
Sol de Vidro e Terra Firme
O bafo quente do asfalto começava a subir logo cedo, mas lá no alto da Rocinha, na cobertura do casarão envidraçado dos Allegretti, o vento que vinha de São Conrado ainda trazia um cheiro fresco de maresia misturado com terra úmida. Guilherme estava de pé na varanda de blindex, vestindo apenas um short preto largo e descalço, com uma caneca pesada de café preto na mão direita. O peitoral largo e sarado, riscado de tatuagens que contavam mais de duas décadas de correria no morro, subia e descia devagar. Aos trinta e nove anos, com um metro e noventa e três de pura imponência, a barba bem aparada no cavanhaque e aqueles olhos verdes atentos, ele mantinha a postura de quem não dava brecha pra vacilo de ninguém.
A porta de correr de vidro duplo se abriu de mansinho, revelando Letícia. Aos trinta e sete anos, a mulher parecia desafiar o próprio tempo: o cabelo liso na altura dos ombros ainda estava meio bagunçado do sono, as curvas do corpo bem delineadas num vestidinho de algodão cinza que marcava a cintura fina e o quadril largo. Ela se aproximou sem fazer barulho, abraçando o marido pelas costas e afundando o rosto entre as escápulas musculosas dele.
— Já de pé, meu rabugento? — murmurou ela, a voz rouca e preguiçosa.
Guilherme virou o pescoço de lado, soltando um suspiro longo que desarmava qualquer carranca que ele pudesse ostentar pros outros lá embaixo. Ele passou o braço livre pela cintura dela, puxando-a com força contra o peito.
— Tu sabe como é, coração — respondeu ele, a voz grossa vibrando perto do ouvido dela antes de deixar um beijo estalado no topo da cabeça da esposa. — O morro não dorme até tarde, e o Rick já mandou mensagem falando da movimentação lá no pé. Mas hoje eu não vou me estressar cedo não. Quero paz com a minha preta.
— Sei bem a tua paz — ela riu baixo, erguendo a ponta dos pés para beijar a boca dele com carinho, sentindo o gosto amargo do café nos lábios do marido. — Foi no quarto da Luna? Não ouvi ela resmungar hoje.
— Nem vai ouvir — Guilherme deu uma risada curta, negando com a cabeça enquanto beijava o pescoço cheiroso dela. — O Kael deve ter sequestrado a menina de novo. Aquele moleque não toma jeito.
No fim do corredor, no quarto isolado acusticamente onde não entrava nem o eco dos bailes de sexta, Kaelton abriu os olhos devagar. O teto escuro foi a primeira coisa que viu, antes de sentir o peso miúdo e quente dormindo atravessado em cima do seu peito nu. Luna, com seus sete meses de pura gordura nas dobrinhas e cabelinhos pretos desgrenhados, ressonava baixinho com o polegar enfiado na boca. Ele tinha ido lá pelas quatro da manhã no berço dela só pra tirar a pequena de lá e trazer pro seu colchão king-size; se deixasse com a mãe, Letícia acordava a cada espirro, e ele simplesmente não suportava a ideia de alguém incomodar a irmã.
A porta do quarto abriu sem aviso, num estalo seco. Bernardo entrou como um furacão, já com um short jeans detonado, sem camisa, o cordão grosso de ouro balançando no peito largo.
— Coé, manin, tá na Disney, caralho? — Bernardo falou alto, jogando uma almofada direto na cara do irmão. — Levanta essa carcaça aí que os moleques tão chamando lá na quadra de baixo. Vai moscando não!
Kael segurou a almofada com o reflexo rápido de quem sempre dividiu tudo na porrada com o gêmeo, mas o olhar verde que lançou em direção à porta foi mortal. O rosto liso e moreno se franziu numa carranca imediata.
— Fala baixo, porra — Kael rosnou entredentes, ajeitando a mão grande nas costas minúsculas de Luna, que deu uma mexidinha manhosa. — Não tá vendo a garota dormindo não, comédia? Se acordar ela agora, eu te quebro no meio.
Bernardo abriu aquele sorriso canalha que irritava meio mundo no colégio de São Conrado e se jogou de joelhos na beirada da cama, estendendo os braços compridos.
— Dá ela aqui, dá. Vem com o tio Bê, gordinha! — ele começou a fazer cócegas na barriga da bebê.
Luna abriu os olhos verdes iguaizinhos aos dos três homens daquela casa e, em vez de chorar com a luz que entrava da fresta da cortina, deu uma gargalhada banguela, jogando as perninhas pro ar. Bernardo a pegou pelas axilas num movimento rápido e a jogou pro alto, pegando-a no ar com precisão milimétrica. O gritinho estridente de euforia da menina ecoou pelo quarto.
— Tu é foda, Bê — resmungou Kael, levantando da cama com a postura pesada, coçando a nuca tatuada. — Dá ela aqui logo antes que tu derrube a garota no chão.
— Derrubo nada, tá maluco? — Bernardo riu, balançando a menina como se fosse um troféu enquanto ela agarrava a orelha dele com as mãozinhas grudentas. — A Luna ama o pai aqui, tu é mó chato, manin. Tu fica com essa cara de enterro o dia todo, parece que tá mastigando prego.
— Pelo menos eu não sou um palhaço que fica pagando simpatia pra todo mundo — Kael rebateu, pegando um short de tactel preto no armário e vestindo rápido.
Assim que estendeu os braços em direção à irmãzinha, o efeito foi imediato: Luna se jogou pra frente, abandonando o colo de Bernardo sem pensar duas vezes e grudando no pescoço de Kael como uma coala, enfiando o nariz babado na clavícula dele. Kael deu um meio-sorriso quase imperceptível, passando o braço firme pela bundinha dela, apoiando-a contra o corpo.
— Falei pra tu — Kael zombou, passando reto pelo irmão em direção à porta. — Ela sabe quem manda.
— Sabe é nada, ela é interesseira, isso sim — Bernardo retrucou, seguindo os dois pelo corredor comprido até a cozinha ampla da casa.
A mesa de mármore já estava cheia. Pães frescos da padaria da pracinha, frutas cortadas, queijo de minas e garrafas de suco natural. Letícia estava sentada ao lado de Stefanne, que tinha acabado de entrar com Ricardo pela porta lateral que ligava as duas casas vizinhas. Rick, com seu porte ameaçador, a cabeça raspada e as cicatrizes nos braços que lhe renderam o vulgo de Caveira no asfalto e no morro, já estava cortando um pedaço generoso de melancia.
— Bom dia pra quem é de bom dia — Rick soltou a voz grossa, levantando a sobrancelha pros sobrinhos. — Achei que os dois dondocos iam passar o sábado inteiro mofando no ar-condicionado. Já era pra tá aquecendo pro futebol lá na Teixeira.
— Ih, padrinho, se acalma que o dia tá só começando — Bernardo puxou uma cadeira com o pé, sentando de qualquer jeito e já catando um pão na cesta. — O Kael que tava de dengo com a patroa menor ali.
Stefanne esticou os braços em direção a Kael, jogando o cabelo loiro pra trás com uma risada divertida.
— Passa a minha afilhada pra cá, Kaelton! Deixa eu ver essa bochecha gostosa.
Kael deu um passo pra trás instintivamente, o maxilar travado. A menina apertou ainda mais a regata dele.
— Ela acabou de acordar, tia Ster. Tá cheia de sono ainda. Depois tu pega.
— Menino ciumento, parece o pai todinho, cruz credo — Ster bufou de brincadeira, voltando a tomar seu suco de laranja e trocando um olhar cúmplice com Letícia. — Lê, como é que tu aguenta três Guilhermes nessa casa? Um já é um castigo divino, agora três cópias autenticadas em cartório é covardia.
— Nem me fala — Letícia riu, ajeitando a xícara na mesa enquanto Guilherme, sentado na cabeceira, a puxava pela coxa debaixo da mesa, apertando com firmeza a carne macia da perna dela. Ela fingiu costume, mas o calor subiu pro pescoço.
— Tá reclamando de barriga cheia, coração — Guilherme interveio, a voz serena, mas autoritária, olhando pros gêmeos com aquele peso de pai que não precisava gritar pra se fazer entender. — Os moleques vão descer pro campinho agora com o teu tio. Sem gracinha na rua, ouviram? Já falei pra não ficar de marra com os crias da parte de baixo. É só pra suar a camisa e voltar pra almoçar.
— Tranquilo, coroa, a gente só vai dar aula pros caras — Bernardo disse de boca cheia, piscando pro irmão. — Coé, Kael, passa a Luna pra mãe logo aí pra gente descer, senão o sol vai esturricar nossa cabeça.
Kael relutou por dois segundos, mas entregou a menina com todo o cuidado no colo de Letícia. No instante em que os braços do irmão saíram de perto dela, Luna ameaçou abrir o berreiro, arregalando os olhos verdes marejados.
— Ô, meu amor, vem cá com a mamãe — Letícia acalmou a menina no peito, balançando-a de leve enquanto a pequena ainda tentava esticar o bracinho na direção de Kael. — Vai lá, filho. Deixa ela aqui.
Kael ajeitou a bermuda, bateu na palma da mão estendida de Rick e chamou Bernardo com a cabeça.
— Bora logo, manin, antes que eu perca a paciência.
Os três homens desceram a rampa do casarão rumo às vielas da Rocinha. O clima do morro já fervia: caixas de som nas lajes tocando funk antigo misturado com pagode dos anos noventa, cheiro de alho fritando nas casas humildes, mototáxis subindo e descendo com aquele zumbido característico desviando de cachorros e crianças descalças que corriam com pipas na mão.
— Fala aí, Magnatinha! — gritou um dos moleques que consertava uma moto na beira do beco, acenando pra Kael e Bernardo. — Vai ter pelada mesmo hoje ou vai arregar pros veteranos?
— Arregar o caralho, Vitinho! — Bernardo respondeu aos berros, rindo largo e fazendo o sinal da paz com os dedos. — Prepara as pernas que hoje eu vou te dar uma caneta que tu vai ter que voltar pra casa de quatro, comédia!
— Quero só ver, playboy de São Conrado! — o moleque rebateu na esportiva, rindo junto.
Kael apenas acenou com a mão fechada, sério como sempre, mas respirando fundo o ar da sua quebrada. Ele e Bernardo podiam até estudar na escola de elite na beira da praia, cercados de patricinhas e herdeiros metidos a besta que eles desprezavam e usavam só pra passar o tempo nas festas, mas o chão deles era aquele ali. Nenhuma garota do colégio chegava perto de tirar o sossego deles; mulher pra eles era só diversão de uma noite nos camarotes ou nas resenhas escondidas, sem apego, sem promessa. O que importava era a lealdade entre eles e a proteção da família.
Chegaram ao campinho de grama sintética gasto da comunidade. A rede estava furada em alguns pontos, e as paredes ao redor eram grafitadas com os nomes dos antigos e homenagens a quem já se foi. Tinha umas vinte pessoas em volta: tias com potes de sacolé caseiro, homens bebendo cerveja em copo descartável na mureta e uma garotada ansiosa pela bola rolar.
— Chegaram os astros — Tiago, um amigo de infância dos gêmeos que trabalhava na oficina perto da UPP desativada, jogou a bola no peito de Kael. — Pensei que o patrão tinha prendido vocês na coleira hoje.
— Cala a boca e joga, Tiaguinho — Kael dominou a bola no peito com a facilidade de quem jogava bola descalço desde os cinco anos, deixando a redonda cair no pé e chutando fraquinho na direção da trave improvisada. — Quem perder paga o engradado de refrigerante pros pivetes ali.
— Fechou! — Rick gritou da beirada, encostado na grade com os braços cruzados, só de olho na movimentação ao redor, garantindo que nada saísse do controle no território do cunhado.
O jogo começou quente, sem frescura. Nada de falta boba ou frescura de gramado perfeito; era chute na canela de leve, empurrão na linha lateral e muita resenha alta ecoando pelo morro. Bernardo corria feito um condenado, rindo a cada drible desconcertante que aplicava nos caras da rua, zoando todo mundo com aquele deboche nato.
— Pede a bênção pro teu pai aqui, caralho! — Bê gritou depois de passar a bola por entre as pernas de um zagueiro grandalhão, tocando rasteiro pro meio da área.
Kael apareceu como um trator vindo de trás, soltando a bomba de perna direita. A bola estufou a rede velha com força, fazendo a molecada que assistia na mureta gritar em coro:
— É gol, porra! Solta o som, DJ!
Kael correu em direção a Bernardo, e os dois se trombaram no ar com o peito nu suado de calor, rindo juntos num aperto de mão firme que terminou num abraço rápido.
— Boa, manin! — Bernardo bateu forte nas costas do irmão. — Essa foi na gaveta, sem chance pro frangueiro.
— Tu que tocou redondo, palhaço — Kael respondeu com a respiração ofegante, limpando o suor da testa com o antebraço. — Agora recua essa porra que os caras tão querendo vir pra cima.
Enquanto a pelada seguia na animação caótica da tarde carioca, lá em cima, no casarão, o clima era completamente diferente. A casa estava vazia no piso superior. Stefanne tinha levado Luna pro quintal da casa dela pra brincar na piscininha inflável, aproveitando o calor da tarde pra dar uma folga pra mãe da menina.
No quarto principal, onde as portas acústicas pesadas fechavam qualquer vestígio do mundo lá fora, Letícia estava prensada contra a cabeceira estofada da cama de casal. As mãos grandes e calejadas de Guilherme apertavam sua cintura com uma possessividade que não diminuía com os anos de casamento; pelo contrário, parecia que a idade só deixava o patrão da Rocinha mais faminto pelo corpo da mulher.
— Tu não presta, Guilherme — Letícia arquejou, jogando a cabeça pra trás no travesseiro macio enquanto os lábios quentes dele desciam ferozes pelo seu pescoço, mordiscando a pele sensível antes de descer pros seios fartos. — Os meninos vão voltar logo...
— Os moleques tão com o Rick lá embaixo, não voltam antes das quatro nem fodendo — ele rosnou contra a pele dela, puxando o vestido cinza de uma vez só por cima da cabeça dela e jogando no chão. — E mesmo se voltarem, ninguém entra nessa porra de quarto. Essa boceta é minha, preta. Só minha.
O palavreado sujo e seguro do marido fez o baixo ventre de Letícia queimar num espasmo conhecido. Ela enterrou as unhas bem feitas nos ombros largos e tatuados dele, puxando-o pra mais perto, sentindo o short dele já duro contra a sua coxa nua.
— Então fode logo, meu amor — ela pediu entre dentes, os olhos escuros brilhando com um desejo cru que só ele conseguia arrancar dela. — Fode do teu jeito.
Guilherme não esperou uma segunda ordem. Livrou-se do próprio short com um movimento rápido e bruto, abrindo as pernas dela com os joelhos largos e afundando o quadril de uma vez só, sem rodeios, preenchendo-a com a força e o peso dos seus quase dois metros de altura. Letícia soltou um gemido abafado contra o peito dele, as pernas envolvendo a cintura musculosa do marido enquanto a cama estalava sob o ritmo firme, ritmado e violento do amor dos dois. Não havia delicadeza desnecessária ali; era a posse mútua de dois corpos que se conheciam desde a adolescência, moldados pela dor, pela guerra do asfalto e pelo império que construíram juntos no topo daquele morro.
Quando o suor escorreu frio pelo peito de Guilherme e o clímax arrastou os dois pra um abismo de tremores e suspiros pesados, ele desabou sobre ela, segurando o rosto de Letícia entre as mãos grandes e beijando a boca dela com uma ternura que contrastava absurdamente com a violência da foda de minutos atrás.
— Minha preta — ele sussurrou contra os lábios úmidos dela, ofegante.
— Teu rabugento preferido — ela sorriu exausta, acariciando o cavanhaque dele com as pontas dos dedos.
Lá embaixo na rua, o jogo finalmente terminava. Com as bermudas sujas de poeira e o corpo brilhando de suor sob o sol escaldante das três da tarde, Bernardo e Kael vinham subindo a ladeira devagar, dividindo uma garrafa de dois litros de água gelada que Rick tinha comprado no boteco do Zé.
— Manin — Bernardo falou, empurrando o ombro do irmão de leve —, a gente tem que passar naquele shopping de São Conrado na segunda comprar aquela chuteira nova. A minha abriu o bico.
— Já é — Kael assentiu, tomando um gole generoso da garrafa antes de devolver pro gêmeo. — Mas tu que vai dirigir o carro do velho. Tô sem saco pra trânsito na volta.
— Tu tá sem saco pra viver, isso sim, seu comédia — Bernardo riu alto, o eco da risada se misturando com as buzinas e a batida funk que vinha da laje vizinha.
A Rocinha respirava viva, intensa e pulsante ao redor deles. No topo do morro, o casarão dos Allegretti continuava de pé, guardando os segredos, as brigas e o sangue de uma família que, no meio do caos do Rio de Janeiro, permanecia inabalável.
