
Sally face
Fandom: Sally face
Criado: 25/10/2026
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Azul Cobalto e Segredos de Metal
O Apartamento Addison sempre teve uma aura peculiar. O cheiro de chá velho do Sr. Addison misturado ao mofo das paredes descascadas criava uma atmosfera que, para qualquer pessoa normal, seria perturbadora. Mas para Sal Fisher, aquele era o seu lar. E naquele dia, o prédio parecia vibrar com uma energia diferente.
Sal estava sentado no chão do quarto de Larry, observando o amigo retocar uma pintura abstrata. O som pesado de uma banda de metal ecoava baixo pelo rádio de pilha, mas os pensamentos de Sal estavam longe dos acordes distorcidos.
— Você ouviu, Sal? — Larry perguntou, sem desviar os olhos da tela. — O 402 finalmente foi alugado.
Sal ajeitou as tiras de couro de sua máscara protética, sentindo um leve formigamento de curiosidade.
— Sério? Achei que ninguém queria morar lá depois do que aconteceu com... bem, você sabe.
— As pessoas esquecem rápido quando o aluguel é barato — Larry deu de ombros, limpando o pincel num trapo sujo. — Vi o caminhão de mudança hoje cedo. Parece que é alguém da nossa idade.
Sal sentiu um brilho de antecipação. Ele amava fazer amigos. Apesar da barreira física da máscara e dos olhares tortos que recebia na escola, ele sempre buscava o lado bom das pessoas. A ideia de alguém novo no prédio era como abrir um livro cujas páginas ele estava ansioso para ler.
— Eu deveria ir lá dar as boas-vindas — disse Sal, levantando-se e limpando a poeira de sua calça jeans rasgada.
— Agora? — Larry riu, jogando o pincel de lado. — Deixa a pessoa respirar, cara. Ela acabou de chegar.
— Um oi não mata ninguém, Larry. E se ela precisar de ajuda com as caixas?
Sal saiu do subsolo com passos leves. Seus longos cabelos azuis estavam presos em duas marias-chiquinhas, uma marca registrada que ele carregava com orgulho. Ao chegar no quarto andar, o corredor parecia mais estreito do que o habitual, bloqueado por algumas caixas de papelão empilhadas de forma precária.
Lá estava você.
Você estava de costas, tentando equilibrar uma caixa que parecia pesada demais enquanto buscava as chaves no bolso. Sal parou a alguns metros de distância, hesitante por um breve segundo. Ele sabia que sua aparência costumava assustar as pessoas no primeiro encontro. Mas o desejo de ser gentil sempre falava mais alto.
— Oi! Precisa de uma mão com isso? — a voz de Sal saiu abafada pela máscara, mas carregada de uma doçura genuína.
Você deu um pequeno pulo, surpresa pela voz repentina, e a caixa escorregou de suas mãos. Antes que atingisse o chão, Sal deu um passo rápido à frente e ajudou a segurá-la.
— Oh! Meu Deus, obrigada — você disse, soltando um suspiro de alívio.
Quando você se virou para olhar para ele, Sal sentiu algo estranho. Não era o medo habitual ou o desconforto que ele esperava ver nos olhos de um estranho. Você simplesmente o encarou, seus olhos percorrendo a máscara de porcelana branca com detalhes rosados e parando nos olhos azuis dele, que brilhavam através das aberturas.
— De nada — ele respondeu, sentindo as bochechas esquentarem por baixo do plástico. — Eu sou o Sal. Moro no 402. Quer dizer, no 402 mora você agora. Eu moro no 403!
Você soltou uma risada leve, um som que Sal achou instantaneamente a coisa mais bonita que já ouvira naquele prédio cinzento.
— Prazer, Sal. Eu sou a S/N. Acabei de me mudar. E sim, eu aceito ajuda. Essas caixas são muito mais pesadas do que parecem.
Sal ajudou você a levar a última pilha para dentro do apartamento. O lugar ainda estava vazio, com aquele cheiro de tinta fresca e poeira acumulada. Enquanto trabalhavam, ele percebeu como você agia com naturalidade perto dele. Você não desviava o olhar, não perguntava o que havia acontecido com o rosto dele e não parecia ter pressa para que ele fosse embora.
— Então — você começou, sentando-se em uma das caixas fechadas e limpando o suor da testa —, você mora aqui há muito tempo?
— Há alguns meses — Sal respondeu, sentando-se no chão, cruzando as pernas. — Este lugar tem suas... peculiaridades. Mas as pessoas são legais. Bom, a maioria delas.
— Eu percebi o clima peculiar — você comentou com um sorriso brincalhão. — O zelador me deu um olhar que parecia que eu era um fantasma.
— Ah, o Sr. Addison? — Sal riu. — Ele é inofensivo. Só não aceite o chá dele se você tiver estômago sensível.
— Dica anotada — você disse, olhando para ele com curiosidade. — E esse cabelo, Sal? É azul natural ou você caiu num pote de tinta?
Sal soltou uma risada abafada, levando a mão a uma das marias-chiquinhas.
— Tinta. Achei que combinava com a minha personalidade vibrante.
— Combina mesmo — você afirmou, e o tom de sua voz fez o coração de Sal dar um solavanco. — É uma cor linda.
Houve um silêncio confortável entre vocês por um momento. Sal sentia uma conexão imediata, algo que raramente acontecia tão rápido. Ele queria contar a você sobre o Gizmo, seu gato, sobre Larry e a banda deles, e sobre os mistérios que ele jurava que o prédio escondia. Mas, acima de tudo, ele só queria continuar ali, naquele espaço pequeno, ouvindo você falar.
— Ei, Sal — você chamou, quebrando o silêncio.
— Sim?
— Obrigada por não me deixar derrubar aquela caixa. Tinha coisas de vidro ali. Eu teria tido um péssimo primeiro dia se não fosse por você.
— Não foi nada, S/N — ele disse, levantando-se. — Se precisar de qualquer coisa, mesmo, é só bater na porta ao lado. Eu passo a maior parte do tempo jogando Gear Boy ou no subsolo com o Larry.
— Larry?
— Meu melhor amigo. Você vai gostar dele. Ele é... intenso, mas tem um bom coração.
Você se levantou e caminhou com ele até a porta.
— Acho que vou gostar de morar aqui — você disse suavemente.
Sal parou na soleira da porta e se virou.
— Eu também acho que vou gostar que você more aqui.
Ele acenou e caminhou em direção ao seu próprio apartamento, sentindo um sorriso largo escondido sob a máscara. Quando entrou no 403, Gizmo veio recebê-lo, roçando nas suas pernas. Sal pegou o gato no colo e suspirou.
— Ela é legal, Gizmo. Muito legal.
Nos dias que se seguiram, a presença de S/N tornou-se uma constante na vida de Sal. O que começou com uma ajuda na mudança transformou-se em visitas diárias. Sal apresentara você a Larry, Todd e Ashley, e você se encaixara no grupo como se sempre tivesse feito parte dele.
Certa tarde, o céu lá fora estava carregado de nuvens cinzas, prometendo uma tempestade típica de Nockfell. Sal e você estavam sentados no sofá da sala dele, dividindo um fone de ouvido conectado a um walkman.
— Essa música é incrível — você sussurrou, fechando os olhos e balançando a cabeça no ritmo do metal melódico.
Sal não estava ouvindo a música. Ele estava observando você. A forma como a luz fraca da sala batia no seu rosto, a maneira como você não parecia se importar com o silêncio dele. Com você, Sal não sentia a necessidade de ser o "garoto da máscara" que tentava deixar todos confortáveis. Ele era apenas o Sal.
— S/N? — ele chamou baixo.
Você abriu os olhos e virou a cabeça para ele, ainda com o fone em um dos ouvidos.
— Oi, Sal.
— Por que você nunca perguntou? — ele hesitou, mexendo nervosamente na bainha da blusa. — Sobre a máscara. Todo mundo pergunta na primeira hora.
Você se ajeitou no sofá, ficando de frente para ele. Seu olhar era calmo, sem sombra de julgamento.
— Eu achei que, se você quisesse me contar, contaria quando estivesse pronto — você respondeu com simplicidade. — Além disso, a máscara faz parte de quem você é agora. E eu gosto de quem você é.
Sal sentiu um nó na garganta. Ele passou por tanto sofrimento, tanta perda e tanto preconceito, que ouvir aquelas palavras vindas de você era como um bálsamo.
— Foi um acidente — ele começou, a voz um pouco mais trêmula. — Há muito tempo. Um cachorro... e um homem com uma arma. Minha mãe... ela tentou me proteger.
Você não recuou. Pelo contrário, você estendeu a mão e tocou gentilmente o ombro dele.
— Sinto muito que você tenha passado por isso, Sal. De verdade.
— Eu não gosto que as pessoas sintam pena — ele disse, tentando recuperar a compostura.
— Não é pena — você o corrigiu, aproximando-se um pouco mais. — É admiração. Você é a pessoa mais gentil e corajosa que eu já conheci. A máscara não esconde isso. Na verdade, acho que seus olhos dizem tudo o que eu preciso saber.
Sal sentiu uma onda de afeto tão forte que, por um momento, esqueceu-se de toda a dor do passado. Ele se inclinou para frente, encostando a testa na sua. O contato do plástico frio da máscara contra a sua pele quente era um contraste estranho, mas carregado de significado.
— Obrigado, S/N — ele sussurrou. — Por ser minha amiga. Por ter se mudado para cá.
— Eu que agradeço, Sal Fisher — você disse, sorrindo contra a máscara dele. — O 402 teria sido muito solitário sem você.
Naquela tarde, enquanto a chuva começava a bater nas janelas do Apartamento Addison, Sal percebeu que, embora o prédio pudesse estar cheio de segredos sombrios e fantasmas do passado, ele tinha encontrado algo real. Ele tinha encontrado alguém que via além da porcelana, alguém que via o garoto de cabelo azul que só queria amar e ser amado.
E para Sal, isso era mais do que qualquer mistério que ele pudesse resolver. Era a vida, em toda a sua complexa e bela simplicidade.
— Ei, Sal? — você chamou novamente, ainda próxima.
— Sim?
— Você acha que o Larry ficaria bravo se a gente não descesse para o ensaio da banda hoje? Está chovendo muito.
Sal riu, um som vibrante que preencheu a sala.
— Acho que ele vai entender. Ele provavelmente está dormindo ou desenhando alguma coisa épica.
— Ótimo — você disse, recostando a cabeça no ombro dele. — Então vamos ouvir esse álbum de novo.
Sal fechou os olhos, sentindo o peso reconfortante de você ao lado dele. Ele sabia que o futuro era incerto e que Nockfell guardava perigos que eles mal podiam imaginar, mas naquele momento, com o som da chuva e a presença de S/N, Sal Fisher sentia-se, pela primeira vez em muito tempo, completamente em casa.
Ele não precisava tirar a máscara para ser visto. E isso era tudo o que ele sempre quis.
