
A viagem
Fandom: Hunter hunter
Criado: 27/10/2026
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O Eco do Silêncio e o Gelo no Olhar
A tensão entre Mia e Killua não era algo novo, mas nunca havia atingido aquele nível de toxicidade. O sol da tarde filtrava-se pelas copas das árvores da Ilha da Baleia, mas o clima entre os jovens caçadores era gélido.
— Você é uma irresponsável, Mia! — Killua gritou, as mãos enfiadas nos bolsos, os ombros tensos. — Aquele ataque foi suicida. Se o Gon não tivesse intervindo, você estaria morta agora.
Mia, que costumava ser o raio de sol do grupo com suas roupas vibrantes em tons de roxo e azul, apenas apertou o cabo de seu bastão metálico. Seus olhos, que geralmente brilhavam com criatividade e animação, estavam opacos.
— Eu tinha um plano, Killua. Eu sabia exatamente o que estava fazendo — respondeu ela, a voz desprovida de qualquer emoção.
— Plano? — Killua soltou uma risada seca e cruel. — Você não tem planos, você tem impulsos. Você é um fardo para a equipe quando decide brincar de heroína. Honestamente, às vezes eu acho que você só está aqui para nos atrasar.
As palavras pairaram no ar como lâminas afiadas. Gon, que estava a poucos metros de distância, deu um passo à frente, preocupado.
— Killua, não exagera... — tentou intervir o garoto de cabelos espetados.
— Não, Gon. Ela precisa ouvir a verdade — Killua continuou, o olhar frio de assassino voltando à tona. — Se você não consegue levar as missões a sério, talvez devesse voltar para casa e desenhar com seus giz de cera. Aqui fora, pessoas morrem por causa de amadores como você.
Mia não gritou. Ela não chorou. Apenas deu um passo para trás, o rosto transformando-se em uma máscara de indiferença absoluta.
— Entendido — disse ela, a voz tão fria que fez Gon estremecer. — Não serei mais um fardo para vocês.
Sem dizer mais nada, ela deu as costas e caminhou em direção à floresta densa. Killua bufou, virando-se para o lado oposto.
— Deixa ela. Ela volta quando a fome apertar — resmungou o Zoldyck.
Mas as horas passaram, e a animação de Mia não retornou. Nos dias que se seguiram, o grupo continuou sua jornada em busca de pistas sobre o paradeiro de Ging, mas o silêncio de Mia era ensurdecedor. Ela não sugeria rotas criativas, não fazia piadas durante as refeições e, o mais doloroso, não olhava mais para Killua. Ela se tornou um fantasma, uma presença mecânica que seguia o grupo à distância, lutando com uma eficiência gélida e solitária.
Três dias depois, enquanto atravessavam o Desfiladeiro das Sombras, um terreno instável e infestado de bestas mágicas de nível B, o desastre aconteceu.
Um tremor de terra repentino, causado por uma criatura subterrânea, abriu uma fenda sob os pés de Mia. Ela, que estava propositalmente afastada dos dois para não "atrapalhar", não teve tempo de reagir quando o solo cedeu.
— Mia! — Gon gritou, saltando em direção à borda, mas uma nuvem de poeira e rochas bloqueou sua visão.
Killua sentiu um aperto súbito no peito, um pânico que ele tentou disfarçar com irritação.
— Aquela idiota... — ele murmurou, mas suas pernas já estavam correndo em direção ao precipício.
Lá embaixo, Mia não estava apenas caída. Ela havia aterrissado em um ninho de Vespas-Garras, criaturas territoriais cujo veneno paralisa o sistema nervoso em minutos. Quando ela tentou se levantar, seu bastão estava preso sob uma rocha e sua perna esquerda estava claramente quebrada.
— Merda... — sussurrou ela, tentando invocar seu Nen, mas a dor excruciante e a queda de grande altitude haviam drenado suas energias.
Uma das vespas, do tamanho de um lobo, avançou. Mia usou o que restava de sua força para golpear a criatura com um soco imbuído de Ko, mas a resistência da besta era maior que seu poder atual. O ferrão da criatura raspou seu ombro, injetando a primeira dose de toxina.
Mia sentiu o mundo girar. O roxo de sua roupa estava manchado de sangue e poeira. Ela se arrastou para trás, as costas batendo na parede fria da caverna profunda. O medo, que ela raramente sentia, começou a subir pela garganta. Ela estava sozinha. Exatamente como Killua havia sugerido que ela deveria estar.
— Então é assim... — murmurou, a visão borrando.
Enquanto isso, no topo, Killua e Gon lutavam contra o tempo.
— O cheiro de sangue dela está ficando forte, Killua! — Gon exclamou, usando seus sentidos aguçados. — E tem muitas daquelas coisas lá embaixo.
Killua não respondeu. Seus olhos estavam fixos no abismo. A culpa o corroía como ácido. As palavras que ele dissera — que ela era um fardo, que era uma amadora — ecoavam em sua mente enquanto ele via o bastão de Mia, quebrado ao meio, perto da borda.
— Gon, use o Shou para amortecer minha queda. Eu vou descer direto — ordenou Killua, a eletricidade começando a faiscar em torno de seu corpo.
— Mas Killua, a altura é...
— Agora, Gon! — rugiu o albino.
Killua saltou. No meio da queda, ele ativou o Godspeed. Transformado em um raio azul, ele ricocheteou nas paredes do desfiladeiro, ganhando velocidade e precisão. Ele atingiu o fundo da caverna no exato momento em que três vespas se preparavam para o golpe final em uma Mia quase inconsciente.
— Afastem-se dela! — o grito de Killua foi acompanhado por uma explosão elétrica que fritou as criaturas instantaneamente.
Gon chegou segundos depois, descendo com a ajuda de sua vara de pescar. Ele correu para o lado de Mia, que estava pálida, com a respiração curta.
— Mia! Mia, fala comigo! — Gon implorou, segurando a mão dela.
Ela abriu os olhos minimamente, a pupila dilatada pelo veneno.
— ...Killua? — a voz dela era um suspiro quebrado.
Killua se aproximou, o rosto retorcido em uma mistura de agonia e arrependimento. Ele se ajoelhou ao lado dela, ignorando as outras vespas que começavam a cercá-los.
— Estou aqui, sua idiota. Por que você não chamou? Por que não gritou por ajuda? — a voz dele falhou.
Mia deu um sorriso fraco, dolorido.
— Eu não queria... ser um fardo... — ela tossiu, sangue sujando os lábios. — Você disse... que eu só atrapalhava...
Killua sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Ele a pegou nos braços, ignorando a eletricidade que ainda percorria sua própria pele.
— Eu sou um idiota, Mia. Eu disse aquilo porque estava com medo de você se machucar, mas acabei fazendo você se machucar muito mais — ele encostou a testa na dela, os olhos fechados com força. — Por favor, fica comigo. Gon, precisamos tirar ela daqui agora!
— O veneno é rápido, Killua! — Gon alertou, golpeando uma vespa que tentava se aproximar. — Temos que levá-la para a superfície e usar o antídoto que o Leorio nos deu.
Killua apertou Mia contra o peito. Ela estava tão leve, tão frágil. Onde estava a garota destemida que o desafiava com cores brilhantes e ideias loucas? Ele a havia quebrado.
— Segure-se em mim, Mia. Não ouse fechar os olhos — ordenou Killua, mas desta vez não havia dureza, apenas um desespero profundo.
— Está frio... — sussurrou ela, a consciência esvaindo-se.
— Eu sei, eu sei. Mas eu vou te aquecer. Só não me deixa, ouviu? Eu não aguentaria se você fosse embora de verdade — Killua começou a subir, usando o Godspeed para escalar as paredes verticais com Mia em seus braços, enquanto Gon abria caminho.
Cada salto era uma prece silenciosa. Quando finalmente alcançaram o topo, Gon rapidamente pegou o kit médico. Eles administraram o antídoto, mas o estado de Mia ainda era crítico devido à perda de sangue e à fratura.
Horas depois, em um acampamento improvisado e seguro, o fogo crepitava. Mia estava enrolada em vários cobertores, o rosto começando a recuperar um pouco da cor. Gon havia saído para buscar água limpa, deixando Killua vigiando o sono inquieto da garota.
Mia abriu os olhos lentamente. A primeira coisa que viu foi o perfil de Killua, sentado ao lado dela, segurando a mão dela com uma força que demonstrava que ele não pretendia soltá-la nunca mais.
— Você ainda está aqui — disse ela, a voz rouca.
Killua se sobressaltou, olhando para ela. Seus olhos estavam vermelhos, como se ele estivesse segurando o choro por horas.
— Eu não vou a lugar nenhum — respondeu ele, a voz baixa. — Mia... eu sinto muito. Por tudo o que eu disse. Você não é um fardo. Você é... você é o que mantém a gente unido. Sem a sua luz, esse grupo é só um bando de garotos brigando no escuro.
Mia olhou para a mão dele sobre a sua. A frieza que ela havia construído como uma armadura começou a derreter.
— Foi horrível, Killua. O que você disse... doeu mais do que a queda.
— Eu sei. Eu sou um monstro às vezes — Killua desviou o olhar, a culpa pesando em seus ombros. — Eu cresci sendo ensinado que emoções são fraquezas, e quando eu vejo você se arriscando, eu entro em pânico. Eu ataco para me proteger de sentir medo por você.
Mia apertou levemente a mão dele, um gesto de perdão silencioso.
— Não precisa se proteger de mim, Killua. E não precisa ter medo. Eu sou destemida, lembra?
Killua soltou um longo suspiro, deixando uma lágrima solitária escapar.
— É, eu lembro. Só... tenta ser um pouco menos destemida da próxima vez? Meu coração de assassino não aguenta esse tipo de estresse.
Mia soltou uma risada fraca, a primeira em dias, e o som foi como música para os ouvidos de Killua.
— Vou tentar. Mas só se você prometer que nunca mais vai me mandar desenhar com giz de cera.
— Prometido — Killua sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. — Mas eu ainda acho que o roxo combina com você. Fica melhor do que esse pálido de fantasma.
— Idiota — Mia murmurou, fechando os olhos novamente, mas desta vez, sentindo-se segura.
Gon retornou, vendo os dois em paz, e sorriu para si mesmo. O grupo estava completo novamente. A ferida física de Mia levaria tempo para curar, mas a rachadura entre eles havia sido selada com algo muito mais forte do que palavras duras: a percepção de que, no mundo perigoso dos Hunters, eles eram a única âncora um do outro.
