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Meu amor de verao

Fandom: Sterling point

Criado: 28/10/2026

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Chamas de Verão sobre Águas Claras

O vento salgado soprava do oceano Atlântico com a força exata para desafiar qualquer tentativa de pentear os cabelos, mas Karen já havia desistido dessa batalha muito antes de o carro cruzar a placa desgastada que anunciava a entrada de Sterling Point. Seus cachos vermelhos como labaredas, densos e indomáveis, ondulavam em torno do rosto de pele intensamente bronzeada pelo sol mediterrâneo, criando um contraste vivo que raramente passava despercebido por onde quer que andasse.

Apoiando o cotovelo na janela aberta do velho conversível de Anne, Karen respirou fundo o aroma de maresia, pinho e madeira envelhecida. Sterling Point parecia ter saído de uma pintura a óleo que secara devagar demais. O cais de pedra, os barcos de pesca rangendo ritmicamente contra os píeres e as casas com telhados de telha cinzenta davam à cidade uma atmosfera quase melancólica, mas acolhedora.

— Se você continuar encarando a paisagem com essa cara de quem vai comprar a cidade inteira, as pessoas vão começar a cobrar pedágio de você — comentou Anne do banco do motorista, sem tirar os olhos da estrada sinuosa.

Karen soltou uma risada rouca, o sotaque italiano moldando cada sílaba com uma cadência quente e musical.

— Madonna mia, Anne, deixe-me apreciar! — rebateu Karen, ajeitando os óculos de sol no alto da cabeça. — Depois de semanas trancada em salas de conferência e aturando o caos de Milão, esse lugar parece um milagre. E mais importante: você prometeu paz.

— Prometi que as coisas tinham se acalmado — corrigiu Anne, esboçando um sorriso afetuoso. — E se acalmaram. Ramona está finalmente respirando direito. Você vai ver quando chegarmos.

A vida de Ramona havia sido um furacão nos últimos meses. As revelações sobre seu passado, os segredos de família expostos e as escolhas dolorosas que ela fora forçada a fazer deixaram cicatrizes profundas. Anne e Karen tinham segurado as pontas como podiam à distância, mas agora que a poeira havia baixado e Sterling Point vivia uma calmaria quase irreal, Karen decidira que era a hora perfeita para cruzar o oceano e passar a temporada estival ao lado das duas.

O carro entrou em uma alameda ladeada por cercas de madeira branca e parou em frente à casa de Ramona. O chalé à beira da enseada tinha uma varanda ampla com cadeiras de balanço voltadas para a baía, onde a água reluzia sob a luz dourada do final de tarde.

Assim que a porta do passageiro se abriu, uma figura esbelta emergiu correndo pela entrada de pedregulhos.

— Karen! — gritou Ramona, abrindo os braços com um sorriso que iluminava o rosto, apagando qualquer vestígio do sofrimento recente.

— Tesoro mio! — exclamou Karen, envolvendo a amiga em um abraço caloroso e apertado, sentindo o alívio palpável emanar de Ramona. — Olhe só para você. Parece uma mulher livre.

— Eu me sinto livre — confessou Ramona contra o ombro de Karen, antes de se afastar um pouco para encará-la dos pés à cabeça. — E você continua parecendo uma estrela de cinema que se perdeu em uma vila de pescadores. Esses cabelos continuam impossíveis.

— Impossíveis e perfeitos, por favor — Anne intrometeu-se, pegando duas malas do porta-malas. — Agora ajudem aqui antes que minha coluna decida que eu tenho sessenta anos.

A risada compartilhada pelas três ecoou pela encosta. Para Karen, aquele era o início de uma temporada perfeita de refúgio. O que ela não esperava era que Sterling Point guardasse suas próprias tempestades adormecidas, prontas para acordar a qualquer instante.


A noite caiu mansa sobre a enseada, mas a manhã seguinte acordou vibrante. Depois de um café da manhã demorado na varanda, regado a frutas frescas e conversas que preenchiam as lacunas de meses de distância, Anne insistiu que fossem ao centro comercial da marina para comprar suprimentos e caminhar pelo calçadão.

Karen vestira um vestido simples de linho amarelo-claro que destacava seu bronzeado dourado, mas seus cabelos volumosos e o colar de ouro herdado de sua avó ainda atraíam olhares curiosos dos moradores locais. Ela caminhava de braço dado com Anne, observando o movimento dos pescadores descarregando redes e os turistas ocasionais que se aglomeravam perto dos cafés rústicos.

— Ali é onde tudo acontece — apontou Ramona, indicando uma estrutura de madeira escura com um terraço amplo de frente para as docas, de onde saía um som suave de violão e risos abafados. — O ancoradouro principal. Todo mundo passa por aqui ao meio-dia.

— Excelente — disse Karen, sorrindo de lado. — Significa que o café é bom ou que as fofocas são imperdíveis.

— As duas coisas — completou Anne.

Elas subiram os degraus de madeira do deque, e Ramona foi imediatamente abordada por um velho comerciante local que queria saber sobre o estado dos barcos de sua família. Karen e Anne avançaram até o balcão ao ar livre para pedir sucos e cafés gelados.

Foi exatamente nesse instante que a atmosfera pareceu esfriar de forma abrupta.

Do outro lado do deque, apoiada contra a amurada com uma caneca de esmalte nas mãos, estava uma figura imponente. Vestia uma camisa de flanela desgastada sobre uma regata escura, calças surradas e botas que claramente conheciam o cheiro de graxa e água salgada. Seus olhos afiados varreram o grupo com frieza, detendo-se em Karen com um desprezo quase cirúrgico.

Aquela era Onna.

O grande amor do passado de Ramona. Uma pessoa cuja história com Ramona era marcada por uma intensidade turbulenta, promessas quebradas e uma possessividade silenciosa em relação à cidade e a tudo o que fazia parte dela. Onna acreditava conhecer cada tábua daquele cais e cada segredo guardado nas sombras de Sterling Point.

Quando Ramona terminou a conversa com o comerciante e se virou, percebeu o olhar de Onna e congelou por um milésimo de segundo antes de respirar fundo e erguer o queixo.

Onna deu alguns passos lentos em direção a elas, a postura rígida como um mastro de navio.

— Ramona — disse Onna, com a voz rouca, sem qualquer traço da calidez que a manhã tentava oferecer. — Não sabia que o cais tinha virado passarela de desfile.

Ramona cruzou os braços, mantendo uma calma duramente conquistada nos últimos tempos.

— Onna. É bom ver que você ainda passa mais tempo aqui do que na sua própria oficina.

Os olhos de Onna se desviaram lentamente para Anne e, por fim, cravaram-se em Karen. A análise foi descarada, de cima a baixo, detendo-se nos sapatos imaculados de Karen, no tecido fino de sua roupa e no volume vibrante de seus cachos vermelhos.

— E essa deve ser a amiga italiana de quem Anne tanto falava — comentou Onna, soltando um suspiro que beirava o tédio fingido. — Sterling Point realmente atrai todo tipo de coisa no verão.

Karen ergueu uma sobrancelha fina. Em Nápoles ou em Milão, ninguém a desrespeitava daquela maneira sem receber uma resposta à altura, e certamente não seria uma moradora local com pose de guardiã da moral marítima que a faria abaixar a cabeça.

— Karen — apresentou-se ela, dando um passo à frente com passos firmes, mantendo a postura ereta e a voz tingida de um veludo cortante. — E você deve ser a famosa Onna. Ramona me falou um pouco sobre você. Embora tenha esquecido de mencionar sua extrema falta de boas-maneiras.

Anne engoliu em seco, olhando de esguelha para a irmã. Ramona manteve a expressão impassível, mas um brilho sutil de satisfação passou por seus olhos.

Onna estreitou os olhos, surpresa pela audácia direta da estrangeira. A maioria dos recém-chegados tentava se misturar ou fingir simpatia forçada.

— Boas-maneiras são para pessoas que pertencem a este lugar, não para patricinhas que vieram usar nossa praia de quintal e sumir assim que o vento esfriar — disparou Onna, dando mais um passo à frente, diminuindo a distância entre as duas com uma hostilidade calculada. — Sterling Point tem gente de verdade, garota. Não precisamos de enfeite de vitrine atrapalhando nosso trabalho.

— Che arroganza! — rebateu Karen, dando uma risada curta, que fez os cachos de fogo balançarem ao redor de seus ombros. — Se você pensa que sua opinião sobre mim tem alguma importância, meu bem, você precisa urgentemente sair um pouco dessas docas. O mundo é bem maior do que a ponta do seu nariz.

— Você acha que conhece alguma coisa sobre o mundo? — Onna deu um sorriso frio, quase cruel. — Eu conheço as pessoas como você. Entediadas, ricas, procurando uma historinha charmosa de cidadezinha costeira para contar aos amigos ricos no inverno. Você é só uma distração fútil. Um passatempo passageiro que vai cansar na primeira tempestade.

— Onna, chega — interveio Ramona, o tom agora firme e cortante. — Karen é nossa convidada. Ela é minha amiga e da Anne. Você não manda em Sterling Point e não decide quem pode ou não respirar este ar.

Onna não tirou os olhos de Karen, que permaneceu impassível, sustentando o olhar desafiador com um sorriso zombeteiro que parecia desarmar a raiva da outra mulher pela raiz.

— Apenas avisando — murmurou Onna, recuando um passo e colocando as mãos nos bolsos da calça. — As pedras daqui costumam quebrar os saltos das turistas. Cuidado por onde pisa, italiana.

Com um aceno desdenhoso de cabeça, Onna deu meia-volta e caminhou em direção aos galpões de barcos no extremo sul da marina, pisando forte nas tábuas rangentes do deque.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo murmúrio da maré batendo contra as estacas de madeira.

— Céus... — soltou Anne, soltando o ar que parecia estar prendendo havia dois minutos inteiros. — Eu sabia que isso ia acontecer, mas não achei que seria antes do meio-dia.

— Eu sinto muito, Karen — disse Ramona, com um toque de amargura na voz, tocando o braço da amiga. — Onna ainda não engoliu o fato de que a vida continuou sem ela. Ela acha que tem o direito de controlar quem entra na minha órbita só porque um dia dividimos o mesmo teto. Ela está amargurada e descontou em você.

— Não precisa se desculpar por nada, cara — respondeu Karen, sacudindo a mão com desdém, embora os olhos ainda queimassem com uma centelha viva de pura energia. — Pessoas como ela não me assustam. Eu já enfrentei críticos de arte e magnatas da moda que mordiam com muito mais veneno. Aquela ali late alto porque tem medo da própria sombra.

No entanto, por trás da fachada altiva, o pulso de Karen batia um pouco mais rápido. Havia algo na ferocidade de Sterling Point que ela não antecipara. Uma eletricidade densa que parecia permear o ar daquela cidade antiga.

Foi quando um movimento perto do final do balcão atraiu a atenção de Karen.

Um jovem de ombros largos, cabelos castanhos desgrenhados e olhos da cor do mar agitado estava observando a cena encostado em uma coluna de sustentação. Ele segurava uma lixa de carpintaria e um pedaço de corda náutica, vestindo uma camisa clara puída nas bordas. Ele assistira ao confronto inteiro.

Quando os olhos dele cruzaram com os de Karen, não havia zombaria neles. Havia um fascínio genuíno, pontuado por um sorriso lento e intrigado que se formava no canto de seus lábios.

— Bem — disse o rapaz, sua voz profunda e calma quebrando a tensão residual com facilidade —, em defesa de Sterling Point, nem todos nós recebemos visitas com ameaças de temporal.

Karen franziu a testa, mas um leve calor subiu por suas maçãs do rosto bronzeadas.

— Fico aliviada em saber disso — respondeu ela, sustentando o olhar do rapaz. — Eu já estava quase achando que a grosseria era um esporte oficial por aqui.

— Apenas para alguns poucos fanáticos locais — rebateu ele, inclinando a cabeça com uma reverência quase cavalheiresca, sem desviar os olhos dos cachos cor de fogo dela. — Sou Julian. Trabalho nas restaurações dos barcos de madeira aqui na baía.

— Karen — disse ela, sentindo que aquele aperto de mão invisível carregava uma promessa inesperada.

— Eu ouvi. É difícil não ouvir uma italiana quando ela decide colocar alguém no devido lugar — comentou Julian, rindo baixinho. — Seja bem-vinda a Sterling Point, Karen. Espero que as tempestades de Onna não espantem você.

— Vai ser preciso um furacão de categoria cinco para me fazer sair antes da hora, Julian — rebateu Karen, com um sorriso desafiador que fez os olhos de Julian brilharem ainda mais.

Ramona e Anne trocaram um olhar rápido e conspiratório às costas da amiga. Anne ergueu as sobrancelhas como quem dizia: “Eu não avisei?”, enquanto Ramona apenas sorria, feliz por ver a melhor amiga brilhar mesmo sob a hostilidade que Onna tentara impor.

Depois de se despedirem de Julian e pegarem suas bebidas, as três caminharam de volta pela alameda arborizada, sob a sombra das árvores frondosas que protegiam a rua do sol do meio-dia.

O retorno para a casa foi mais tranquilo, mas os pensamentos de Karen fervilhavam. Ela viera em busca de calmaria para as amigas, mas Sterling Point se revelava um terreno de contrastes profundos: a hostilidade territorial de Onna, que claramente via nela uma ameaça à sua falsa soberania sobre o passado de Ramona, e o olhar intrigado e caloroso de Julian, que prometia um verão muito diferente de tudo o que ela havia planejado.

Quando a noite voltou a cobrir a enseada, Karen sentou-se sozinha na varanda da frente, com uma xícara de chá nas mãos e os pés descalços apoiados no corrimão de madeira. O som das ondas quebrando suavemente na margem ecoava na escuridão.

Ela tocou uma mecha rebelde de seus cabelos vermelhos, sentindo o sal ainda impregnado nos fios. Onna achava que ela era apenas uma intrusa delicada, uma visitante mimada incapaz de sobreviver às águas turvas de uma cidade pequena cheia de fantasmas.

Karen sorriu para o reflexo da lua prateada na superfície do oceano.

Onna não sabia de nada. Aquele verão em Sterling Point estava apenas começando, e se alguém pensava em apagar o fogo que Karen trouxera consigo, descobriria muito em breve que algumas chamas eram simplesmente grandes demais para serem contidas.

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