
Secrets
Fandom: Original
Criado: 29/10/2026
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Manteiga, Chocolate e Outras Mentiras
A quarta-feira começou com o cheiro característico de chão encerado e café requentado que parecia impregnado nas paredes da escola desde a década de noventa. O corredor do segundo andar estava um caos habitual: armários batendo, risadas estridentes vindas do banheiro feminino e duas garotas do primeiro ano quase caindo por cima de uma pilha de cartazes sobre o clube de teatro.
Victor estava encostado no batente da porta da sala de biologia, terminando de amarrar o cadarço do tênis com uma das mãos enquanto equilibrava a mochila no outro ombro. Ele tinha olheiras sutis sob os olhos castanhos, fruto de ter ido dormir depois da meia-noite rindo de vídeos idiotas que Maya mandava sem parar no grupo.
— Victor! Oi. Desculpa atrapalhar, você tem um segundo?
Victor levantou a cabeça e ajeitou a postura, abrindo um sorriso acolhedor ao ver Noah parado ali. O garoto segurava o caderno de matemática contra o peito como se fosse um escudo protetor contra o mundo exterior.
— E aí, Noah. Claro que tenho. O que foi? O Miller já passou mais exercícios daqueles de matrizes? Porque se ele passou, eu juro que vou chorar na frente da sala inteira.
Noah soltou uma risadinha tímida, ajustando os óculos no nariz com a ponta do indicador.
— Não, pior. Ele marcou a prova pra próxima terça. Eu tentei fazer a lista de ontem à noite, mas na questão quatro eu quase joguei o caderno pela janela do meu quarto. A gente ainda vai conseguir estudar na biblioteca hoje depois da aula?
— Com certeza — respondeu Victor de prontidão, dando um tapinha encorajador no ombro do colega. — Às três e meia na última mesa do fundo, aquela perto dos livros de história que ninguém nunca lê. Eu te explico o macete das diagonais. Você vai ver que parece um monstro, mas é só prestar atenção nos sinais negativos. Não se preocupa.
— Cara, você tá salvando a minha vida. Sério mesmo. Minha mãe disse que se eu tirar outro D, ela corta a minha mesada até o Natal.
— Não vai cortar nada. Relaxa e respira. Te vejo às três e meia.
Noah agradeceu mais três vezes antes de se afastar pelo corredor em direção aos armários. Victor balançou a cabeça, sorrindo de leve com o alívio visível do garoto. Ele sabia exatamente como era a sensação de se sentir perdido em uma matéria enquanto todo mundo ao redor parecia achar tudo ridiculamente fácil.
— Que nobre da sua parte, Madre Teresa — soou uma voz arrastada logo atrás dele.
Victor se virou e deu de cara com Maya, que mastigava uma maçã verde com a expressão mais cínica do mundo. Seus cabelos estavam presos em um coque frouxo e torto, e a jaqueta jeans tinha um broche novo dos Smiths preso na lapela.
— Cala a boca, Maya. O coitado do Noah tá desesperado. Ao contrário de você, que provavelmente colou na última prova inteira do Miller.
— Não foi cola, querido. Foi uma leitura visual colaborativa da prova do garoto da minha frente — corrigiu ela, sem qualquer traço de vergonha. — E além do mais, quem tem tempo pra calcular determinante de três por três quando a vida real tá desmoronando lá fora? Aliás, seu namorado musculoso já tá rondando a área dos armários com aquela cara de quem perdeu cem reais e achou dois.
Victor olhou por cima do ombro de Maya e viu Scott conversando com dois companheiros de equipe perto das escadas. O uniforme da equipe de futebol americano caía impecavelmente nele, os ombros largos destacando-se na multidão. Quando Scott percebeu o olhar de Victor, o semblante tenso dele se desfez instantaneamente em um sorriso brilhante e sincero. Ele acenou, gesticulando com o queixo que já iria até lá.
Mas antes que Scott pudesse dar um passo na direção deles, uma presença diferente chamou a atenção de Victor no final do corredor.
Kael vinha caminhando com passos firmes e calmos, a alça da mochila escura jogada em apenas um dos ombros. Havia uma postura quase invisível nele, uma atenção fria que contrastava brutalmente com a moleza preguiçosa da maioria dos adolescentes às oito da manhã. Os olhos claros dele varriam o ambiente de forma automática, registrando entradas, saídas e a aglomeração de alunos antes de finalmente encontrarem os de Victor.
Por um breve instante, Victor viu a linha tensa dos lábios de Kael suavizar quase imperceptivelmente.
— Olha só quem resolveu aparecer no mundo dos vivos — Victor disse alto o suficiente para ser ouvido quando Kael se aproximou. — Pensei que você tivesse desistido da escola e fugido pro Canadá depois de saber que ia ter que fazer trabalho em grupo com a gente.
Kael parou a um metro de distância. Ele usava uma camiseta cinza sem estampa e uma jaqueta escura simples, mas tudo nele parecia polido demais, controlado demais.
— O Canadá é muito frio nessa época do ano — respondeu Kael, a voz baixa e grave com aquele habitual tom seco que Victor já estava aprendendo a decifrar como ironia. — E eu ainda preciso ver se você realmente sabe fazer brigadeiro ou se estava apenas tentando impressionar por mensagem ontem à noite.
Maya arqueou uma sobrancelha tão alto que quase tocou a franja.
— Espera aí. Vocês dois estavam trocando mensagens de madrugada sobre culinária infantil? Victor, por que eu não fui convidada pra essa conversa crucial da sociedade contemporânea?
— Porque você ia sugerir colocar pimenta ou alguma aberração dessas — Victor retrucou, rindo, antes de se voltar para Kael. — E eu não blefo quando o assunto é leite condensado, tá bom? Minha avó era mineira, brigadeiro tá no meu DNA. Você vai ter que pagar com a língua.
— Eu duvido muito que você consiga acertar o ponto sem queimar o fundo da panela — rebateu Kael, com um meio sorriso discreto brincando no canto da boca.
— Ah, é? Quer apostar? Hoje depois da aula, na minha casa. A gente adianta a pesquisa do trabalho de história e eu te mostro como um profissional trabalha.
Kael franziu levemente a testa. Uma fração de segundo de hesitação cruzou suas feições — o cálculo mental evidente de alguém que não costumava aceitar convites casuais, que avaliava riscos antes de qualquer outra coisa.
— Não sei se é uma boa ideia...
— Nem começa com essa marra de lobo solitário — Maya interrompeu, apontando a maçã para o peito de Kael. — Nós temos que entregar aquele resumo de três páginas na sexta-feira. E se tem brigadeiro grátis na casa do Victor, eu vou. Nem que eu precise arrastar você pela orelha. Minha mãe só compra chocolate sem lactose e aquilo tem gosto de areia molhada.
Antes que Kael pudesse argumentar, uma mão grande e quente pousou na cintura de Victor, puxando-o para trás em um abraço protetor e possessivo.
— Bom dia, lindo — disse Scott, inclinando-se para dar um beijo estalado na bochecha de Victor.
O cheiro do pós-barba amadeirado de Scott invadiu o espaço. Victor relaxou de imediato contra o corpo do namorado, virando o rosto para retribuir o carinho com um sorriso caloroso.
— Bom dia. Conseguiu terminar aquele treino de perna sem reclamar com o treinador?
— Quase morri na última série de agachamento, mas sobrevivi — Scott riu, com aquela risada fácil e carismática que sempre atraía olhares nos corredores. Então, os olhos azuis de Scott se moveram para a frente, fixando-se em Kael.
O calor no semblante do atleta esfriou dois graus, mas Scott manteve o sorriso polido no rosto. Ele não era estúpido; sabia que Victor não tinha gostado das insinuações de ciúmes do dia anterior, e Scott não queria outra discussão boba.
— E aí, Kael, beleza? — Scott estendeu a mão aberta, em um gesto clássico de educação esportiva.
Kael olhou para a mão por um nanossegundo antes de apertá-la com firmeza controlada.
— Scott.
— Vocês tavam combinando alguma coisa pro trabalho de história? — Scott perguntou, mantendo o braço passado pelos ombros de Victor, os dedos acariciando de leve a ponta do casaco do namorado.
— É, a gente vai começar hoje à tarde lá em casa — explicou Victor, virando-se um pouco para olhar para Scott. — Logo depois que eu ajudar o Noah com matemática.
— Pensei que a gente pudesse sair pra comer alguma coisa depois do meu treino — Scott comentou, o tom descendo para uma modulação ligeiramente manhosa, daquele jeito que ele usava quando queria atenção exclusiva. — Meu pai perguntou de você de novo ontem à noite, sabia?
Victor piscou, surpreso.
— O senhor Ivan? Sério?
— É. Ele tava perguntando como iam as suas aulas, se sua mãe ainda tava trabalhando na mesma clínica... Disse que a gente devia marcar uma pizza lá em casa qualquer dia desses. Ele quer conhecer você melhor, agora que a gente tá namorando há um tempo.
Um arrepio sutil e inexplicável percorreu a espinha de Kael. Ele não moveu um músculo do rosto, mantendo a expressão absolutamente neutra, mas seu foco periférico se ajustou como a lente de um rifle. A menção ao pai de Scott, feita de forma tão mundana e afetuosa entre namorados adolescentes, fez o relógio biológico de alerta de Kael disparar em silêncio.
— Que fofo — Victor disse, com uma expressão genuinamente tocada. — Seu pai é sempre tão educado quando vai te buscar nos treinos. Fala pra ele que eu vou adorar. Mas hoje eu realmente prometi o trabalho de história e o brigadeiro pro pessoal.
Scott olhou de relance para Kael e depois para Maya, que fingia estar terrivelmente interessada na tabela periódica pendurada na parede da sala.
— Brigadeiro? — Scott riu, um pouco desconfortável, mas tentando disfarçar com uma brincadeira. — Cuidado, Kael. A última vez que o Victor tentou cozinhar pra mim, ele queimou uma torrada a ponto de disparar o alarme de incêndio do prédio dele.
— Aquilo foi um defeito técnico na torradeira, Scott! E você comeu metade mesmo assim! — Victor protestou, fingindo indignação e empurrando o peito de Scott de brincadeira.
— Comi porque eu te amo e não queria te ver chateado — respondeu Scott, rindo com facilidade enquanto puxava Victor de volta para um abraço rápido. O toque era afetuoso, cheio de uma intimidade que Scott fazia questão de exibir abertamente. — Tá bom, eu tenho que ir pra aula de física antes que o professor tranque a porta. A gente se fala no almoço?
— A gente se fala — Victor confirmou, sorrindo docemente enquanto observava o namorado se afastar a passos largos pelo corredor.
Quando Victor se virou de novo para os amigos, Maya já estava revirando os olhos tão dramaticamente que parecia que eles iam dar uma volta completa na cabeça.
— Vocês dois são tão nojentos de fofos que me dá vontade de vomitar glitter — resmungou ela. — Agora vamos entrar antes que a senhora Gable decida descontar ponto da nossa participação.
Kael não disse nada. Apenas acompanhou os dois para dentro da sala de aula, ocupando a carteira imediatamente atrás da de Victor, exatamente onde sua visão permanecia desobstruída.
Às quatro e quinze da tarde, o portão de ferro da casa de Victor rangeu quando ele o empurrou. A casa era uma construção aconchegante de dois andares, com paredes pintadas de um tom suave de bege, uma pequena varanda de madeira e um jardim modesto na frente, onde alguns canteiros de hortênsias lutavam para florescer.
Maya havia mandado uma mensagem avisando que precisaria passar em casa para tomar banho e pegar o material antes de ir, o que deixou Kael e Victor sozinhos na caminhada de dez minutos da escola até ali.
— Mãe? Cheguei! — Victor gritou assim que destrancou a porta de madeira maciça da frente, jogando a mochila em cima de uma poltrona no hall de entrada com a familiaridade desleixada de quem está em seu próprio território.
— Na cozinha, querido! — veio a resposta de Helena, acompanhada pelo barulho de louça sendo guardada.
Kael permaneceu parado sobre o tapete da entrada por dois segundos inteiros. Seus olhos registraram tudo com precisão quase cirúrgica: três saídas possíveis (a porta da frente, uma porta de correr de vidro que dava para o quintal dos fundos e a janela da cozinha), os pontos cegos da escadaria de madeira que levava aos quartos e as fotos de família emolduradas no corredor.
Havia fotos de Victor bebê, de Victor banguela aos sete anos segurando um troféu minúsculo de natação, e fotos dele com a mãe em praias ensolaradas. Mas em nenhuma delas havia um homem. Nenhuma figura paterna decorava aquelas paredes.
— Entra, Kael, não morde não — Victor chamou, já tirando os tênis e ficando apenas de meias no piso de madeira clara. — Pode deixar a mochila ali no sofá. Não liga pra bagunça, minha mãe tá numa fase de tentar organizar os armários por cores e isso geralmente significa o caos absoluto.
Kael tirou a jaqueta e a colocou com cuidado sobre o braço do sofá, seguindo Victor pelo corredor curto até a cozinha espaçosa e iluminada pela luz alaranjada do fim de tarde.
Helena estava de costas, guardando potes de vidro em uma prateleira alta. Ela usava calças jeans confortáveis e uma camisa de algodão solta, os cabelos castanhos ondulados presos da mesma forma despretensiosa que os do filho. Quando se virou, secando as mãos em um pano de prato xadrez, Victor deu um beijo estalado em sua bochecha.
— Sobrevivi à aula de biologia e ainda salvei a vida acadêmica do Noah — Victor anunciou, triunfante. — E esse aqui é o Kael. A gente tá no mesmo grupo de história com a Maya.
Helena parou, e um sorriso caloroso e genuíno iluminou seu rosto maduro. Seus olhos gentis examinaram Kael com a curiosidade típica de uma mãe que gosta de conhecer as novas amizades do filho.
— Ah, o aluno novo! O Victor comentou sobre você ontem — disse ela, estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Seja muito bem-vindo, Kael. Não repare na pilha de louça, hoje o dia na clínica foi uma loucura completa.
Kael apertou a mão de Helena. A pele dela era morna, as palmas macias. Havia uma vulnerabilidade tão gritante e desprotegida naquela mulher que algo dentro de Kael se retorceu desconfortavelmente. Ele sabia coisas sobre a vida dela que a própria Helena provavelmente nem suspeitava. Sabia o nome do homem que havia destruído sua família no passado. Sabia que ela vivia sobre uma falha tectônica de mentiras que poderia desmoronar a qualquer instante.
— Muito prazer, dona Helena. E obrigado por nos receber — respondeu Kael, sua voz adotando aquele tom polido e educado que ele sabia usar com perfeição quando precisava parecer inofensivo.
— Nada de "dona", por favor, senão eu me sinto com oitenta anos — ela brincou, dando uma piscadela para o filho. — Vocês querem que eu faça alguma coisa pra comer? Tem sanduíche natural na geladeira...
— Não precisa, mãe. Hoje eu assumo o controle do fogão — Victor declarou, puxando as mangas do suéter até os cotovelos com uma determinação teatral. — Eu vou ensinar esse cidadão aqui o que é a verdadeira confeitaria brasileira.
Helena soltou uma gargalhada cristalina enquanto pegava a bolsa em cima do balcão.
— Bom, nesse caso, Kael, se o alarme de fumaça começar a apitar, o extintor fica embaixo da pia. Eu preciso voltar pro consultório pra fechar alguns relatórios, mas não devo demorar. Se cuidem, meninos. Maya vem também?
— Daqui a pouco ela tá aí comendo todo o açúcar — Victor respondeu, enquanto Helena deixava um beijo em sua testa e se despedia de Kael com um aceno afetuoso antes de sair pela porta da frente.
O silêncio que se instalou na cozinha quando a porta bateu foi abrupto, mas não desconfortável. Victor pegou uma panela de fundo grosso de dentro do armário com um movimento prático, batendo-a de leve contra o fogão.
— Certo, novato. Primeira lição: fogo baixo e paciência — Victor instruiu, pegando uma lata de leite condensado, achocolatado em pó e um pote de manteiga da geladeira. Ele apontou uma colher de pau comprida na direção do peito de Kael. — Segura isso aqui. Você vai ser o meu assistente de laboratório.
Kael pegou a colher de pau, olhando para o objeto de madeira como se fosse uma arma desconhecida.
— Eu não me lembro de ter me candidatado a esse cargo.
— Você comeu metade das minhas batatas no almoço de ontem, então você tá em dívida cármica comigo — Victor retrucou, abrindo a lata com habilidade e despejando o conteúdo espesso e doce na panela. — Coloca duas colheres de manteiga aí dentro. E não economiza, nada de versão light aqui.
Kael obedeceu em silêncio, medindo as colheres com precisão quase militar e despejando-as na panela. Victor riu baixinho ao lado dele.
— O que foi? — Kael perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Você faz tudo parecendo que tá desarmando uma bomba — Victor comentou, rindo de verdade, jogando quatro colheres generosas de achocolatado por cima da manteiga. — Relaxa os ombros, Kael. É só sobremesa. Ninguém vai morrer aqui.
A frase ingênua atingiu Kael como uma lâmina fria entre as costelas. Ninguém vai morrer aqui. Se Victor soubesse o quanto aquela afirmação era uma promessa frágil, ele não estaria sorrindo com tanta leveza.
— Eu sou focado — Kael disfarçou, ligando o fogo na intensidade que Victor havia indicado. — Alguém precisa garantir que você não queime tudo, já que seu namorado disse que você é um desastre.
— O Scott exagera demais quando quer chamar atenção — Victor rebateu, revirando os olhos, mas sem nenhuma mágoa na voz. Ele se aproximou mais, ficando ombro a ombro com Kael junto ao fogão. O calor suave do calor do fogo se misturava ao cheiro adocicado de chocolate que começava a subir. — Ele é um amor, sério, mas às vezes tem essa mania de querer parecer o salvador da pátria em tudo.
— Ele não gosta de mim — Kael soltou a frase de maneira neutra, mantendo os olhos na mistura que começava a borbulhar devagar.
Victor parou por um instante, observando o perfil rígido de Kael.
— O Scott é desconfiado por natureza. E... sei lá, você tem essa cara de quem sabe lutar três tipos de artes marciais e guarda segredos nucleares no bolso da jaqueta. Ele se sente ameaçado.
— E você? Não se sente ameaçado?
Victor soltou um riso curto, apoiando o quadril contra o balcão ao lado de Kael. Seus olhos castanhos brilhavam com uma faísca divertida e perspicaz.
— Por você? Nem um pouco. Você pode fingir que é durão o quanto quiser, Kael, mas ontem à noite você passou dez minutos me perguntando por mensagem se era melhor colocar manteiga com sal ou sem sal na receita. Pessoas perigosas não têm crises existenciais por causa de gordura vegetal.
Kael não conseguiu evitar. Uma risada curta e genuína escapou por entre seus lábios — rara, baixa e completamente desarmada. Victor pareceu notar a vitória, seu sorriso se alargando de orelha a orelha.
— Viu? Eu sabia que você tinha dentes — Victor provocou, tocando o ombro de Kael de leve com o dele. — Agora mexe isso aí mais rápido, senão vai grudar no fundo. Mexe em círculos, não para.
Kael continuou mexendo a colher, sentindo o calor do corpo de Victor ali tão perto, o cheiro de sabonete cítrico que emanava dele, a respiração calma do garoto. Por um momento perigoso e proibido, Kael quase se permitiu esquecer a pistola com silenciador escondida no forro falso de sua mochila no sofá. Quase se permitiu ser apenas um garoto de dezoito anos tentando não queimar chocolate em uma tarde ensolarada de quarta-feira.
Mas então, o celular no bolso traseiro de sua calça vibrou.
Duas vezes. Uma pausa. Três vezes.
O código de notificação criptografada do canal seguro.
Kael continuou mexendo a panela com a mão direita por mais cinco segundos, a expressão endurecendo de volta para a máscara indecifrável de sempre, enquanto Victor pegava um prato fundo no armário para esfriar o doce.
— Ei, tá quase no ponto — Victor disse animado, inclinando-se sobre a panela para ver a mistura descolando do fundo. — Não falei que eu era um mestre?
— Parece aceitável — Kael respondeu com a voz perfeitamente controlada, recuando um passo e fingindo procurar algo no bolso. — Eu vou no banheiro lavar as mãos antes que a Maya chegue e devore isso direto da panela. Onde fica?
— No final do corredor à direita — Victor indicou com a colher, já concentrado em despejar a massa brilhante no prato.
Kael caminhou pelo corredor de madeira a passos silenciosos. Entrou no banheiro, trancou a porta com um clique abafado e puxou o aparelho preto e fino do bolso.
A tela acendeu com uma mensagem curta, sem remetente visível:
Movimentação suspeita registrada no perímetro externo da escola às 15:40. Veículo sedan preto, placa clonada. O contato do mandante solicitou atualização sobre a rotina da casa. Mantenha a vigilância estreita. O alvo não pode ficar sozinho.
Kael encarou a tela luminosa no reflexo do espelho. Lá fora, na cozinha ensolarada, ele conseguia ouvir Victor cantarolando desafinado uma música pop qualquer que tocava baixinho no rádio, rindo sozinho enquanto raspava a panela.
O contraste entre a inocência daquele som e o texto frio na tela do telefone fez a garganta de Kael se fechar. Ele apagou a mensagem, guardou o celular e abriu a torneira de água fria, encarando seus próprios olhos no espelho com uma certeza sombria que começava a pesar como chumbo no peito:
A bolha de proteção daquele garoto estava prestes a arrebentar, e Kael era a única coisa no mundo inteiro que o separava do chão.
