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Fandom: Nenhum

Criado: 30/10/2026

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O Peso das Entrelinhas

O som ritmado da ponta da caneta batendo contra a mesa de carvalho era o único ruído capaz de competir com a chuva torrencial que desabava lá fora. Na biblioteca quase deserta da universidade, SN encarava o caderno à sua frente, tentando inutilmente se concentrar nas anotações de teoria crítica. No entanto, sua visão periférica traía sua disciplina a cada cinco segundos, desviando-se para o rapaz sentado exatamente à sua frente.

Ronald tinha aquela postura desleixada que beirava a petulância, com uma das mãos apoiando o queixo quadrado e os olhos escuros e atentos fixos nela. Ele girava um lápis entre os dedos compridos, ostentando um sorriso de canto que SN conhecia muito bem: o prelúdio de uma provocação.

— Se você continuar me encarando desse jeito, SN, vou começar a achar que você está finalmente admitindo a minha superioridade intelectual — murmurou Ronald, a voz aveludada rompendo o silêncio com a naturalidade de quem dominava o espaço.

SN ergueu os olhos com lentidão calculada, sustentando o olhar dele com uma sobrancelha erguida.

— Eu não chamaria o hábito de decorar resumos de "superioridade intelectual", Ronald — rebateu ela, sem hesitar. — Mas admiro a sua capacidade de manter a autoestima intacta depois de quase reprovar no último seminário.

Ronald soltou uma risada baixa, inclinando-se um pouco mais sobre a mesa compartilhada. A distância reduzida entre eles fez o ar parecer subitamente mais rarefeito.

— Quase reprovar? Eu tirei um oito e meio, garota. Só não tirei dez porque o professor é tão apegado a picuinhas quanto você.

— Picuinhas que se chamam metodologia e rigor científico — disse ela, devolvendo o sorriso irônico, embora seu estômago desse aquele salto familiar e perigoso. — Mas suponho que para o seu cérebro preguiçoso, detalhes sejam apenas um incômodo.

— Você é adorável quando tenta me diminuir — disse ele, com os olhos faiscando de divertimento. — Principalmente porque nós dois sabemos quem foi que veio me pedir ajuda com a bibliografia no mês passado.

— Eu não pedi ajuda, eu ofereci a oportunidade de você ser útil uma vez na vida.

Era sempre assim. Desde que haviam sido colocados na mesma turma no início daquele ano letivo, a dinâmica entre os dois se estabelecera sobre um fio esticado de farpas bem-humoradas, debates acalorados e uma cumplicidade que nenhum dos dois conseguia disfarçar. Havia respeito genuíno por trás de cada insulto velado. Ronald era brilhante, rápido no raciocínio e exasperantemente atraente; SN era meticulosa, perspicaz e não dava um único milímetro de trégua ao ego dele.

E havia, acima de tudo, uma tensão silenciosa que pairava no ar desde o primeiro aperto de mão. Uma faísca invisível que se manifestava nos toques acidentais ao pegarem o mesmo livro, nos olhares prolongados que duravam um segundo a mais do que deveriam, na forma como ele sempre escolhia o lugar ao lado do dela em qualquer sala de aula.

O problema é que tudo havia mudado há dois meses.

SN lembrava-se com nitidez cirúrgica do dia em que Ronald chegou ao pátio com uma leveza diferente nos ombros e anunciou, com aquele sorriso meio torto, que estava saindo com uma veterana do curso de Relações Internacionais. Natália. Alta, charmosa, perfeitamente alinhada.

Naquele exato instante, o chão sob os pés de SN simplesmente ruiu. O estalo no peito fora tão físico e doloroso que ela precisou segurar o fôlego para não demonstrar o choque. Foi como se uma lente distorcida se corrigisse de repente, revelando a verdade nua e crua que ela vinha negligenciando desde março: ela estava apaixonada por Ronald. Totalmente, irrevogavelmente apaixonada pelo garoto que passava as tardes desafiando sua paciência.

Desde então, as coisas haviam se tornado uma tortura refinada. SN tentara, com todas as forças do seu intelecto, erguer barreiras intransponíveis. Começou a recusar convites para tomar café depois das aulas, passara a se sentar em fileiras distantes no auditório e encurtava as trocas de mensagens noturnas com desculpas esfarrapadas de cansaço.

Mas afastar-se de Ronald era uma tarefa comparável a tentar não respirar. Ele era persistente. Se ela sentava no fundo, ele caminhava até lá com a mochila pendurada em um ombro só e se jogava na cadeira vizinha, exigindo explicações sobre por que ela o estava evitando. Ele a conhecia bem demais para aceitar desculpas rasas.

— Você está distante hoje — observou Ronald de repente, quebrando a linha dos pensamentos dela. O sorriso presunçoso havia sumido, substituído por uma expressão atenta e ligeiramente enrugada na testa. — E não é só hoje. Já faz semanas.

SN engoliu em seco, ajeitando as folhas do caderno para disfarçar o tremor sutil nas mãos.

— Semana de provas, Ronald. Nem todo mundo tem o luxo de viver no mundo da lua.

— Não venha com essa — retrucou ele, a voz firme, mas desprovida de qualquer agressividade. — Você estuda sob pressão melhor do que qualquer pessoa que eu conheço. Tem alguma coisa errada. Você mal tem falado comigo. Se eu não tivesse te encurralado nessa mesa meia hora atrás, você teria saído da aula como um fantasma, igual fez na terça.

— Eu tenho vida própria, sabia? — disparou ela, atacando para se defender. — Nem tudo gira em torno de você ou das nossas discussões ridículas.

A resposta saiu mais áspera do que ela pretendia. Um silêncio pesado se instalou entre os dois. Ronald não piscou; apenas continuou a olhá-la com intensidade, seus olhos escuros buscando desvendar o que ela mantinha trancado a sete chaves.

— Eu não acho que nossas discussões sejam ridículas — disse ele, a voz muito mais baixa agora, carregada de uma gravidade incomum. — E eu sinto sua falta, SN. De verdade.

O coração de SN apertou tanto que ela sentiu o peito arder. Aquela frase, dita com tamanha sinceridade desarmada, era cruel demais para alguém que estava tentando arrancá-lo do peito. Ele tinha uma namorada. Ele tinha alguém para quem voltar todas as noites, alguém para beijar quando a chuva caísse lá fora. Não cabia a ela ser o refúgio emocional dele.

— Você não deveria dizer coisas assim — murmurou ela, recolhendo seus materiais com movimentos rápidos e desajeitados. A frustração ameaçava transbordar em lágrimas que ela se recusava categoricamente a derramar na frente dele.

— Dizer a verdade virou proibido agora? — Ronald franziu o cenho, surpreso com a reação abrupta.

— É inconveniente — disse ela, levantando-se e jogando a mochila nas costas. — Principalmente quando você tem uma namorada esperando por você. Vai estudar com ela, Ronald. Me deixa em paz.

Ela girou nos calcanhares antes que ele pudesse responder e marchou em direção à saída da biblioteca, com o sangue fervendo nas têmporas. O ar condicionado parecia gélido contra sua pele quente. Ela empurrou as pesadas portas de vidro, desceu os degraus em direção ao hall do prédio principal e parou sob o beiral, encarando a tempestade violenta que transformava a rua em um rio escuro. Droga. Havia esquecido o guarda-chuva no armário.

— SN, espera!

Os passos apressados ecoaram atrás dela no piso de granito. Ela cerrou os punhos, preparando-se para a colisão iminente. Ronald parou a menos de um passo de distância, respirando rápido, com a jaqueta de couro aberta e os cabelos ligeiramente despenteados pela pressa.

— O que você quer? — perguntou ela, virando-se com a postura mais altiva que conseguiu reunir. — Eu já disse que não estou com paciência hoje.

— O que a Natália tem a ver com o fato de você estar me tratando como um estranho há dois meses? — rebateu ele, parecendo genuinamente frustrado.

SN soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.

— Tem a ver com limites, Ronald! Tem a ver com o fato de que você não pode ter tudo ao mesmo tempo. Não pode manter essa... essa intimidade comigo enquanto divide a vida com outra pessoa. Não é justo. Nem com ela, nem comigo.

Ronald estreitou os olhos, processando as palavras dela com rapidez quase palpável. Havia algo calculista e desmedidamente focado no modo como ele a encarou.

— E por que não seria justo com você?

A pergunta pairou no ar, afiada e direta, cortando todas as rotas de fuga. SN sentiu o rosto queimar de raiva e vergonha. A inteligência que sempre usara como armadura parecia inútil contra a insistência cirúrgica dele.

— Porque eu cansei de ser o seu passatempo favorito quando você quer se sentir inteligente — mentiu ela, a voz falhando perigosamente no final.

— Você sabe muito bem que nunca foi isso — retrucou Ronald, dando mais um passo à frente, fechando o espaço que os separava. A fragrância dele, uma mistura de âmbar e chuva, envolveu os sentidos dela de forma quase avassaladora. — Você sabe perfeitamente que você nunca foi só isso. E, para o seu governo, a Natália não tem nada a ver com isso por um motivo muito simples: nós terminamos.

As palavras dele pareceram congelar o tempo por uma fração de segundo. O som do trovão lá fora pareceu abafado, distante.

— O quê? — escapou dos lábios de SN, o choque desarmando qualquer traço de sua arrogância defensiva.

— Nós terminamos na sexta-feira passada — revelou Ronald, sem desviar o olhar do dela nem por um instante. O tom provocador havia desaparecido completamente; só restava uma vulnerabilidade nua e desconcertante. — Durou menos de três meses porque não fazia sentido continuar fingindo algo que não existia.

SN piscou, tentando reorganizar os pensamentos em sua mente em turbilhão.

— Mas... você parecia tão...

— Tão o quê? Ocupado? — Ronald soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos escuros. — Eu estava tentando me convencer de que você era apenas uma boa amiga com quem eu adorava discutir. Eu tentei encontrar em outra pessoa a mesma faísca, a mesma inteligência que me deixa louco toda vez que você abre a boca. Mas foi um fracasso monumental, SN. Porque toda vez que a Natália falava de alguma coisa, eu ficava imaginando qual seria a sua resposta sarcástica. Toda vez que ela sorria, eu me pegava lembrando do jeito que você semicerra os olhos quando está prestes a me humilhar num debate.

O coração de SN martelava tão forte contra as costelas que parecia prestes a quebrar o osso. Ela o encarou, imóvel, as defesas que construíra com tanto esmero desmoronando tijolo por tijolo diante da confissão dele.

— Você... o quê?

Ronald deu o último passo que faltava, eliminando qualquer vestígio de distância entre eles. Ele era mais alto, e a proximidade física fez com que o calor do corpo dele irradiasse diretamente contra o dela, afastando o frio cortante do corredor úmido.

— Eu passei o ano inteiro orbitando ao seu redor — confessou ele em voz baixa, as mãos hesitantes erguendo-se para pousar suavemente nas laterais dos braços dela. O toque queimou através do tecido do casaco de SN. — Eu tentei me afastar quando percebi o quanto isso estava saindo do meu controle, mas aí você começou a me evitar, e eu achei que ia enlouquecer. Eu não suporto o seu silêncio, SN. Eu prefiro que você grite comigo, que me chame de idiota, mas não me deixe de fora.

— Ronald... — A voz dela saiu em um sussurro trêmulo. Suas mãos subiram instintivamente, apoiando-se no peito dele, sentindo as batidas descompassadas de seu coração sob a camisa. — Você é um idiota.

Um meio-sorriso, aliviado e genuíno, curvou os lábios dele.

— Eu sei. Mas sou o seu idiota favorito, não sou?

— Não se ache tanto — murmurou ela, embora seus olhos já estivessem fixos na boca dele, incapaz de sustentar a mentira por mais um único segundo. — Eu tentei odiar você. Juro que tentei. Mas eu percebi que estava apaixonada por você no segundo em que você me disse que estava com ela. Foi a pior sensação do mundo.

O olhar de Ronald escureceu, aprofundando-se com uma intensidade devoradora.

— Me perdoa por ter sido cego a esse ponto — disse ele, as mãos subindo dos braços dela para a curva do pescoço, os polegares traçando a linha de sua mandíbula com uma reverência que SN nunca imaginara vê-lo demonstrar. — Mas agora eu estou enxergando tudo com uma clareza absurda. E não vou a lugar nenhum.

— Tem certeza de que pode lidar comigo sem as nossas regras? — desafiou ela, um último lampejo de seu orgulho característico brilhando no olhar, embora a respiração estivesse entrecortada pela expectativa.

Ronald inclinou o rosto para perto do dela, os lábios a milímetros de distância, a respiração quente misturando-se à dela.

— Eu não passei os últimos oito meses aprendendo cada detalhe da sua mente brilhante para recuar agora, SN.

Quando os lábios dele finalmente tocaram os dela, qualquer resquício de racionalidade evaporou. O beijo começou com uma urgência contida, um alívio acumulado durante semanas de distanciamento forçado e meses de desejos sufocados. Mas rapidamente aprofundou-se, transformando-se em chamas.

As mãos de Ronald deslizaram para a cintura dela, puxando-a com firmeza contra si, colando seus corpos de modo que ela pôde sentir o calor febril que emanava dele. SN soltou um suspiro trêmulo contra a boca dele e enlaçou seu pescoço com os braços, puxando-o ainda mais para perto, emaranhando os dedos nos fios macios do cabelo dele. Não havia mais insultos, não havia mais telas de sarcasmo ou joguetes de inteligência; havia apenas a verdade crua de dois corpos que se buscavam há tempo demais.

Ele a beijava com uma fome desesperada, como se quisesse recuperar cada dia perdido, cada conversa abreviada, cada olhar desviado. E SN correspondia na mesma medida, entregando-se ao peso e à solidez da presença dele, sentindo as mãos grandes de Ronald segurarem-na com uma possessividade terna que a desarmava por completo.

Quando finalmente se separaram, ofegantes, a testa dele permaneceu colada à dela. Os olhos de Ronald estavam dilatados, brilhando com uma satisfação triunfante e doce.

— Admita — sussurrou ele, com o peito subindo e descendo no mesmo ritmo frenético que o dela. — Essa foi a melhor decisão que você já tomou na vida.

SN soltou uma risada fraca, com o coração inundado por uma leveza que há meses não experimentava. Ela acariciou a nuca dele, sentindo os arrepios que provocava na pele de Ronald.

— Talvez — respondeu ela, sorrindo contra os lábios dele antes de puxá-lo para outro beijo lento e profundo. — Mas nós ainda precisamos conversar sobre a sua interpretação errada do texto da semana passada.

Ronald riu contra a boca dela, apertando sua cintura com ainda mais força, deixando bem claro que, daquela vez, a discussão duraria a noite inteira.

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