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CANUDINHO E VICTOR

Fandom: Anime

Criado: 29/10/2026

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Ficção CientíficaPós-ApocalípticoDistopiaCiberpunkAçãoAventuraDor/ConfortoSombrio
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Frequências de Vidro Partido

O monitor central do terminal analógico cuspiu uma sequência histérica de faíscas azuis antes que a tela de fósforo verde começasse a se contorcer. Não era uma falha comum provocada pela poeira das ruínas do Distrito Nove, nem um surto elétrico causado pelos reatores instáveis do subterrâneo. O zumbido que emanava dos alto-falantes empoeirados tinha a textura áspera de dentes rangendo sobre ferro frio.

Na interface escura, caracteres começaram a se desenhar com uma velocidade violenta, gravando-se a fogo nos circuitos lógicos:

XXZQWXZWQXWQXDERGHG3RJKL3JKLHE

Canudinho afastou a franja úmida da testa com as costas da mão enluvada de couro gasto. Seus olhos se estreitaram diante daquela sopa indecifrável de letras e números que desafiava qualquer protocolo conhecido da Velha Aliança. Ele puxou pelo canto da boca um longo e fino tubo metálico — o condutor de sucção etérea que lhe rendera a alcunha irônica — e soltou um suspiro pesado, exalando vapor ionizado que cheirava a ozônio e café requentado.

— Aura, vem dar uma olhada nisso aqui — chamou ele, sem tirar os olhos do tremor frenético dos fósforos. — Ou o computador bebeu água de esgoto estagnada, ou alguém acabou de tentar gritar dentro da nossa frequência restrita com a garganta cheia de vidro moído.

A passos lentos, quase flutuando a alguns milímetros do assoalho de placas de aço enferrujadas, Aura emergiu das sombras da alcova posterior do esconderijo. Sua presença trazia consigo uma queda súbita na temperatura ambiente, acompanhada por uma luminescência pálida e prateada que se projetava como uma segunda pele sobre sua silhueta esbelta. Seus cabelos pareciam levitar, tocados por correntes de ar que não existiam no espaço fechado, e seus olhos claros cintilavam com a intensidade espectral de uma supernova contida.

— Não é uma falha de sistema — murmurou Aura, parando ao lado da cadeira giratória de Canudinho.

— Tem certeza? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha. — Para mim parece exatamente o que acontece quando você chuta uma caixa de fusíveis do século passado.

— É uma assinatura de dobra estelar — respondeu ela com suavidade glacial, estendendo a mão pálida em direção à tela. — Essa sequência não foi escrita para ser lida por olhos humanos ou interpretada por processadores binários. É um carimbo cármico. Um grito de compressão.

A ponta dos dedos de Aura tocou o vidro curvo do monitor. No mesmo instante em que sua pele translúcida encostou na superfície, as letras XXZQWXZWQXWQXDERGHG3RJKL3JKLHE brilharam em um tom carmesim doentio. O tremor nas tubulações da sala intensificou-se, fazendo ferramentas, parafusos e frascos de solvente dançarem sobre a bancada metálica.

Canudinho girou em sua cadeira e agarrou com agilidade seu artefato principal: uma lança-sifão condensadora presa a um arnês de combate, um instrumento mecânico tão esguio quanto letal, projetado especificamente para drenar, canalizar e regurgitar fontes concentradas de energia espiritual.

— Se isso for o que estou pensando — avisou ele, ajustando as travas de pressão nos antebraços —, os Sentinelas de Ferro não vão demorar três minutos para cercar este quarteirão. Eles têm radares de ressonância apontados para qualquer coisa que espirros de éter liberem por aqui.

— Eles já sabem — disse Aura, virando-se com elegância em direção à grande janela blindada coberta por lodo ressecado. — Sinta o ar, Canudinho. O tecido já rasgou.

Um estampido seco e reverberante ecoou do lado de fora, no beco encharcado pela chuva ácida que castigava a metrópole vertical. A pressão atmosférica despencou bruscamente. Pelo chão de ferro do esconderijo, pequenas poças de óleo começaram a levitar em esferas perfeitas antes de estourarem no ar.

— Droga — praguejou Canudinho, levantando-se de um salto e encaixando o bocal do sifão entre os lábios enquanto engatilhava o tambor de expansão nas costas. — Eu odeio quando você tem razão tão rápido.

— Mantenha a guarda baixa e suas conexões limpas — recomendou ela, enquanto a névoa brilhante ao seu redor se expandia, assumindo a forma de lâminas orbitais de pura luz astral. — O que quer que tenha emitido aquele código não veio do nosso plano material. É uma criatura de eco.

A parede leste da oficina explodiu em uma chuva de tijolos sintéticos e ferragens retorcidas. Não houve fogo, apenas uma onda de choque acinzentada que transformou concreto em pó impalpável. No centro da fumaça, três silhuetas colossais se ergueram. Não eram robôs e tampouco seres vivos; pareciam marionetes feitas de cabos de alta tensão trançados, envoltas em carcaças biomecânicas pulsantes que sangravam estática visual. Em seus peitos escavados, a mesma sequência gravada na tela brilhava como feridas abertas.

— Eles estão marcados com o código! — gritou Canudinho, lançando-se para o lado no exato momento em que uma das abominações desferiu um golpe com um chicote de matéria negra que rachou o solo até as vigas de sustentação.

— Eles são o código — corrigiu Aura, impulsionando-se no ar sem qualquer esforço físico aparente.

A garota estendeu ambos os braços e fechou as mãos como se segurasse fios invisíveis. Imediatamente, feixes de luz prateada dispararam de suas palmas, entrelaçando-se ao redor da criatura mais próxima. O monstro urrou um som que lembrava aço sendo triturado sob dentes de serra, debatendo-se com violência animalesca.

— Canudinho, agora! — ordenou ela, com a voz ressoando em múltiplos tons simultâneos, como um coro ancestral. — Puxe a frequência base! Se a matriz não for desfeita, eles vão se regenerar infinitamente pelo vácuo!

— Pode deixar a conta do bar comigo! — rebateu ele, deslizando pelo chão úmido sob as garras da segunda criatura.

Ele fincou a ponta agulhada do sifão diretamente na junção cervical do monstro capturado por Aura. Ao puxar o êmbolo lateral com um movimento brusco dos pulsos, os tubos de cobre que serpenteavam por seus braços brilharam com uma tonalidade âmbar furiosa. O ar ao redor de sua boca ferveu quando ele começou a aspirar o fluxo de energia corrompida.

A sensação era sempre a mesma: o gosto de cobre queimado, o calor abrasivo descendo pela garganta, o peso de memórias alheias e dores antigas tentando invadir sua própria mente através do condutor. Mas Canudinho era treinado para suportar a maré. Ele trancou a mandíbula, firmou as pernas e tragou a densa substância espectral que mantinha o monstro coeso.

A carcaça biomecânica começou a murchar como papel molhado, sua rigidez cedendo à medida que os nós lógicos do código eram desfeitos pelo vácuo mecânico.

— Um já foi! — exclamou Canudinho, desconectando a ponta da lança com um estalo e cuspindo uma fagulha incandescente no chão. — Mas essa porcaria tem gosto de borracha queimada e arrependimento!

— Não perca o foco — advertiu Aura, girando no ar para se esquivar de uma rajada de estática negra disparada pelo terceiro invasor. — A retaguarda deles está ancorada em algo muito mais profundo. Olhe para a fissura!

Pelo rombo aberto na parede, sob a chuva incessante que caía entre os arranha-céus cinzentos, Canudinho viu o que ela queria dizer. No céu nublado, uma enorme fenda dimensional piscava em padrões geométricos anômalos. Não era uma simples tempestade de éter; era uma boca aberta cuspindo impulsos eletromagnéticos codificados diretamente nas redes de comunicação da cidade.

A sequência XXZQWXZWQXWQXDERGHG3RJKL3JKLHE não era uma transmissão isolada, mas a chave de ignição para uma implosão setorial.

— Aura, se essa coisa sincronizar com a malha da cidade, o Distrito Nove inteiro vai ser arrastado para a fenda! — gritou ele, girando a válvula do seu tanque dorsal para condensar a carga que acabara de roubar. — Minha capacidade de reserva está quase no limite! Não consigo engolir uma tempestade desse tamanho!

— Você não vai precisar engolir a tempestade — disse ela, pousando suavemente à sua frente, as costas voltadas para ele.

Canudinho percebeu que o brilho prateado de Aura havia mudado. As bordas de sua silhueta estavam se dissolvendo, fragmentando-se em miríades de partículas de luz prismática.

— Ei, o que você está tramando? — perguntou ele, dando um passo à frente, a voz perdendo o tom sarcástico e adotando uma seriedade tensa. — Nós combinamos que você não ia romper o selo do seu núcleo sem aviso prévio!

— As circunstâncias mudaram, meu caro Canudinho — respondeu ela calmamente, virando o rosto de perfil. Havia uma serenidade melancólica em seu semblante que sempre o aterrorizava. — O código é uma ordem de retorno. Eles vieram atrás da minha assinatura primária. Se eu permanecer contida nesta casca, eles continuarão demolindo cada camada deste mundo até me arrancarem daqui.

— Nem pensar — rosnou Canudinho, batendo o pé com força no chão. — Eu passei três anos reconstruindo seus circuitos de ressonância com sucata de primeira linha! Eu não deixei você inteira só para ver você se transformar em uma lâmpada gigante de sacrifício heroico!

— Não é sacrifício — explicou ela, enquanto a criatura restante avançava em disparada, os cabos do torso esticando-se em lanças pontiagudas. — É inversão.

Com um único gesto da mão esquerda, Aura paralisou o último monstro no meio do ar, congelando seus movimentos em uma jaula de puro magnetismo estelar. Em seguida, estendeu a mão direita para Canudinho.

— Use o seu sifão em mim — disse ela.

Ele arregalou os olhos.

— Você ficou completamente louca? — questionou ele, recuando meio passo. — Se eu canalizar o seu núcleo desestabilizado, o ricochete vai fritar o que sobrou dos seus centros nervosos, sem falar que a minha lança não aguenta a pureza da sua carga! Vai explodir na minha cara!

— Confie na ferramenta que você mesmo construiu — disse ela, os olhos fixos nos dele, brilhando agora como sóis gêmeos em miniatura. — E confie em mim. Drene a minha luminescência até o limiar crítico. Quando você atingir o ponto de saturação, inverta a polaridade do fluxo e dispare contra a fissura. O código será rejeitado pelo próprio vetor que o convocou.

O chão sob os pés deles gemeu. Estruturas inteiras de concreto começaram a estalar nas redondezas, à medida que a fenda no céu se alargava, engolindo os topos dos prédios em uma espiral de silêncio e desintegração. O tempo deles havia acabado.

Canudinho cerrou os dentes com tanta força que sentiu o gosto de ferro do próprio sangue.

— Se você morrer — disse ele, dando um passo firme à frente —, eu vou caçar a sua alma nas profundezas do vácuo só para te dar uma bronca.

— Eu não esperaria nada diferente de você — respondeu ela, permitindo que os cantos dos lábios se curvassem em um sorriso quase imperceptível.

Ele não hesitou mais. Com um movimento preciso e dolorosamente familiar, Canudinho cravou a ponta condutora da lança no selo rúnico que descansava entre as omoplatas de Aura.

O impacto inicial foi devastador. Uma onda de choque branco-azulada expandiu-se da conexão, arrancando o telhado da oficina e arremessando os escombros para a tempestade lá fora. O corpo de Canudinho tremeu violentamente; cada músculo, cada tendão parecia estar sendo banhado em chumbo derretido. Pelo tubo flexível, a energia que fluía não era suja como a das aberrações mecânicas; era uma força tão avassaladoramente bela e densa que ameaçava desintegrar a liga metálica dos cilindros.

Os mostradores do manômetro estouraram um após o outro, com os ponteiros girando enlouquecidos além da linha vermelha.

— Segure! — clamou Aura, sua voz agora vibrando diretamente no cérebro de Canudinho, contornando seus ouvidos. — O limiar está próximo! Não ceda ao peso!

Canudinho afundou as botas no metal retorcido do chão. Suas veias no pescoço e nas têmporas saltaram, desenhando linhas azuladas sob a pele pálida. Ele puxou a trava final do sifão com um rugido gutural, sugando a última gota da reserva translúcida até sentir que seu próprio peito estava prestes a rasgar.

Aura caiu de joelhos à sua frente, fraca, respirando com dificuldade, sua luz reduzida a uma mera cintilação de brasa moribunda. Mas o monstro paralisado desintegrou-se espontaneamente, incapaz de existir sem a radiação de captura.

Canudinho não perdeu um único segundo. Ele arrancou a ponta da lança do selo de Aura, girou o corpo com a precisão de um atirador veterano e apontou o bico de escape para o alto, mirando diretamente no olho caótico da fenda dimensional.

— Tome de volta a sua mensagem! — berrou ele contra o vento furioso que descia dos céus.

Ele puxou o gatilho de purga.

O raio que irrompeu do cano não produziu som imediato. Foi uma viga de aniquilação prateada e dourada que riscou a escuridão da metrópole, rasgando as nuvens carregadas de ácido e acertando com precisão milimétrica o vórtice geométrico. No momento do impacto, a realidade pareceu prender a respiração. Todas as cores inverteram-se por uma fração de segundo: o céu negro tornou-se de um branco ofuscante, e a viga tornou-se pura escuridão.

Então veio o trovão.

A explosão sônica despedaçou todas as janelas em um raio de cinco quilômetros. A fenda no céu começou a se fechar em uma série de espasmos violentos, devorando a si mesma enquanto a sequência XXZQWXZWQXWQXDERGHG3RJKL3JKLHE era queimada e desfeita no tecido do espaço. Linha por linha, caractere por caractere, o sinal alienígena foi purgado até que nada restasse além de nuvens dispersas e o cheiro fresco, quase esquecido, de chuva limpa.

O silêncio desabou sobre o que restava da oficina.

Canudinho caiu de joelhos com um estrondo metálico. Seus braços fumegavam, cobertos de queimaduras superficiais provocadas pelo superaquecimento dos condutores de cobre. A lança-sifão, agora inerte, escorregou de seus dedos dormentes e rolou pelo chão encharcado, soltando um último chiado de alívio térmico.

Ele levou as mãos trêmulas à boca, arrancou o bocal metálico e cuspiu uma golfada de ar quente, tossindo pesadamente.

— Nunca mais... — ofegou ele, apoiando as palmas no assoalho de ferro e tentando recuperar o fôlego. — Eu juro pela sucata de todos os mundos... Nunca mais eu deixo você inventar uma tática dessas.

Ao seu lado, um som suave e ritmado chamou sua atenção.

Aura estava sentada sobre os calcanhares, com a cabeça baixa e os cabelos escuros caindo sobre o rosto. Pouco a pouco, pequenos fios de luz prateada começaram a tecer novamente as bordas de suas vestes rasgadas, suturando sua essência esgotada. Ela ergueu a cabeça lentamente, revelando um olhar cansado, mas inegavelmente vivo.

— Você sobreviveu — disse ela, com a voz num sussurro que mal superava o gotejar da chuva.

— Não mude de assunto — reclamou ele, sentando-se de costas contra um pilar torto e massageando os pulsos doloridos. — Minha oficina virou um ferro-velho a céu aberto. O monitor caríssimo virou carvão. E o pior de tudo: eu não faço a menor ideia do que significava aquela porcaria de código.

Aura levantou-se com esforço, apoiando uma das mãos no ombro de Canudinho para manter o equilíbrio. O toque dela era frio, mas havia uma firmeza que o tranquilizou mais do que ele jamais admitiria em voz alta.

— Era um chamado de convocação dos Arquitetos do Vazio — disse ela, olhando para o horizonte despedaçado da metrópole vertical, onde os primeiros raios de uma manhã pálida tentavam furar a névoa. — Eles sabem que o selo foi quebrado. O código foi apenas o primeiro toque de trombeta.

Canudinho suspirou profundamente, pegou seu tubo metálico do chão e começou a limpá-lo metodicamente com a barra da camisa queimada.

— Ou seja — concluiu ele —, amanhã vai ser um dia ainda pior.

— Provavelmente — concordou Aura, fitando a vastidão cinzenta à frente com uma serenidade inabalável.

— Ótimo — resmungou Canudinho, conseguindo finalmente um sorriso torto enquanto se levantava com dificuldade ao lado dela. — Então é melhor a gente começar a consertar as armas agora mesmo.

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