
Ela
Fandom: Pessoal
Criado: 27/10/2026
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Entre Sombras e Uniformes
O corredor leste da escola, próximo ao antigo depósito de materiais esportivos, era o único lugar onde o silêncio não parecia vigiado. Luna encostou as costas na parede fria, sentindo o contraste do concreto contra sua pele. O cabelo escuro, com as mechas azuis brilhando sob a luz fluorescente oscilante, caía sobre seus olhos azuis profundos, conferindo-lhe aquele ar de mistério que parecia atrair problemas e admiração na mesma medida.
Ela não precisou esperar muito. O som de passos leves e apressados ecoou, e logo Kizz surgiu na penumbra. A pele clara de Kizz parecia quase etérea naquele ambiente mal iluminado, e seus cabelos escuros estavam levemente bagunçados.
— Você está atrasada — murmurou Luna, um sorriso de canto desenhando-se em seus lábios sedutores.
Kizz aproximou-se rapidamente, colando seu corpo ao de Luna. O perfume doce dela invadiu os sentidos da garota de olhos azuis.
— O Gustavo não parava de falar sobre o jogo de sexta-feira — disse Kizz, revirando os olhos ao mencionar o namorado. — Tive que fingir que estava interessada até ele decidir ir comprar um lanche.
Luna segurou a cintura de Kizz, puxando-a para mais perto. A personalidade forte de Luna não permitia que ela fosse apenas uma segunda opção, mas havia algo naquele perigo, naquela clandestinidade, que a instigava.
— Ele não faz ideia, não é? — perguntou Luna, a voz baixa e rouca, enquanto seus dedos traçavam o contorno do rosto da outra.
— Nenhuma — sussurou Kizz, antes de selar seus lábios nos de Luna em um beijo urgente e carregado de uma tensão acumulada durante as aulas.
Para o mundo exterior, Luna era a garota enigmática de corpo esculpido que poucos ousavam desafiar. Para Kizz, ela era o segredo mais viciante da escola. Mas o tempo delas era sempre contado em minutos roubados, e o sinal para a próxima aula não tardou a tocar.
— Preciso ir — disse Kizz, afastando-se com relutância, ajeitando a saia do uniforme. — A gente se vê depois?
— Talvez — respondeu Luna, mantendo o mistério. — Tenho o estágio hoje.
O prédio da Superintendência Regional da Receita Federal era imponente, um labirinto de vidro e aço que parecia um universo distante da fofoca e do drama escolar. Luna caminhava pelos corredores com uma postura ereta, a mochila jogada sobre um ombro, atraindo olhares por onde passava. Ela não era apenas mais uma estagiária; ela tinha uma presença que exigia atenção.
Ao chegar à sala 402, ela parou. Atrás da mesa de carvalho escuro, Alanis revisava alguns documentos. A mulher era a definição de perfeição física e autoridade. Policial Civil e Analista Tributária, Alanis possuía uma pele bronzeada que contrastava lindamente com seus cabelos castanhos ondulados e olhos claros que pareciam ler a alma de qualquer um.
— Você chegou cedo, Luna — disse Alanis, sem desviar os olhos dos papéis, mas com um leve sorriso brincando em seus lábios.
— Gosto de observar como as coisas funcionam antes de começar o trabalho — respondeu Luna, aproximando-se da mesa.
Alanis finalmente levantou o olhar. Houve um silêncio carregado por alguns segundos. A policial, acostumada a lidar com criminosos e números complexos, sentia-se estranhamente desarmada pela intensidade daquela jovem de mechas azuis.
— Hoje vamos analisar um cruzamento de dados de empresas de fachada — explicou Alanis, levantando-se. — É um trabalho minucioso. Exige paciência e... olhos atentos.
Ela caminhou até ficar ao lado de Luna, apontando para a tela do computador. A proximidade era desnecessária para a explicação, mas Alanis parecia querer testar o espaço pessoal da estagiária. O perfume amadeirado da policial envolveu Luna.
— Eu tenho olhos muito atentos, Alanis — disse Luna, virando o rosto para encará-la.
— Eu percebi — murmurou Alanis, a voz descendo um oitava. — Você não é como os outros estagiários que passaram por aqui. Há algo em você... uma determinação que é rara.
— E o que você faz com coisas raras? — provocou Luna, mantendo o contato visual, a sedução natural emanando dela sem esforço.
Alanis soltou um riso curto, quase nervoso, algo atípico para uma mulher de sua posição.
— Eu as protejo. Ou as estudo até entender todos os seus segredos.
O trabalho seguiu, mas a tensão era palpável. Cada vez que Alanis tocava na mão de Luna para mover o mouse, ou quando suas respirações se aproximavam durante uma explicação técnica, o ar parecia eletrificado. Alanis estava encantada, e Luna sabia disso. A garota gostava do poder que exercia, mesmo sobre alguém tão poderosa quanto a policial.
No dia seguinte, de volta à escola, Luna estava sentada em um banco do pátio, observando o movimento. Seus pensamentos oscilavam entre o toque proibido de Kizz e o olhar predatório e fascinado de Alanis. Foi então que ela a viu.
Liz, uma garota de outra turma, passava com um grupo de amigas. Liz tinha o que todos chamavam de "carinha de neném" — traços delicados, bochechas levemente rosadas e um sorriso que parecia inocente. Mas Luna, com seu instinto apurado, sabia que aquilo era apenas a superfície.
Liz parou de repente, despediu-se das amigas e caminhou em direção a Luna. Ela não hesitou, sentando-se ao lado da garota de cabelos escuros com uma confiança que poucos demonstravam diante dela.
— Você está sempre sozinha, mesmo quando está acompanhada — disse Liz, a voz doce, mas com uma cadência que sugeria segredos profundos.
Luna arqueou uma sobrancelha, interessada.
— E você é sempre tão observadora, Liz?
— Apenas com o que vale a pena ser observado — respondeu Liz, inclinando a cabeça. — Ouvi dizer que você está estagiando com a polícia. Deve ser perigoso.
— Eu gosto do perigo — afirmou Luna, aproximando-se um pouco mais, sentindo o magnetismo inesperado daquela garota.
— O perigo é relativo — rebateu Liz, o olhar subitamente tornando-se predatório, desmentindo sua aparência angelical. — Às vezes, o que parece inofensivo é o que realmente deveria te preocupar.
Luna sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com medo. Liz era sedutora de uma forma diferente de Kizz ou Alanis. Havia uma inteligência aguçada e uma personalidade marcante escondida atrás daquela fachada de doçura.
— Você está me dando um aviso? — perguntou Luna, um sorriso desafiador surgindo.
— Estou te dando um convite — corrigiu Liz, levantando-se. — Tem um café novo a duas quadras daqui. Eles fecham tarde. Se você se cansar de brincar de esconde-esconde nos corredores, sabe onde me encontrar.
Liz saiu caminhando, deixando Luna em um silêncio reflexivo.
A vida de Luna estava se tornando um tabuleiro de xadrez complexo. De um lado, Kizz e o desejo proibido que cheirava a adrenalina e traição. Do outro, Alanis, a mulher madura, autoritária e deslumbrante que representava um mundo de poder e descoberta. E agora Liz, a surpresa inesperada que parecia ler as entrelinhas de sua alma.
Luna encostou a cabeça no banco e olhou para o céu. Ela era uma caçadora, uma sedutora por natureza, mas pela primeira vez, sentia que o jogo estava ficando realmente interessante.
Naquela tarde, ao voltar para o estágio, Luna encontrou uma pequena caixa sobre sua mesa de trabalho. Dentro, havia um distintivo de "visitante especial" e um bilhete escrito com uma caligrafia elegante:
"Para quem já comanda o ambiente sem precisar de autoridade oficial. Te vejo às 14h. — Alanis."
Luna guardou o bilhete, sentindo o peso do olhar de Alanis através do vidro da sala privativa. A policial a observava com uma mistura de admiração e desejo contido. Luna sorriu para si mesma.
— Isso vai ser divertido — sussurrou ela para o vazio da sala.
Mal sabia ela que, no andar de baixo, Kizz enviava uma mensagem perguntando se poderiam se ver à noite, enquanto Liz, em sua casa, planejava exatamente qual livro levaria para o café, sabendo que Luna não resistiria à curiosidade de encontrá-la.
O mistério de Luna era sua maior arma, mas ela estava prestes a descobrir que, em um jogo com tantas jogadoras habilidosas, o coração — ou o desejo — poderia ser o xeque-mate que ela não previu.
Ao final do expediente, Alanis caminhou até Luna. A policial usava uma calça de alfaiataria que acentuava suas pernas longas e uma camisa branca levemente aberta no colarinho.
— Luna, eu estava pensando... — começou Alanis, parando a poucos centímetros da estagiária. — O relatório pode esperar até amanhã. Que tal se sairmos para jantar e discutirmos suas metas de carreira?
Luna olhou para os olhos claros de Alanis, vendo a vulnerabilidade escondida sob a fachada de oficial.
— Metas de carreira, Alanis? — Luna deu um passo à frente, diminuindo a distância mínima. — Ou você só quer passar mais tempo comigo fora dessas paredes?
Alanis não desviou o olhar.
— As duas coisas não são mutuamente exclusivas.
— Tudo bem — aceitou Luna. — Mas eu escolho o lugar.
Luna tinha um plano. Ela levaria Alanis ao mesmo café que Liz mencionara. Ela queria ver as peças se movendo no tabuleiro. Queria sentir a tensão entre a autoridade de Alanis e a sagacidade de Liz, enquanto mantinha o segredo de Kizz guardado em seu bolso como um trunfo.
A noite estava apenas começando, e Luna era a mestre de cerimônias de seu próprio caos.
