proteção.
— Puxou o pai todinho, não adianta falar nada — Ster comentou rindo, dando um gole no refrigerante. — O Guilherme era igualzinho quando tinha a idade dele. Lembra, Lê? Não deixava nem as meninas da escola chegarem perto de você.
Guilherme deu uma risada rouca, sem se arrepender de absolutamente nada do passado.
— E funcionou, não funcionou? Ela tá aqui comigo até hoje — Guilherme rebateu, o tom cheio de malícia e posse enquanto deslizava a mão pelo ombro de Letícia, descendo até a curva do pescoço dela. — Moleque tá certo. Tem que cuidar do que é nosso mesmo. Ninguém bota a mão na minha filha.
— Vocês não têm conserto — Letícia balançou a cabeça, mas sorriu, sentindo aquele calor gostoso no peito que só a sua família trazia.
Bê se aproximou dos dois, jogando água mineral na cabeça para espantar o calor do sol da tarde.
— Ô, manin, me dá ela aqui um minuto. A garota tá com cara de tédio com essa tua cara de enterro aí — Bê provocou, estendendo os braços.
Kael relutou por um segundo, mas passou a irmã para o gêmeo. Luna, que estava quase cochilando no peito de Kael, abriu os olhos e começou a rir assim que Bê a segurou no alto, fazendo cócegas na barriguinha redonda dela com o nariz.
— Essa garota só serve pra rir da minha cara, não é possível — Kael resmungou, limpando o suor da testa com o antebraço, mas seus lábios curvaram num meio sorriso sincero.
O céu do Rio de Janeiro começava a ganhar tons alaranjados e rosados no horizonte, indicando que o entardecer estava chegando sobre a comunidade. O movimento no morro ia dobrar em poucas horas: o som dos paredões começaria a ser montado no alto da laje, as motos passariam apressadas para os preparativos da noite e o cheiro de festa tomaria conta de cada viela.
Guilherme puxou Letícia para mais perto, o peito colado nas costas dela enquanto observavam os filhos juntos na beira do campinho — Kael vigiando tudo como um cão de guarda, Bê fazendo palhaçada para arrancar risadas da irmã mais nova, e Luna gargalhando como a princesinha dona daquele morro inteiro.
— Mais tarde a gente coloca as crianças pra dormir cedo — Gui sussurrou ao pé do ouvido de Letícia, a voz grossa carregada de uma promessa que fez a espinha dela arrepiar. — Aquele quarto com isolamento não foi feito só pra não escutar barulho da rua não, preta. Foi feito pra tu poder gritar meu nome a noite inteira sem ninguém ouvir porra nenhuma.
Letícia mordeu o lábio inferior, virando de lado para olhar nos olhos verdes profundos e intensos do marido, vendo ali a mesma paixão crua, possessiva e insaciável de vinte anos atrás.
— Vamos ver se você aguenta o tranco, meu rabugento — ela provocou com a voz macia, sorrindo de volta enquanto o calor da Rocinha envolvia a todos no fim daquela tarde perfeita.
