
O que o amor nos faz sustentar
Fandom: BTS
Criado: 24/10/2026
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Fios Rompidos sob o Céu de Seul
O reflexo das luzes quentes do estúdio fotográfico em Lisboa ainda parecia pulsar na memória de Samira Fall. Ela lembrava perfeitamente de cada clique, da textura da seda e das rendas finas das novas coleções de moda íntima que acabara de estrelar. Aos vinte e quatro anos, a jovem portuguesa mantinha a mesma graciosidade que a tornara um fenômeno digital desde a época da escola. Sua pele negra, radiante em um tom aconchegante de mel, combinava de forma quase mágica com seus cachos volumosos e perfeitamente hidratados. Samira construíra uma carreira sólida baseada na elegância, no carisma e na dedicação, sem nunca perder a serenidade que lhe era tão característica.
No entanto, o último trabalho exigira mais do que apenas poses sofisticadas com biquínis e maiôs de praia. A segunda parte da campanha envolvia conjuntos ousados de lingerie e uma narrativa visual compartilhada com um modelo masculino espanhol. Era trabalho puro, profissionalismo rigoroso do início ao fim. Mas para Jeon Jungkook, a milhares de quilômetros de distância em Seul, as prévias que Samira lhe enviara por mensagem com total inocência e transparência tinham caído como uma labareda sobre palha seca.
O voo internacional de mais de quinze horas foi longo e cansativo, mas o coração de Samira acelerava a cada turbulência passageira pela expectativa de rever o namorado. Fazia três meses que suas agendas não coincidiam. Jungkook era o homem mais desejado do planeta, o caçula dourado do BTS, e ela era a mulher que ele prometera amar em segredo sob a cumplicidade silenciosa da Coreia do Sul. Ela havia reservado uma semana inteira exclusivamente para ele, guardando todas as pendências em Lisboa para mergulhar nos braços do rapaz que amava.
Ao desembarcar no Aeroporto de Incheon com seus óculos escuros e passos leves, foi recebida pelo motorista de confiança da agência. Meia hora depois, o carro preto parava diante da residência espaçosa e reservada em Hannam-dong, onde os membros do grupo ainda costumavam se reunir entre descansos de turnês e produções musicais.
Samira respirou fundo, arrumou a jaqueta bege e subiu as escadas. Ao abrir a porta, foi envolvida pelo cheiro familiar de comida coreana e o burburinho agradável de vozes conhecidas.
Jimin foi o primeiro a vê-la, abrindo um sorriso caloroso enquanto deixava uma xícara de chá sobre a bancada da cozinha.
— Olha só quem chegou! — exclamou Jimin, adiantando-se com os braços abertos para um abraço apertado e afetuoso. — Como foi a viagem, Sami? Você deve estar destruída.
— Um pouco cansada pelo fuso horário, mas muito feliz de ver vocês — respondeu ela com sua voz suave, retribuindo o abraço com carinho.
Namjoon e Jin saíram da sala de estar para cumprimentá-la com sorrisos gentis e perguntas atenciosas sobre o voo. Taehyung ergueu a mão em um cumprimento animado do sofá, enquanto Hoseok, o verdadeiro sol daquele ambiente, apareceu com uma expressão radiante, oferecendo-se de imediato para levar a bagagem dela até o quarto de hóspedes.
— Deixe que eu cuido das malas, Samira — disse Hoseok, com aquela energia contagiante que dissipava qualquer vestígio de cansaço. — Você precisa se sentar e comer algo quente.
— Muito obrigada, Hobi, você é sempre um anjo — respondeu ela, sorrindo genuinamente.
Contudo, seus olhos castanhos procuraram instintivamente pela figura que mais importava. Jungkook estava encostado no batente que dividia a sala de jantar do corredor, com as mãos afundadas nos bolsos do moletom preto folgado. O cabelo escuro caía ligeiramente sobre a testa, mas a expressão em seu rosto não trazia a ternura de outros encontros. Havia uma rigidez glacial em sua mandíbula, um olhar sombrio e desviado que fez o estômago de Samira despencar.
Ela deu alguns passos na direção dele, esperando que a distância fosse desfeita por um abraço apertado, daqueles que faziam o tempo parar.
— Oi, meu amor — disse ela baixinho, estendendo a mão para tocar seu braço.
Jungkook apenas recuou um passo, evitando o toque de forma deliberada, e soltou uma respiração curta e ríspida pelo nariz.
— Você chegou — murmurou ele, com um tom monocórdico que soou quase como um desprezo ensaiado.
Samira paralisou, com os dedos suspensos no ar. O silêncio na sala caiu de repente, denso e desconfortável. Os outros rapazes pararam as conversas, percebendo imediatamente a tensão elétrica que se formava no ambiente.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela, tentando manter a calma habitual, embora o nó em sua garganta começasse a apertar. — Eu viajei meio mundo para passar essa semana com você e… é assim que me recebe?
Jungkook cruzou os braços, fitando o chão por um segundo antes de cravar os olhos escuros nela, faiscando de rancor acumulado.
— Como você queria que eu te recebesse, Samira? — rebateu ele, a voz subindo de tom sem qualquer consideração pelo fato de os outros membros estarem presentes. — Com festa? Com flores? Depois daquelas fotos que você achou de muito bom gosto me mandar ontem à noite?
Samira piscou, incrédula diante da hostilidade repentina.
— As fotos da campanha? — Ela franziu a testa, a serenidade dando lugar à indignação. — Jungkook, aquilo é o meu trabalho. Você sabe perfeitamente que era um contrato assinado há três meses.
— Trabalho? — zombou ele com amargura. — Ficar praticamente nua, colada no peito de outro cara, com as mãos dele na sua cintura? Isso agora chama trabalho? Você mostrou para o mundo inteiro coisas que deveriam ser só nossas. Coisas que pertencem a mim!
A atmosfera na sala congelou de imediato. Namjoon deu um passo à frente, erguendo as mãos em um gesto pacificador.
— Jungkook, calma lá — interveio o líder com voz firme. — Não é o momento nem a forma de falar isso. Vocês precisam conversar em particular.
— Não, hyung! — cortou o mais novo, irritado, gesticulando com rispidez. — Eu passei a noite inteira olhando para aquelas prévias no meu celular. Todo mundo vai ver aquilo. Como você acha que eu me sinto sabendo que outro sujeito estava tocando em você enquanto você usava quase nada?
O coração de Samira batia descompassado contra as costelas, mas a humilhação de ser tratada como uma propriedade abriu espaço para uma raiva profunda e sufocada que ela guardara durante anos.
— Eu não pertenço a você, Jeon Jungkook! — declarou ela, erguendo a voz, as palavras firmes e cortantes quebrando de vez a paz da casa. — O meu corpo é meu, o meu trabalho é meu, e não havia nada ali além de profissionalismo! Eu nunca te desrespeitei em momento nenhum!
— Profissionalismo tem limite! — gritou Jungkook, dando um passo na direção dela, os punhos cerrados. — Você não precisava aceitar uma campanha íntima com outro homem! Você sabe muito bem quem eu sou e a repercussão de tudo isso!
— Ah, agora a culpa é de quem você é? — Ela soltou uma risada amarga, com as lágrimas de revolta já ardendo nos cantos dos olhos. — Você está me cobrando recato por uma sessão fotográfica enquanto passa anos calado vendo o mundo inteiro criar histórias sobre você?
Jin se aproximou, tentando tocar o ombro de Jungkook para acalmá-lo, mas o rapaz se esquivou bruscamente.
— Não misture as coisas, Samira! O que isso tem a ver com o assunto? — esbravejou Jungkook.
— Tem tudo a ver! — Samira deu um passo à frente, encarando-o sem recuar, a dor de anos transbordando finalmente em sua voz embargada. — Por quantos anos eu tive que aguentar calada milhões de pessoas na internet me apagando da sua vida? Por quantos anos eu vi o fandom inteiro criando vídeos, shipps e teorias românticas com você e metade das idols femininas dessa indústria? Eu vi você sorrir para fotos ao lado de outras mulheres em eventos, eu vi edits viralizando todos os dias com fãs jurando que você estava apaixonado por outra cantora… e o que eu fiz, Jungkook? Eu fiz um escândalo? Eu duvidei de você?
Jungkook abriu a boca para rebater, mas a surpresa fez suas palavras vacilarem por um breve segundo. Os membros ao redor permaneceram estáticos, com os rostos tomados por uma mistura de pesar e constrangimento pela dor exposta da jovem.
— Não, eu não fiz — continuou Samira, agora com a primeira lágrima descendo pela pele macia cor de mel. — Eu confiei em você. Eu engoli o meu ciúme, a minha insegurança e a minha dor todos os dias porque eu sabia que aquele era o seu trabalho e a sua realidade! Eu aguentei o peso de ser o seu segredo para não prejudicar a sua carreira perfeita! Mas agora, na primeira vez em que eu faço um trabalho como modelo profissional para consolidar o meu nome, você me trata como uma mulher barata e desonesta na frente de todo mundo?
— Eu nunca disse que você era barata! — defendeu-se Jungkook, embora o rubor de raiva e a defensiva ainda impedissem que ele reconhecesse a própria injustiça. — Mas você não pensou em mim! Não pensou em como me machucaria ver você daquele jeito nos braços de outro! Você simplesmente não se importou!
— Chega, Jungkook! — interveio Namjoon com autoridade severa, colocando-se fisicamente entre os dois. — Você já passou de todos os limites aceitáveis. Pare com isso agora mesmo.
— Não precisa intervir, Namjoon — sussurrou Samira, a voz quebrando completamente enquanto o choro pesado finalmente vencia o orgulho. — Eu já entendi tudo.
Ela olhou para Jungkook pela última vez. O rapaz sustentava o olhar rígido, consumido pelo orgulho ferido e pelo ciúme cego da juventude, incapaz de dar o braço a torcer para pedir desculpas. Aquele desprezo silencioso doeu mais do que qualquer palavra áspera.
Sem dizer mais nada, Samira deu meia-volta, puxando o ar com dificuldade.
— Samira, por favor, espere! — pediu Jimin, com o olhar aflito.
— Deixe-a ir se é isso que ela quer! — gritou Jungkook por trás, agravando ainda mais a ferida aberta.
Samira não olhou para trás. Ela abriu a pesada porta principal da residência e saiu apressada pelos degraus, com as lágrimas quentes lavando seu rosto bonito e os soluços sufocados no peito. A sensação de abandono, somada à exaustão física da longa viagem, transformava o ar gelado de Seul em agulhas invisíveis contra a sua pele. Ela caminhou sem rumo pelo calçadão arborizado do condomínio particular, procurando apenas se afastar do lugar onde esperava encontrar afeto e só recebera desprezo.
A cerca de cem metros da residência, os passos rápidos e ofegantes atrás dela a fizeram estacar.
— Samira! Sami, por favor, pare um minuto!
Ela virou-se devagar, enxugando o rosto com as mangas da jaqueta. Era Hoseok. Ele não se dera ao trabalho de pegar um casaco pesado; apenas vestia uma camisa de mangas compridas e trazia uma expressão repleta de empatia e preocupação genuína.
— Hobi… por favor, me deixe sozinha — pediu ela, com a voz embargada e trêmula. — Eu não quero causar problemas para vocês. Eu vou pegar um táxi para um hotel…
— Você não vai pegar táxi nenhum e não vai para hotel nenhum agora — disse Hoseok, diminuindo o passo e aproximando-se com a suavidade que lhe era tão própria. Ele ergueu as mãos abertas, em um gesto de pura rendição e amizade. — Venha aqui. Apenas respire.
O tom acolhedor de Hoseok agiu como um bálsamo sobre a dor aguda que Samira sentia. Incapaz de sustentar o peso da tristeza por mais tempo, ela cobriu o rosto com as mãos e desabou em um choro convulsivo.
Sem hesitar, Hoseok envolveu-a em um abraço protetor. Ele não se importou com o frio da tarde coreana, nem com as lágrimas que molhavam o tecido de sua camisa. Ele apenas a segurou firme, afagando delicadamente os cachos volumosos e bem cuidados de Samira com uma paciência fraternal.
— Calma, Sami… respire fundo — murmurava ele contra o topo da cabeça dela, com a voz suave e cantada. — Eu estou aqui. Está tudo bem agora.
Passaram-se alguns minutos até que o pranto desesperado de Samira diminuísse para soluços ritmados. Eles sentaram-se em um banco de madeira sob a copa de um bordo que começava a perder as primeiras folhas da estação.
Hoseok tirou um pacote de lenços de papel do bolso e entregou-lhe delicadamente.
— Ele foi injusto comigo, Hobi — desabafou ela, limpando as bochechas ainda úmidas. — Muito injusto. Eu o apoiei em absolutamente tudo durante todos esses anos. Eu nunca fiz cobranças tolas. Eu sempre entendi a dimensão da vida dele, mas ele não consegue aceitar que eu também tenho uma carreira e um futuro próprio.
Hoseok suspirou pesadamente, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando para o asfalto à frente antes de encará-la nos olhos.
— Você tem toda a razão, Samira. Ele foi completamente injusto, imaturo e egoísta — admitiu Hoseok com sinceridade absoluta, sem tentar passar a mão na cabeça do caçula. — O Jungkook tem vinte e seis anos, mas em muitas coisas emocionais ele ainda reage como o garoto inseguro que entrou na empresa aos quinze. Ele cresceu cercado de holofotes, mas quando se trata da vida privada, ele morre de medo de perder o que é real. E para ele, você é a coisa mais real que existe fora desse furacão da fama.
— Se eu sou tão real assim, por que ele me feriu dessa forma? — questionou ela, com a dor ainda evidente no olhar.
— Porque o ciúme dele é irracional e infantil — explicou Hoseok, segurando a mão de Samira com delicadeza fraterna. — Ele viu aquelas fotos e sentiu que não tinha controle sobre a sua vida. Mas isso não justifica o comportamento dele, nem de longe. Ele não tinha o menor direito de gritar com você ou diminuir o seu profissionalismo. E aquilo que você falou sobre os shipps e as fofocas… nós sabemos o quanto você foi forte todos esses anos para suportar calada. Todos nós vimos a sua paciência e a sua elegância.
Samira soltou uma respiração profunda, sentindo a tempestade dentro de si começar a acalmar graças à presença calorosa do dançarino.
— Eu não sei se consigo simplesmente fingir que nada aconteceu e passar essa semana como se fôssemos o casal perfeito, Hobi. Quebrou algo dentro de mim.
— E você não tem que fingir nada, minha linda — disse Hoseok com um sorriso terno, apertando suavemente a mão dela. — Não se anule por causa do erro dele. Agora ele está lá dentro tomando uma bronca histórica do Namjoon e do Jin, pode ter certeza disso. Mas o importante agora não é o Jungkook. O importante é você. Você viajou horas a fio, está exausta e magoada. Você merece respeito e descanso.
Samira olhou para o rapaz com gratidão genuína.
— O que eu devo fazer agora?
— Você vai voltar para dentro comigo — instruiu Hoseok, levantando-se e estendendo a mão para ajudá-la a ficar de pé. — Você vai para o quarto de hóspedes tomar um banho bem quente. Eu mesmo vou preparar algo reconfortante para você comer. O Jungkook vai ficar no canto dele até colocar a cabeça no lugar e aprender a pedir perdão como um homem de verdade. E você não vai tomar nenhuma decisão precipitada de cabeça quente. Combinado?
Samira esboçou um sorriso pequeno e sincero pela primeira vez desde que pousara em solo coreano.
— Combinado. Você é realmente a luz desse grupo, Hobi. Muito obrigada.
— Eu sou apenas alguém que quer ver as pessoas que amo em paz — respondeu ele, oferecendo o braço para que ela o segurasse enquanto caminhavam de volta. — Vamos. O frio está piorando, e nós temos uma tempestade para acalmar antes do amanhecer.
Juntos, lado a lado, eles retornaram pelos mesmos passos até a casa. A ferida deixada pelas palavras de Jungkook ainda ardia no coração de Samira, mas, amparada pela sabedoria e pelo carinho de Hoseok, ela sabia que não abaixaria a cabeça para o ciúme desmedido de ninguém. Ela era dona de sua própria história e do seu próprio brilho, e se Jungkook quisesse permanecer ao seu lado, teria que aprender a amar a mulher livre e forte que ela havia se tornado.
