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Podia do beijo

Fandom: Gahh show

Criado: 25/10/2026

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Velocidade, Teias e um Empurrãozinho do Destino

A calçada da avenida movimentada não parecia o melhor lugar para uma discussão teológica sobre a anatomia dos vilões de desenho animado, mas lá estavam eles. Gusta gesticulava tão dramaticamente que quase derrubou o copo de café que segurava com a ponta dos dedos, enquanto Gaba tentava apenas não tropeçar nos próprios pés enquanto olhava a vitrine de uma loja de eletrônicos.

— Eu só estou dizendo a verdade universal — argumentava Gusta, arrumando a jaqueta preta com um sorriso convencido que beirava a pura arrogância encenada. — Se o Hawk Moth tivesse um pingo da minha presença estética, os heróis de Paris já teriam se rendido na primeira temporada. Eu tenho a mandíbula feita pelos deuses e o carisma de um lorde sombrio incompreendido. Se bem que, se eu fosse akumatizado, meu poder seria basicamente fazer todo mundo rir até o pulmão colapsar, o que é um fim bastante trágico e poético para a minha vida deplorável.

Gaba soltou uma risada nasalada, balançando a cabeça em negação.

— Mano, você é inacreditável. — Ele ajeitou a gola da camiseta, rindo sozinho. — O cara se acha o Cat Noir, mas na vida real tem a flexibilidade de uma porta de correr emperrada. Sem falar que a sua rotina é acordar às duas da tarde, reclamar de dor nas costas e fingir que faz skin care. Se o Hawk Moth te visse, ele nem gastava a borboleta preta, ele só mandava um boleto e você já se destruía sozinho.

— A dor nas costas é um charme de quem carrega a genialidade da internet brasileira nos ombros, meu caro — rebateu Gusta, fingindo indignação ao colocar a mão no peito. — Mas e você? Quem é você na fila do pão? O cara que chora vendo animação de árvore laranja falante!

— Respeita o Lorax, tá? — Gaba apontou o indicador na direção do amigo, fingindo seriedade com aquele tom bem-humorado de sempre. — E outra: eu sou velocidade. Katchow. Se eu fosse um super-herói, eu seria no mínimo o Homem-Aranha pilotando o Relâmpago McQueen. O pacote completo. Mas infelizmente hoje eu sou só um jovem adulto com refluxo que precisa comprar pão de queijo antes que a padaria feche.

Antes que Gusta pudesse inventar outra teoria mirabolante sobre joias mágicas e adolescentes parisienses, uma sombra cortou a calçada e parou bem na frente deles.

Era uma garota de passos firmes, cabelos ligeiramente desalinhados pelo vento e uma expressão que misturava profunda descrença com um leve toque de estresse diário. Nas costas, ela carregava a capa preta de um ukulele, cujas cordas provavelmente já tinham sofrido bastante em suas mãos. Ela cruzou os braços e olhou para os dois como se estivesse avaliando dois espécimes raros e meio barulhentos demais para um dia de semana.

— Caramba — disse ela, sem qualquer cerimônia ou grito histérico de fã. A voz saiu direta, ácida. — Vocês dois são ainda mais barulhentos pessoalmente do que no YouTube. Eu achei que a edição diminuía o volume, mas pelo visto vocês só não têm filtro social mesmo.

Gaba piscou, surpreso, e abriu um sorriso espontâneo, meio sem jeito.

— E aí! — Ele acenou, descontraído. — Pior que é verdade, a gente é meio que uma poluição sonora ambulante. Culpa dele, claro, eu sou um anjo.

— Um anjo que tropeça no plano reto, com certeza — completou Gusta, semicerrando os olhos e ajeitando a postura para parecer imponente. — Olá, mortal. Vejo que você reconheceu a pura perfeição e o rapaz que anda ao lado dela. Você veio pedir um autógrafo ou tentar roubar o segredo do meu corte de cabelo irresistível?

A garota revirou os olhos com tanta força que pareceu genuinamente em perigo de deslocar a retina.

— Se eu quisesse um corte igual ao seu, eu pedia para um cortador de grama desgovernado fazer o serviço — disparou ela, fazendo Gusta colocar a mão na boca com um falso choque teatral. — Meu nome é Analice. E antes que vocês achem que eu sou uma perseguidora profissional que fica plantada na calçada o dia todo, eu estava só indo para a minha aula de música. Mas como eu já comprei as paradas e odeio carregar peso extra, toma logo isso aqui antes que eu mude de ideia e jogue num bueiro.

Analice puxou a mochila que levava na frente do corpo com um movimento impaciente, abriu o zíper sem nenhuma delicadeza e tirou dois embrulhos cuidadosamente feitos — um contraste absoluto com a falta de paciência com que ela os manuseava.

— O meu pavio é mais curto do que o tempo de tela do tio Ben no primeiro filme — avisou ela, estendendo um pacote para cada um —, então não me façam ficar esperando aqui na rua com cara de tonta. Abram logo.

Gusta pegou o dele com uma sobrancelha arqueada, curioso. O papel era roxo e tinha pequenos desenhos de patas de gato pretas feitos à mão.

— Olha só... alguém aqui tem cultura refinada — comentou Gusta, rasgando o papel com a empolgação de uma criança que acabava de ganhar um brinquedo proibido.

Dentro havia uma miniatura artesanal de altíssima qualidade: o Cat Noir, mas esculpido com feições incrivelmente cínicas e segurando uma plaquinha minúscula onde se lia: "Plagg, cadê meu Camembert e minha dignidade?". Junto disso, havia um anel de metal com o desenho da pata verde que brilhava discretamente na luz.

Gusta arregalou os olhos. A pose de homem maduro desmoronou em meio segundo.

— Mentira! — ele quase gritou, colocando o anel no dedo indicador imediatamente. — Olha essa riqueza de detalhes! Eu sabia que eu era o verdadeiro portador da destruição! Analice, você tem um gosto impecável. Isso aqui é o ápice da arte contemporânea. Eu vou usar isso em todos os vídeos e se alguém reclamar, eu akumatizo a mãe da pessoa sem dó.

— Se você akumatizar alguém, pelo amor de Deus, não me envolva na investigação policial — respondeu Analice, dando um meio sorriso sarcástico. — E se quebrar a peça, nem venha reclamar na DM que eu finjo demência.

Enquanto isso, Gaba ainda tentava tirar a fita adesiva do seu pacote sem rasgar a embalagem inteira, resmungando baixo com a própria falta de coordenação motora.

— Caraca, eu sou muito ruim com as mãos, bicho — riu ele de si mesmo. — Se eu fosse o Peter Parker e tivesse que consertar o lançador de teia desse jeito, a cidade de Nova York já tinha ido pro ralo faz tempo.

— Deixa de ser lerdo, garoto — cortou Analice, bufando de brincadeira e dando um tapa leve na lateral da caixa para ele acelerar. — Parece que tá desarmando uma bomba nuclear.

— Calma, a pressa é inimiga da perfeição, já dizia o sábio Marquinhos de Carros — rebateu Gaba, finalmente puxando a tampa.

O que estava lá dentro fez o rapaz congelar por dois segundos inteiros.

Era um diorama personalizado: uma réplica de metal minúscula do Relâmpago McQueen, mas inteiramente pintada com o padrão da clássica roupa azul e vermelha do Homem-Aranha, com detalhes de teia nas laterais. E, como se não bastasse, em cima do capô havia uma microfigura do Lorax com uma expressão revoltada, segurando um cartaz minúsculo que dizia: "Eu falo pelas árvores e elas odeiam o seu senso de direção".

Gaba soltou um arfar genuíno de puro encanto, os olhos brilhando como os de um menino na manhã de Natal.

— Mano... — Ele passou o dedo indicador de leve no pequeno carro, boquiaberto. — Mano do céu. Isso aqui é a coisa mais absurda e incrível que eu já vi na minha vida inteira! É literalmente a trindade sagrada da minha existência reunida num pedaço de metal. Você tem noção de como isso aqui é perfeito?

Analice cruzou os braços de novo, tentando manter a postura inabalável e durona, mas uma pontinha de orgulho escapou no canto dos lábios.

— Eu sabia que você era infantil o suficiente para gostar de um carrinho fantasiado de aranha — comentou ela, rindo com o humor seco característico. — Deu um trabalho desgraçado para pintar essas teias, quase joguei a tinta na parede umas três vezes de raiva.

Gaba olhou para a peça, olhou para Analice e, no calor de um entusiasmo quase descontrolado, soltou sem pensar no filtro:

— Analice, na moral, você é uma lenda. Eu gostei tanto disso que eu juro que te dava um beijo agora mesmo!

O silêncio que se seguiu durou exatamente meio segundo.

Foi o tempo necessário para o cérebro de Gusta processar a informação, descartar qualquer decência humana e ativar o modo caos absoluto. Um sorriso maligno, digno do próprio Hawk Moth diante da maior oportunidade de sua vida, se espalhou no rosto de Gusta.

— Opa! — Gusta berrou na calçada, chamando a atenção de duas senhoras que passavam perto. — O que foi que eu ouvi? Um beijo? Pois então pague a sua dívida, Gabriel! Seja um homem de palavra!

Gusta deu dois passos largos para o lado e empurrou Gaba com o ombro, jogando o amigo para cima de Analice.

— Ei, calma aí! — gritou Gaba, tropeçando nas próprias pernas e quase caindo em cima da garota, equilibrando a caixinha do presente com um desespero cômico. O rosto dele passou de um tom normal para um vermelho-pimentão em questão de microssegundos. — Gusta, seu idiota, para de me empurrar!

— Nada disso! Homem de verdade não volta atrás na palavra! — Gusta ria tanto que quase perdeu o ar, usando as duas mãos para empurrar as costas de Gaba na direção de Analice mais uma vez. — Vai, beija ela! Beija logo! Você prometeu! É a lei da internet, tá no regulamento do canal! Vai, dá um selinho, um beijo de cinema, o que ela quiser!

Analice deu um passo rápido para trás, erguendo a mão aberta para frear o avanço estabanado de Gaba antes que ele se chocasse contra o case do instrumento dela.

— Ô, seu doente! — Analice apontou o dedo na cara de Gusta, com os olhos faiscando de uma mistura de surpresa, divertimento e aquela irritação imediata que ela sentia sempre que alguém a encurralava. — Se você empurrar esse pateta em cima de mim mais uma vez, eu juro que tiro o ukulele das costas e quebro na sua cabeça! Eu toco três acordes de uma música fúnebre enquanto você apaga no asfalto, tá me ouvindo?

— Olha aí, Gaba! Ela gosta de caras perigosos e que tomam atitude! — insistiu Gusta, sem parar de gargalhar e empurrando o amigo de novo, ignorando solenemente as ameaças de violência instrumental. — Vai logo, cara! Não desperdiça a chance! É o beijo da salvação! Mostra que você é veloz como o McQueen e envolvente como as teias do Aranha!

— Para de me empurrar, Gusta, seu desgraçado! — berrou Gaba, tentando lutar contra a força do amigo enquanto tentava não esmagar o presente e ao mesmo tempo desviar do raio de alcance da mão furiosa de Analice. — Eu falei no sentido figurado, caramba! Sentido figurado! Você nunca ouviu falar de hipérbole, seu animal?

— Hipérbole é a desculpa dos covardes! — declarou Gusta, triunfante, empurrando o ombro de Gaba com força mais uma vez. — Beija! Beija! Beija!

— Se você encostar essa boca de quem come salgadinho barato em mim, Gaba, eu te mordo — ameaçou Analice, embora um riso involuntário começasse a escapar do controle dela. — E se o Gusta continuar me irritando, eu vou colocar uma maldição naquele anel de Cat Noir pra cair uma praga no cabelo dele. Vocês dois têm quantos anos mentalmente? Cinco e meio?

— Ela tá se fazendo de difícil, Gaba, é a sua chance de agir! — Gusta ria a ponto de ficar vermelho e quase sem voz. — O amor é isso! É caos, destruição, ukuleles ameaçadores e piadas com gosto duvidoso!

— Eu vou te dar um soco, Gusta, eu tô avisando — Gaba conseguiu finalmente fincar os pés no chão e empurrar Gusta de volta, ajeitando a camiseta amassada enquanto respirava ofegante, com o rosto ainda queimando de vergonha. — Desculpa, Analice. Esse cara não toma os remédios dele faz uns três anos, no mínimo.

Analice soltou o ar ruidosamente, ajustando a alça do ukulele no ombro e cruzando os braços, olhando para os dois com uma sobrancelha levantada.

— Tá tranquilo. Se ele tivesse chegado perto demais, eu só ia usar ele de escudo humano contra o próximo ônibus — disse ela, com uma frieza tão absurda que arrancou uma gargalhada genuína de ambos. — Mas falando sério... Que humilhação pública gratuita. Eu só queria entregar duas lembrancinhas e saio quase envolvida num escândalo amoroso de calçada.

— Mas convenhamos, seria uma grande história para você contar no almoço de família — pontuou Gusta, recuperando o fôlego e arrumando a jaqueta, ainda com aquele sorriso maroto que nunca sumia. — "Mãe, hoje quase ganhei um beijo do Gaba, mas a minha grosseria natural e a falta de coragem dele impediram o destino de se cumprir".

— A minha mãe provavelmente ia perguntar por que eu não quebrei o instrumento na sua cabeça logo de primeira — rebateu Analice, arrancando mais risadas.

Gaba respirou fundo, olhando mais uma vez para o pequeno McQueen vestido de Homem-Aranha em suas mãos, e o sorriso dele voltou a ser calmo, genuinamente agradecido.

— Falando sério agora... Sem o palhaço do Gusta estragando o momento — disse Gaba, com um tom bem mais suave e sincero. — Muito obrigado mesmo, Analice. De verdade. Isso aqui é animal. Foi um dos presentes mais criativos e da hora que eu já ganhei de alguém que acompanha o canal. Valeu pelo carinho e pelo tempo que você gastou fazendo essa doideira.

Analice pareceu desarmada por um instante, a impaciência dando lugar a um sorriso genuíno e tímido, daqueles que ela claramente tentava esconder.

— É... de nada. Ficou bom mesmo, eu tenho que admitir. E pelo menos serviu pra você passar uma vergonha histórica na frente de todo mundo na rua, o que já fez valer o meu dia inteiro.

— O meu também foi maravilhoso — adicionou Gusta, erguendo a mão com o anel para admirar o reflexo no sol. — Eu vi o Gaba tremer na base, ganhei uma relíquia das trevas e ainda saí sem nenhum hematoma de ukulele. Um saldo completamente positivo.

— Não canta vitória antes da hora, que eu ainda tenho que atravessar a rua com vocês — avisou ela. — Agora rápido, tira uma foto comigo logo antes que eu perca a paciência de vez e o sinal abra. E vê se você fica parado dessa vez, Gaba, que eu não quero foto borrada.

Eles se juntaram na calçada movimentada. Gusta fez uma pose dramática erguendo o anel como se fosse um vilão triunfante, Gaba segurou o pequeno carro com orgulho e um sorriso amarelo ainda corado pelas piadas de segundos atrás, e Analice ficou no meio dos dois, mantendo a clássica expressão de quem estava profundamente arrependida de ter saído de casa naquele dia, mas com os olhos brilhando de diversão contida.

Com a foto tirada e mais algumas ofensas amigáveis trocadas, Analice acenou com a mão sem olhar muito para trás, apressando o passo em direção ao metrô antes que o sinal fechasse.

Gaba e Gusta ficaram ali por mais alguns segundos, observando a garota desaparecer entre as pessoas.

— Mano... — disse Gaba, balançando a cabeça em choque e rindo sozinho. — Você é muito sem noção, cara. Você quase me fez beijar uma menina com um ukulele nas costas na frente de todo mundo.

Gusta deu uma piscadela convencida e começou a caminhar em direção à padaria.

— De nada, meu caro. Eu sou apenas o cupido das causas perdidas. Agora anda logo, McQueen, que o pão de queijo não vai se comprar sozinho e o poder do Cat Noir abriu o meu apetite.

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