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Fandom: #policia
Criado: 29/10/2026
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Colisão de Temperamentos
O sol do Rio de Janeiro não pedia licença; ele invadia as janelas de vidro fumê da Delegacia de Homicídios, transformando o ar condicionado insuficiente em uma promessa distante. Lucas Nascimento ajeitou a gola da camisa social, sentindo o suor pinicar a nuca. Ele tinha vinte e sete anos, um sorriso que geralmente abria portas e uma ruivice que o tornava um alvo fácil para piadas de escritório, mas nada disso parecia funcionar ali.
Ele carregava uma caixa de papelão com seus pertences básicos e o peso invisível de uma responsabilidade que não cabia em seus 1,75m de altura. No fundo da tela do seu celular, a foto de uma garotinha de três anos, com cachos indomáveis e o mesmo olhar esperto de sua irmã desaparecida, era o que o mantinha de pé.
— Licença... — Lucas parou diante da mesa principal. — Sou o detetive Nascimento. Fui transferido da 12ª DP.
O homem sentado à mesa não levantou os olhos dos relatórios imediatamente. Renato Almeida era, por falta de palavra melhor, uma força da natureza. Seus 1,83m pareciam ocupar todo o espaço da sala, e os músculos sob a camisa polo preta denunciavam alguém que passava tanto tempo na academia quanto nas ruas. Quando ele finalmente ergueu a cabeça, Lucas sentiu um choque térmico. Os olhos claros de Renato, em contraste profundo com sua pele negra e a barba bem aparada, eram gélidos.
— O novato. — A voz de Renato era um barítono que vibrava no peito de Lucas. — Chegou atrasado cinco minutos.
— O trânsito na Linha Vermelha estava um caos — justificou Lucas, tentando manter o sorriso encantador que costumava desarmar sargentos veteranos.
— Aqui a gente não trabalha com desculpas, Nascimento. A gente trabalha com resultados — Renato levantou-se, sua presença dominando o ambiente de forma opressora. — Sou o inspetor Almeida. Vou ser sua sombra, ou melhor, você vai ser a minha até eu decidir que você não vai me dar trabalho.
Lucas sentiu o sangue subir às bochechas, deixando-as tão vermelhas quanto seu cabelo.
— Com todo respeito, inspetor, eu tenho cinco anos de polícia. Não sou um cadete.
Renato deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de café forte e perfume amadeirado atingiu Lucas.
— Cinco anos na 12ª fazendo o quê? Registrando perda de documento e briga de vizinho? — Renato soltou um riso seco, sem qualquer humor. — Aqui é investigação pesada. Se quiser brincar de detetive, volta para o seu bairro de classe média.
— Eu não estou aqui para brincar — rebateu Lucas, a voz firme apesar do nervosismo. — E meu trabalho na 12ª foi o que me trouxe para cá por mérito, não por favor.
Renato mediu Lucas de cima a baixo, um olhar de puro desdém que fez o coração do ruivo acelerar de raiva.
— Veremos. Coloca essa caixa no chão e pega o relatório do caso da Pavuna. Temos uma diligência em dez minutos. E tenta não se perder no caminho, ruivo.
O dia seguiu como um teste de resistência física e emocional. Renato não facilitava. Ele andava rápido, falava pouco e, quando falava, era para disparar ordens ou críticas ácidas. Lucas, por sua vez, tentava provar seu valor a cada passo, mas o estilo "lobo solitário" de Almeida tornava tudo uma batalha.
No final da tarde, dentro da viatura descaracterizada, o silêncio era tão espesso que poderia ser cortado com uma faca. Lucas olhou pela janela, vendo a paisagem urbana do Rio passar como um borrão.
— Por que você me odeia tanto? — perguntou Lucas, quebrando o gelo de forma abrupta. — A gente mal se conhece.
Renato não tirou os olhos da estrada, as mãos grandes firmes no volante.
— Eu não odeio você, Nascimento. Eu só não tenho paciência para gente que parece que saiu de um comercial de margarina. Polícia de verdade tem cicatriz, tem olheira. Você parece que acabou de sair de um spa.
— Você não sabe nada da minha vida — Lucas retrucou, a voz carregada de uma mágoa que ele tentou esconder. — Você vê um sorriso e acha que é facilidade. Às vezes, sorrir é a única coisa que impede a gente de desmoronar.
Renato lançou um olhar rápido de soslaio, captando a tensão na mandíbula do mais jovem. Por um breve segundo, a dureza em seus olhos claros vacilou, mas ele logo voltou à sua postura defensiva.
— Guarde o drama para o relatório, detetive.
Quando chegaram de volta à delegacia, já passava das sete da noite. O celular de Lucas vibrou no bolso. Era a vizinha, Dona Sônia, que cuidava de sua sobrinha.
— Oi, Dona Sônia. Sim, eu já estou saindo. Desculpe o atraso, o trabalho apertou. Ela já jantou? — Lucas falava baixo, afastando-se um pouco da mesa de Renato, mas o inspetor tinha ouvidos aguçados.
— Está levando a namorada para jantar, Nascimento? — provocou Renato, organizando sua arma no coldre. — Cuidado para não quebrar uma unha.
Lucas parou e respirou fundo. Ele se virou para Renato, o rosto sério, perdendo qualquer traço do "sorriso encantador" que o outro tanto criticava.
— É a minha filha, Almeida. Ela tem três anos e depende de mim para tudo porque a mãe dela, minha irmã, sumiu no mundo e me deixou com uma criança no colo aos vinte e quatro anos. Então, se você puder guardar seu sarcasmo por cinco minutos para que eu possa terminar meu dia de trabalho, eu agradeceria.
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Não era hostil, era pesado de choque. Renato parou o que estava fazendo. Ele olhou para Lucas, realmente olhando, notando pela primeira vez o cansaço real sob os olhos verdes do rapaz e a mancha de canetinha colorida na manga da camisa social que ele não tinha notado antes.
— Eu não sabia — disse Renato, a voz um tom mais baixa, quase humana.
— É, você não sabia. Porque você está ocupado demais sendo o "policial de ferro" para notar que as pessoas ao seu redor são seres humanos — Lucas pegou sua mochila, jogando-a sobre o ombro. — Até amanhã, inspetor.
Lucas saiu da sala a passos largos, deixando Renato sozinho com o eco de suas próprias palavras duras. O veterano sentou-se lentamente em sua cadeira, soltando um suspiro longo. Ele passou a mão pela barba, sentindo um gosto amargo na boca.
No dia seguinte, Lucas chegou cedo, preparado para mais um round de hostilidades. Ele encontrou uma xícara de café quente sobre sua mesa e um envelope pardo.
Renato entrou logo depois, parecendo mais imponente do que nunca, mas não disse uma palavra sobre a discussão da noite anterior.
— O café é da máquina, é horrível, mas ajuda a acordar — disse Renato, sem olhar para ele. — E esse envelope é o dossiê que você pediu sobre os furtos de carga. Eu adicionei umas notas minhas.
Lucas piscou, surpreso.
— Obrigado.
— Não se acostuma — cortou Renato, embora o tom não tivesse a mesma agressividade de antes. — Temos uma denúncia anônima sobre um depósito em Duque de Caxias. Vamos checar.
A operação em Caxias não foi simples. O que deveria ser uma averiguação de rotina transformou-se em uma perseguição a pé por becos estreitos. Lucas provou ser rápido, sua agilidade compensando a falta de força bruta. Em certo momento, um dos suspeitos sacou uma faca, avançando contra Lucas pelas costas.
— Cuidado! — o grito de Renato ecoou, e antes que o agressor pudesse atingir o ruivo, o corpo maciço de Almeida se chocou contra o homem, derrubando-o com uma técnica impecável.
Renato imobilizou o suspeito no chão, algemando-o com uma eficiência brutal. Ele se levantou, ofegante, e olhou para Lucas, que ainda estava recuperando o fôlego.
— Você está bem? — perguntou Renato, e pela primeira vez, havia uma preocupação genuína em seus olhos.
— Estou. Obrigado, Almeida. Você salvou minha pele — Lucas sorriu, mas desta vez era um sorriso de alívio, de camaradagem.
Renato estendeu a mão para ajudar Lucas a se levantar. A palma da mão de Renato era quente e calejada, e o aperto foi firme. Por um segundo longo demais, eles permaneceram com as mãos unidas, os olhos claros de Renato encontrando os verdes de Lucas.
— Você corre bem, Nascimento — admitiu Renato, soltando a mão dele e limpando a poeira da calça. — Mas sua guarda é aberta demais. Vou ter que te ensinar a lutar de verdade se você quiser sobreviver nesta delegacia.
— É uma oferta de treinamento, inspetor? — Lucas arqueou uma sobrancelha, recuperando seu humor.
— É uma ordem, detetive. Não quero ter que explicar para uma criança de três anos por que o pai dela... ou tio, seja lá o que você for... não voltou para casa.
Lucas sentiu um calor diferente subir pelo peito. Não era raiva.
— Eu sou o pai dela, Almeida. O sangue pode ser da minha irmã, mas o coração é meu.
Renato assentiu, um gesto curto de respeito que valia mais do que mil palavras.
— Então vamos logo. O relatório não vai se escrever sozinho e você tem hora para buscar a garota.
No caminho de volta, a atmosfera na viatura havia mudado. O rádio tocava uma música baixa, e a tensão entre os dois havia se transformado em algo novo, uma eletricidade que não era mais feita de repulsa, mas de uma curiosidade perigosa.
— Qual o nome dela? — perguntou Renato, de repente.
— O quê? — Lucas se distraiu.
— Da sua filha. Qual o nome dela?
— Maya.
Renato deu um leve sorriso, quase imperceptível sob a barba.
— É um nome bonito.
— Ela é linda. E um furacão. Acho que ela tem mais energia que toda a força policial do Rio — Lucas riu, e Renato se pegou observando como o rosto do ruivo se iluminava quando ele falava da menina.
Era perigoso. Renato sabia que era perigoso se importar. A polícia ensinava a criar muros, e ele tinha construído uma fortaleza ao redor de si nos últimos dez anos. Mas Lucas Nascimento, com seu cabelo cor de fogo e sua teimosia irritante, estava começando a encontrar rachaduras naquela parede.
Ao chegarem na delegacia, o turno estava acabando. Lucas organizou suas coisas, sentindo o olhar de Renato sobre ele de vez em quando.
— Ei, Almeida — chamou Lucas, antes de sair.
Renato levantou a cabeça.
— O que foi agora?
— Amanhã, se você quiser... eu posso trazer um café de verdade. Tem uma cafeteria perto da minha casa que é excelente.
Renato hesitou por um momento, a máscara de seriedade vacilando.
— Traga puro. Sem açúcar.
— Pode deixar. Até amanhã, inspetor.
— Até amanhã, Nascimento.
Renato ficou observando Lucas sair, a silhueta do ruivo desaparecendo pelo corredor. Ele sabia que o novato seria um problema. Não porque ele era incompetente — Lucas tinha provado o contrário hoje —, mas porque ele era o tipo de problema que fazia Renato querer, pela primeira vez em muito tempo, não estar sozinho no final do dia.
O detetive veterano voltou aos seus papéis, mas sua mente estava longe, imaginando como seria o tal café e se o sorriso de Lucas seria a primeira coisa que ele veria todas as manhãs a partir de agora. Ele odiava admitir, mas a delegacia de investigação do Rio de Janeiro tinha acabado de ficar muito mais interessante.
E no fundo, ele sabia que a guerra entre eles estava longe de terminar, mas as batalhas, a partir de agora, seriam travadas em um terreno muito mais íntimo e perigoso do que as ruas da cidade.
