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Fandom: atraves da minha janela

Criado: 30/10/2026

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O Reflexo no Cristal Polido

A luz do lustre de cristal da sala de jantar dos Schanik não apenas iluminava o ambiente; ela parecia dissecar cada objeto, cada talher de prata e cada rosto sentado à mesa com uma precisão cirúrgica. Catarina observava o reflexo de sua taça de cristal. Estava impecável, como sempre. O vestido de seda azul-marinho caía perfeitamente sobre seus ombros, e o penteado, feito horas antes pelo stylist da família, não tinha um único fio fora do lugar.

Ao seu lado, Rafael Bittencourt parecia o herdeiro que seus pais sempre sonharam em fabricar, mas que o destino convenientemente entregou pronto. Ele ouvia o pai de Catarina, Heitor, falar sobre a expansão imobiliária na costa com uma atenção que beirava a devoção.

— O mercado atual não perdoa hesitação, Rafael — dizia Heitor, gesticulando com o garfo. — Mas você, com essa calma... vejo que tem o temperamento certo. Você entende o que é ser um Schanik, mesmo antes de carregar o nome oficialmente.

Rafael sorriu, um gesto contido, quase tímido, que derretia qualquer resistência.

— Eu apenas acredito que observar o terreno é tão importante quanto construir sobre ele, senhor Schanik.

— "Senhor", não. Já disse — Heitor riu, uma raridade que fez os ombros de Catarina ficarem ainda mais tensos. — Me chame de Heitor. Ou de pai, se preferir. Afinal, você já é da casa.

Catarina sentiu um nó estranho no estômago. Deveria estar feliz. Rafael era perfeito. Ele era o porto seguro em um mar de expectativas. Ele a defendia dos comentários ácidos das outras garotas do colégio, ele enviava orquídeas raras para o seu quarto apenas porque ela mencionara, meses atrás, que gostava da cor lilás. Ele a amava de uma forma absoluta, sem arestas.

— Você está muito quieta, querida — comentou a mãe, Beatriz, ajustando o guardanapo de linho. — Rafael está sendo o cavalheiro de sempre e você parece estar em outro planeta.

Catarina forçou o sorriso número quatro de seu repertório: o "sorriso de filha dedicada".

— Só estou admirando a conversa, mãe. Rafael sempre tem as palavras certas.

Rafael estendeu a mão por baixo da mesa e apertou a dela. O toque era quente, sólido. Ele olhou para ela, e naqueles olhos castanhos, Catarina viu uma adoração tão pura que a fez querer desviar o olhar. Era como olhar diretamente para o sol; bonito, mas cegante.

O jantar terminou com promessas de um futuro brilhante e apertos de mão que pareciam contratos selados. Quando Rafael finalmente se despediu, deixando um beijo suave em sua testa, Catarina sentiu uma súbita necessidade de oxigênio que não estivesse filtrado pelo ar-condicionado central da mansão.

Ela subiu para o quarto, mas antes que pudesse fechar a porta, um vulto entrou como um furacão.

— Se eu ouvir o seu pai chamar aquele garoto de "filho" mais uma vez, eu vou vomitar no tapete persa de dez mil euros da sua mãe — disparou Marina Figueiredo, jogando-se na cama de Catarina com a elegância de um gato de rua.

Catarina suspirou, fechando a porta. Marina era a única pessoa no mundo que não precisava de convite para entrar ali. E a única que não usava máscaras.

— Ele é bom para mim, Marina. Você sabe disso.

— Ele é um santo, Cat. Esse é o problema — Marina sentou-se, os cabelos bagunçados e o rímel levemente borrado, o oposto exato da perfeição de Catarina. — Ele é tão perfeito que parece um robô programado pela elite de Barcelona. "Sim, senhor Schanik", "Claro, senhora Schanik". Cadê o sangue nas veias desse garoto?

— Ele é calmo. É o jeito dele — Catarina começou a tirar as joias, sentindo o peso de cada grama de ouro. — Ele me protege.

— Protege do quê? — Marina levantou-se e parou na frente de Catarina, segurando-a pelos ombros. — Da sua vida de comercial de margarina? Cat, olha para você. Você está sufocando nessa vitrine e o Rafael é só mais um vidro blindado em volta de você.

Catarina soltou-se, a irritação começando a borbulhar sob a superfície polida.

— Você está sendo dramática como sempre. Só porque não consegue ficar dez minutos sem causar um escândalo, acha que todo mundo que tem controle é falso.

— Eu não sou falsa! — Marina exclamou, a voz subindo uma oitava. — Se eu estou puta, eu grito. Se eu te amo, eu te defendo até o inferno. Mas eu não fico sentada sorrindo enquanto seus pais vendem a sua alma para o "Herdeiro Bittencourt" como se fosse uma transação de ações!

— Cala a boca, Marina! — Catarina sibilou, os olhos faiscando.

Houve um silêncio súbito. Marina recuou um passo, os lábios tremendo por um segundo antes de se transformarem em uma linha dura. O silêncio de Marina era a coisa que mais assustava Catarina. Era o sinal de que ela tinha batido em uma ferida aberta.

— Sabe o que é engraçado? — Marina disse, a voz agora baixa e perigosa. — Todo mundo acha que eu sou a louca, a dependente, a que não vive sem você. E talvez seja verdade. Mas pelo menos eu existo. Você... você é só um reflexo do que eles querem ver. E o Rafael? Ele não ama você, Catarina. Ele ama a estátua que ele pode proteger.

— Sai daqui — disse Catarina, a voz fria como gelo.

Marina não discutiu. Ela pegou a bolsa, caminhou até a porta e parou.

— Eu não sou a amiga da rica, Catarina. Eu sou sua amiga. Mas se você prefere ser um troféu na estante do Bittencourt, boa sorte para não quebrar.

A porta bateu.

Catarina ficou sozinha no quarto vasto. Ela caminhou até o espelho de corpo inteiro. Viu a sucessora. Viu a loira impecável. Viu a namorada do genro dos sonhos.

Ela tocou o próprio rosto. A pele estava fria.

O vazio que sentira no peito durante o jantar voltou, mas agora não era pequeno. Era um abismo silencioso. Rafael a tratava como se ela fosse a única pessoa no mundo, mas, pela primeira vez, Catarina se perguntou: qual versão de "Catarina" ele estava vendo? Se ela gritasse, se ela quebrasse um prato, se ela desistisse de tudo... ele ainda a olharia daquele jeito?

Ela pegou o celular. Havia uma mensagem de Rafael.

"Você estava linda hoje. Mal posso esperar pelo nosso futuro. Descanse, minha princesa."

Catarina encarou a tela até que a luz se apagasse. Ela queria sentir gratidão. Queria sentir o conforto de ser amada sem esforço. Mas, em vez disso, ela se sentiu como um pássaro em uma gaiola de ouro, onde o carcereiro era o homem que mais a amava e as grades eram feitas de flores e elogios.

Ela caminhou até a varanda, olhando para as luzes da cidade. Lá embaixo, o mundo parecia caótico, sujo e real. Aqui em cima, tudo era silencioso e perfeito.

— O que eu sou sem isso aqui? — sussurrou para o vento.

Não houve resposta. Apenas o eco de sua própria voz, ecoando em uma vida que, de tão impecável, começava a parecer uma mentira bem contada.

Ela pensou em ligar para Marina. Sabia que a amiga estaria em algum bar barulhento ou dirigindo rápido demais por aí, sentindo tudo à flor da pele. Marina era o caos que a ancorava na realidade. Rafael era a paz que a enterrava na expectativa.

Catarina Schanik tinha tudo. Mas, naquela noite, sentada em sua cama de lençóis de mil fios, ela percebeu que nunca tinha se sentido tão pobre.

O vazio tinha um nome agora, mas ela ainda tinha medo de pronunciá-lo. Era o medo de descobrir que, por trás da armadura de perfeição, talvez não houvesse nada além de poeira e silêncio.

Ela deitou-se e fechou os olhos, forçando-se a dormir. Afinal, amanhã haveria outra gala, outro jantar, outro sorriso. E Rafael estaria lá, segurando sua mão, garantindo que ninguém visse as rachaduras que começavam a aparecer no cristal.

Mas as rachaduras estavam lá. E, uma vez que o cristal começa a trincar, não há polimento no mundo que o faça ser inteiro novamente.

— Eu não sou um troféu — ela murmurou para a escuridão, testando as palavras como se fossem uma língua estrangeira.

A escuridão não contestou. Mas, no fundo de sua mente, a voz de Marina ainda ecoava: "E se você não for nada sem o império?".

Catarina apertou o travesseiro contra o peito. O silêncio da mansão nunca pareceu tão ensurdecedor. Rafael Bittencourt a amava. Seus pais a orgulhavam. O mundo a invejava.

E Catarina Schanik, pela primeira vez em dezoito anos, queria apenas desaparecer.

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