
Curto-Circuito no Sofá
A paciência de Analice tinha uma vida útil comparável à de um fósforo aceso sob uma ventania: durava exatamente três segundos antes de virar cinzas. Naquela tarde abafada, na sala de estar do estúdio que milagrosamente estava vazia, o pavio dela não estava apenas curto; estava em chamas.
E a causa de toda aquela combustão tinha nome, cabelos escuros e um sorriso de canto que dava uma vontade incontrolável de socar ou de beijar com força bruta. Morajo estava encostado na estante de jogos, com os braços cruzados sobre o peito e uma sobrancelha arqueada, ostentando aquela expressão prepotente que sempre fazia o sangue de Analice ferver nas veias.
— Se você continuar me encarando com essa cara de quem engoliu um limão estragado e achou gostoso, eu juro que quebro aquele seu controle de videogame no meio — disparou ela, batendo o pé ritmadamente contra o carpete.
Morajo soltou uma risadinha seca, descendo o olhar com uma lentidão calculada que beirava a provocação pura.
— Você não teria coragem, baixinha. E mesmo que tivesse, sua mira é tão podre que acertaria a televisão antes de tocar no meu controle.
— Baixinha é a mãe, seu projeto de vilão de desenho animado dos anos 90! — retrucou ela, dando dois passos largos na direção dele.
Analice odiava perder o controle, mas adorava o caos. Tinha um humor que a maioria das pessoas classificaria como doentio ou, no mínimo, duvidoso; gostava de ver as coisas desmoronarem só para rir dos destroços. Quando Morajo deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois com aquele olhar desafiador que parecia dizer "tenta a sorte", ela sentiu um estalo na garganta e não conseguiu segurar uma risada anasalada e repentina.
— Do que você tá rindo, sua maluca? — perguntou ele, semicerrando os olhos, mas sem recuar um milímetro.
— Tô rindo da sua cara de enterro — disse ela, com a voz baixando de tom, perigosa. — E do fato de que, se uma viga caísse no seu crânio agora, o mundo ficaria consideravelmente mais silencioso. Seria poético.
— Que mente perturbada, Analice. — Morajo já estava a meros centímetros. Dava para sentir o calor que emanava dele, uma mistura de arrogância e perfume amadeirado. — Mas a verdade é que você não aguentaria dois minutos de silêncio sem sentir minha falta.
— Ah, é? Quer testar?
— Testa você. Se tiver capacidade.
Aquilo foi a gota d'água. Analice não raciocinou; o pavio estourou. Ela agarrou Morajo pela gola do casaco com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos, puxando-o para baixo enquanto se erguia nas pontas dos pés. Ele arregalou os olhos por uma fração de segundo, pego de surpresa pelo movimento brusco, mas o choque não durou tempo suficiente para esfriar o clima.
Pelo contrário: acendeu um incêndio.
Quando a boca de Morajo colidiu contra a de Analice, não houve qualquer resquício de hesitação, delicadeza ou poesia barata. Foi um impacto urgente, faminto, quase violento de tão carregado de eletricidade acumulada. Morajo passou os braços firmes pela cintura dela, puxando-a contra seu corpo de uma só vez com uma força que tirou o fôlego da garota, prensando-a contra a beirada do sofá de couro.
Analice soltou um gemido abafado contra os lábios dele, misturado a uma risadinha rouca pelo absurdo da situação, mas logo esqueceu qualquer piada interna. As mãos dela abandonaram a gola do casaco e foram direto para os cabelos dele, puxando as mechas com força suficiente para fazer Morajo arfar e aprofundar o beijo ainda mais, usando a língua com uma intensidade que a fez estremecer por inteiro.
O beijo deles parecia uma briga de foice no escuro. Ninguém queria ceder o controle. Ele mordeu o lábio inferior dela com um vigor atrevido, fazendo-a gemer de surpresa e devolver a mordida sem qualquer piedade, provando o gosto metálico e doce da adrenalina pura.
— Você é insuportável... — murmurou Morajo entre beijos febris, a respiração pesada queimando a pele do pescoço de Analice enquanto descia os lábios pela linha da mandíbula dela.
— Cala a boca e me beija direito, seu inútil — exigiu ela, ofegante, as unhas cravando nas costas dele através do tecido, empurrando os quadris contra os dele enquanto rolavam para o estofado do sofá.
Eles estavam em outro planeta. Não ouviam o som do ar-condicionado zumbindo, não sentiam a luz que entrava pelas cortinas e, com toda certeza do mundo, não escutaram os passos barulhentos que vinham pelo corredor de entrada.
Do lado de fora, a porta da sala principal estava entreaberta.
— Eu tô falando pra vocês, se a gente não comprar logo o refil de tinta da impressora, o roteiro do próximo vídeo vai sair em cinza claro! — tagarelava Zulmi, equilibrando duas sacolas plásticas cheias de salgadinhos e refrigerante.
— Calma, Zulmi, o mundo não vai acabar por causa de um roteiro cinza — respondeu Torajo com a voz mansa de sempre, ajeitando a touca na cabeça enquanto procurava as chaves no bolso. — Além disso, a gente combinou que hoje à tarde era folga. O pessoal já deve estar descansando.
— O Morajo nunca descansa — comentou Linn com um tom neutro, mexendo distraidamente no celular. — Ele provavelmente tá trancado no quarto planejando como roubar a lua ou algo igualmente idiota.
— Eu só acho que a gente devia ter comprado biscoito de polvilho — resmungou Azedo, caminhando com a postura largada de sempre. — Esses salgadinhos de queijo têm cheiro de chulé de mendigo.
— Ah, para de ser chato, Azedo! — repreendeu Pessy, vindo logo atrás com um sorriso tímido. — Salgadinho de queijo é maravilhoso!
Torajo empurrou a porta de madeira com o ombro, rindo da discussão boba da turma.
— Ó, chegamos! Quem tiver vivo aí dentro, dá um grito pra...
A frase morreu na garganta de Torajo com tanta violência que ele quase engasgou com a própria saliva.
Os cinco entraram em fila indiana e, de forma quase sincronizada, petrificaram. Parecia que o tempo havia parado na sala, exceto no sofá, onde duas pessoas estavam ocupadas demais se devorando vivas para notar a plateia.
O cenário era absolutamente estarrecedor: Morajo estava meio ajoelhado no sofá, com o corpo jogado sobre o de Analice, uma das mãos possessivamente enfiada sob a camisa dela, puxando o tecido para cima, enquanto a outra segurava o rosto da garota com uma paixão feroz. Analice, por sua vez, estava com as duas pernas enganchadas ao redor da cintura dele, puxando-o para cada vez mais perto, alternando entre morder o pescoço de Morajo e puxar seu cabelo com uma voracidade selvagem. O som dos beijos molhados, ofegantes e sem nenhum pudor ecoava pela sala como se fosse um alto-falante potente.
O silêncio do grupo que assistia foi ensurdecedor.
Torajo arregalou os olhos a um ponto em que pareciam prontos para saltar das órbitas. Sua boca abriu e fechou várias vezes, parecendo um peixe fora d'água em choque anafilático. As mãos dele subiram para tampar a própria visão, mas os dedos estavam abertos o suficiente para que ele visse absolutamente tudo contra a sua vontade.
Zulmi travou no meio de um passo. As sacolas plásticas escorregaram de seus dedos inertes e caíram no chão; um saco de batatas estourou e duas latas de refrigerante rolaram pelo carpete. As mãos dela foram direto para as bochechas, os olhos brilhando em um misto aterrorizante de choque puro e surto de fã que acabou de presenciar a maior teoria da conspiração se tornando realidade diante dos seus olhos.
Linn parou de digitar. O celular quase escorregou da sua mão, mas ele o segurou no último segundo, levantando lentamente o olhar com as sobrancelhas tão altas que quase sumiam sob a franja. Um sorriso torto e sarcástico começou a despontar no canto dos seus lábios.
Pessy deu um gritinho miúdo, estrangulado na garganta, ficando instantaneamente vermelha como um tomate maduro. Ela deu um passo trôpego para trás e se escondeu completamente atrás das costas largas de Azedo, cobrindo o rosto com as duas mãos e murmurando algo inaudível sobre queimar os próprios olhos.
Azedo, por outro lado, permaneceu com a mesma cara de nada de sempre, embora o canto da sua boca tenha tremido em um esgar de profundo desprezo e constrangimento alheio.
— Mas que droga... — murmurou Azedo, cruzando os braços. — Alguém joga um balde de água fria nisso aí, pelo amor de Deus.
O som do plástico caindo e a voz seca de Azedo finalmente conseguiram furar a bolha de calor e frenesi em que Morajo e Analice estavam submersos.
Foi como levar um choque de duzentos e vinte volts.
Morajo congelou instantaneamente. Seus lábios, que estavam a milímetros da boca entreaberta de Analice, pararam no ar. Os olhos dele se arregalaram, as pupilas dilatadas pela adrenalina, e ele virou a cabeça devagar, em câmera lenta, na direção da entrada.
Analice, ainda com a respiração curta e o cabelo totalmente desgrenhado, franziu a testa, confusa com a pausa repentina dele.
— O que foi, seu covarde? Já cansou...? — começou ela, mas a frase morreu quando ela seguiu a linha do olhar de Morajo e deu de cara com cinco pessoas paradas no batente da porta, parecendo estátuas de cera malfeitas com expressões que variavam de puro trauma a curiosidade mórbida.
Por três segundos intermináveis, ninguém respirou. O mundo parou de girar.
Morajo empalideceu primeiro, depois ficou da cor de uma pimenta malagueta. Ele tentou se levantar com tanta pressa e desespero que tropeçou nos próprios pés, escorregou na beirada do sofá e caiu sentado de bunda no chão, derrubando uma almofada por cima das próprias pernas em uma tentativa desesperada e ridícula de cobrir o amassado da sua roupa.
— QUE... QUE MERDA VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI?! — berrou Morajo, a voz falhando em um tom agudo que ele nunca admitiria ter emitido em público, puxando a gola da camisa para tentar esconder as marcas vermelhas visíveis no pescoço.
Analice continuou sentada no sofá, ajeitando a própria blusa com gestos rápidos e espasmódicos. A linha entre a raiva homicida e o riso histérico sempre foi muito tênue na cabeça dela, e aquela situação era simplesmente grotesca demais para ser levada a sério.
Ela olhou para a cara paralisada de Torajo. Depois para Zulmi, que parecia estar à beira de uma síncope. Depois para Morajo, jogado no chão com cara de quem tinha sido pego roubando doce de criança.
Um ruído estranho escapou da garganta de Analice.
— Pfft... — Ela tampou a boca.
— Analice, não ouse rir! — rosnou Morajo do chão, fuzilando-a com o olhar enquanto tentava se recompor.
Mas era tarde demais. O riso dela, que sempre foi um pouco frouxo demais para o próprio bem, rompeu as comportas. Analice desatou em uma gargalhada alta, escandalosa e sem fôlego, jogando a cabeça para trás enquanto batia com a mão no braço do sofá.
— Hahahahaha! Ai, meu Deus do céu! A cara do Torajo! Hahahahaha! — Ela apontava o dedo trêmulo para o garoto de touca, que continuava pálido como uma folha de papel. — Parece que você viu um fantasma decepar a própria cabeça, moleque!
— EU VI COISAS PIORES! — gritou Torajo, finalmente conseguindo destravar a garganta, a voz tremendo de pânico e pura aflição. — Meus olhos! A minha inocência! Por que no sofá da sala?! Por que vocês estavam... vocês tavam se comendo vivos?!
— NÃO TINHA NINGUÉM SE COMENDO! — explodiu Morajo, levantando-se de um salto e chutando a almofada para longe, o rosto em chamas enquanto tentava manter uma postura imponente que já tinha ido para o ralo há pelo menos cinco minutos. — A gente só tava... a gente tava discutindo!
— Discutindo com a boca?! — disparou Zulmi, que finalmente recuperou a respiração e começou a dar pulinhos histéricos no lugar. — MORAJO! A MÃO DELE TAVA DEBAIXO DA SUA CAMISA, ANALICE! EU VI! EU TENHO GRAVADO NA MINHA RETINA! MEU DEUS DO CÉU, MEU SHIPP É REAL E É SELVAGEM DEMAIS PRA UMA CLASSIFICAÇÃO LIVRE!
O riso de Analice evaporou na velocidade da luz. A menção ao "shipp" e os gritos estridentes de Zulmi ativaram imediatamente o pavio curtíssimo da garota. O humor duvidoso deu lugar à violência iminente.
— Se você abrir essa boca de sacola pra falar de 'shipp' mais uma vez, Zulmi, eu vou fazer você engolir aquelas duas latas de refrigerante fechadas! — ameaçou Analice, levantando-se do sofá com um olhar assassino, arrumando a jaqueta com tanta agressividade que parecia estar armando uma espingarda. — E se algum de vocês ousar comentar isso com mais alguém, eu arranco os dentes de vocês com um alicate enferrujado! Ficou bem claro?!
— Credo, que agressividade gratuita — comentou Linn, rindo baixinho e balançando a cabeça com desdém divertido. — Mas tenho que admitir, o Morajo tava perdendo feio a briga. Ele quase foi devorado vivo.
— Cala a boca, Linn! — gritou Morajo, avançando um passo na direção dele com os punhos cerrados. — Eu não tava perdendo nada!
— Ah, não? — Analice virou-se para Morajo, cruzando os braços com um sorriso de escárnio estampado na cara corada. — Engraçado, não foi você que quase caiu de joelhos pedindo ar três minutos atrás?
— EU NÃO PEDI AR COISA NENHUMA! VOCÊ ME MORDEU, SUA PSICOPATA!
— Mordi porque você mereceu! E se reclamar, eu mordo de novo, mas da próxima vez arranco um pedaço da sua bochecha pra você aprender a falar direito comigo!
— Gente, pelo amor de Deus, parem de falar de morder na frente da Pessy, ela vai desmaiar — pediu Azedo, apontando com o polegar para a garota encolhida atrás de si, que ainda mantinha os olhos fortemente fechados e as mãos cobrindo os ouvidos, cantarolando baixinho para tentar bloquear o trauma.
— Eu nunca mais vou sentar naquele sofá — choramingou Torajo, encostando a testa contra a parede do corredor e abraçando o próprio estômago. — Aquele sofá precisa ser queimado em praça pública. Com desinfetante e fogo sagrado.
Analice olhou para toda a cena caótica: Zulmi surtando e catando as batatas do chão como se fossem joias sagradas, Torajo em crise existencial contra a parede, Pessy traumatizada, Azedo e Linn rindo da desgraça alheia, e Morajo ali do lado, bufando de ódio e vergonha com os cabelos todos bagunçados e o lábio inchado.
A raiva dela simplesmente não conseguiu se sustentar por muito tempo. O absurdo da situação bateu forte de novo e outro riso frouxo escapou pelos seus lábios, transformando-se em uma risada aberta, daquelas que doem as costelas.
— Que show de horrores maravilhoso — disse Analice, enxugando uma lágrima no canto do olho enquanto passava a mão pelo cabelo para tentar ajeitar o estrago que Morajo tinha feito. — Olha, quer saber? Dane-se. Vocês viram mesmo, não viram? Querem uma foto pra guardar de recordação? Eu cobro baratinho.
— Analice! — sibilou Morajo, incrédulo, fuzilando-a com os olhos enquanto sentia as orelhas queimarem de tanta humilhação. — Para de falar bosta!
— Ah, relaxa, esquentadinho — ela deu um tapinha audacioso e nada sutil no ombro dele, arrancando um sobressalto chocado de Torajo e um gritinho abafado de Zulmi. — Pelo menos agora ninguém mais vai ter a audácia de dizer que você não tem atitude. Embora sua técnica precise de um pouco de treino... você quase quebrou meu dente naquela primeira investida.
— Foi você que puxou a minha gola como se quisesse arrancar a minha cabeça fora! — retrucou ele, dando um passo involuntário na direção dela, a postura tensa voltando a diminuir a distância entre os dois sem que ele mesmo percebesse.
— E você adorou, admite logo — provocou ela com um sorriso ladino, perigoso e totalmente desprovido de vergonha na cara.
— EU NÃO PRECISO OUVIR ISSO! — berrou Torajo, tapando os ouvidos e correndo pelo corredor em direção aos fundos da casa. — EU VOU EMBORA! EU NÃO SOU PAGO PRA ISSO!
— Torajo, espera! A gente precisa marcar a data do casamento! — gritou Zulmi, saindo correndo atrás dele com as batatas estouradas na mão, deixando para trás um rastro de farelos e caos.
Linn apenas deu de ombros, virou as costas e começou a digitar no celular novamente, provavelmente narrando o acontecimento para Deus e o mundo. Azedo suspirou fundo, pegou a Pessy pelo braço com cuidado e a guiou para fora da sala, resmungando sobre como a humanidade não tinha mais salvação.
Em poucos segundos, a sala voltou a ficar silenciosa, restando apenas o pacote de batata vazio jogado no tapete e a tensão residual ainda faiscando no ar.
Morajo soltou um longo e pesado suspiro, passando a mão pelo rosto quente antes de encarar Analice, que ainda tinha aquele maldito sorriso sarcástico e divertido estampado na cara.
— Você é um pesadelo — murmurou ele, a voz rouca, sem conseguir esconder totalmente o brilho que ainda restava em seus olhos.
— Eu sou o seu pior pesadelo — corrigiu ela, aproximando-se mais um passo e puxando a jaqueta dele de novo, dessa vez sem pressa. — Agora... onde é que a gente tava antes desses idiotas entrarem estragando tudo?
Morajo hesitou por apenas meio segundo antes de puxá-la de volta para si com um puxão brusco, cedendo de vez ao caos.
— Cala a boca, Analice.
