
Amor proibido
Fandom: Lula e Luís Fernando
Criado: 26/10/2026
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O Vermelho Entre Nós
Acordei naquele domingo com o peito batendo no ritmo acelerado de quem sabe que o próprio destino está sendo jogado sobre a mesa. O sol de outubro filtrava pelas frestas da persiana do meu quarto, desenhando listras douradas no lençol amarrotado. Fiquei alguns minutos imóvel, encarando o teto, deixando a consciência despertar por completo. Era o dia do segundo turno. O ar parecia mais denso, como se toda a cidade de São Paulo estivesse prendendo a respiração ao mesmo tempo.
Levantei-me e fui direto para a cozinha, com o piso frio acordando a sola dos meus pés. Enquanto a água fervia no fogão, o aroma amargo do café recém-passado começou a preencher o apartamento, trazendo um conforto momentâneo. Encostei na pia, segurando a caneca fumegante entre as mãos, e meus pensamentos inevitavelmente foram parar nele.
Não era apenas admiração cívica; havia algo mais fundo, quase inconfessável, que ardia embaixo da minha pele. Eu tinha uma fascinação por Lula que ultrapassava qualquer discurso de palanque. Era a força crua daquele homem, a imponência de um sobrevivente, a voz rouca e firme que parecia ressoar diretamente no estômago de quem o escutava. Eu sabia, com absoluta clareza, que ele era casado com Janja, que havia toda uma liturgia e uma vida estruturada ao redor dele, mas a mente e o desejo não obedecem a regras institucionais. O que eu sentia era visceral, uma atração quente que me fazia corar só de encarar as transmissões na televisão.
Esperei o início da tarde para votar. Por volta das duas horas, vesti uma camiseta vermelha desbotada que se ajustava bem aos meus ombros e desci para a rua. A caminhada até a minha seção eleitoral foi feita com passos firmes. O colégio estava movimentado, repleto de olhares cruzados, faixas e tensões veladas. Na cabine, diante da urna eletrônica, meu dedo quase tremia ao apertar os dígitos. O som agudo da confirmação soou como uma sinfonia particular de alívio e expectativa. Confirmei. Estava feito.
Voltei para casa e juntei forças para enfrentar as horas seguintes. O tempo parecia se arrastar em agonia até que as primeiras urnas começassem a ser apuradas. À medida que as porcentagens subiam na tela, meu coração saltava na garganta. E então, quando a matemática finalmente selou a história, anunciando a virada e a vitória épica para aquele quarto mandato tão disputado, o grito entalado na minha garganta rasgou o silêncio do bairro. Buzinas, fogos, janelas batendo, panelas retinindo no ar quente da noite.
O celular tocou imediatamente na mesa de centro. Era Maysa.
— Luís Fernando! — gritou ela do outro lado da linha, a voz quase inaudível sob o barulho de apitos. — Pelo amor de Deus, sai dessa casa agora! A Lívia já tá descendo a Consolação comigo! Vamos pra Paulista!
— Já estou indo! — respondi, rindo com o peito inflado de euforia pura. — Me esperem na esquina do Trianon!
Enfiei a carteira e o celular no bolso e saí em disparada. As estações de metrô eram rios caudalosos de euforia. Quando cheguei à Avenida Paulista, o asfalto tremia. Era um mar vivo, ondulante e luminoso de tecido vermelho, bandeiras gigantescas dançando sob as luzes dos postes e dos telões. Encontrei Maysa e Lívia no meio do empurra-empurra festivo; nós nos abraçamos com força, pulando juntos como se o chão não tivesse peso.
— A gente conseguiu, garoto! — berrou Lívia, puxando meu braço enquanto ajeitava o cabelo suado na testa. — Ele vai falar daqui a pouco no caminhão! Temos que chegar mais perto!
— É impossível, Lívia, olha o mar de gente! — advertiu Maysa, mas já estava rindo, sendo empurrada pela maré humana que convergia para a frente do trio elétrico principal.
Fomos espremidos, arrastados pela corrente de corpos em festa. Minha respiração ficou curta não pelo aperto, mas pela antecipação febril. Aos poucos, em meio a desculpas, sorrisos e abraços de desconhecidos fraternos, conseguimos nos aproximar da grade de contenção, onde a segurança tentava manter uma pequena brecha aberta para a equipe técnica e para os carros oficiais.
E então ele subiu.
O som do microfone ecoou pela avenida inteira, calando momentaneamente os cânticos para depois fazê-los explodir com o triplo da força. Ali estava ele. De casaco escuro, os cabelos brancos brilhando sob os refletores implacáveis, a postura pesada e sólida como uma rocha esculpida pela tempestade. Janja estava ao lado, sorrindo, erguendo os braços dele para o alto, festejando a vitória histórica.
Mas os meus olhos estavam cravados exclusivamente nele. A cada palavra áspera que saía dos lábios de Lula, a cada inflexão rouca carregada de cansaço, dor e triunfo, meu corpo respondia com uma descarga elétrica. Havia um magnetismo quase insuportável no jeito como ele gesticulava, a barba bem cuidada, o peito largo se expandindo, a aura pesada de autoridade e virilidade indomável.
Quando o discurso terminou, o caminhão começou a abrir espaço e Lula desceu acompanhado pelos seguranças para fazer o trajeto próximo às grades, saudando o público que esmagava as barreiras em lágrimas.
O tumulto aumentou. Maysa segurava a manga da minha camisa, enquanto Lívia tentava levantar o celular acima das cabeças.
— Ele tá vindo pra cá! — gritou Maysa no meu ouvido. — Luís, ele tá vindo!
O ar sumiu dos meus pulmões. O cordão de isolamento rangeu sob a pressão da multidão. Seguranças de terno preto, com pontos nos ouvidos, tentavam conter a onda humana, mas Lula avançava teimosamente, tocando as mãos estendidas, olhando as pessoas nos olhos, absorvendo o calor de quem o esperava há anos.
Foi nesse instante que aconteceu.
Nossos olhares se cruzaram no meio da balbúrdia. Em meio a milhares de rostos, os olhos escuros e cansados dele travaram diretamente nos meus. O mundo pareceu perder o áudio. Foi um choque físico, repentino e denso, como se o ar entre nós tivesse sido subitamente ionizado. Não havia apenas o reconhecimento paternal de um líder para o seu eleitor; havia uma faísca crua, intensa, um peso quase indecente de atenção mútua. Senti um calor violento subir pelo meu pescoço, alcançando minhas bochechas. Meu olhar não baixou, e o dele tampouco. As pupilas dele dilataram ligeiramente sob a luz crua dos holofotes, fitando a curva do meu rosto, a minha boca entreaberta pelo esforço de respirar.
Lula deu dois passos firmes em minha direção, ignorando um dos agentes que tentava desviar seu caminho. Ele estendeu a mão grande, calejada, e antes que eu pudesse pensar em qualquer protocolo, segurei seus dedos.
O toque foi quente, firme demais, quase possessivo.
— Vem cá, garoto — disse ele.
A voz saiu rouca, abafada pelo barulho ao redor, mas soou nítida dentro da minha cabeça, como um sussurro ao pé do ouvido. Antes que os seguranças pudessem intervir com rigor, a mão dele puxou levemente a minha nuca, atraindo meu corpo para além da grade metálica, e nos fundimos em um abraço.
O contato foi arrebatador. Senti o peito dele contra o meu, a textura grossa do tecido do seu casaco, o calor intenso do seu corpo suado pela tensão da noite misturado a um cheiro amadeirado e marcante de colônia e couro. O abraço durou mais do que qualquer aperto de mão protocolar deveria durar. Os braços fortes dele envolveram minhas costas com uma pressão deliberada, fazendo meus músculos estremecerem sob a camiseta vermelha.
Enquanto meu rosto estava colado ao ombro dele, a boca áspera de Lula roçou de leve perto da concha do meu ouvido quando ele falou:
— Obrigado por estar aqui comigo nessa luta.
Minha voz quase não saiu, embargada por um nó de desejo e reverência.
— Eu não podia estar em outro lugar — murmurei, colando minhas palmas nos ombros dele, sentindo a solidez dos seus músculos. — Eu... eu preciso te dizer uma coisa.
Ele se afastou apenas alguns centímetros, mantendo uma das mãos firmemente espalmada na lateral do meu pescoço, o polegar roçando a linha do meu queixo com uma intimidade que fez meu sangue ferver. Janja estava alguns passos atrás, cumprimentando outras pessoas, alheia à microtensão que quase crepitava entre nós dois. Lula não desviou o olhar dos meus lábios nem por um segundo antes de voltar aos meus olhos.
— Diga — ordenou ele em tom grave, os olhos semicerrados em cumplicidade.
— Eu consegui entrar no Instituto Federal por causa de você — soltei, o peito arfando. — Pelas suas políticas, pelas cotas, pelas bolsas. Minha vida inteira mudou por sua causa.
O olhar dele suavizou, mas sem perder aquela chama profunda, quase devoradora, que carregava. Os cantos da boca dele curvaram-se em um meio sorriso pesado, cheio de afeto e de uma satisfação palpável.
— O mérito é seu, meu querido — disse ele, a voz descendo uma oitava, tornando-se mais aveludada. A mão dele na minha nuca exerceu uma pressão sutil, puxando-me um milímetro mais para perto. — O país é feito pra homens como você brilharem. E você vai longe, eu tenho certeza absoluta.
— Vamos tirar uma foto, presidente? Por favor! — gritou Lívia ao meu lado, empurrando o celular sobre a grade com os olhos arregalados de choque e admiração.
Lula não soltou meu corpo; em vez disso, puxou-me de lado, colando seu ombro largo contra o meu peito para se enquadrar na câmera. O calor que irradiava dele era avassalador. Olhei para a lente do aparelho enquanto a tela piscava três vezes, gravando aquele instante eterno. Ao terminar, ele virou o rosto para mim mais uma vez. A distância entre as nossas respirações era mínima, perigosa. Seus olhos desceram uma última vez até os meus lábios antes de sustentarem meu olhar com uma intensidade que quase me fez perder o equilíbrio.
— Não esquece do que eu te falei — disse ele baixinho, apertando meu ombro com firmeza uma última vez antes de ser suavemente conduzido pela segurança. — Cuida desse futuro.
— Eu nunca vou esquecer — respondi, sem fôlego.
Ele me deu uma piscadela quase imperceptível, um gesto carregado de segredo e cumplicidade, antes de se virar para a multidão e continuar sua marcha triunfal pela avenida.
Fiquei estático onde estava, com os dedos dormentes agarrados à grade de ferro. Meu corpo inteiro latejava. O ponto exato na lateral do meu pescoço onde a mão dele havia repousado parecia queimar sob a brisa fresca da madrugada. Maysa me sacudiu com força pelos ombros, berrando palavras que eu mal conseguia processar.
— Meu Deus do céu, Luís! — exclamava ela, pasma. — O que foi isso?! Ele praticamente te engoliu naquele abraço! Você viu o jeito que ele te olhou?!
— Ele me segurou... — sussurrou Lívia, revendo a foto na galeria do celular. — Olha aqui, Luís! Ficou perfeita! Vocês parecem... caramba, vocês parecem íntimos há séculos!
Peguei o aparelho com as mãos trêmulas. A imagem capturada sob a luz forte dos telões mostrava meu rosto corado, os olhos brilhando em êxtase puro, e Lula ao meu lado, segurando-me com possessividade, um sorriso largo e seguro nos lábios grisalhos. Havia uma eletricidade quase visível na fotografia, uma faísca impossível de mascarar.
Continuamos na avenida por mais algumas horas, mas a minha mente já não estava mais nos discursos, nem na música dos trios, nem nas latas de cerveja abertas pelas calçadas. Eu caminhava como se estivesse flutuando sobre uma brasa viva. Toda vez que fechava os olhos, sentia o cheiro amadeirado do casaco dele invadindo meus sentidos e a textura áspera daquela mão em volta do meu pescoço.
A comemoração começou a se dispersar aos poucos quando o relógio da torre do rádio marcou quase uma hora da manhã. O cansaço finalmente começou a cobrar seu preço dos corpos exaustos da multidão.
— Vamos embora, gente? — pediu Maysa, bocejando e ajeitando a alça da bolsa transversal. — Meus pés estão em carne viva. Se a gente não pegar o último trem, vamos ter que voltar a pé.
— Vamos — concordou Lívia, guardando o telefone no bolso da jaqueta. — Amanhã a ressaca dessa vitória vai bater pesado, mas valeu cada segundo.
Caminhamos juntos em direção à entrada da estação Consolação, descendo os degraus de concreto enquanto o eco dos últimos cantos ainda vibrava do asfalto acima de nós. Durante toda a viagem de volta, sentei-me no banco plástico ao lado das meninas, calado, apoiando a testa contra a janela fria do vagão.
Maysa e Lívia riam baixinho, comentando sobre os discursos, sobre a multidão, sobre o alívio que seria respirar novos ares a partir daquele dia. Eu apenas sorria mecanicamente, concordando com a cabeça quando necessário. Mas por dentro, meu peito ainda ardia com o fogo daquela troca de olhares.
Eu havia votado na esperança de um país, mas havia saído daquela avenida marcado pelo fogo de um homem. E enquanto o trem cortava os túneis escuros de São Paulo levando-me de volta à solidão do meu quarto, eu sabia, com uma certeza desesperada e silenciosa, que aquela presença nunca mais deixaria a minha memória.
