
Muralhas de Gelo
Fandom: Off Campus
Criado: 26/10/2026
Tags
Neurobiologia do Ego Ferido
— Eu juro pela minha vida, Emily, que dessa vez foi a última — declarou Allie Hayes, ajeitando a alça fina do vestido preto enquanto se olhava pelo espelho de corpo inteiro. Os olhos escuros dela brilhavam com uma mistura perigosa de determinação teatral e desespero pós-término. — Sean e eu acabamos. Finito. O capítulo foi encerrado, o livro foi queimado e as cinzas foram jogadas no rio Charles.
Sentada na beirada da cama do dormitório, Emily Silva apenas arqueou uma sobrancelha bem delineada, sem desviar os olhos do gloss labial que aplicava com precisão cirúrgica. Ela conhecia aquele discurso de cor e salteado. Era a décima vez no semestre que Allie decretava a morte definitiva daquele relacionamento longo e sufocante.
— Engraçado — retrucou Emily, guardando o produto na bolsa minúscula e lançando à amiga um sorriso afiado —, porque tenho quase certeza de que na semana passada você usou exatamente a mesma metáfora das cinzas, mas Sean ainda estava tomando café na nossa cozinha na terça-feira de manhã.
— Aquilo foi uma recaída logística! Ele precisava pegar o carregador do notebook!
— E o carregador ficava dentro da sua boca? Porque foi isso que pareceu quando entrei na sala.
Allie soltou um suspiro dramático, jogando as mãos para o alto com a teatralidade típica de uma veterana de Artes Cênicas.
— Você é cruel, Silva. Desprovida de empatia humana. Onde foi parar a sua vocação para a psicologia? Não deveria estar acolhendo minhas dores com palavras gentis e um chá de camomila?
Emily se levantou, ajeitando o cropped vermelho-escuro e a calça de cintura alta que abraçava suas curvas com uma precisão que só anos de musculação pesada e genética latina podiam proporcionar. Seus cabelos castanhos ondulados caíam em cascatas volumosas pelas costas. Ela adorava Allie com cada fibra de seu corpo, e era exatamente por isso que estava ali, prestando-se ao sacrifício de abandonar uma noite perfeita de estudos de neurociência e maratona de clipes pop para ir a uma festa universitária lotada de gente suada.
— Minha empatia se esgota quando o padrão autodestrutivo vira um ciclo de Pavlov previsível — disse Emily, pegando a jaqueta jeans. — Mas como eu te amo e não confio no seu autocontrole para não mandar mensagem bêbada para o Sean à meia-noite, vou ser sua babá honorária hoje. Apenas me prometa que não vamos ficar a noite toda ouvindo o coro de bajulação dos atletas.
— Não posso prometer nada — Allie riu, enganchando o braço no de Emily. — É uma festa na casa do hóquei, Em. Metade do campus vai estar lá para lamber o chão por onde aqueles caras passam.
— Patético — resumiu Emily, revirando os olhos castanhos. — Pura carência paternal projetada em caras que usam patins e acham que acertar um disco em uma rede é o auge da evolução da espécie.
Vinte minutos depois, o arrepio no estômago de Emily não tinha nada a ver com ansiedade social e tudo a ver com pura aversão ao ambiente. A casa de festas onde moravam os quatro principais astros do time de hóquei da Briar University estava transbordando. A música eletrônica vibrava no assoalho de madeira com uma intensidade que fazia os dentes de Emily chacoalharem, e o cheiro característico de cerveja derramada, suor e perfumes caros misturados criava uma atmosfera quase tóxica.
Para onde quer que Emily olhasse, o fenômeno se repetia: calouras com copos vermelhos nas mãos, rindo alto demais de piadas sem graça contadas por grandalhões de ombros largos que ostentavam o moletom da Briar como se fosse uma medalha de honra ao mérito. Era um estudo sociológico fascinante e, ao mesmo tempo, deprimente.
— Olha só quem está ali — murmurou Allie em seu ouvido, gesticulando discretamente com o queixo em direção ao canto da sala de estar.
Emily seguiu o olhar e viu o núcleo do time reunido como a realeza de um feudo primitivo.
Dean DiLaurentis estava recostado contra o batente da porta, o cabelo loiro perfeitamente despenteado e um sorriso cínico nos lábios enquanto inclinava a cabeça para ouvir duas garotas loiras que pareciam prestes a desmaiar aos seus pés. Emily já tinha ouvido falar dele: o playboy bilionário que tratava a vida acadêmica como um intervalo entre duas ressacas, mas que misteriosamente tirava notas excelentes em Direito.
Perto dali, John Logan gesticulava com um copo na mão, arrancando gargalhadas altas de um grupo ao redor, embora houvesse algo em seus olhos escuros — uma sombra sutil de cansaço ou tensão — que não passava despercebido pelo olhar clínico de Emily. Mais afastado, parecendo uma fortaleza inabalável com seu porte de lenhador do Texas, John Tucker conversava tranquilamente com alguns colegas de equipe, parecendo o único adulto funcional em um raio de três quilômetros.
E então, bem no centro de toda a gravidade do cômodo, estava Garrett Graham.
O capitão.
Garrett era alto, com músculos talhados sob uma camiseta cinza justa e cabelos castanhos ligeiramente desgrenhados. Ele tinha aquele tipo de beleza clássica e irritantemente perfeita, sustentada por um par de olhos cinzentos que pareciam avaliar o mundo com a certeza absoluta de que tudo pertencia a ele. Três garotas disputavam sua atenção no momento, rindo estridentemente a cada palavra que saía de sua boca, enquanto ele exibia um sorriso complacente, acostumado até o tédio com aquela adoração cega.
— Não olhe muito, Allie — zombou Emily, falando perto do ouvido da amiga para superar a música. — Se você respirar muito forte na direção dele, capaz de engravidar só pelo ego inflado que paira no ar.
Allie riu alto, mas seu olhar vagou um pouco além, parando em Dean. Por um segundo fulminante, os olhos azuis do loiro cruzaram a sala e encontraram os de Allie, faiscando com um interesse quase imediato na silhueta curvilínea da aspirante a atriz. Emily sentiu a amiga tensionar o braço.
— Emily, eu vou pegar uma bebida — avisou Allie, subitamente inquieta. — Preciso de vodca antes que eu faça alguma besteira.
— Nada de vodca pura, Hayes! — avisou Emily. — Misture com suco, pelo amor de Deus. Eu vou até a cozinha ver se encontro água mineral que não tenha sido batizada.
Separando-se da amiga no mar de corpos dançantes, Emily abriu caminho com determinação. Ela não se intimidava com o espaço abarrotado; crescendo em uma casa cheia com dois irmãos mais velhos e uma dúzia de primos barulhentos, Emily sabia perfeitamente como usar os quadris e os cotovelos para abrir passagem sem perder a postura.
A cozinha estava apenas marginalmente menos caótica que a sala. Vários barris de cerveja ocupavam os cantos, e garrafas vazias cobriam a ilha central. Emily se aproximou da geladeira, decidida a encontrar algo que hidratasse seu cérebro e a mantivesse lúcida para supervisionar Allie.
Ela puxou a porta da geladeira, caçou uma garrafa fechada de água com gás na prateleira de baixo e a abriu, encostando-se na bancada de mármore para beber em paz.
— Você sabe que isso aí é praticamente uma ofensa às regras da casa, não sabe?
A voz era profunda, suave e carregada de uma arrogância bem-humorada que Emily reconheceria mesmo que estivesse de olhos vendados.
Ela baixou a garrafa devagar e olhou para o lado. Garrett Graham estava ali, a meio metro de distância, com uma garrafa de cerveja pendendo entre os dedos longos e um sorriso de canto que provavelmente derretia calouras inocentes aos montes pelos corredores do campus. Os olhos cinzentos dele estavam fixos no rosto dela, cheios de curiosidade genuína.
Emily não sorriu. Não corou. Nem sequer ajeitou o cabelo. Ela simplesmente sustentou o olhar, piscando uma única vez com uma calma glacial.
— As regras da casa foram escritas por pessoas que acham que micose de vestiário é uma medalha de honra, Graham? — retrucou ela, com a voz aveludada e um tom mordaz. — Se for o caso, corro o risco com prazer.
As sobrancelhas de Garrett se ergueram de surpresa. O sorriso dele titubeou por uma fração de segundo, antes de se alargar em algo mais intrigado. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, invadindo seu espaço pessoal com a naturalidade de quem nunca foi impedido de entrar em lugar nenhum.
— Você sabe meu nome — constatou ele, inclinando a cabeça.
— Difícil não saber — disse Emily, cruzando os braços e destacando a postura altiva. — A faculdade inteira trata você como a segunda vinda de Cristo, só que com menos milagres e mais penalidades por conduta antidesportiva.
Garrett soltou uma risada curta, claramente desconcertado, mas fascinado. Ele olhou Emily de cima a baixo, demorando-se nas curvas generosas do quadril latino e nos lábios grandes e bem-desenhados que pareciam feitos para cuspir sarcasmo. Ele vasculhou a própria memória, procurando algum rastro daquela garota em suas aulas, nas outras festas ou nas arquibancadas do rinque, e não encontrou nada. Absolutamente nada. Uma garota bonita como aquela não passaria despercebida por ele em circunstâncias normais.
— E você é...? — perguntou ele, apoiando uma das mãos na bancada ao lado dela, inclinando-se com aquele magnetismo ensaiado.
— Alguém que está ocupando este espaço físico exclusivamente para impedir que minha melhor amiga cometa crimes passionais — respondeu ela com desdém elegante. — Portanto, não se preocupe em puxar conversa fiada de capitão de equipe. Não vai funcionar.
Garrett estreitou os olhos cinzentos, o orgulho ferido finalmente começando a latejar sob a pele bronzeada.
— Conversa fiada? Eu só estava sendo educado, princesa.
— Emily — corrigiu ela, fria como gelo seco. — E a sua definição de educação geralmente envolve tentar levar calouras vulneráveis para o andar de cima antes do segundo período do jogo de domingo. Eu conheço o roteiro. É clássico, previsível e neuroquimicamente monótono.
Garrett franziu a testa, genuinamente confuso com o vocabulário.
— "Neuroquimicamente monótono"? Que porra isso deveria significar?
— Significa que a sua autoconfiança exacerbada não passa de um mecanismo de compensação biológico para a necessidade constante de validação externa — explicou Emily, dando um passo para o lado e quebrando a cerca que o corpo dele tentava formar. Ela o encarou com aqueles olhos castanhos expressivos, que pareciam capazes de ler até o extrato bancário de sua alma. — Você precisa que todas essas garotas olhem para você como se você fosse o centro do universo para mascarar o vazio existencial de saber que a sua relevância dura exatamente sessenta minutos sobre o gelo. É triste, na verdade. Mas fascinante sob a ótica da neurociência comportamental.
O silêncio que se instalou entre os dois durou alguns segundos, pesado e tenso, cortado apenas pelo eco distante do grave da música. Garrett parecia ter levado um soco no estômago. Ninguém nunca falava com ele daquele jeito. Ninguém. As pessoas o adoravam, o temiam ou queriam dormir com ele. Mas aquela garota — com aquele corpo escultural e boca sarcástica — acabara de dissecá-lo como um sapo em uma aula de biologia de ensino médio, sem demonstrar a menor gota de hesitação.
— Você não me conhece — disse Garrett, a voz perdendo um pouco do tom brincalhão e ganhando uma nota mais áspera, defensiva. A sombra dos abusos do pai e da pressão constante que carregava nas costas pareceu ameaçar vir à tona por um instante fugaz.
— Não conheço — concordou Emily, com uma tranquilidade devastadora. — E, sinceramente, não tenho o menor interesse em conhecer. Bom jogo na sexta, Graham. Tente não ser suspenso.
Ela deu as costas a ele, caminhando em direção à saída da cozinha com passos firmes e o movimento fluido dos quadris que arrancaria o fôlego de qualquer homem são. Garrett ficou paralisado no lugar, com a garrafa de cerveja esquecida na mão, os nós dos dedos ficando brancos pelo aperto.
— Ei! Graham! — Logan surgiu de repente, com um sorriso torto e um braço jogado por cima dos ombros do capitão, cheirando a rum. — Cara, o Dean está quase convencendo aquela morena do teatro a subir pro quarto dele, mas ela parece que vai morder o nariz dele fora se ele insistir demais. O que você tá encarando aí feito uma estátua?
Garrett piscou, forçando a mente a voltar ao presente. Ele ainda sentia a ferroada das palavras daquela garota na sua pele. "Neuroquimicamente monótono". "Necessidade de validação". Quem diabos ela pensava que era?
— Logan — disse Garrett, a voz tensa, sem tirar os olhos da multidão onde Emily acabara de desaparecer. — Você sabe quem é aquela garota? Cabelo castanho comprido, lábios grandes, calça preta justa... parece que passa mais tempo agachando na academia do que respirando?
Logan esticou o pescoço, procurando no meio da pista de dança.
— Ah, a amiga da menina do teatro? O Tucker comentou mais cedo. Acho que o nome dela é Emily. Silva, eu acho. Estuda psicologia. Por quê? Levou um fora, capitão?
Logan começou a rir da própria piada, achando a hipótese absurda.
Garrett não riu. Pela primeira vez em meses, talvez anos, seu cérebro não estava focado na próxima jogada contra Harvard ou na planilha de treinos da manhã de sábado. Estava focado na sensação bizarra, irritante e inexplicavelmente viciante de ter sido tratado como um nada por alguém que parecia enxergar exatamente através da sua armadura.
— Não foi um fora — resmungou Garrett, tomando um gole generoso e amargo de sua cerveja, sentindo o sangue ferver de um jeito totalmente novo. — Foi uma declaração de guerra.
