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Abbie

Fandom: Fundamental paper education FPE

Criado: 26/10/2026

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Geometria do Medo

O tecido áspero da corda ardia contra a pele frágil de papel. Cada centímetro do corpo de Abbie tremia com uma intensidade febril, como se a qualquer segundo a estrutura delicada que o mantinha de pé pudesse simplesmente se rasgar ao meio. Ele não estava na sala de aula. Não estava nos corredores monocromáticos da Paper School, onde os ecos dos passos apressados de outros alunos costumavam mascarar, ainda que fracamente, a sensação constante de perigo.

Ele estava na casa da Miss Circle.

O quarto ao seu redor era escuro e sufocante. As paredes pareciam feitas de uma cartolina grossa e manchada, adornadas com figuras geométricas desenhadas a carvão e fórmulas matemáticas pontiagudas que pareciam prontas para sangrar para fora do papel. No centro daquele espaço claustrofóbico, Abbie estava firmemente amarrado a uma pesada cadeira de madeira maciça. Suas mãos estavam presas para trás, os nós apertados o suficiente para cortar a circulação de seus pulsos delgados, e as pernas estavam fixadas às pernas da cadeira com voltas e voltas de corda rústica.

Mas o pior não eram as cordas. O pior era a invasão silenciosa e sufocante em seu rosto.

Uma bola vermelha e rígida preenchia toda a sua cavidade bucal, empurrando sua língua para baixo e forçando suas mandíbulas a permanecerem abertas em um ângulo doloroso e humilhante. As tiras pretas de couro que sustentavam a esfera davam a volta em sua cabeça, afundando em suas bochechas pálidas e puxando seus cabelos pretos na altura dos ombros. A saliva escorria involuntariamente pelos cantos dos lábios, pingando sobre a gola da camisa branca de mangas curtas.

Ele tentou puxar o ar, mas o pânico fazia seu peito subir e descer rápido demais, entrecortado, gerando apenas ruídos débeis e desesperados.

— Mmmph! Mmh... mmph!

Lágrimas ardentes inundaram os cantos de seus olhos brancos. As pequenas pupilas pretas em forma de fenda dilatavam-se e encolhiam-se em puro terror, varrendo a escuridão em busca de qualquer movimento. No topo de sua cabeça, o característico coque em forma de caule com uma pequena folha de maçã oscilava violentamente a cada puxão inútil que ele dava contra a cadeira.

Abbie debateu-se com todas as forças que lhe restavam. Ele arqueou as costas, puxou os braços até sentir o atrito das fibras quase queimar sua carne de papel, balançou as pernas e jogou o peso do tronco para os lados. A cadeira estalou, movendo-se alguns milímetros sobre o piso áspero, mas permaneceu firme. Não havia escapatória. A sensação de impotência era esmagadora, pesando sobre seus ombros como uma tonelada de ferro fundido.

Por que aquilo estava acontecendo? A memória ainda ardia em sua mente confusa. A folha da prova de geometria. O grande e terrível "F" desenhado em tinta vermelha brilhante. Os olhares frios dos colegas de classe. O som característico da ponta metálica de um compasso gigantesco riscando o piso de ladrilhos da escola enquanto ele tentava, em vão, correr pelos corredores. Ele havia falhado. E naquela escola, o fracasso não trazia apenas uma bronca ou uma advertência para os pais. O fracasso era uma sentença.

Um som pesado quebrou o silêncio do cômodo.

TOC. TOC. TOC.

Eram passos. Longos, deliberados, arrastados com uma calma doentia. O ranger de tábuas de madeira no corredor do lado de fora do quarto fez o coração de Abbie disparar a um ritmo que beirava a arritmia. Junto aos passos, havia outro ruído, inconfundível e aterrorizante: o atrito metálico de uma lâmina afiada roçando contra a parede.

O ar pareceu esfriar de repente.

A maçaneta da porta girou lentamente. Uma fresta de luz cortou a escuridão, desenhando uma linha reta no chão e subindo pelo colete preto sem costuras de Abbie, que imitava um pequeno smoking elegante, agora amarrotado e sujo de suor. A gravata bem ajustada para dentro da bermuda branca parecia apertar seu pescoço mais do que o normal.

A porta se abriu completamente, revelando a silhueta colossal de Miss Circle.

Sua presença dominava todo o vão da porta. Alta demais, com seus chifres negros pontiagudos curvando-se para cima e seus cabelos escuros e desgrenhados caindo ao redor do rosto pálido. Em uma das mãos, ela segurava casualmente um pacote de biscoitos recheados; no lugar do outro braço, estendia-se o gigantesco compasso de metal cinzento, cuja ponta seca brilhava com uma nitidez mortal. O olho da professora brilhava com uma fascinação predatória, e seu sorriso largo e dentuço era a própria personificação do pesadelo.

Abbie congelou. O ar sumiu de seus pulmões.

— Ora, ora... — A voz de Miss Circle era grave, suave e cortante como vidro triturado. — Veja só quem finalmente decidiu acordar.

Ela deu um passo para dentro, fechando a porta atrás de si com um baque seco que selou o destino do garoto.

— Mmm-mmph! — Abbie recomeçou a se debater, tomado por um frenesi cego. A cabeça balançava para os lados, os nós dos pulsos rangeram contra a madeira, e suas pupilas em fenda tremiam sem parar. — Nnnh! Mmmph!

Miss Circle soltou uma risada baixa, um som gutural que reverberou pelas paredes finas. Ela caminhou com passos lentos e elegantes ao redor da cadeira, como um felino examinando uma presa encurralada antes de decidir em qual parte morder primeiro. O cheiro pungente de giz, ferro e creme de baunilha artificial emanava de suas roupas escuras.

— Shhh... acalme-se, meu pequeno Abbie — murmurou ela, parando bem atrás dele. — Todo esse alvoroço só vai gastar sua energia. E você sabe que precisará de muita energia se quiser aprender a lição de hoje.

Ela estendeu a mão livre e tocou suavemente o topo da cabeça do garoto. As garras afiadas roçaram a folha verde de maçã que enfeitava seu coque, puxando-a de leve, apenas o suficiente para fazê-lo gemer de dor abafada.

— Mmh!

— Você sabe por que está aqui, não sabe? — Ela se inclinou sobre o ombro dele. Seu hálito gelado atingiu a bochecha de Abbie, fazendo cada pelo de seus braços se arrepiar sob a camisa branca. — Não foi por falta de aviso. Eu deixei bem claro na lousa: a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre cento e oitenta graus. Uma regra simples. Elegante. Absoluta.

Miss Circle contornou a cadeira novamente, parando bem na frente do garoto. Ela ergueu o compasso gigantesco, posicionando a ponta afiada a meros centímetros do queixo trêmulo de Abbie.

— E mesmo assim... você conseguiu errar — ela continuou, inclinando a cabeça de lado, os olhos arregalados em uma expressão de fingida decepção. — Você rabiscou números sem sentido naquela folha. Você desrespeitou a geometria, Abbie. E você sabe muito bem o que acontece com os alunos que desrespeitam a minha matéria.

As lágrimas finalmente transbordaram dos olhos do garoto, escorrendo quentes sobre a tira de couro preta que apertava sua bochecha. Ele balançava a cabeça desesperadamente em uma negativa frenética, tentando implorar por misericórdia, tentando dizer que estudaria mais, que faria o teste de novo, que passaria noites em claro se fosse necessário. Mas tudo o que saía da esfera vermelha presa entre seus dentes eram ruídos incoerentes e patéticos.

— P-mmph... ph-leeez... mmmph!

— O que disse? — Ela levou a mão ao ouvido, simulando curiosidade. Um sorriso sádico rasgava seu rosto. — Não consigo entender uma palavra. Que lástima. Mas suponho que essa mordaça esteja cumprindo perfeitamente o papel dela. Você sempre foi tímido demais para falar na sala... achei justo que ficasse em silêncio aqui também.

Ela abaixou a ponta do compasso e usou a lateral da lâmina metálica e fria para levantar o queixo dele com firmeza. Abbie foi forçado a olhar diretamente para o rosto monocromático e assustador da professora.

— Uma mente fraca produz resultados medíocres — afirmou ela, com a frieza de um veredito judicial. — Mas talvez haja salvação. Talvez a dor seja o único método pedagógico que realmente funcione com você. O que acha?

Abbie soluçou alto, o som sendo abafado e comprimido pela bola de borracha. Ele tentou puxar as pernas para trás, mas os nós nas canelas estavam apertados contra as meias brancas, limitando qualquer movimento a meros espasmos. Seus sapatos pretos batiam no chão sem força, produzindo pequenos estalos secos.

Miss Circle afastou a lâmina por um segundo e deu meia-volta, caminhando até uma pequena escrivaninha de madeira no canto da sala. Sobre a mesa, havia uma pilha de folhas de papel em branco, uma caixa de giz e um único prato de porcelana com alguns biscoitos. Ela pegou um dos biscoitos, partiu-o ao meio com um estalo nítido e colocou uma metade na boca, mastigando devagar.

O som da mastigação na sala silenciosa pareceu o prelúdio de uma execução.

— Eu preparei um teste especial para você esta noite — disse ela, voltando a encará-lo enquanto limpava os farelos pretos de seus dedos afiados. — Um teste prático. Bem diferente das folhas impressas da sala de aula. Aqui, cada erro tem um peso real. Uma consequência física.

Ela pegou uma folha grossa de papel e um pedaço de carvão da escrivaninha. Caminhou até Abbie e colocou o papel sobre os joelhos dele, que tremiam tanto que a folha quase escorregou para o chão. Miss Circle apoiou o peso de seu corpo gigantesco sobre o encosto da cadeira, inclinando-se para frente.

— Eu vou soltar apenas a sua mão direita — disse ela, a voz descendo para um tom perigosamente calmo. — A mordaça continuará onde está. Se você tentar gritar, se tentar derrubar a cadeira ou se fizer qualquer movimento que não seja segurar o carvão e resolver o problema que vou desenhar... o meu compasso encontrará um novo lugar para perfurar. Fui clara?

Abbie assentiu freneticamente com a cabeça, os olhos arregalados, o peito arfando.

— Mmh! Mmph! — murmurou ele, desesperado para concordar com qualquer condição que adiasse a lâmina.

Miss Circle deu uma risadinha satisfeita. Com uma precisão assustadora, a ponta do compasso cortou uma única volta da corda que prendia o pulso direito de Abbie. O corte foi tão cirúrgico que não tocou a pele do garoto, mas o impacto do metal quase o fez pular da cadeira. A mão direita dele caiu livre, dormente e trêmula, os dedos quase sem sensibilidade devido ao tempo em que esteve amarrada.

Ela colocou o pedaço de carvão entre os dedos inertes de Abbie, forçando-o a segurar o objeto.

— Excelente — sussurrou ela. — Agora, desenhe para mim um triângulo retângulo. Calcule a hipotenusa se os catetos medem seis e oito centímetros. Você tem exatamente um minuto.

Ela deu dois passos para trás e ergueu o compasso na altura dos olhos, como se ajustasse a mira de uma arma.

O suor frio escorria pela testa de Abbie. Sua respiração acelerada através do nariz fazia a mordaça de couro estalar levemente. A mão que segurava o carvão balançava com tanta violência que a primeira linha que ele tentou traçar no papel saiu completamente torta, uma curva disforme e trêmula.

— Cinquenta segundos, Abbie — cantou a professora, sua voz carregada de um prazer doentio.

O desespero o engoliu. Ele tentou lembrar da fórmula. O teorema de Pitágoras. Como era? A soma dos quadrados... mas o rosto sorridente de Miss Circle ocupava todo o seu pensamento. O cheiro de ferro. A ponta pontiaguda do metal que se aproximava lentamente de seu pescoço a cada segundo que passava. As lágrimas turvavam sua visão, manchando a folha branca à medida que pingavam diretamente sobre o carvão.

— Mmmph... n-no... — ele gemia contra a bola de couro, tentando forçar sua mente a funcionar enquanto os números pareciam desaparecer no vazio do pânico.

— Trinta segundos.

Ele pressionou o carvão contra o papel com força excessiva. O pedaço de carvão estalou e quebrou ao meio, a ponta voando para o chão.

Abbie paralisou. O pedaço restante era pequeno demais, quase impossível de segurar com os dedos trêmulos. Seus olhos se arregalaram em uma expressão de choque puro. Ele olhou para a folha rasurada, cheia de borrões de carvão e gotas de lágrimas, e depois ergueu a cabeça devagar para encarar o monstro diante de si.

Miss Circle não estava mais sorrindo. O compasso desceu lentamente, apontado diretamente para o centro do peito do garoto.

— O tempo acabou — disse ela.

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